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Pierre Bourdieu, Habitus ve Alan

3. BÖLÜM

7.2. Sosyolojik Teoride Yapı – Fail İkilemi

7.2.3. Pierre Bourdieu, Habitus ve Alan

As mudanças impostas pelo neoliberalismo à economia e à política mundial, com seus efeitos nacionais e, mais especificamente, em relação à política energética, levou o MAB a se reestruturar. Ter um conhecimento mais aprofundado dos efeitos destas mudanças e traçar novos caminhos a serem seguidos pelo Movimento passaram a integrar a pauta de discussões. A realidade que o MAB estava vivenciando era a do domínio cada vez maior do capital privado sobre o setor elétrico, discussão para construção de centenas de novas hidrelétricas26, ocorria a diminuição do tempo entre a proposição para a realização dos empreendimentos e o início da construção das hidrelétricas. Também, ocorria de forma cada vez mais intensa, a judicialização do Movimento; as empresas privadas buscavam desmoralizar o MAB junto às comunidades a serem atingidas por novos empreendimentos hidrelétricos; defendia-se a posição de que depois de ocorrer as indenizações a maioria dos atingidos se distanciava do Movimento.

A partir destas constatações, lideranças do MAB passaram a fazer uma leitura marxista, com destaque ao marxismo-leninista, pela qual organizaram um pensamento que se fundamenta na compreensão da realidade vivenciada associada a uma nova dinâmica de ação,

buscando se inserir nas discussões mundiais sobre a possibilidade de “um outro mundo” e na

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organização de um projeto popular para o Brasil, como veremos a seguir.

Com a expansão do neoliberalismo, ocorreu uma nova corrida, por parte de grandes empresas, a fim a de se apoderarem das empresas estatais e dos setores da economia que as mesmas dominavam. O Estado interventor, principalmente em decorrência da crise de 1929 e da Segunda Guerra Mundial, passou a diminuir seu poder de intervenção por intermédio das privatizações, ampliando-se a separação entre poder econômico e político. O discurso dos defensores do neoliberalismo era marcado pelo sonho de se voltar à livre concorrência nas atividades que estavam sob domínio do Estado, o que levaria a uma melhoria na qualidade e queda de preços dos produtos e serviços oferecidos.

O entendimento que as lideranças do MAB passaram a ter é que estava ocorrendo uma nova onda de expansão do capital, na forma imperialista, porém com a máscara neoliberal. Um número reduzido de empresas estava se apossando das fontes de energia elétrica oriunda de usinas hidrelétricas em diferentes países. Dentre estas empresas tinham as que dominavam diferentes matérias-primas em vários países. Estaria ocorrendo uma apropriação de territórios por parte destas empresas, que, no afã de ampliar seus lucros e aumentar seus capitais, estavam expropriando e desestruturando muitas comunidades tradicionais. A ampliação do domínio do capital financeiro sobre a economia mundial, centrado em bancos e organizações internacionais de financiamento, era o que dava a sustentação a este novo modelo de expansão do capitalismo.

O discurso neoliberal de que a quebra do monopólio do Estado em diversos setores econômicos promoveria concorrência entre capitais resultando na diminuição dos preços dos produtos oferecidos, logo nos primeiros anos de sua implantação, passou a ser criticado, pois ocorreu elevação dos preços dos serviços e produtos oferecidos, como também as melhoras prometidas ocorreram apenas para grupos específicos e não para a população como um todo. No que tange a geração e distribuição de energia, a livre concorrência não ocorreu, mas sim a transferência do monopólio do Estado para o setor privado. Tendo o domínio sobre o setor energético o capital privado procura obter o maior lucro possível.

O que estaria ocorrendo era a implantação, em escala mundial, de um novo colonialismo, centrado no domínio de grandes empresas, que tem suas origens em países desenvolvidos, com o apoio de grupos nacionais. Este novo colonialismo, caracterizado como imperialista e monopolista, é semelhante ao que ocorria no fim do século XIX e início do século XX. Ao analisar-se a caracterização que Lênin (1987) fazia daquela época e ao compará-la com a atualidade podem-se identificar muitas semelhanças.

