I. BÖLÜM
3.2. Pazarlama Kavramı ve Tarihsel Süreç
No estágio civilizatório em que vivemos, exige-se de todas as categorias profissionais um proceder ético. Os padrões éticos de conduta, em razão da necessidade da boa convivência em grupo, passam a ser, cada vez mais, normatizados em códigos deontológicos.
Nesse passo, é oportuno registar que, enquanto a deontologia é a teoria dos deveres, a deontologia profissional é o conjunto normativo de regras e princípios que disciplinam particulares comportamentos do integrante de determinada profissão.252
Ocorre que é na profissão jurídica que o dever ético se torna mais exigível, máxime pelo fato de que o referido profissional é responsável pelo reconhecimento e pela satisfação do direito de todos os outros cidadãos.
Nesse sentido, José Renato Nalini253:
É porém na atividade profissional forense que se enfatiza o compromisso ético. Pois o homem das leis “examina o torto e o direito do cidadão no mundo social em que opera; é, a um tempo, homem de estudo e homem público, persuasivo e psicólogo, orador e escritor. A sua ação defensiva e a sua conduta incidem profundamente sobre o contexto social em que atua”254. Mercê da intensa intimidade entre ética e direito, não é fácil
delimitar a fronteira entre o moral e o jurídico. É nas ciências jurídicas que as normas dos deveres morais se põem com toda a nitidez.
Assim, de grande relevância social é a deontologia jurídica, também denominada de deontologia forense ou deontologia das profissões jurídicas, que, por sua vez, estuda o
252 NALINI, José Renato. Ética geral e profissional. 13. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2016, p. 544.
253 Ibidem, p. 543.
“conjunto das normas éticas e comportamentais a serem observadas pelo profissional jurídico”255.
Defende-se, nesta pesquisa, que aquele que incorrer em conduta processual anticooperativa – seja o juiz, o procurador da parte, o membro do Ministério Público ou o auxiliar da justiça, dentre outros integrantes de carreira – deve responder, sem prejuízo das sanções criminais, civis e processuais cabíveis, processo administrativo disciplinar, que se inicia por representação de interessado prejudicado e é processado e julgado pelo respectivo órgão disciplinar.
Propõe-se que o desrespeito a um dever processual cooperativo gere, no plano disciplinar, as seguintes sanções:
1ª sanção: Advertência formal, quando da primeira infração;
2ª sanção: Multa, que deverá ser superior a 10% (dez por cento) e inferior a 20% (vinte por cento) do valor corrigido da causa em que ocorreu a infração, quando da primeira reincidência;
3ª sanção: Suspensão de 30 (trinta) dias da atividade profissional e Multa, que deverá ser superior a 20% (vinte por cento) e inferior a 30% (trinta por cento) do valor corrigido da causa em que ocorreu a infração, quando da segunda reincidência;
4ª sanção: Suspensão de até 90 (noventa) dias da atividade profissional e Multa, que deverá ser superior a 30% (trinta por cento) e inferior a 50% (cinquenta por cento) do valor corrigido da causa em que ocorreu a infração, quando da terceira reincidência;
5ª e última sanção: Perda da função, com a exclusão do profissional do respectivo quadro institucional, quando da quarta reincidência.
É certo que, para a implementação desta proposta, essas sanções, ou eventualmente outras que se apresentarem melhores e mais eficazes, precisam estar positivadas nos respectivos códigos deontológicos das várias profissões jurídicas.
Além disso, faz-se necessário respeitar as garantias previstas na Constituição Federal de 1988, a exemplo do art. 95, inciso I, o qual assegura particularmente aos juízes que, em regra, a perda do cargo dependerá de sentença judicial transitada em julgado.
Registre-se, por fim, que, diante de qualquer processo de interação em que os agentes reconheçam que suas condutas, ação ou omissão, influenciam-se mutuamente, será possível e pertinente que a análise se dê pela perspectiva da teoria dos jogos.256
255 NALINI, José Renato. Ética geral e profissional. 13. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2016, p. 544.
