1. Alternatif Medyanın Kuramsal Temeli
2.2 Radyonun Alternatif Tarihi
Falando dos movimentos sociais urbanos em Belém mais recentes, Malato (2006, p. 137) manifesta que “[...] a partir de 1975 surgem os primeiros conflitos pela pose da terra, com ênfase nos bairros da Sacramenta, Pedreira, Jurunas, Cremação, Guamá, Terra Firme, Marco, Canudos e Jabatiteua. [...]”. De maneira que “surgem, então, nesses subespaços, movimentos populares, mobilizações, manifestações mais radicais, atos públicos, manifestos de todos os tipos. As principais reivindicações foram por urbanização, equipamentos coletivos e regularização fundiária. [...]” (PINHEIRO et al., p. 159 apud BARROS, 2012, p. 53).
Neste contexto, se deu o nascimento da Comissão de Bairros de Belém (CBB) e da Federação Metropolitana de Centros Comunitários e Associações de Moradores (FEMECAN) em Belém.
O inicio da CBB, no final da década de 70 e 80 [do século passado], a CBB surge com o grande perfil da luta popular, da luta pela moradia e a moradia digna para todos, e a escola que na época era escola comunitária para todos, saúde para todos, tudo isso era o grande norte, o grande perfil da CBB. [...] é a riqueza do potencial, da melhoria da condição de vida, e isso sempre foi o perfil que a CBB teve exatamente para que a população fosse em busca dos seus direitos, direito de lutarem pela agua, pela moradia digna, que é tudo isso, é o saneamento, é a educação, é a segurança pública, é transporte de qualidade (MARIA DOS ANJOS, entrevista apud NOVAES; MATOS; WAGNER, 2003, p. 350).
As “[…] pessoas que participam dessas organizações são contundentes ao dizer que a mobilização do povo é um fenômeno cuja origem pode ser perfeitamente detectada no altíssimo custo de vida, nos salários baixos, na falta de terras para morar, na falta de água e luz, na carência de escolas e na opressão. […]. (CBB, 1980, não paginado) De fato, foram tantas as ocupações que “[...]. No total,
46% da população de Belém são posseiros, segundo dados do próprio governo, afirmou o presidente da CBB23” (ALVES, 2008, p. 4) na época.
No referente aos movimentos sociais em Belém, deve-se dizer, que “a rigor, foi o interesse pela conquista da terra e pela aquisição da moradia o fato gerador responsável pelas inúmeras organizações de cunho bastante combativo que se proliferaram em bairros da Primeira Légua Patrimonial” (TRINDADE JUNIOR, 2016. p. 289).
Acompanhando a trajetória nacional, os movimentos populares em Belém se organizaram a partir da década de 80 [do século passado], das mais variadas formas, visando o enfrentamento com o Estado (principalmente com os Governos Estadual e Municipal), para a reivindicação de suas demandas por melhoria dos serviços de transporte, educação, saúde, segurança pública, saneamento, agua potável e regularização de terrenos ocupados clandestinamente. [...] (MACHADO, 2004, p. 78).
Na verdade, “[...] a abertura política dos anos 1980 e as novas redes de articulação estabelecidas entre um Estado mais democrático e as organizações populares influenciaram, em grande parte, no novo perfil dessas organizações” (TRINDADE JUNIOR, 2016, p. 277). São questões associadas ao interesse particular as que tinham maior destaque dentre os membros desses movimentos, e o que procuravam de fato era resolver questões associadas à potenciação dos índices de satisfação de necessidades de subsistência e de proteção, como chamam Max-Neef, Elizalde e Hopenhayn (2010).
De fato, “[...] as demandas desses movimentos giravam basicamente em torno dos problemas de infraestrutura, serviços básicos e moradia. Neste último aspecto, o mais significativo de todos, os conflitos pela posse da terra ganhavam destaque” (TRINDADE JUNIOR, 2016, p. 275). Conforme o CBB (1980, não paginado), “Se hoje [fim dos anos setenta e início dos oitenta do século passado] o povo invade as praças, toma as ruas em passeatas, exige do Governo soluções para seus problemas, protesta, é porque sua condição subumana o força a isso”.
