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1. U LUSLARARASI İLİŞKİLER’DE HEGEMONYA KAVRAMININ GELİŞİMİ VE DÜNYA SİSTEMLERİ ANALİZİ

1.2. U luslararası İlişkiler’de Hegemonya, Hegemonik Kriz ve Hegemonik Geçişe İlişkin Teoriler Teoriler

1.2.3. Neo-Marksist Teoride Hegemonya ve Sermaye Birikimi

1.2.3.2. Robert Cox ve Hegemonya

A menção a Lund, chamado na obra de “ilustre naturalista dinamarquês”, “geólogo”, “etnografista” e “paleontologista” abre espaço para o narrador eviden- ciar as contribuições que este homem de ciência trouxe ao problema da origem.

418 Ibidem, p. 168. 419 Ibidem, p. 168. 420 Ibidem, p. 168. 421 Ibidem, p. 159.

Em seus estudos, incluindo aqueles “trabalhos antropológicos” resultantes das suas visitações às numerosas cavernas nas proximidades de Lagoa Santa, Lund, destaca o narrador, havia encontrado ossos de humanos e de animais que indica- vam uma remota origem ao homem americano. A partir de um vocabulário mar- cado pelas palavras “espécie” e “raça”, o dinamarquês entendia que “a existência do homem neste continente remonta-se aos tempos anteriores à época em que existiram as últimas raças dos animais gigantes, isto é, às idades pré-históricas”.422

Tal afirmação ensejaria a possibilidade de dizer que a América já era habitada antes do Velho Mundo e que, além disso, os povos remotíssimos americanos eram da mesma “raça” daqueles que aqui estavam no momento do “descobrimento”. 423

Segundo o narrador, Lund teria concluído, ao estudar sobre a “unidade ou diversi- dade das raças” e sobre a configuração geológica encontrada no continente ameri- cano entre a serra do Mar e as cordilheiras dos Andes, que a parte central do Bra- sil já estava à superfície em um momento em que as outras partes do mundo ainda submergiam-se no mar ou eram ilhas insignificantes. O Brasil seria, portanto, o mais antigo continente, 424 tornando-se o lugar por excelência da origem terrena. Afinal, diz o narrador:

Não há um só fenômeno da natureza que não tenha uma expli- cação grandiosa aos olhos do observador científico.

Este enlevo do gozo espiritual está portanto reservado unica- mente ao homem que sabe.

Há, pois, dous modos de ver os objetos que nos rodeiam. Um, em que senão descobre mais que as formas visíveis da matéria, limitado à percepção acanhada dos sentidos; outro, em que o espírito interroga a origem recôndita das cousas, observa, com- para, calcula, e chega a devassar muitas vezes os segredos, que pareciam impenetráveis, das grandes leis universais. 425

A observação da origem supõe ir além dos sentidos trazidos unicamente pelo contato visível com a matéria. Saber é gozar espiritualmente, isto é, elevar-se além da matéria à procura da recôndita e misteriosa origem. O tom otimista em relação à observação aparece quando se fala que ela é capaz de explicar todos os fenômenos naturais, de modo que tal explicação só acontece quando se perscruta a origem, quando o espírito se eleva em busca da revelação das leis universais.

422 Ibidem, p. 163. 423 Ibidem, p. 164. 424 Ibidem, p. 164. 425 Ibidem, p. 176.

A caminho de Uberaba, Benignus e Fronville não se furtam às observações científicas. Fronville atém-se mais à geologia e mineralogia, enquanto Benignus à astronomia e botânica, distinções que se relativizam na medida em que o trabalho de ambos é sempre em conjunto. Colhiam das observações objetos dos “três rei- nos da natureza”, além de objetos arqueológicos raros, tais como “machados de sílex, pontas de flecha e outros instrumentos pertencendo naturalmente ao período pré-histórico de pedra lascada e capaz de enlouquecer de alegria Max Müller, Lyell e o próprio Sr. Ernesto Renan”.426 Dirigiam-se, ainda, a observações históri-

cas e geográficas, com o intuito de redigirem suas notas em gabinetes improvisa- dos.427 Fronville gostava que Benignus, com o auxílio de Katini, cozinheiro muito conhecedor dos termos da “língua geral”, lhe explicassem o significado dos no- mes indígenas, significação de caráter claramente etimológico. “Foi assim que chegaram a decifrar a palavra Piũi composta de pium, mosquitinho que morde muito, e y, ribeiro, ou ribeirão do mosquitinho.” 428

No entanto, a observação, a análise feita por olhares de atentos homens de ciência não pôde conter a tempestade enfrentada pela comitiva a certa altura da viagem. Benignus, observando aquilo que logo se tornaria uma tempestade, soube explicar a Fronville e a River certos “fenômenos meteorológicos”. A chuva de faíscas que podia ser vista naquele momento no céu era o resultado, diz o sábio, do contato da “eletricidade positiva das nuvens carregadas em contato com a ele- tricidade negativa que se desenvolvia na superfície da terra”.429 A sábia explica- ção, contudo, não pôde conter o “espetáculo inesperado” trazido pela grande chu- va.430 Em meio à tempestade, perigo: raios caem na floresta, a floresta pega fogo, os animais se agitam em meio a “explosões mortíferas de uma batalha infer- nal.”431 Benignus, Fronville, Katini e River apoderam-se de sangue frio e cora-

gem, esquecem-se do perigo e colocam a vida em risco para salvar seus camara- das. Contudo, não conseguem impedir o “terror pânico que se apoderava da cara- vana.” 432 Passada a tormenta, Benignus tem a notícia de que de todos os seus ins-

trumentos astronômicos apenas seu telescópio de Salomão manteve-se. Nada mais

426 Ibidem, p. 181. 427 Ibidem, p. 181. 428 Ibidem, p. 181. 429 Ibidem, p. 183. 430 Ibidem, p. 185. 431 Ibidem, p. 184. 432 Ibidem, p. 185.

o afligiu, porém, do que saber que em meio à tempestade dois camaradas da expe- dição haviam se esfaqueado. Tratava-se de um paulista e de um mineiro que vi- nham se desentendo desde o início do desenrolar da viagem. No lugar da desgraça forçar o “vínculo da fraternidade”, pensa Benignus, incorre-se o contrário.