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fundamentais:

1 – concentração da produção e do capital atingindo um grau de desenvolvimento tão elevado que origina os monopólios cujo papel é decisivo na vida econômica;

2 – fusão do capital bancário e do capital industrial, e criação, com base desse capital financeiro, de uma oligarquia financeira;

3 – diferentemente da exportação de mercadorias, a exportação de capitais assume uma importância muito particular;

4 – formação de uniões internacionais de monopolistas de capitalistas que partilham o mundo entre si;

5 – termo de partilha territorial do globo entre as maiores potências capitalistas.

Buscando explicar a formação de monopólios e suas conseqüências, Lênin (1987) destaca que o monopólio nasceu da concentração da produção; os monopólios conduziram ao controle cada vez maior das principais fontes de matéria prima; eles se desenvolveram através de bancos; resultam da política colonial. Tem-se a impressão que a realidade vivenciada por Lênin se transferiu para a atualidade.

Ao fazer a análise sobre como o MAB vinha se organizando e atuando, lideranças do Movimento identificaram que sua organização era artesanal e sua atuação estava centrada na questão econômica, não contribuindo para que ocorresse, realmente, transformação social, apenas, ou no máximo, reformas sociais que poderiam ser perdidas a qualquer momento. Tratando mais especificamente da luta do MAB, o que se via era uma “falta de lógica” por parte do capital na forma de indenizar os atingidos, sendo que ganhos econômicos e sociais ocorridos em uma barragem não se repetiam em outra. Continuaria sendo as condições de organização e ação do Movimento que definiriam as condições de indenização. Também, ficou evidente para as lideranças que não seria possível cessar a política de construção de grandes barragens mantendo-se a atual lógica de atuação do Movimento.

As lideranças interpretaram que a trajetória do MAB vinha sendo marcada por uma proximidade com as idéias de Bernstein e outros revisionistas (LUXEMBURGO, 1999), que acreditavam ser possível fazer a transformação da sociedade por reformas sociais, negando a necessidade de expropriação da classe capitalista. Neste sentido a ação dos sindicatos, cooperativas e dos parlamentares eram de grande importância.

Os sindicatos deveriam garantir a melhoria da situação material dos operários, com ações voltadas ao aumento de salários e redução de tempo de trabalho. Porém, destaca Luxemburgo (1999), que se ocorrer uma crise, os capitalistas ameaçam as conquistas sociais dos trabalhadores e muitos sindicatos passam a lutar, simplesmente, para manter as conquistas já realizadas. A possibilidade de perda das conquistas dos trabalhadores seria imanente.

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As cooperativas de produção seriam um ser híbrido na economia capitalista, ou seja, a pequena produção socializada dentro de uma troca capitalista e por elas seria possível controlar o lucro do capital comercial. Luxemburgo (1999) rebate esta idéia de Bernstein destacando que no capitalismo a troca domina a produção, e a força de trabalho fica presa às necessidades do mercado, podendo ser dispensada em certos momentos. Em momentos de crise, ou a cooperativa agiria como uma empresa capitalista ou tenderia a se dissolver.

Para Bernstein o parlamento burguês era indicado como o órgão para fazer a transformação social da história, ou seja, a passagem da sociedade capitalista para a socialista, e a democracia é colocada como ponto de destaque político. Em sua análise, Luxemburgo (1999) destaca que a democracia não é uma criação do capitalismo, que a mesma já se fez presente em formações sociais primitivas, escravagistas, absolutistas etc., mas sempre para garantir as formas de poder existentes e, quando ameaçava este poder, era abandonada.

A teoria de Bernstein se atinha, unicamente, à reforma da ordem capitalista, não à supressão do assalariamento, buscava a diminuição da exploração sobre o trabalhador, em suma, a supressão dos abusos do capitalismo e não do próprio capitalismo. Partindo destes pressupostos a luta dos trabalhadores teria a finalidade de alcançar uma forma mais justa de repartição dos lucros da riqueza social. Mantendo-se o Estado capitalista, a lógica do capital é que prevalecerá e o mesmo estará a serviço do capital.

Negando as idéias de Bernstein, Luxemburgo (1999) diz que este autor abandonou a

“teoria do desmoronamento”, negou a necessidade de expropriação e estabeleceu como finalidade do movimento operário a realização progressiva do “principio do cooperativismo”,

que representa uma adaptação ao capitalismo. Nesta perspectiva colocava em xeque a existência de classes, a necessidade da luta de classe e proclama a reconciliação com o liberalismo burguês.

