1. Alternatif Medyanın Kuramsal Temeli
2.1 İlk Radikal ve Muhalif Basın Girişimleri
No caso de Belém, nas ultimas décadas do século passado e nas primeiras do presente século, evidenciam-se a presença de muitos movimentos sociais urbanos, mas seus adversários, quase em todas as ocasiões, eram e/ou são pessoas de outras classes sociais dentro do mesmo estado ou cidade. Muitos destes movimentos procuravam ações coletivas encaminhadas a solucionar temas como a propriedade da terra, o que levou à luta de classes entre proprietários de terra e Estado, com pessoas de baixos recursos que lutavam pelo direito a moradia.
Nas palavras de Carlos Alberto Bordalo, Agente Pastoral da paróquia da Sacramenta, o problema de terras:
[…] levou o povo a constatação de que existiam latifundiários na cidade e este fato foi ajudando os bairros a unificarem suas lutas, pois perceberam que a luta de um era a de
todos. E de uns três anos para cá a consciência política do povo cresceu. "A população percebeu que a luta desencadeada não é apenas pela terra, pela água ou por mais escolas, por uma luta que redunda numa luta de classes, uma luta entre a classe oprimida e a classe que oprime" (CBB, 1980, não paginado).
Outros movimentos sociais no Pará têm enfocado suas ações em processos separatistas de municípios da capital, ou de separação do mesmo estado, como o caso do intento da região de Carajás, ou o da região do Tapajós. No caso estadual, os esforços de várias décadas estão sendo enfocados por movimentos sociais que procuram a independência do Pará, enfraquecendo o sentimento de pertencimento e avivando uma identidade sociocultural própria.
Falando da região do Carajás e de sua população, expressa Morbach (2012, p. 45), que “os hábitos, as preferências de lazer, os prazeres à mesa, diferem, substancialmente, do estilo de vida do paraense”. E que no Carajás há “a ausência de um legado cultural paraense a se mostrar presente, pulsante, [...] contribuindo para a formação de um amalgama cultural que distancia, em certa maneira, aquela gente do sentimento paraensista”.
Segundo o portal de internet www.ultimosegundo.ig.com.br, no processo separatista de Tapajós “o iG mostrou que com o clima de campanha, houve o acirramento das diferenças entres os paraenses do sul, do oeste e da região metropolitana de Belém”. Ao nível de cidade, Belém também sofreu processos separatistas, como aqueles de Icoaraci, nas ultimas décadas do século passado, e problemas de definição de limites com Ananindeua. Todos esses processos separatistas acabaram diminuindo a identidade de Paraense e de Belenense, ao contrario do ocorrido no sul da Colômbia, em Nariño, onde o sentimento se fez mais forte.
Apesar de tanto Nariño como o Pará serem regiões com manifesto abandono do governo central, onde se mostra a presença da clivagem do tipo centro-periferia (LIPSET; ROKKAN, 1967), os comportamentos nestas são diferenciados. Os esforços em Nariño focalizam em unir a todos nos reclamos para o alcance de suas reivindicações ante o governo central. Reclamações que, vale dizer, são de interesse geral e que alinham numa só frente todas as classes sociais.
No Pará, estes esforços se focalizam em processos separatistas dentro do mesmo estado ou em reivindicações associadas, mais ao interesse próprio, como no caso de a propriedade fundiária, e não a questões de interesse geral, como seriam reclamos pelo abandono desde o governo central em Brasília. Em Belém, as clivagens são de classes, chamadas também do tipo trabalhadores- empresários (LIPSET; ROKKAN, 1967), o que não permite unificar forças num objetivo comum dentro do município.
Quanto ao movimento da Cabanagem do Pará ocorrido entre 1835 e 1836, considerado por Caio Prado Junior (2012, não paginado.) “[...] um dos mais, se não o mais notável movimento popular do Brasil. É o único em que as camadas mais inferiores da população conseguem ocupar o poder de toda uma província com certa estabilidade. [...]”. Infelizmente, este movimento que tinha um cunho regional, foi vítima de um “esquecimento ‘forjado’ por uma classe” (SOUZA JUNIOR; SENNA, [2007?], não paginado.), o que estes autores chamam de uma perda da memória coletiva social entendida:
Como um fruto voluntario ou involuntário, o que no caso da cabanagem foi uma construção da elite, a visão desgeneradora da cabanagem, que resultou no seu quase completo esquecimento, ou seja uma perda involuntária, manipulada dessa memoria da revolução, através desse processo de perda de memoria, que se pode enquadrar no conceito [...] do potencial regulador (2006, p. 48- 49 apud SOUZA JUNIOR; SENNA, 2017., não paginado).
Este movimento – se por um lado tem a característica de nacionalismo – por estar demarcado na luta pela independência de Brasil, por outro apresenta características de luta de classes (Guimarães, 1977). De fato, a cabanagem era uma “[...] rebelião social de negros, índios, mulatos, cafusos, mestiços, tapuios (índios destribalizados) e brancos das camadas mais pobres da sociedade, os quais habitavam em cabanas à beira dos rios e igarapés. [...]” (GOHN, 1995, p. 34). E por sua parte “[...]. O principal alvo dos cabanos era os brancos, especialmente os portugueses mais abastados. [...]” (RICCI, 2006, p. 6).