Fotografia 1 - Pôster de mobilizações da CBB
Fonte: CBB (1980).
Aqui, apresenta-se uma grande diferença a respeito de alguns dos principais movimentos sociais de Pasto que procuravam – nos termos de Max-Neef, Elizalde e Hopenhayn (2010) – potencializar os indicadores de satisfação de necessidades mais avançadas, como a participação, a identidade, o entendimento e a liberdade. É bom lembrar que se o movimento cívico popular de Nariño procurava reivindicações em infraestrutura, estas não eram reivindicações particulares de pessoas ou de bairros e, sim gerais, de região. Já os outros movimentos, como o movimento pedagógico e o movimento popular “Los Inconformes”, procuravam o poder, a transformação da sociedade, a participação cidadã e a transformação da educação no Departamento.
E essas diferenças de objetivos eram marcadas a um nível mais geral, no nível nacional, já que enquanto os movimentos sociais na Colômbia pressionavam por mudanças na Constituição Política, pensando em ganhar espaços participativos e em fazer mudanças na educação. No Brasil, uma das prioridades dessas lutas era fazer mudanças em temas urbanísticos e de propriedade fundiária, caminhando sendas distintas nos dois países estudados.
Em 1988, por ocasião dos debates e posterior promulgação da Carta Magna, movimentos sociais de abrangência nacional, organizações de classe, igrejas, setores das universidades públicas, partidos políticos além de juristas e parlamentares travaram uma batalha pela incorporação do Capítulo da Política Urbana na Constituição Federal, aprimorando o conceito de função social da propriedade (CRUZ; ALVES, 2016, p. 216).
Em outras palavras, a participação cidadã em Belém era vista como um meio (enfoque instrumental segundo ABERTS, 2000 apud SOUZA, 2002), enquanto que em Pasto a participação era o próprio fim. Em Pasto, lutava-se, entre outras coisas, por espaços de participação cidadã e isto estava
colocado em suas reivindicações maiores e, para isso, trabalhava-se na parte pedagógica. Em Belém foi simplesmente o mecanismo que o povo encontrou para melhorar suas condições de vida. Esta foi a grande virtude do governo de Edmilson Rodrigues, abrir mão a cidadania para fazer essas mudanças, e isso explica claramente porque no caso de Pasto o processo alcança o empowerment, enquanto que em Belém não.
Souza (2006, p. 187, grifo do autor) afirma que entre os benefícios ou argumentos da participação, vista como um fim, estariam: 1) Ela ajuda a formar melhores cidadãos. Ele esclarece que ante a carga valorativa eminente do argumento, e a variabilidade do modelo “bom cidadão”, deve-se adotar como critérios “objetivos” parâmetros como o aumento do sentido de
responsabilidade e interesse pela coisa pública (incluindo-se o patrimônio público) e o incremento de uma consciência de direitos. 2) Ela permite ou facilita o empowerment dos cidadãos. Aqui,
também, ele faz um esclarecimento sobre o empowerment, de que ou essa palavra designa uma considerável diminuição da heteronímia, ou ela é vazia, ou pior, está a serviço de ilusionismo político.
Para este autor, “Vista como um meio a participação direta é justificada, sobretudo, por razoes de eficiência econômica e gerencial, concernentes à melhor satisfação das necessidades dos cidadãos e à minimização das chances de desperdício e corrupção. [...]”. Também agrega que “[...] provavelmente aquela que mais atrai o “cidadão médio” é a possibilidade de ver a sua qualidade de vida melhorada, especialmente em um sentido material, por meio ou em decorrência de sua participação direta em processos decisórios envolvendo os negócios de interesse coletivo. [...]” (SOUZA, 2006, p. 187-188, grifo do autor).
