Em consonância com a legislação acerca do aspecto cambial, citaremos as legislações que operacionalizaram em nosso ordenamento a dedução fiscal de parte da quantia inerente à retribuição pecuniária por aquisição de tecnologia.
A Lei 8.383/1991 (Lei Imposto de Renda), e posteriormente o Decreto 3.000, de 26 de março de 1999, denominado Regulamento do Imposto de Renda (“RIR”), tratam da remessa de capital para o exterior. O RIR no artigo 354 aborda o tema em dois momentos:
Art. 354. As importâncias pagas a pessoas jurídicas ou físicas domiciliadas no exterior a título de assistência técnica, científica, administrativa ou semelhante, quer fixas, quer como percentagem da receita ou do lucro, somente poderão ser deduzidas como despesas operacionais quando satisfizerem aos seguintes requisitos (Lei nº 4.506, de 1964, art. 52):
I - constarem de contrato registrado no Banco Central do Brasil; (...)
§ 1º As despesas de assistência técnica, científica, administrativa e semelhantes somente poderão ser deduzidas nos cinco primeiros anos de funcionamento da empresa ou da introdução do processo especial de produção, quando demonstrada sua necessidade, podendo esse prazo ser prorrogado até mais cinco anos por autorização do Conselho Monetário Nacional (Lei nº 4.131, de 1962, art. 12, § 3º)” (grifo nosso).
Vamos nos ater na análise desse artigo em dois aspectos: (i) condiciona a dedução ao registro prévio do instrumento que lastreie o pagamento no Banco Central do Brasil, ato este que tem como premissa, como abordado, o registro ou averbação do mesmo perante o INPI e
(ii) indica o limite temporal de dedução em até 05 anos, prazo este também utilizado pelo INPI na estipulação de prazo máximo de vigência dos contratos que são analisados.
Por sua vez, o artigo 355 assim dispõe:
Art. 355. As somas das quantias devidas a título de royalties pela exploração de patentes de invenção ou uso de marcas de indústria ou de comércio, e por assistência técnica, científica, administrativa ou semelhante, poderão ser deduzidas como despesas operacionais até o limite máximo de cinco por cento da receita líquida das vendas do produto fabricado ou vendido (art. 280), ressalvado o disposto nos arts. 501 e 504, inciso V (Lei nº 3.470, de 1958, art. 74, e Lei nº 4.131, de 1962, art. 12, e Decreto-Lei nº 1.730, de 1979, art. 6º).
(...)
§ 3º A dedutibilidade das importâncias pagas ou creditadas pelas pessoas jurídicas, a título de aluguéis ou royalties pela exploração ou cessão de patentes ou pelo uso ou cessão de marcas, bem como a título de remuneração que envolva transferência de tecnologia (assistência técnica, científica,
administrativa ou semelhantes, projetos ou serviços técnicos
especializados) somente será admitida a partir da averbação do respectivo ato ou contrato no Instituto Nacional da Propriedade Industrial - INPI, obedecidos prazo e condições da averbação e, ainda, demais prescrições pertinentes, na forma da Lei nº 9.279, de 14 de maio de 1996. (grifo nosso) Sobre o artigo destacamos que: (i) reitera o limite máximo de 5% para dedução das despesas, ratificando o limite máximo estipulado na Portaria MF 436/58; (ii) as ressalvas indicadas referem-se a incentivos fiscais que elevam o limite a até 10%, para: indústrias de alta tecnologia ou de bens de capital não seriados, titulares de PDTI e; empresas industriais e agropecuárias que executarem Programas de Desenvolvimento Tecnológico Industrial - PDTI ou Programas de Desenvolvimento Tecnológico Agropecuário – PDTA e (iii) condicionam a dedução ao registro e averbações prévios perante o INPI.
O aumento do limite de dedução do imposto a ser pago sempre foi algo extremamente sensível para o Governo Federal, assunto sobre o qual sempre demonstrou enorme resistência. Neste sentido, constata Leonardos (1997) que as políticas cambiais e fiscais acerca do pagamento por aquisição de tecnologia estrangeira adotadas até o momento pelo Brasil convergem no sentido de obstar a distribuição disfarçada de lucros entre empresas do mesmo grupo (com sede estrangeira) e a operacionalização de manobras contábeis por empresas domiciliadas em nosso território na apuração do imposto sobre a renda: “(...) o imposto de renda tem importância notória na geração de receitas para a União e, indiretamente, (através da participação do produto na sua arrecadação), também para os Estados, Distrito Federal e municípios” (LEONARDOS, 1997, p. 10).
Considerando que o registro do contrato de transferência é ato anterior à realização das deduções, informa o INPI às empresas os limites que serão utilizados como base para a dedução. Viegas (2007, p. 76) destaca ser tal função do INPI meramente informativa.
Para Franco (2010), cada parte da relação é motivada por fins diversos: ao passo em que o detentor do know-how intende a obtenção de renda e lucratividade, ao adquirente importa a possibilidade de deduzir ao máximo as despesas de aquisição da tecnologia na apuração do imposto a ser pago ao Estado. Com efeito, o tratamento tributário conferido pelo Estado sobre a comercialização de tecnologia é fato que inegavelmente influencia as estratégias de cada parte, podendo, em última análise, chegar a “inibir operações de transferência de tecnologia” (FRANCO, 2010, p. 102). A autora ainda afirma que demonstra transparecer que o Governo Federal, mesmo após a alteração econômica advinda com a CR/88, não deseja estimular a aquisição de tecnologia estrangeira, na medida em que observamos uma elevação paulatina na carga tributária incidente sobre a aquisição de tecnologia, com a criação de novos tributos – CIDE em 2000 (Lei 10.168/2000 – anteriormente por meio de Medida Provisórias; ISS Importação em 2003 (Lei Complementar 116/03); PIS/COFINS Importação em 2004 (Lei 10.865/04) e IOF em 2008 (Decreto 6.339/08).
É fácil a constatação de que o regime, tanto cambial como fiscal atribuído ao pagamento pecuniário por aquisição de tecnologia estrangeira (royalties), é baseado em um sistema defasado e composto por legislações esparsas. Para Barbosa (1984, p.24), o regime de royalties é “interpretado por uma massa de portaria, instruções normativas, atos declaratórios normativos e pareceres normativos. Tem-se levantado uma série de dúvidas sobre a coexistência desta legislação editada em épocas diferentes, e tratando dos mesmos objetos”.