Com o recrudescimento do regime militar após o AI-5, em 1968, as forças da repressão partiram de forma rápida, extremamente violenta e eficaz sobre o conjunto dos agrupamentos que lutavam de forma armada contra a ditadura. Por outro lado avançavam as medidas do governo para tirar de cena os setores que se empenhavam nas lutas de resistência democráticas, ou seja, através das demandas colocadas pela via institucional. Mas o impacto da resistência nesse momento brotava das ruas. Passeatas gigantescas, ações com presença de setores antes arredios, articulações corporativas pela recuperação dos salários que contribuíram para fomentar as greves de Contagem e Osasco45.
Crescia, portanto, movimentos difusos e contestatórios contra a ditadura. Alimentando uma perspectiva de repúdio minimamente organizada à ditadura burgo-militar. No entanto, no campo da ordem estatal o governo estava organizado, em um patamar superior, para enfrentar os acontecimentos políticos da forma que a conjuntura os apresentassem. As balizas institucionais do governo ampliaram seu estoque de atos de exceção para enfrentar de forma violenta seus inimigos de classe, vencê-los e avançar no projeto para instituir uma legalidade tutelada.
O Partido Comunista Brasileiro, após os profundos golpes que recebeu da ditadura, resolveu deslocar a maioria da sua direção, bem como quadros de formulação e militantes com tarefas no aparelho burocrático interno para fora do país. O Comitê Central havia entendido, bem antes das formulações contidas no documento que qualificava a ditadura como fascista, de 1973, que não teria condições de manter o corpo dirigente do partido em segurança no
45 Greves de trabalhadores metalúrgicos por reivindicações salariais nos centros industriais das cidades de Contagem (março) em Minas Gerais e Osasco (julho) em São Paulo que impactou a conjuntura política daquela época e que foi
Brasil. Ao lado dessa elaboração teórica, o PCB formulou uma linha política para o Trabalho de Direção que orientou um conjunto de resoluções no qual se percebia o impasse na luta política dos comunistas diante da atroz repressão do regime. Assim afirmava o primeiro ponto do documento:
As condições políticas em que se realizava o trabalho de direcção são marcadas pelo agravamento da repressão fascista e imensas dificuldades objectivas. Por outro lado, o descontentamento crescente das massas possibilita o avanço do trabalho político da direcção e a resistência antifascista das mais amplas massas oferece elementos novos para à actividade política e organizativa do Partido. Em face disso, devemos esforçar-nos, a fim de que as dificuldades e a repressão não sejam usadas como escudo à limitação da crítica, à redução do trabalho colectivo e à não execução de um plano de acção política (PCB, 1973, p. 01).
Nesse horizonte interpretativo o partido percebia duas questões básicas que deveriam orientar os seus passos: primeiro, a ditadura estava acuada e violenta diante da derrota nas eleições de 1974. Segundo, o governo localizava no PCB o mentor intelectual e operativo do avanço do bloco da frente democrática e as ações operárias e populares. E por fim, diante da violência da repressão, não tinha como manter o núcleo dirigente do partido no país.
A política econômica do governo já havia entrado em crise. O chamado “milagre brasileiro” tinha dado lugar ao aumento da inflação, a carestia plantava fortes raízes nos produtos básicos que eram consumidos pelo conjunto da população e o brutal arrocho salarial marcava a conduta do governo na relação com os trabalhadores, aliás, tônica central da burguesia desde as motivações para o golpe. Essas circunstâncias que pautavam o processo de crise econômica e social estavam na base da insatisfação popular que motivou a derrota do governo nas eleições de 1974.
Avaliando as questões que diziam respeito à sua sobrevivência, medidas foram tomadas para a saída desses dirigentes do Brasil e para se montar uma estrutura de funcionamento do partido no exílio. Anteriormente, no começo da década de 1970, no ano de 1971, o Comitê Central já havia tomado a decisão de enviar seu Secretário-Geral, Luiz Carlos Prestes, para a União Soviética. O Cavaleiro da Esperança se encontrava morando em Moscou e tinha muitas dificuldades de romper o isolamento que se encontrava em relação ao partido.
Com as prisões, torturas, mortes e desaparecimentos, a transferência do aparato dirigente para o exterior se concretizou. Começava aí a articulação política do núcleo dirigente no exílio para coordenar as ações do PCB, no Brasil e no exterior. Os dirigentes comunistas no exílio fixaram residência em várias partes da Europa e na União Soviética. Ficaram exilados na França, Bulgária, Hungria, Tchecoslováquia, Itália, Alemanha Ocidental e Oriental. No entanto, o centro dirigente, a executiva do partido se estabeleceu em Moscou.
O exílio contribuiu para despertar nas lideranças comunistas o interesse político para discutir temas que estavam sendo debatidos na Europa e que diziam respeito aos acontecimentos da sociedade socialista e às formulações que eram desenvolvidas nos Partidos Comunistas (PCs) da Itália, Espanha e França. Circulava com maior intensidade ideias sobre a grave crise que passava o socialismo na União Soviética e no Leste Europeu. Essa situação em que os dirigentes comunistas se encontravam, ou seja, vivendo no ambiente central das contradições; no bloco socialista e nos países onde estavam se formulando uma nova orientação comunista, estimularam e permitiram o começo do debate no núcleo dirigente do PCB.
O socialismo estava numa encruzilhada ou era retórica anticomunista? As novas ideias dos partidos da Itália, França e Espanha, conhecidas como o movimento “eurocomunista” respondiam as necessidades táticas e estratégicas da luta socialista? Tudo isso movimentava o debate comunista. Não obstante, o ajuste de contas sobre as questões que precipitaram o golpe 1964 continuavam, efetivamente, pautando a ebulição intelectual no exílio. Tudo isso encontrou mais uma questão para galvanizar a pauta da primeira reunião do CC no exílio, que ocorreu em dezembro de 1975, as quedas do partido no Brasil (SAMPAIO, 2003).