c. Sözleşmeli Personel
7. Kültür, Sanat ve Spor
Mas já que há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas.
Clarice Lispector
Concluída a etapa de campo, iniciamos as transcrições das entrevistas, que foram realizadas por terceiros e validadas pela pesquisadora como meio de garantir uma fidedignidade às histórias narradas, bem como por entender que da própria transcrição já emergem categorias empíricas importantes para a análise.
Seguimos a proposta de Minayo (2012) para a realização do tratamento do material empírico descrita abaixo:
Primeiramente, de posse do material devidamente transcrito, realizamos uma primeira aproximação com o texto a partir de uma leitura geral e flutuante das entrevistas, com o intuito de ter ideia do todo do texto. Nesse momento, tratamos de forma hermenêutica de constituir o corpus a ser trabalhado.
Em seguida, iniciamos a classificação de dados em temas e subtemas, por meio de uma leitura exaustiva dos textos, para progressivamente serem construídas as categorias empíricas. Nesse processo, foram necessárias idas e vindas ao material para nos
impregnarmos do sentido e dos significados expressos nas falas, bem como para alcançarmos uma lógica unificadora da compreensão.
Por fim, a análise final foi resultante de movimento espiralado que vai do empírico para o teórico e vice-versa, visando alcançar uma compreensão cada vez mais abrangente. Nesse momento organizamos os dados em categorias analíticas e empíricas que melhor expressassem a articulação entre o que foi narrado pelos sujeitos sobre suas experiências, os objetivos da pesquisa, o marco-teórico-conceitual adotado e a interpretação do investigador na composição da rede interpretativa.
Utilizamos como lente de análise dos dados empíricos coproduzidos nas entrevistas narrativas, a perspectiva da Hermenêutica contemporânea de Hans-George Gadamer. O termo
Hermenêutica vem do grego “hermeneuein”, que significa expressar em voz alta, explicar ou interpretar, e traduzir. Atribuiu-se ainda esse conceito ao deus Hermes, que expressava os
desejos dos deuses para os seres humanos. A tradução latina do grego é “interpretatio”, que é raiz da palavra interpretação. Dessa forma, em linhas gerais, hermenêutica significa interpretação (SCHMIDT, 2012).
A hermenêutica é a arte de compreender a linguagem falada e escrita. Schleiermacher afirma que a hermenêutica seria necessária para qualquer caso de compreensão que envolve esses tipos de linguagem. Assim, tradicionalmente a hermenêutica foi aplicada para a compreensão dos textos bíblicos, literários, legais, dentre outros (SCHMIDT, 2012). Mesmo compreendendo que a Hermenêutica não é apenas uma técnica de análise, acreditamos que ela nos ajudou a compreender o texto e os sujeitos envolvidos nesse ato de interpretação, interrogando-nos em alguns aspectos e fazendo-nos avançar para níveis mais altos de compreensão e análise.
Ante a diversidade da proposta e de autores que a estudaram, nesse estudo vamos nos deter às principais contribuições de Gadamer e sua hermenêutica filosófica, a partir das influências dos filósofos Kierkegaard e Heidegger, e da perspectiva da Fenomenologia e Existencialismo.
Para o exercício do ato compreensivo, Gadamer (2007) postula alguns conceitos e pressupostos importantes que ajudam a nos conduzir em direção a uma postura de desvelamento das palavras, pois para a Hermenêutica importa ir além do manifesto e atingir o
caráter oculto da linguagem. Expresso de outra forma: “Quem interpreta precisa levar em
conta as individualidades contextualizadas das manifestações linguísticas, ou seja, o enigma que se esconde na construção do pensamento e que se materializa através da linguagem e do
diálogo” (ARAÚJO; PAZ; MOREIRA, 2012, p.203).
Segundo Gadamer (2007), todo processo de compreensão e interpretação se origina a
partir de um dissenso em relação a algum fenômeno da “realidade”. Se diferentes perspectivas
dos sujeitos estão em desacordo, esses negociarão sempre seus pontos de vista, podendo ou não entrar em consenso. Para tal, parte-se do primado da pergunta para se aproximar das
trilhas do saber. “Para perguntar, é preciso querer saber, isto é, saber que não se sabe” (p.
156). Reconhecendo nossa incompletude, enquanto ser que não sabemos, podemos nos construir na inquietude e humildade do não saber. Isso também nos move em direção ao Outro por meio do diálogo.
Propõe-se também o restabelecimento da tradição, da autoridade e do preconceito (pré-conceitos), como forma de crítica ao pensamento moderno. Os preconceitos seriam nossas formas instrumentais de compreender o mundo, herdadas, construídas e moldadas através da tradição. Isso nos remete à nossa inseparabilidade histórica em relação ao vivido consigo mesmo e com os demais. Ao considerarmos que estamos necessariamente dentro de
uma tradição, “a temporalidade da compreensão descoberta nas estruturas prévias da compreensão implica que todos os nossos preconceitos vieram do passado” (p.149).
Toda compreensão acontece por meio do “círculo hermenêutico”, no qual o
intérprete acompanha o significado projetado do todo para as partes para depois voltar ao todo. Esse movimento de compreensão aproxima as concepções da tradição e as concepções do intérprete.
O lócus da hermenêutica é este entre, entre aquilo que é familiar ou compartilhado e aquilo que é estranho no texto. O valor daquilo que é estranho em um texto permite que o intérprete questione aquilo que é familiar e normalmente aceito sem perguntas (GADAMER, 2009, p. 295 apud SCHMIDT, 2012, p. 151, grifo do autor).
Dessa forma, o intérprete está sempre em um movimento de expansão de horizonte de significados por meio do diálogo com o texto e da dialética da pergunta e da resposta, deixando-se afetar pelos estranhamentos provocados por ele. O texto ao questionar nossos pressupostos herdados pela tradição e os nossos novos conhecimentos adquiridos nos encaminha para outros níveis de compreensão visando à fusão de horizontes.
Considerando esses aspectos da compreensão, concordamos com Caprara (2003) que a abordagem hermenêutica na área da saúde nos possibilita adentrar na experiência humana da doença bem como entender como os usuários/pacientes/sujeitos lidam suas experiências específicas de sofrimento frente aos profissionais de saúde. O olhar hermenêutico também tem implicações na forma como nos relacionamos com esses sujeitos nas práticas clínicas em geral.