—É incompreensível isto! disse-lhes em tom de amarga repre- ensão o sábio. Que lhes falta para estarem satisfeitos? Não lhes forneço eu tudo que precisam? Não sou porventura o primeiro a dar-lhes exemplo de constância, de resolução e de amor? Digam de uma vez, digam finalmente o que lhes falta?

—Falta Deus! murmurou uma voz que parecia romper dos con- fins do horizonte.433

A voz era a de um padre que seguia a comitiva há certo tempo. Explican- do-se, o religioso diz que o que lhes faltava era “a coesão religiosa, o laço moral, sem o qual é impossível a existência social, o respeito da autoridade e o sossego da consciência humana”. Depois de questionar sobre o número de companheiros que estavam ainda imersos na floresta que havia pegado fogo, em tom imperativo o padre clama a salvação dos perdidos, inflamando a entrada na floresta. Questio- nado sobre as chamas, o padre responde que elas abririam “passagem à caridade”. Não consentindo que Benignus e Katini novamente adentrassem à floresta, lan- çam-se ao fogo o padre, Fronville, o paulista, o mineiro e outros quatro camaradas no intento heroico de salvar os companheiros perdidos. Depois de salvar dois ca- maradas e um burro, deparam-se com o último homem a ser salvo. “Imagine-se o esforço, a coragem, a tenacidade, o heroísmo, a humanidade” que foram necessá- rios a fim de que eles vencessem “no regresso a distância que os separava da saída da floresta, carregando o corpo desfalecido da última vítima.” 434 Depois da “or-

questra de hurras” com os sucessos do resgate e dos cuidados que os feridos tive- ram do médico Benignus, ao ainda desconhecido ancião apenas cabia lembrar a todos da necessidade de agradecer a Deus. Diz o padre:

O templo é sublime! A tempestade acalmou. A noite vem des- cendo. O incêndio lavra pela mata em todo o seu horroroso es- plendor! O céu, a terra, as águas e os homens, tudo está inunda- do em luz, como se levantássemos um altar junto à cratera de um vulcão. De joelhos! de joelhos todos! 435

Todos obedecem ao padre. Tratava-se, diz o narrador, de um “quadro so- berbo”, pois “nunca corações tão agradecidos oraram em um templo tão majesto-

433 Ibidem, p. 186. 434 Ibidem, p. 192. 435 Ibidem, p. 193.

so.” 436 Benignus estava muito contente com o salvamento de todos, e “por isso

invocou com fervor o princípio eterno e Criador que rege, tanto pelo influxo das leis físicas como das leis morais, os destinos do universo.” 437 Apertando a mão de

Benignus, disse o padre que agora o sábio podia continuar o caminho, pois Deus havia entrado naquela caravana. Logo pela manhã do dia seguinte, o padre inex- plicavelmente desaparece.

Do desentendimento, da falta de fraternidade entre duas pessoas mesmo estando elas em situação de perigo, a presença da caridade religiosa engendra o aproximar-se de todos. Uma atmosfera heroica de resgate marcada pela mútua pertença de camaradagem, pela coesão religiosa responsável em enlaçar moral- mente todos aqueles que estão imersos na perigosa natureza de chamas que não cessam. Pela religião, os frágeis laços sociais se restabelecem. Pela caridade, a ordem entre os homens ali se afirma. Pela fraternidade, pelo amor e pela amizade, os homens pertencem-se uns aos outros, assemelham-se em detrimento de atitudes meramente egoístas. O resultado da caridade se expande de forma radical no tom universalista e transcendente trazido pelos imperativos da oração. A floresta, peri- gosa, ainda está em chamas, mas ela reintegra-se à ordem ao também vir do fogo a luz por meio da qual o homem, o céu e a terra unem-se a Deus em oração. Só cabe a Benignus, por extensão, invocar o princípio eterno que, a partir de leis, rege mo- ral e fisicamente todo o universo. Destarte, Deus, coesão, alma, caridade, perdão, amizade, fraternidade, amor, homem, natureza, sociedade e ciência irmanam-se em oração.

Depois desses sucessos, Benignus conjecturou ser o padre que logo desa- parecera sem deixar explicações um daqueles que tomavam a missão de “evange- lizar e pregar ao povo a doutrina do amor, da caridade e do perdão.” 438 Fato é,

destaca o narrador, que por mais cética que pudesse estar a “alma humana”, ela sempre apelaria para a “proteção divina”, levando o homem a tornar-se mais con- victo na “verdade e na onipotência do Criador.” 439 É compreensível, assim, o fato

de o Dr. Benignus ter pensado na conveniência que havia em

aliar e não distanciar os princípios religiosos dos princípios ci- entíficos. A ciência representa uma série de conquistas da inte- 436 Ibidem, p. 193. 437 Ibidem, p. 193. 438 Ibidem, p. 195. 439 Ibidem, p. 196.

ligência humana, que, se proclama por um lado a ascensão inte- lectual da humanidade, confirma ao mesmo tempo a eterna sa- bedoria, que lhe deu origem. Depois dos sucessos que narramos nos capítulos anteriores, a harmonia havia-se restabelecido de feito e como milagrosamente na turbulenta caravana do sábio Dr. Benignus. 440