Yılmaz Öztuna
HAKKINDA YAZILANLAR
T. R Umum Müdürü’ne
Os ocupantes do poder anunciavam uma nova era e não por acaso apressaram-se a
denominar o momento anterior de “República Velha”, ou seja, adjetivaram de forma negativa
o passado. A vitória do movimento precisa ser referida à crescente insatisfação com o regime vigente entre amplos setores da população, desde os intelectuais, jovens integrantes do exército, além das dificuldades decorrentes da crise econômica mundial, que atingia a todos.
O movimento, que se autoproclamou instituidor da “República Nova”, impôs uma série de
reformas que tinham por meta reconstruir o país e sua identidade. Sob o lema Representação e Justiça, o discurso da Aliança Liberal pautava-se na regeneração política, restauração da saúde física e moral da nação, fim do domínio das oligarquias regionais, anistia para os revoltosos da década de 1920, proteção para o trabalho, voto secreto, criação de uma justiça eleitoral, enfim, uma série de medidas que visavam alterar a prática política vigente. Implantado o governo provisório em novembro de 1930, fecharam-se, de imediato, o Congresso Nacional, as Assembleias estaduais e municipais, os governadores dos estados foram substituídos por interventores, e Vargas passou a governar por meio de decretos-lei.
Cabe destacar a criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio e do Ministério da Educação e Saúde Pública, além do início de uma política de regulação do mercado de trabalho, que foi uma das marcas da política varguista que, entre 1930 e 1945, regulamentou as oito horas diárias de trabalhos, o trabalho feminino e de menores, as férias, pensões e aposentadorias, medidas essas que resultaram, em 1943, na Consolidação das Leis de Trabalho (CLT). Vale lembrar que a estrutura sindical inspirava-se em ideais corporativistas, que substituíam a luta de classes pela colaboração entre patrões e empregados.
No plano da cultura, não se pode menosprezar a importância dos meios de comunicação, que foram mobilizados para a difusão de valores e leituras do passado, mesmo que não se trate, ainda, de uma sociedade de massas. O modernismo, que na década de 1920 enfatizava mais os aspectos estéticos, passou, no decênio seguinte, a se comprometer com os destinos do país, como bem atesta a própria divisão do movimento em várias colorações ideológicas.148 O nacionalismo ganhou novos impulsos, e a preocupação acerca das características do brasileiro, um tema que já tinha larga tradição, conta com novos intérpretes. Gilberto Freyre publicou em 1933 Casa-Grande e Senzala, em que elaborou uma nova visão sobre a miscigenação, ancorada não sobre a raça, mas sobre a cultura; Sérgio Buarque de
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58 Holanda, que escreveu Raízes do Brasil, atrelou os males do país às suas origens ibéricas, enquanto Caio Prado Júnior publicou, em 1942, Formação do Brasil Contemporâneo, que inaugura uma leitura de inspiração marxista sobre o país. Cabe destacar que, no plano educacional, surgiram as primeiras universidades, com destaque para a Universidade de São Paulo, criada no ano de 1934, que trouxe um conjunto de professores estrangeiros, entre eles Claude Lévi-Strauss, Roger Bastide e Jacques Lambert, para citar nomes da área das Humanidades.
Levando-se em conta o caráter polissêmico do termo cultura, que não comporta apenas um conteúdo erudito, a década de 1930 assistiu ao despontar do futebol como fenômeno cultural capaz de atingir parte significativa da população. Não menos importante para essa difusão foi o impacto do cinema e do rádio, este último recém-introduzido no país (a primeira transmissão foi feita em 1922), isso num contexto em que a questão da identidade nacional ocupava o centro do debate. Afinal, trata-se de higienizar e disciplinar o homem brasileiro, para o que os esportes figuravam como aliados para atingir tal objetivo. Essa preocupação espraiava-se como meta para a formação dos jovens, daí a importância da Educação Física, responsável por adestrar o corpo, melhorar a saúde, ensinar a obediência às regras e desenvolver a civilidade. Em outros termos, tratava-se de desenvolver o sentimento de amor à pátria, o civismo, o que explica a importância do futebol, que abrangia grande número de pessoas.
Contudo, as mudanças não se restringiam ao discurso. No que respeita à economia, por exemplo, todo o mundo capitalista sofria os impactos da quebra da bolsa de Nova Iorque, o que entre nós, afetou de maneira profunda o café, o principal produto de exportação. Getúlio Vargas implantou medidas visando recuperar a produção agrícola e, ao mesmo tempo, incentivar a produção industrial. O nacionalismo, pedra de toque da ideologia do regime, expressou-se na obrigação das indústrias de contratar, pelo menos, dois terços de empregados brasileiros, assim como se impuseram limites à entrada de imigrantes.