A lógica dos Novos Movimentos Sociais, as negociações do PT com partidos políticos que representam os interessem do capital, a submissão das centrais sindicais ao ditame do capital foram amostras de que o projeto popular que veio sendo construído nas últimas décadas no Brasil era apenas reformista.

Para fazer frente ao capitalismo fazia-se necessário a profissionalização dos movimentos sociais com posição antissistêmica e que, para tanto, dever-se-ia atuar em três frentes: política, econômica e teórica. O trabalho artesanal é marcado pela espontaneidade das pessoas, desprovida de maior preparação e estudo, não agregando conhecimentos sobre si e sobre outros grupos sociais, impedindo uma boa organização e a possibilidade de, realmente, fazer frente ao capital. A visão economicista é marcada, também, pela espontaneidade das

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massas, incitando os operários a pensar somente na atitude do governo em relação à classe operária, não levando ao desenvolvimento da consciência política dos operários e desemboca na impotência política (LÊNIN, 1979). A profissionalização e garantia de estabilidade para as lideranças passaram a ser entendidas como fundamentais, pois, somente capacitados e podendo se dedicar à causa na qual estão envolvidos, teriam a possibilidade de promover um processo de grandes transformações sociais. Seriam estas lideranças profissionais que conseguiriam transformar a luta espontânea dos operários em uma verdadeira luta de classe. Estas lideranças formariam a vanguarda da organização, que deveria ser integrada tanto por trabalhadores como por intelectuais, sendo que estas diferenças não deveriam ser motivos de hierarquia entre eles. Esta vanguarda deve ser em um número reduzido e formada por pessoas experientes que devem ter estabilidade em suas atividades, e serem aptos a fazer campanhas de denuncia e agitação junto à classe trabalhadora.

Conforme foi destacado anteriormente, a atuação das lideranças deve levar a uma atuação que extrapole a questão econômica, inserindo discussões políticas e debates teóricos. Para tanto, faz-se necessária a adoção de matrizes teóricas que realmente conduzam os trabalhadores a lutar por uma “outra sociedade”27. Torna-se importante a leitura e o domínio do conhecimento, tanto para lideranças como para os trabalhadores, não devendo o nível de conhecimento das lideranças rebaixar-se ao nível das massas, como destacavam os economistas, e sim, elevar o nível de consciência dos trabalhadores, com leituras populares acessíveis aos diferentes graus de conhecimento dos mesmos.

Neste sentido o setor de educação28 do MAB passou a ser mais valorizado, fomentando e buscando condições objetivas para que militantes pudessem participar de cursos técnicos ou de nível superior nas escolas mantidas pela Via Campesina e, também, participar de convênios com faculdades e universidades públicas e privadas, nas quais, ou de forma individual, ou na formação de turmas especiais, seus militantes pudessem se qualificar. Cursos de formação de militantes de maior duração (15 dias a 30 dias), com várias etapas, também passaram a ser realizados junto a universidades ou contratando consultorias particulares.

Buscar conhecimentos fora do mundo dos trabalhadores e deslocar lideranças para conhecer novas realidades e contribuir com seus conhecimentos em diferentes locais são ações que passaram a ser estimuladas no Movimento.

27Podemos no referir a Lênin (1979:52) quando destaca que “sem teoria revolucionária, não há movimento

revolucionário”.

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A questão da educação será apenas mencionada neste trabalho, porém é um interessante tema para pesquisa futuras.

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Junto com a centralização de poder está vinculada a escala nacional das ações, devendo as ações locais ser submetidas aos ditames da coordenação nacional. A centralização das decisões evitaria a perpetuação das ações espontâneas e possibilitaria uma formação paulatina e seqüencial de lideranças e das massas, formando um pensamento homogêneo em relação à exploração do capital sobre o trabalho.

A avaliação feita pelas lideranças do MAB é que a prática do Movimento estava deficitária de referências teóricas e de um plano prático, atendo-se a uma função sindical e não conseguindo estimular a criação de uma organização que pudesse contribuir para que fossem realizadas grandes transformações sociais. O máximo que conseguiam eram algumas reformas sociais em benefício dos trabalhadores, enquanto, o capital monopolista continuava a se expandir de forma acelerada. Superar a visão puramente economicista e artesanal (sindicalista-reformista) predominante no MAB passava a ser uma necessidade primordial. O MAB passa a negar, em parte, as matrizes discursivas que o orientaram até o momento, sintetizadas na idéia de Novos Movimentos Sociais.