Em resumo, em Pasto, por ser colocada a participação como um fim, o processo formou melhores cidadãos e permitiu o empowerment cidadão com diminuição da heteronímia, o que em longo prazo deu frutos e permitiu que se trabalhasse em sua continuidade. Em Belém, a participação foi o meio que tiveram as classes menos favorecidas para dar uma virada a algumas situações de desigualdade social muito presentes na cidade, sem que se permitisse o empowerment da cidadania.
Figura 3- As possíveis causas das mobilizações em Belém
Fonte: CBB (1980).
Falando dos movimentos dos anos setenta e oitenta do século passado em Belém, manifesta Trindade Junior (2016, p. 361), que “[...] a gênese dos movimentos de emancipação analisados esteve diretamente relacionados à ideia de abandono e de exclusão da população suburbana que incrementou esses novos espaços de assentamentos residenciais na Área de Expansão. [...]”. Segundo Malato (2006), neste momento havia uma grande insatisfação com o modelo de governabilidade dos militares, pelo que se aumentou a pressão popular.
[…] A cada dia que passa a vida do trabalhador fica mais custosa. No campo não tem mais jeito de ficar, porque os tubarões nos expulsam de lá para fazerem grandes campos para plantar capim. Então a gente se muda para a cidade. Na cidade a gente tem que trabalhar de operário, recebendo salário mínimo, e a maioria fica servindo de biscateiros e desempregados. Esse salário de miséria não dá nem para comprar o que comer, quanto mais para ter casa própria. Então muita gente escolhe um pedaço de terra para construir suas casas. Depois aparecem aqueles que se dizem donos. Aí começam tudo de novo. Esse é um problema que todos nós enfrentamos. […] (CBB, 1980, não paginado).
Essa problemática, narrada nesta cartilha publicada no ano 1980 pela CBB, mostra a base do transtorno em Belém que viviam as classes menos favorecidas, e isso leva à organização para lutar por reverter o quadro que se vive. Afirma Barros (2012, p. 53-54) que os movimentos sociais urbanos “[...] em Belém surgirá do encontro das aspirações populares e das formas de trabalho político de base de organizações da igreja católica, as Comunidades Eclesiais de Base (CEB´s); das organizações da sociedade civil que lutavam contra o regime militar [...]”. Esta autora afirma que
“[...] para além da posse da terra, esses movimentos de bairros articularam lutas para melhorias e serviços urbanos” (BARROS, 2012, p. 54).
E aí na sequencia [das ocupações e das lutas pela posse da terra, surge] o movimento pela agua, pela energia elétrica, o movimento pela construção de equipamentos públicos, escola, posto de saúde, uma sequencia, digamos assim, de lutas sociais, de movimentos vivos na cidade mostrando a cara. [...] (MARINOR BRITO, entrevista apud BARROS, 2012, p.54).
Malato (2006) ressalta que aí começa a consolidação da busca de um projeto alternativo de democratização e um novo modelo de gestão governamental.
Nessa fase os movimentos sociais urbanos em Belém também se intensificaram, contando com a participação, em sua organização, das comunidades Eclesiais de Base (CEB´s), da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE), e da Sociedade Paraense em Defesa dos Direitos Humanos (SPDDH), que contribuíram no sentido de fortalecer as lutas da população de baixa renda (MALATO, 2006, p. 138).
Relata esta autora, que na campanha de Jader Barbalho nas eleições de 1982, apresentou-se apoio das camadas populares e movimentos sociais no caminho ao poder, ou seja, havia uma articulação, nos termos de Hangan (1998). Em palavras de Trindade Junior (2016, p. 361), o que nesse momento se evidencia é o estabelecimento de uma relação clientelista e diz que isso se deu num momento que existia nas camadas populares essa identidade de abandono, já comentada.