A crise colocou em xeque os pressupostos do capitalismo liberal, que parecia incapaz de responder aos desafios econômicos e sociais no pós-guerra. O discurso antiliberal ganhou espaços, inclusive no Brasil. Lúcia Lippi apontou que
Três grandes eixos marcaram o pensamento dos anos 30 e se fizeram presentes na doutrina do Estado Novo: O elitismo, o conservadorismo e o autoritarismo.
O elitismo contribuía para aumentar a descrença na doutrina da sabedoria popular [...]. A existência da elite como dado e seu domínio como expressão concreta da ciência cabiam como luva para a geração intelectual dos anos 1930 em sua pretensão de salvar a sociedade brasileira.
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O conservadorismo refere-se a uma vertente específica de concepção de mundo onde a ordem, a hierarquia e a tradição têm papel preponderante [...].
Nacionalismo e autoritarismo ângulo istintos e complementares do processo de formação do Estado Nacional. O projeto unificador de criar a nacionalidade envolve múltiplos aspectos, é movido pelos ideais de justiça, de democracia social, mas, acima de tudo, o rege uma razão de Estado.149
A partir de novembro de 1937, com implantação do Estado Novo e a outorga de uma nova constituição, as liberdades democráticas deram lugar a um Estado autoritário. Note-se que três momentos distintos marcaram o período estudado: o primeiro, da instauração do governo provisório em 1930 até a promulgação da Constituição em 1934 e a eleição indireta de Vargas como Presidente da República; outro que se estende até o golpe de 1937 e, por fim, um terceiro até a deposição do ditador em 1945.
No Brasil, durante a década de 1930, o debate sobre a redefinição do país sintonizada com os preceitos da modernidade tomou novos rumos, configurando-se em redefinições nas relações de poder, cuja sustentação foi buscada na incorporação dos trabalhadores à política. Lutavam entre si para impor a imagem do novo regime, cuja finalidade era atingir o imaginário popular para recriá-lo nos moldes dos valores republicanos, e isso não poderia ocorrer apenas por meio de discursos, mas também por meio de imagens, alegorias, símbolos e mitos.150
O primeiro período foi marcado por contradições e conflitos, pois diferentes facções lutavam para definir os rumos do governo. Talvez a maior dificuldade que Vargas encontrou tenha sido a divisão do seu próprio bloco, a Aliança Liberal. De um lado os tenentes, que a princípio defendiam a reorganização nacional e eram hostis ao retorno do liberalismo ortodoxo de antes de 1930, ocupavam vários cargos em interventorias estaduais e exerciam significativa influência sobre o exército. Os tenentes fundaram no Rio de Janeiro o Clube 3 de Outubro, na tentativa de consolidar a influência política sem, contudo, conseguir impor ao regime seus valores e visão de mundo. Do outro lado, estavam os chefes políticos estaduais de Minas Gerais e Rio Grande do Sul, que defendia as reformas políticas e o fim da ditadura pela reconstitucionalização do país.151 Esses dois grupos divergiam sobre diversos assuntos: discutiam quanto ao poder do estado e poder federal; a questão econômica; quanto à escolha de interventores, entre outros.
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OLIVEIRA, Lúcia Lippi; VELLOSO, Mônica Pimenta; GOMES, Ângela de Castro. Estado Novo: Ideologia
e Poder. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1982, p.15-16.
150 SILVA, Zélia Lopes. A república dos anos 1930, a sedução do moderno: Novos atores em cena: industriais e
trabalhadores na Consituinte de 1933 – 1934. Londrina: Ed Uel, 1999.
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60 Com a revolução consolidada, passou a fazer parte do governo a pequena burguesia e a classe média mais intelectualizada, enquanto para a camada popular, que efetivamente apoiou a revolução, não mudaria muita coisa.152 O primeiro gabinete de Vargas foi formado pelos gaúchos Assis Brasil, ministro da Agricultura; Lindolfo Collor, responsável pelo Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio; Osvaldo Aranha, que ficou com a pasta da Justiça; pelo paulista José Maria Whitaker, ministro da Fazenda e pelo o mineiro Francisco Campos, que ficou responsável pelo Ministério da Educação e Saúde.
