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3.5. BaĢsayfadaki Siyasi GeliĢmeler ve Yanlı Gazetecilik

3.5.1.3. Referandum Süreci

Em relação à realidade de Natal, poderíamos comentar que a constituição primária de um mercado de trabalho se vincula à seca de 1844-1846. Nesse período, iniciou-se um movimento de imigração do interior com destino às vilas e cidades. De acordo com Monteiro (2002, p.169, grifos da autora),

A existência de trabalhadores escravos, sem poder aquisitivo, era incompatível com a necessidade capitalista de mercados consumidores cada vez mais amplos. A abolição do tráfico liberou muitos capitais que, até

então, eram nele aplicados e que passaram a ser investidos, a partir daí, em empreendimentos econômicos diversos, gerando uma modernização econômica do país, adequada à nova etapa das relações econômicas internacionais.

Essa realidade fez com que, no início da segunda metade do século XIX, a população da capital da província já contasse com mais de seis mil pessoas. Na época, dispunha-se de artesãos, alfaiates, ferreiros, marceneiros, pequenos estabelecimentos comerciais, funcionários públicos, soldados, polícia, legislatura, caixeiros de casas comerciais etc.

O acesso à terra, assim como no resto do país durante quase trezentos anos, isto é, de 1530 até 1820, era determinado pelo sistema de sesmarias, grandes porções de terra, que eram doadas pela coroa portuguesa e repassadas por herança. Esse sistema vigorou por longo tempo, até que, no contexto da independência, foi extinto, tornando a ocupação a nova forma de acesso à propriedade. Em 1850, foi decretada a lei de terras no Brasil, regularizando o sistema de posse. Nesse ano, também determinaram a abolição do tráfico de escravos, os quais, sem acesso à terra, continuariam mais tarde como livres, mas à margem da estrutura social. Na capitania do Rio Grande, os indígenas e seus descendentes compunham o contingente de homens e mulheres, chamados livres. Foi esse contingente que representou a mão-de-obra da província, especialmente no sertão, já que nos canaviais do litoral ainda era grande a concentração de escravos.

Monteiro (2002, p.185) relata como era vista essa população:

Livres, pobres, e sem-terra, em sua grande parte, mestiços, eles eram vistos pelas autoridades como desocupados ou vadios e freqüentemente eram reprimidos, através de diversos mecanismos que visava aproveitar sua mão- de-obra das propriedades.

A vigilância sobre a vagabundagem era permanente através dos capitães- mores de milícias. Em 1831 uma lei provincial criou a Companhia dos Jornaleiros, que tinha como funções o recrutamento obrigatório de braços para a agricultura e a imposição de um modo de vida “aos muitos vadios que formigavam por toda a província” (Relatório de Presidentes de Província, de 7 de setembro de 1839, p.16, e de 3 de maio de 1849, p.17, apud MONTEIRO, 2002, p.185). Essa lei não vingou dada a resistência da população, que reagiu com desconfiança, ponderando que a nova medida poderia tratar-se de uma armadilha para reduzi-la à escravidão. O recrutamento militar obrigatório virou um negócio lucrativo em 1852, quando uma nova lei promovia a recompensa dos recrutadores por cada “cabeça” conseguida. A medida transformou-se numa estratégia de perseguição política, visto que “indivíduos indesejáveis” que circulavam na província eram obrigados ao recrutamento.

Em 1863, uma nova medida cujo alvo era a população ociosa foi tomada. O presidente da província propôs à assembléia provincial do Rio Grande que criassem uma polícia rural para obrigar ao trabalho:

[…] Parte da população (que existia em todo o império) errante, quase nômade, vivendo na ociosidade, e alimentando-se da caça, pesca e frutos silvestres, ou de um outro dia em que procuravam trabalhar para comprar alguma roupa (Relatório do Presidente da Província, de 14 de maio de 1863, p.04, apud MONTEIRO p.189)28.

No Nordeste, além das leis criadas para regulamentar a vida dos considerados pobres e vagabundos, outro meio de ocupar os “perigosos” foram as frentes de trabalho, que eram constituídas para o trabalho na construção de obras

28 Monteiro (2002, p.159) afirma que “as condições de vida e trabalho dos homens livres e sem-terra”

certamente são fatores que ajudariam a explicar o que ficou conhecido como “Banditismo rural”, que tornaria célebre bandos liderados por figuras como o Jesuíno brilhante, entre outros.

públicas nos períodos das secas na região. O estímulo à transferência para outras regiões e ainda a ocupação através de obras públicas e núcleos coloniais foram medidas adotadas para ocupar o contingente dos considerados “desocupados”. Era necessário retirar das províncias a pobreza que se tornara visível. Segundo Diniz (1988, p.81),

A lógica que presidia a implementação de obras públicas e núcleos coloniais para ocupar a população, pressupunha que o desemprego só poderia ser combatido com a adoção de atividades físicas árduas com pouca remuneração. Nesse sentido, essas políticas de ocupação da população pobre ambicionavam, através do trabalho árduo, penoso, duro, internalizar no trabalhador, comportamentos condizentes com a disciplina exigida por uma sociedade capitalista.

