Sosyal Hizmetler Dairesi Başkanlığı
3.2.3. Performans Bilgi Sisteminin Değerlendirilmesi
Após descrever os posicionamentos discursivos, os ritos genéticos e as formas de si observados em tal escritura, uma última pergunta nesta tese se apresenta: como a Educação, em seus discursos dominantes e dispositivos didáticos mais recorrentes, atravessados por seus valores e códigos morais, seria afetada por eles?
Certamente, há discursos – predominantes – da Educação que não apreciariam muito essa experiência e tenderiam a vê-la distorcidamente: Rir do outro? Elogiar a embriaguez? Manifestar a crueldade? Viver hedonicamente o aqui e o agora? Vivenciar a indisciplina e a boemia? Criar pelo erro? Em que currículo escolar esses posicionamentos, ritos e formas de si seriam tomados como conteúdos procedimentais e atitudinais a serem ensinados? Em que política educacional seriam tomados como pressupostos para metas a serem atingidas?
A resposta será evidente. É por isso que as indagações podem ser outras que não orientadas por uma concepção “salvadora” de Educação. Porque, tal como Maffesoli, acredito que é mais interessante ver o mundo como é, não como deveria ser (MAFFESOLI, 2005a, 180). Esta tese, assim, não se filia a um discurso vigente sobre Educação que a concebe como resposta sobre como “educar/salvar” o mundo. Não mesmo. Como diria Raul Seixas, o
messias ainda não chegou. Interessa-me, pois, questionar: o que essa experiência de
escritura teria a dizer à Educação?
De forma sistemática, a tese sobre essa escritura permite refletir alguns pontos de destaque. Vejamos:
Após o capítulo de introdução, no capítulo 2 tracei uma relação entre as práticas de escrita de fanzines e revistas alternativas, o contexto da pós-modernidade e o conceito de dionisíaco em Nietzsche, bem como sua retomada em Maffesoli. O debate sobre a pós- modernidade traz à tona o questionamento do estatuto da ciência e de conceitos e categorias de análise próprios da modernidade, como, por exemplo, a noção de sujeito. Com esse outro olhar, o sujeito compreende-se como marcado pela inconclusão (impermanente, pois condicionado e estratégico, sempre em formação e sucetível diante da experiência).
No capítulo 3 e 4, utilizando o suporte teórico e metodológico de Maingueneau, descrevi os ritos genéticos e os posicionamentos discursivos assumidos pelo grupo em sua escritura, os quais estariam associados ao mito de Dioniso – o sucumbir prazeroso à quebra da individualidade pela vivência coletiva, marcada pela presença da embriaguez, do riso e da crueldade numa manifestação artística. Tentei mostrar como não é possível abstrair essas duas categorias – ritos genéticos e posicionamentos discursivos – uma da outra, o que implica também que haja necessariamente uma relação de condição entre elas. Isto se sustenta no próprio princípio de errância, associado ao mito de Dioniso e à sua revitalização no cenário pós-moderno. Assim, as formas de invenção de si dessa escritura mostram que, se seus ritos genéticos implicam boemia e indisciplina, não significa que em seus posicionamentos discursivos regulares – culto à vida do grupo, apelo ao riso, elogio à embriaguez e crueldade à vista – os sujeitos se constituam em identidades unívocas e certeiras, demonstrando identificações errádicas e plurais, pontentes e desejantes, mas não isentas de vulnerabilidade.
No capítulo 5, ao esboçar uma relação entre ética e estética, analisei as formas de si que giram em torno da escritura e que também reatualizam a figura de Dioniso, para o que me apoiei em Foucault e Larrosa. Através de elementos diversos – as funções de autoria, os cuidados de si e as concepções que têm de si e de sua escrita – o dionisíaco se manifesta nas formas errantes e “erradas” com que os sujeitos deslizam com sua escrita, bem como nas formas de criação que se realizam em seus modos de fazer e na sua apropriação de saberes.
Assim, o diálogo entre o que a escritura me permitiu interpretar e o que propõem alguns autores – Nietzsche, Maffesoli, Foucault, Maingueneau, Larrosa – me faz crer que essa escritura pode ser relevante para dar continuidade ao movimento de pensar e repensar os discursos da Educação.
Então, se com os conceitos de dionisíaco enfatiza-se a errância e a pluralidade de uma
filosofia da vida, posso ousar dizer que a escritura aqui abordada, com seus ritos genéticos, posicionamentos discursivos e constituições errádicas e criativas de si, com toda a
experiência na qual se fez, faz valer uma pedagogia da vida, ou melhor, uma vida sem
pedagogia.
Uma pedagogia que não só reconhece, mas valoriza a lição de que os espaços de aprendizagem significativa e letramento não se restringem à sala de aula; uma pedagogia que reafirma que os indivíduos envolvidos nesses processos também não se restringem aos lugares de “mestre” e “aprendiz”; uma pedagogia que celebra a errância e a pluralidade das funções de autor e subjetividade envolvidas na escrita; uma pedagogia para a qual o desenvolvimento da escrita está radicalmente ligado à leitura e à própria vivência do que se lê e do que se escreve; uma pedagogia que trata a leitura e a escrita como fundamentalmente ligadas às dimensões do prazer e dos afetos; uma pedagogia em que o cotidiano tem importância fundamental na fluição-fruição da escrita e leitura; uma pedagogia que reconhece os condicionamentos estruturais, as relações de poder e as agruras da existência; uma pedagogia que bebe na fonte do acaso e da espontaneidade, da transitoriedade e da potência artística; uma pedagogia, enfim, que prima pela experiência
da plena vivência.