Diante da nova realidade apresentada o que deveria o MAB fazer? Acabar com a lógica de pensamento despolitizada dos Novos Movimentos Sociais e organizar um novo projeto popular, embasado de forma mais profunda na teoria marxista.

1.3.2 . A Via Campesina

A gênese da Via Campesina está ligada ao estreitamento das relações entre ativistas de organizações rurais de vários continentes, ainda na década de 1980, ligados a mudanças na governança mundial29 e ao viés neoliberalizante tomado pelas políticas agrícolas mundiais naquela década. Neste período ocorre uma aproximação de vários ativistas de diferentes países, com diferentes culturas e objetivos, que tinham em comum, na época, a luta contra as negociações do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT), atual OMC, por entenderem que elas eram prejudiciais aos pequenos agricultores e camponeses do mundo todo, e por fazerem oposição às grandes empresas transnacionais do agronegócio, principalmente as ligadas aos produtos transgênicos. Eram ativistas que se posicionavam contra a globalização

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Os Estados nacionais passaram a sofrer tripla pressão: „de cima‟, a partir da globalização, que implicou em que parte do poder de controle do estado fosse cedido a mecanismos de regulação supranacional, como a OMC,

o FMI e o Banco Mundial; „de baixo‟, a partir da descentralização parcial dos poderes políticos, fiscais e

administrativos do estado nacional, que passam a ser mais compartilhados entre os governos municipais e

estaduais; e „pelos lados‟ através da privatização de algumas de suas funções, por meio do surgimento de

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neoliberal. Estes pretendiam formar um movimento social liderado e conduzido por camponeses e pequenos agricultores de diversas regiões do planeta, que pudessem falar de si e por si, sem a intermediação de Organizações não Governamentais (ONGs) ou outras instituições. Depois que estivesse consolidado, o novo movimento passaria a buscar as possíveis parcerias (NIEMEYER, 2007).

A Via Campesina surge, a partir de 1992, em um encontro que juntou camponeses da América Central, América do Norte e Europa em Manágua (Nicarágua) para discutir questões em comum. Deste debate surgiu a organização da I Conferência da Via Campesina, em Mons, (Bélgica), que se realizou em maio de 1993, contando com a participação de organizações de camponeses de diferentes continentes, na qual se debateu a formação de uma organização mundial e se definiram as primeiras linhas e estratégias de ação e sua organização estrutural. A II Conferência Internacional ocorreu, em 1996, em Tlaxcala (México), com representantes de 37 países e nela se debateram temas de interesse dos pequenos e médios produtores como: soberania alimentar, crédito e dívida externa, reforma agrária, tecnologia, participação das mulheres, desenvolvimento rural etc. A III Conferência ocorreu, em 2000, em Bangalore (Índia), e contou com a participação de representantes de instituições de mais de 40 países que, entre outros temas, discutiram biodiversidade, biossegurança, soberania alimentar e comércio internacional.

A Via Campesina é formada por diferentes instituições que representam camponeses, trabalhadores agrícolas, mulheres rurais e comunidades indígenas, proclama-se autônoma, pluralista, sem ligações políticas, econômicas ou de qualquer outro tipo. As Conferências Internacionais, que ocorrem a cada três anos, são as instâncias máximas de decisões, sendo as organizações regionais instâncias de articulação e a Comissão Coordenadora Internacional responsável pelas regionais. Em todas as comissões, existe uma igualdade no número de integrantes de homens e mulheres. Um dos pontos centrais das ações da Via Campesina é fazer frente ao neoliberalismo e propor alternativas para que a grande maioria do povo seja protagonista no mundo em que vive (VIA CAMPESINA BRASIL, 2002). Por ser formada por uma variedade de atores, não se encaixa em uma definição de classe tradicional, sendo necessário ser pensada de forma diferenciada, mesmo compartilhando a identidade de classe. O que une os camponeses ligados à Via Campesina é a bandeira de oposição ao neoliberalismo e de serem econômica e politicamente marginalizados, tanto em nível nacional como internacional. Sua identidade é constituída e mantida a partir da alteridade. É a negação do outro que justifica a eleição dos alvos (empresas transnacionais, multinacionais etc.), que simbolicamente, representaria a rede à qual se opõe.

