3.4. Araştırmanın Uygulama Süreci
3.4.1. Pilot Uygulama ve Ortam
psicanálise
Após um espaço de oito anos das nossas fontes primárias, já nas primeiras páginas do livro A escola sob medida, encontramos várias referências ao conceito de interesse. Claparède explica, logo de início, que a propriedade fundamental da atividade mental, qual seja a de estar a serviço do interesse biológico do organismo, poderia ser formulada em uma lei, a Lei do Interesse Momentâneo, a qual foi definida na página 55, mas a repetiremos aqui para facilitar a leitura: “a cada momento, é o instinto mais importante que se sobrepõe aos demais, ou a cada instante, o organismo age conforme a linha de seu maior interesse” (CLAPARÈDE, 1920 / 1959, p. 29). Ao utilizar o interesse dessa forma, para explicar a adaptação da conduta, Claparède quis mostrar uma relação constantemente observada entre a reação e a necessidade:
Fisiologicamente, pode-se representar esta ‘reação de interesse’ como dinamogenização dos processos reacionais adequados à situação presente. Tal dinamogenização é determinada, ao mesmo tempo, pelo excitante e pela necessidade do momento. A reação é dinamogenizada na medida em que o excitante é capaz de satisfazer a necessidade (...) (CLAPARÈDE, 1920 / 1959, p. 30).
O sono é para Claparède um exemplo claro da sua Lei do Interesse Momentâneo, pois ele tem uma função de proteger o organismo contra o esgotamento, provocando assim um desinteresse psicológico em detrimento do interesse orgânico:
Não é por estarmos intoxicados que dormimos, mas dormimos para não chegarmos a isso. Esta função de proteção consiste em suspender a atividade do indivíduo, desinteressando-o da situação
presente. Porém, este desinteresse psicológico é, ele mesmo, determinado pelo interesse orgânico e o sono é, portanto, um caso particular da lei do interesse momentâneo” (CLAPARÈDE , 1920 /
1959, p. 31)
A noção de interesse é ainda importante porque permite distinguir um ato, uma conduta de um simples reflexo mecânico, como a reação patelar. Para Claparède, um ato, ou uma reação espontânea “é toda reação regida pela lei de interesse momentâneo, modificando-se (permanecendo idêntico o excitante) em conformidade com as necessidades do organismo” (CLAPARÈDE, 1920 / 1959, p. 32). O conceito de reação de interesse equivale, então, ao processo de liberação de energia, ou seja, ao processo de dinamogênese pelas excitações que são capazes de provocar a reação. Entendendo que a atividade é sempre suscitada por uma necessidade, Claparède transpõe essa lei do plano biológico para o psicológico, partindo de uma concepção psicobiológica do interesse, e propõe o esquema “atividade f (interesse)”, onde f pode ser lido como função. Com isso ele pretende explicar que a atividade é sempre resultado do interesse, o qual é visto como o aspecto psicológico da necessidade e responsável pelo restabelecimento do equilíbrio orgânico, mental ou espiritual.
A atividade é sempre suscitada por uma necessidade (...). Se transpusermos esta lei do plano biológico para o psicológico, teremos a seguinte fórmula, mais cômoda para o educador: A atividade é sempre função do interesse: atividade f (interesse). O interesse é, com efeito, o aspecto psicológico da necessidade, para restabelecer meu equilíbrio orgânico, mental ou espiritual (CLAPARÈDE, 1920 / 1959, p.100)
Após todas essas questões conceituais, vamos encontrar nessa obra várias referências à noção de interesse relacionada à educação, como já havíamos visto em textos anteriores. Segundo Claparède, nada se deve ensinar antes de se haver suscitado a necessidade de saber, antes de haver despertado uma necessidade de ação através do interesse da criança, pois é “sobre os interesses, que o educador deve apoiar-se. Se são vivos, resta somente propor à criança as atividades que lhe interessem; se dormem ainda, é preciso dedicar-se em primeiro lugar, e fazê-los vibrar” (CLAPARÈDE, 1920 / 1959, p. 101). Isso é imprescindível de se observar, uma vez que a criança somente assimila conhecimentos, sentimentos ou esquemas de ação quando estes satisfazem a
uma necessidade, ou seja, ela só adquire comportamentos que lhe interessam. Portanto, “o sucesso da ação educativa, organizada, por hipótese, em função da criança e de seus interesses, depende praticamente da habilidade do educador, de seu saber, de sua engenhosidade, de seu amor” (CLAPARÈDE, 1920 / 1959, p. 102). Além disso, Claparède retoma a idéia de que o sucesso dependerá, também, de o educador considerar que os interesses humanos se modificam com a idade e guiar-se pelos interesses dominantes da criança em cada fase do seu desenvolvimento e não pelas idéias educativas preconcebidas.