[…] a identidade criada por essa condição de abandono e exclusão, que deu origem aos movimentos, foi também capturada por interesses políticos locais que propagavam, a partir da institucionalização da instancia municipal ou de sua redefinição, possíveis ganhos, que seriam no discurso politico, ganhos coletivos. [...] .
Por exemplo, nos primeiros anos da FEMECAM, nos tempos do governo de Jader Barbalho em Pará, Trindade Junior (2016, p. 279) expressa que “A necessidade de fortalecimento político por parte da Federação Metropolitana, que surgia, e a necessidade de estar próximo das organizações populares, por parte do poder local, estimularam a aproximação de ambos”. Ele identifica com claridade a cooptação destes movimentos sociais urbanos na área metropolitana de Belém com fins eleitorais aproveitando sua fragilidade e suas necessidades de subsistência. Isso foi feito de maneira sistemática e premeditada como se lê em Borges (1992):
[...] O projeto político que as assessorias estatais buscavam veicular, estava ligado a toda proposta de legitimação política de um determinado bloco no poder, o bloco do PMDB, que historicamente se transformava no partido capaz de garantir a transição democrática para as lideranças e precisava construir e ampliar sua base popular. Pode-se dizer que o veio ideológico-cultural para a constituição dessa base, no meio urbano, foi a luta pelo direito a morar que serviria como um dos pontos fundamentais no resgate da cidadania [...]
[...] As lideranças comunitárias passaram a ser funcionárias do poder público através das assessorias, com os cargos de assessores sindicais ou comunitários, recebendo salários para atuar politicamente nos bairros. O Estado democrático contribuiu para instrumentalizar as associações de bairros muitas vezes, tirando delas o poder da pressão [...] O poder público buscou então criar sua base popular, contribuindo para a divisão do movimento popular organizado. Isso foi feito, principalmente descaracterizando a CBB enquanto interlocutora dos Centros Comunitários, tratando-se as reivindicações de bairro individualmente através dos presidentes das associações. O governo com o apoio de algumas lideranças representativas do movimento comunitário de base estatal como braço do PMDB, partido do governo. [...] (apud TRINDADE JUNIOR, 2016, p. 284-285).
Esse tipo de ação é assemelhada conforme Trindade Junior (2016) àquela citada por Silva (1992), ao analisar o movimento social urbano de Fortaleza, à qual chamou de “cabresto político”:
[...] uma pratica assumida pelo Estado através da qual os técnicos de governo se mesclam ao povo buscando desenvolver o que denominam de “planejamento participativo”, por meio do qual os problemas e as soluções da comunidade são levantados. Com essa estratégia, a entrada do governo e dos partidos políticos oficiais até as massas é favorecida nos espaços onde a Igreja e alguns setores da sociedade civil já vinham desenvolvendo um processo de organização (SILVA, 1992, p. 121 apud TRINDADE JUNIOR, 2016, p. 286).
Machado (2004, p. 78) afirma que a intensificação dos processos reivindicativos das entidades de bairros se deu através da FEMECAM e da CBB, as quais estavam [...] ligadas respectivamente às posições políticas dos partidos de esquerda PC do B e PT, os quais tinham forte penetração nas
organizações de bairros em Belém e exerceram grande influência na construção da trajetória política desses movimentos (negrita do autor). Fica claro que de maneira estratégica os partidos
políticos em Belém trabalharam, através desse mesmo modus operandi do cabresto político que levou até o cooptação dos membros dos movimentos sociais.
Foi, portanto, um tipo de prática que concorreu para fragilizar as organizações populares, já que a relação de conflito até então estabelecida era, mais do que em qualquer outro momento, deslocada para uma negociação e de parceria, num claro processo de cooptação política; o que em Belém foi feito de maneira deliberada (TRINDADE JUNIOR, 2016, p. 288).
Longe de chegar ao poder através da transformação, os movimentos sociais em Belém terminaram cooptados e manipulados por relações clientelistas dos movimentos políticos existentes, o que diminuiu o capital social na sociedade e enfraqueceu o sentimento de pertencimento pela cidade.