Vargas concentrou seus primeiros esforços na consolidação da coalizão que o levara ao poder e na criação de uma base popular, seus pronunciamentos agradavam a classe média em oposição às oligarquias rurais. Getúlio enfrentou grandes dificuldades durante seus primeiros anos de governo. Em fins de outubro de 1931, soldados apossaram-se por dois dias de seus quartéis em Recife, antes de serem dominados; havia greves frequentes, principalmente contra as companhias ferroviárias e nos portos; em março de 1931, no Rio Grande do Norte, funcionários contratados para construir uma estrada de Natal a Macaíba exigiram mais auxílio-alimentação; soma-se a isso a oposição implacável da velha oligarquia de proprietários de terras e de líderes empresariais e industriais do centro-sul;153 por fim, cresciam as pressões pela reconstitucionalização do país, principalmente no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Nesse estado, intensificou-se a oposição quando, em fevereiro de 1932, uniu o Partido Democrático e o Partido Republicano numa frente contra Vargas, pouco depois, essa frente começou a conspirar contra o governo.
2.2 A Revolta de 1932
O movimento de 1932 em São Paulo expressou as disputas políticas em curso, que desaguaram numa guerra civil a nove de julho. Os paulistas, descontentes por terem perdido a hegemonia nacional, não aceitaram o interventor nomeado pelo governo e insistiam na convocação da constituinte, prometida desde a tomada do poder em 1930. Nessa revolta, o rádio mostrou sua capacidade de mobilização política, as disputas entre as emissoras paulistas e cariocas, especialmente entre a Rádio Record, de São Paulo, e a Rádio Philips, do Rio de Janeiro, que antes da revolta realizavam transmissões conjuntas, serviram como armas de luta,
uma tratando de “desmentir” a outra, considerada inimiga.154
152 CALDAS, Waldenyr. Op. cit., p. 178. 153
LEVINE, Robert. Pai dos pobres?: O Brasil e a era Vargas. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p.49.
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61 O início do movimento abalou o governo, porém o estado de São Paulo contaria com o apoio de outros estados, o que de fato não aconteceu. Três personagens foram decisivos para a vitória do governo: Flores da Cunha, interventor no Rio Grande do Sul, que zelou pela ordem nesse estado; o mineiro Olegário Maciel, que retribuiu o apoio recebido de Vargas; e os estados do Norte, originalmente unidos em torno de Juarez Távora. Junte-se a isso o fato de a Revolução ter se originado em São Paulo, o que deu margens a discursos sobre o reestabelecimento da República Velha.155 São Paulo não tinha condições de manter as hostilidades diante do poder das tropas federais. A luta durou apenas oitenta e quatro dias e Getúlio chegou a ordenar o bombardeamento da cidade pela Força Aérea.
O movimento teve reflexos positivos para São Paulo, uma vez que o governo decidiu apaziguar sua relação com os paulistas e tomou medidas econômicas que favoreciam o estado, além de ter concordado em ressarcir os bônus de guerra emitidos pelos rebeldes.156 A despeito do fracasso do levante, em 1933 foram realizadas as eleições para a Assembleia Constituinte, cujos debates expressaram as profundas diferenças a respeito dos caminhos do país. Em 16 de julho de 1934, logo que se encerrou a segunda Copa do Mundo de futebol, foi promulgada a nova Constituição, e Vargas garantiu mais um mandato presidencial.
A revolta paulista refletiu-se no futebol, aguçando ainda mais a rivalidade entre Rio de Janeiro e São Paulo. Os esportistas paulistas apoiaram a revolta, Friedenreich, destaque do Sul-americano de 1919, tornou-se tenente das tropas paulistas. É de se notar que a preparação da Seleção Brasileira para Copa de 1934 foi prejudicada pelo contexto de guerra civil. Os jogos resumiram-se à Copa Rio Branco, ou seja, um jogo contra o Uruguai, vencido por nós por dois a um e, por fim, três amistosos. Observe-se que na Copa Rio Branco não se pôde contar com jogadores paulistas, que deveriam cumprir as etapas do campeonato do estado, que fora paralisado, e tampouco contou com cariocas importantes, caso de Nilo, Carvalho Leite, Preguinho e Russinho.157 Formou-se uma seleção novata, e, apesar do pessimismo, a vitória garantiu uma recepção entusiástica, desfilou em carro aberto, com a presença do presidente provisório, Getúlio Vargas, numa das sacadas do Palácio do Catete.158
155 BOURNE, Richard. Op. cit., p. 92. 156
ROSE, R.S. Op. cit., p. 50.
157 MAZZONI, Tomás. Op. cit., p. 235.
158 COSTA, M. Da Silva Drumond. Os gramados do catete: futebol e política na Era Vargas. In: SILVA,
Francisco Carlos Teixeira da; SANTOS, Ricardo Pinto dos (orgs.). Memória Social dos esportes: futebol e
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