Tudo isso deve ser feito baseando-se no fato que “a educação funcional, organizada em função da criança, respondendo a suas necessidades ou a seus interesses, é, centralmente, um processo endógeno, não uma contribuição exógena” (CLAPARÈDE, 1920 / 1959, p. 103). Com isso, Claparède diz que a mola de educação não deve ser o temor, o castigo ou a expectativa da recompensa, e sim o interesse pela coisa que se tem que assimilar ou executar. De uma maneira alegre, o mestre deve ser um estimulador de interesses e necessidades:
Em resumo, a disciplina interior deve substituir a disciplina exterior. (...) A escola deve fazer amar o trabalho. Demasiadas vezes, ensina a detestá-lo, criando, em torno dos deveres impostos, associações afetivas desagradáveis. Portanto é indispensável que a escola seja para a criança um meio alegre (..) (CLAPARÈDE,
1920 / 1959, p. 106).
Há também uma relação que se estabelece entre o interesse e o esforço que, conforme Claparède (1920 / 1959, p.114), trata-se de duas noções que se complementam, sendo “dois aspectos do mesmo impulso, pelo qual se constrói a pessoa, sendo o interesse somente o momento psicológico do acontecimento interior, cujo momento energético é o esforço”. As crianças somente despenderão todos os esforços de que são capazes, sobre um dado objetivo, se esse objetivo corresponde a uma necessidade, a um interesse dominante atual. O mesmo se dá com a atenção da criança, a qual se consegue fazer fixar “se se incluir, no exercício por fazer, na tarefa por cumprir, a alegria e o interesse que só o jogo lhe proporciona” (CLAPARÈDE, 1920 / 1959, p. 115). Para Claparède, o que se consideraria “inútil” poderia ser transformado em conhecimento fecundo
para a criança se fosse apresentadono contexto vital dela, “isto é, se vinculadas à sua esfera natural de interesses” (CLAPARÈDE, 1920 / 1959, p. 175).
Além da Escola sob medida, tomamos aqui a introdução à Cinq Leçons sur la Psychanalyse. Apesar desse trabalho somente ter sido publicado, pela primeira vez, em 1924, preferimos considerar a data em que Claparède o escreveu, ou seja, 1920.
Nessa introdução ao texto de Sigmund Freud, Cinco lições sobre a psicanálise, Claparède critica as pessoas que debocham da teoria freudiana e fala da importância dos estudos de Freud para a vida cotidiana como algo que vem responder a perguntas feitas por muitos e que não têm respostas. Conta que visitou Freud uns dois ou três anos antes da Guerra e comenta sobre a biblioteca dele, que continha livros em línguas as mais diversas. Fala sobre a influência do psicanalista em Genebra, nas figuras de M. Flournoy, M.M. P. Bovet, G. Berguer, F. Morel, Ch. Baudouin, H. Flournoy, R. de Saussure e Dr Maeder.
Ademais, Claparède esclarece que explicará alguns termos utilizados por Freud para auxiliar aqueles que não têm conhecimento de psicanálise e começa explicando que a palavra psicanálise se aplicaria a quatro diferentes coisas: um método de exame; uma tentativa de aplicar rigorosamente à vida mental o princípio do determinismo; uma hipótese geral que considera todas as criações do espírito humano. Claparède (1924a, p.17) diz que “podemos dizer assim que nada, na psicanálise, é inteiramente novo, salvo, precisamente, a psicanálise”90.
Ele apresenta ainda algumas breves explicações sobre determinados conceitos psicanalíticos, como o de recalque; de ação dos elementos recalcados; de fantasia; de sonho; de compreensão da realidade; de pensamento simbólico; de refúgio no mal-estar (sintoma) e de libido.
90
Original: “nous pouvons dire aussi que rien, dans la psychanalyse, n´est entièrement nouveau,
Ao explicar a noção de libido que, para Freud ultrapassa a questão sexual e que significa o mais lembrado, o desejo impetuoso, Claparède relaciona esse conceito psicanalítico central com a sua noção de “interesse”:
Libido, esta significa com mais freqüência o desejo impetuoso, - o qual, é verdade, o desejo sexual é, segundo Freud, o tipo e o primeiro representante, na evolução do indivíduo -; é o desejo de felicidade, ou de gozo (deleite), o interesse por tudo que é de natureza a satisfazer nossas necessidades, que ninguém nega ser o princípio mesmo de toda nossa atividade91 (CLAPARÈDE,
1924a, p.30).
Claparède foi mais claro quanto à relação que ele entendia existir entre a libido e o interesse no livro A Escola sob medida, do qual falávamos no item anterior:
(...) é verdade, o desejo sexual é, segundo Freud, o tipo e o primeiro representante, na evolução do indivíduo-; é o desejo de felicidade, ou de gozo (deleite), o interesse para tudo o que é de natureza a satisfazer nossas necessidades, que ninguém nega ser o princípio mesmo de todas as nossas atividades (CLAPARÈDE, 1920 / 1959, p.30)
Antes disso, ao explicar o refúgio na doença, Claparéde acentua a caráter funcional e dinâmico da psicanálise, dizendo que “a neurose tem uma significação funcional, dinâmica, ela é uma manifestação defensiva do indivíduo que se refugia na doença para escapar dos conflitos que não pode superar”92 (CLAPARÈDE, 1924a, p.28).