As frentes de trabalho também surgiram no Rio Grande do Norte, na primeira década do século XX. Através de recursos federais destinados a combater os problemas da seca, obras públicas foram construídas com a utilização da mão-de- obra barata da camada mais pobre da população.

O século XX no Rio Grande do Norte inaugurou uma fase de modernização de sua capital. Os recursos para a construção de obras públicas – como a Praça Augusto Severo, No bairro da Ribeira, o calçamento de ruas, a abertura de avenidas etc. – foram obtidos graças ao envio de verbas pelo governo federal, a fim de minorar os efeitos da seca de 1903-1904. Com recursos, obras públicas foram construídas e milhares de retirantes que vagavam na capital foram ocupados. Monteiro (2002, p.217, grifos da autora) comenta:

[…] Quando sobreveio a seca de 1903-1904 [...], milhares de retirantes se concentraram em Natal, instalando seus acampamentos da ribeira, é exatamente em torno do local onde se construía a praça e o teatro. Com a utilização dessa força de trabalho concentrada e a verba enviada pelo governo federal, concluiu-se a praça no mesmo local e as obras do teatro ali localizado, que foi inaugurado, em plena seca, com um Festival de caridade, que rendeu 450 vestidinhos que foram entregues aos pobres. Passada a seca, podemos supor que muitos desses homens e mulheres

permaneceram na capital engrossando a categoria daqueles que estavam à margem do sistema econômico e social.

Em 1909, período de nova seca, o governo federal criou a Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas. Os grandes proprietários rurais, que se favoreciam pelo discurso da seca, foram, obviamente, os maiores beneficiados das verbas liberadas. Decorreu daí a utilização oficial das chamadas “frentes de trabalho”, que ocupavam a população pobre na construção de açudes, ferrovias e rodovias. Com relação às crianças pobres, abandonadas, órfãs etc., Diniz (1988) destaca a criação das Escolas de Aprendizes, cuja função era “moralizá-las” através do recolhimento e da internação em orfanatos e escolas industriais. “A escola para os pobres era idealizada como lugar onde a criança abandonada adquiriria bons hábitos de obediência e trabalho morigerado, formando assim futuros trabalhadores dóceis e disciplinados”, conforme afirma Diniz (1988, p.90).

A necessidade de disseminação de valores, hábitos e comportamentos associados a um modelo produtivista reflete o choque que houve entre tais padrões e as tradições, hábitos e costumes da população pobre. As leis, a perseguição, a imposição de um rigor disciplinar, a higienização da rua através da internação de pobres e desvalidos em instituições de caridade foram algumas das medidas adotadas pelo novo modelo de sociedade vigente, com o propósito de enquadrar parcela da população que historicamente não se configurava em parte integral daquele sistema.

No Nordeste, criaram vinte e duas instituições do gênero. Na Paraíba, foram nove. O idealizador dessas casas foi o padre Ibiapina, que foi, segundo Diniz (1988, p.114), “Um homem profundamente preocupado em combater a ociosidade, a negligência, os vícios e os crimes”. Ele visava a construir “uma obra de assistência e educação, a fim de curar o operário e preparar para fins domésticos a mulher pobre

dos sertões” (MARIZ, 1980, apud DINIZ, 1988, p.114). Além de funcionarem como instituições de caridade, esses estabelecimentos também tinham como finalidade regenerar pobres e desajustados sociais. Imperava a pedagogia do trabalho como elemento moral reabilitador de pobres. Diniz (1988, p.117) relata que, nas portas das casas de caridade, liam-se as seguintes palavras: “Deus – amor, Jesus – caridade, trabalho – alegria, sofrer – gozar, silêncio – prudência, humildade – juízo”. Segundo o autor (1988, p.117),

A segunda metade do século XIX no Nordeste e na Paraíba vai presenciar todo um conjunto de práticas de confinamento de pessoas pobres, tidas como incapazes para o trabalho. Nesse movimento de regeneração do pobre pelo trabalho vão se engajar não só os poderes públicos, mas também a igreja católica e a iniciativa privada.

As casas criadas pelo padre Ibiapina funcionavam de modo semelhante às casas de correção ou casas de trabalho (work house) da Europa dos séculos XVII e XVIII. Sob esse regime de funcionamento, a vigilância estendia-se a todos os movimentos dos internos, num controle rígido dos tempos e espaços – a esse respeito, Diniz (1988, p.114-123) traz maiores comentários. Para o homem pobre, o trabalho tornava-se a única instância mediadora e promotora do reconhecimento social no espaço público. Por meio dessa categoria central no novo modelo de organização social, os homens pobres podiam constituir-se sujeitos dignos, válidos, portanto, úteis.