Seria (im)possível tal pedagogia?
Talvez, fazendo minhas as palavras de Possenti (2009b), e abrindo possibilidades para se fazer o impossível, ousaríamos outras formas de conceber o fazer pedagógico em relação à escrita. Teria lugar, aí, uma atitude de...
...desescolarizar em boa medida a escola, em reorganizar as atividades segundo critérios de relevância, com prioridade absoluta para as atividades de escrita. Qualquer professor poderá descobrir um dia que é muito mais fácil trabalhar a escrita a partir dos textos dos alunos, especialmente quando eles contêm sangue, suor e lágrimas... (POSSENTI, 2009b, p. 101). Mas, como já aludi antes, trata-se de não propor agendas, programas, fórmulas de como fazer multiplicar (ou disciplinarizar?) as práticas significativas de escrita.
Gostaria, antes, de encerrar relembrando a pergunta que me perseguiu durante toda a escrita desta tese e que ainda me inquieta: como realizar a escrita do meu objeto, a prática
pedagógica implicada numa experiência de escrita, tentando, simultaneamente, manter sua vitalidade e garantir meu afastamento? Sim, porque, por mais que o corte “sujeito” versus “objeto” de pesquisa me pareça uma ficção epistemológica, a Academia não deixa de exigi- lo. Como, então, garantir meu distanciamento?
Folheando alguns zines e a revista, percebo. Tantas coisas há para dizer. Aí sim me sinto uma estranha. Distante, mesmo tão próxima. E assumo meu tom pessoal. Não nego as falhas e as lacunas deste texto, que poderia ser muito mais. Poderia abordar elementos que me vieram ao olhar e à mente, em situações fortuitas e diversas, que não me atrevi a abordar: a discussão sobre a questão do estilo e sua relação com os diferentes exercícios de autoria; a presença de Eros nesse cortejo dionisíaco, desdobrando, a partir daí, o romance (que “não é proibido”, segundo um dos muitos poemas-coletivos do grupo) e os usos da sexualidade; a presença das mulheres – as ninfas e musas do Bosque – nessa autoria dionisíaca, de narradoras, leitoras, espectadoras ou inspiradoras; a questão, que muito lamento por não ter abordado, do que talvez se possa chamar socioleto do grupo, com suas gírias, jogos de palavras, invenções lexicais e demais especificidades linguageiras.
Creio, também, que ficou suficientemente clara a influência da escrita zínica69 na minha
tese, já que ela se apresenta enfaticamente como uma colagem de modalidades e gêneros. Quero, assim, assumir a intencionalidade por trás da ênfase na mistura entre o verbal e o não-verbal, entre o formal e o informal, na mescla intensa de citações, elaborações pessoais, trechos de entrevistas, pedaços de conversas, fragmentos dos fanzines e da revista, notas de rodapé, legendas, anexos etc. Para o bem e para o mal, trata-se de uma escolha para justamente mostrar como eu, sujeito de pesquisa e de experiência, afeto-me pelo meu objeto e assim afetada me constituo, a mim e a este texto.
Esta pesquisa, portanto, assume-se, em sua elaboração e escrita, também como uma prática cultural própria da pós-modernidade, pela ênfase que quer conferir, em sua forma, às noções de caos e descontinuidade. Sem falar na atenção que dá à vivência intensa das fluidas agregações tribais, das práticas e conhecimentos locais, do imperativo das
experiências de linguagem com os meios de comunicação, da renovação de elementos arcaicos no contemporâneo.
E se, assim como falou Zaratustra, o homem é uma corda sobre o abismo (NIETZSCHE, 2001, p. 27), ou seja, se, tal como os fanzines, os grupos sociais e as práticas de escrita entrevistos aqui neste trabalho, humano é o que está em permanente estado de tensão, que as pedagogias possam, tal como a experiência significativa e potente de aprendizagem que a escritura manifesta, deslizar no sentido que se dirige a favor da vida.
Para concluir, ressaltando a inconclusão de tudo, gostaria de registrar, ao momento de finalização da escrita desta tese, um certo rumor que se estabelece entre os indivíduos do grupo. Motivo: o lançamento da Revista Pindaíba na sua segunda edição. E-mails foram trocados e reuniões realizadas. Ânimos exaltados e atividades mobilizadas, como, por exemplo, a venda de bônus para arrecadar fundos e financiar a revista.
Figura 28: Bônus colocados à venda para arrecadar verbas para a edição do segundo número da Revista
Pindaíba. Detalhe: o número 11 equivale a 1+1.
Por que lançar uma segunda edição? Por que dar continuidade a essa escrita, que já não é necessariamente a mesma? Dar voz às suas vontades de potência plástica? Viver mais uma vez um instante eterno? Vivenciar mais uma vez uma subjetividade errádica e criadora? Manter a chama dionisíaca?
Aí já é outra história, talvez tema para outra tese. Esta se encerra aqui. E quem quiser que conte outra.
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