Souza Junior e Senna (2007?) que – para demonstrar que no caso do Movimento dos Cabanos existe uma verdadeira amnésia coletiva ou social, forjada por interesses das elites dominantes no Pará – fazem o roteiro de sua construção. Esse percurso amnésico inicia com o primeiro autor que, segundo eles, foi Domingos Antônio Raiol, que define os cabanos como “[...]. Um movimento de bandidos, um mero motim, denominando primeira literatura deste como Motins Políticos. [...]” (SOUZA JUNIOR; SENNA, [2007?], não paginado.). Desta forma, um movimento que procurava a Independência de Portugal é avaliado e divulgado como um simples motim e a seus integrantes como simples bandidos.
“Dessa maneira a sociedade, de um modo geral começa a aceitar esta mensagem como verdadeira e assimila a mesma como se fosse o fato, legado a Cabanagem o esquecimento do maior movimento político da Amazônia, quiçá do Brasil” (SOUZA JUNIOR; SENNA, [2007?], não paginado.). Ao entender deles, este significado de motim ainda estava presente nas comemorações
de seu primeiro centenário no ano 1936, e o pior, não ficou claro nestas se os homenageados eram os vencedores ou os vencidos.
É um fato comprovado que a historiografia desta maneira dominou por mais de um século até ganhar, novos “sentidos e significados”, e chegar aos fins do século XX, compreendida como revolução. Durante o período que se estende desde as primeiras obras o movimento, passando pelas obras do momento das comemorações da derrota deste movimento, até os nossos dias, a ação do “potencial regulador”, da sociedade, [...] resultou no esquecimento provocado de um dos maiores movimentos populares do Brasil e da América, um esquecimento provocado não pela maioria da sociedade, mas por quem pensava e realizava as censuras sobre o que devia ou não estar nas paginas da memoria coletiva da sociedade, ou seja o grupo que saiu como o vencedor da historia, retirando da memoria coletiva um episodio fundamental para a construção da nacionalidade brasileira, e de uma sociedade amazônica de fato, mesmo sendo derrotada (SOUZA JUNIOR, 2006, p. 49 apud SOUZA JUNIOR; SENNA, [2007?], não paginado).
Ricci (2006, p. 8) manifesta que “ao longo dos anos de 1920 e 1930, delinearam-se outras histórias e o movimento cabano foi ganhando outros sentidos” deixando “[...] de ser tratados como “malvados” e “sediciosos”, para se tornarem “patriotas” conceito entendido como cidadãos adeptos da “causa brasileira”. [...]”. Contudo, Souza Junior e Senna (2007?) identificam as primeiras posições contrárias somente até as décadas de 80 e 90 do século passado, da mão de autores como Pasquale Di Paolo e Vicente Salles, ajudando a entender os cabanos como uma revolução.
Poucos intentos foram realizados para reverter o quadro de olvido do movimento dos cabanos, pelo menos até agora. Ricci (2006, p. 29) ressalta que Jader Barbalho, governador eleito depois da ditadura militar, se autoproclamava como um novo líder cabano e diz que, além disso, “[...]. Seu governo criou o Memorial da Cabanagem, financiou pesquisas, promoveu um concurso de monografias sobre o tema, durante os 150 anos do movimento cabano. [...]” . O último intento enumerado por esta autora para reverter a situação se deu na década de 1990 na Prefeitura de Belém, por parte de Edmilson Rodrigues, que:
[...] afirmava que seu governo era mais uma tomada cabana de Belém. Nascia uma terceira tomada e ele seria o sucessor legitimo do governo de Eduardo Angelim. O sambódromo local transformou-se em Aldeia Cabana, nasceu um bairro, com ruas e avenidas que homenageavam o movimento e seus heróis populares (RICCI, 2006, p. 29).
Esta autora assevera que “hoje a Cabanagem na Amazônia é símbolo de ação popular de massa, de mudanças e de movimentos sociais. Os sindicalistas e os políticos mais radicais são ‘cabanos’ e militantes do MST, cultuando a memória da Cabanagem. [...]” (RICCI, 2006, p. 29). Mas, ela esclarece que em contraste com esta simbologia o povo amazônico é quase invisível fora da região Norte, durante os dois últimos séculos. Manifesta também que “[...] ao largo disto, a história local
e seus agentes quase foram esquecidos. É preciso mudar este quadro, enfatizando a presença constante de um povo local” (RICCI, 2006, p. 30) – que não parece tarefa fácil – o qual é necessário para alcançar uma maior identidade regional.
Por isso a classe dominante no Pará (com a exceção de Barbalho já comentada) não se sente identificada com este movimento, e não tem o menor interesse de recuperar sua memória, pelo contrário, continuará promovendo seu esquecimento. Este fato é prejudicial na construção de capital social e de um maior desenvolvimento sócio espacial na capital paraense.