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Para Niemeyer (2007), a Via Camponesa é uma Rede Transnacional de Movimentos Sociais com característica dual: é ator e arena de ação ao mesmo tempo. Como ator, representa a voz e os interesses camponeses junto ao sistema nacional; e, como arena, é o espaço na qual diversos grupos sociais e atores (em diferentes escalas) negociam e estabelecem metas, objetivos e campanhas comuns, fortalecendo-se mutuamente.

Dentre as linhas políticas adotadas pela Via Campesina podemos destacar: a) a soberania alimentar como um direito dos povos, com alimentos sadios e culturalmente apropriados, para tanto, faz-se necessário o acesso à terra e condições para que ocorra a produção. Quando houver necessidade de comércio de alimentos, que seja feito de forma justa, respeitando-se os direitos humanos e as convenções internacionais, não tornando os alimentos uma mercadoria que fique à mercê dos interesses de grupos econômicos privados; b) que os recursos genéticos sejam entendidos como patrimônio da humanidade e não sejam transformados em propriedade privada (Propriedade Intelectual); c) reforma agrária e mudanças sociais no campo como forma de distribuição da propriedade da terra, valorizando a autonomia e a cultura camponesa que representa, também, uma maior preservação dos recursos naturais; d) discussões de gênero que garantam igualdade e direitos humanos, justiça econômica e condições de participação e desenvolvimento a todas as pessoas, indiferente do gênero; e) que os direitos humanos sejam preservados e que seja combatida qualquer forma de ação que venha a violar estes direitos, com atenção especial para que os direitos humanos dos camponeses e camponesas sejam ampliados e respeitados.

Em seu estatuto, a Via Campesina coloca que seu principal objetivo é:

Desenvolver a solidariedade e a unidade na diversidade entre as organizações do campo, para promover relações econômicas de igualdade e justiça social, a defesa da terra, a soberania alimentar, uma produção agrícola sustentável e equitativa, baseada nos pequenos e médios produtores (VIA CAMPESINA Brasil, 2002 p. 39).

O que fica claro para os integrantes da Via Campesina é a nova lógica de dominação do capital sobre a agricultura, mais especificamente do capital financeiro, que por meio das grandes empresas transnacionais, passa a controlar diferentes setores econômicos, inclusive a agricultura. Tendo o domínio da agricultura, grupos econômicos internacionais (Monsanto, Cargill, Du Pont, Sygenta, Novartis, Nestlé, Danone, Bunge, Wal Mart, Carrefour, Makro etc.) passam a dominar o comércio agrícola mundial, levando a um processo de concentração e desnacionalização das empresas agroindustriais, padronizando os alimentos em escala mundial, controlando as técnicas a serem utilizadas na produção agrícola e, nos últimos tempos, tentando agir sobre o controle da propriedade privada da água potável. Esta ação do

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capital financeiro internacional vem se tornando possível graças ao controle que exercem sobre o Estado no que se refere à definição das políticas das agriculturas nacionais, nas quais o mercado passa a ter o papel de definidor dos preços agrícolas (STEDILE, 2004).

O neoliberalismo é colocado como a forma pela qual o capital financeiro vem ampliando seu domínio pela imposição dos acordos regionais de comércio, que é conduzido pela Organização Mundial do Comércio (OMC) – liderada pelo grupo dos sete países mais ricos –, por acordos/imposições bilaterais, pelas políticas impostas pelo Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) e outras instituições internacionais, que implementam

políticas ditas de “desenvolvimento rural” (VIA CAMPESINA BRASIL, 2002).

Entender a nova lógica de atuação do capital e suas contradições e agir sobre as mesmas se tornam a função dos movimentos camponeses, e, em especial, da Via Campesina enquanto articuladora internacional. Assim, se o capital passa a agir de forma global, os camponeses necessitam de uma articulação internacional, rompendo métodos corporativos localizados, pois os inimigos e os problemas (preço, mercado, etc.) são os mesmos; precisa-se incorporar