O matemático John von Neumann, após divulgação de estudos iniciais sobre teoria dos jogos no ano de 1928, publicou, em coautoria com o economista Oskar Morgenstern, livro, em 1944, no qual, além da distinção entre “jogos de soma zero” e “jogos de soma não zero”, é apresentada solução para tais jogos através de técnicas matemáticas.257
Frise-se que “jogos de soma zero” são jogos em que o ganho de um jogador representa necessariamente uma perda para o outro. Por sua vez, nos “jogos de soma não zero”, a vitória de um “player” (jogador) não é necessariamente ruim para o(s) outro(s).258
Inicialmente pensada para resolver problemas matemáticos, hoje, a teoria dos jogos é aplicada à economia, biologia, administração, direito, ciência política e questões de natureza militar.259
Neste ponto, destaque-se que, mais recentemente, em livro intitulado A Evolução
da Cooperação, Robert Axelrod apresenta interessante estudo sobre a cooperação. Centrado na teoria dos jogos, o referido autor faz uma abordagem estratégica, e não genética, da cooperação, em uma perspectiva evolutiva do comportamento humano.260
A partir dos aportes teóricos supra delineados, os quais para melhor explanação merecem um trabalho em apartado, é possível afirmar que o processo jurisdicional cooperativo, pensado de forma macroestrutural, é dizer, envolvendo todos os sujeitos do processo, é um “jogo de soma não zero”.
Explica-se: em sendo a decisão de mérito, justa, efetiva e em tempo razoável o objetivo de todos os sujeitos que participam do processo – isto é do juiz, das partes, dos procuradores, dos intervenientes, dos auxiliares da justiça, dos peritos etc. –, a colaboração, enquanto meio para obtenção deste fim, é desejável por todos ou, pelo menos, pela maioria.
Imagine que, em um processo judicial, além de autor e réu, haja a participação de membro do Ministério Público e de perito. Por mais que o réu eventualmente não deseje cooperar, a resolução do caso poderá ser buscada, em intensa atividade colaborativa, por todos os outros participantes, a saber, pelo juiz, autor, Promotor de Justiça e perito.
257 Ibidem, p. 35. 258 Ibidem, p. 34-39. 259 Ibidem, p. 39.
260 AXELROD, Robert. A evolução da cooperação. Tradução de Jusella Santos. São Paulo: Leopardo Editora, 2010.
A outro giro, o processo jurisdicional, pensado de forma microestrutural, mormente no que tange à interação das partes litigantes, pode ser compreendido como um “jogo de soma zero”, pois a vitória de um é necessariamente ruim para o outro. Por isso mesmo, neste caso, a cooperação não se opera de maneira natural.
O que importa perceber, entretanto, é que, tanto sob o prisma macroestrutural quanto sob o prisma microestrutural, a necessidade de se estabelecer sanção e de se punir exemplarmente aquele que se porta de maneira anticcoperativa é imperiosa, se se almeja, de fato, a efetividade do dever de cooperação e o bom funcionamento do sistema de Justiça.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente trabalho se assenta em uma análise filosófica do processo, enquanto fenômeno jurídico, sendo certo que as principais notas conclusivas a destacar são:
01. O conceito de processo é o conceito jurídico fundamental primário da Teoria Geral do Processo e, por conseguinte, da Ciência do Direito Processual. Trata-se de conceito base para todos os outros conceitos elaboradas nessas disciplinas. Sob o enfoque epistemológico, tem-se que processo é o ato jurídico complexo que gera relações jurídicas entre os sujeitos processuais e tem por finalidade a produção de normas jurídicas.
02. A seu turno, processo jurisdicional é o conceito jurídico fundamental primário da Teoria Geral do Processo Jurisdicional e, portanto, ato jurídico complexo pelo qual se busca a produção de uma norma jurídica por meio do exercício da função jurisdicional.
03. Para a análise do processo jurisdicional cooperativo, é preciso compreender que a cooperação processual é tanto princípio jurídico quanto modelo de processo. Assim, cooperação processual é expressão gênero, a qual comporta tanto uma perspectiva normativa (Princípio da Cooperação Processual) quanto uma perspectiva de modelo de estruturação do processo jurisdicional (Modelo Cooperativo de Processo).
04. Defende-se que o processo civil cooperativo, pensado como uma comunidade de trabalho, tem o seu suporte valorativo no Estado Democrático de Direito e na sociedade solidária, modelos de Estado e de sociedade consagrados nos artigos 1°, caput, e 3°, inciso I, da CF de 1988.
05. Quanto à funcionalidade, tem-se que a cooperação processual se estrutura a partir da imputação, aos sujeitos do processo, de situações jurídicas, isto é, de deveres de conduta, para a obtenção de um fim.
06. A finalidade do processo jurisdicional civil é a decisão judicial – de mérito, justa, efetiva e construída em tempo razoável – e o meio constitucionalmente adequado para alcança-la é a cooperação processual.
07. Sustenta-se, nesta Dissertação, que são espécies do dever de cooperação processual: (i) o dever de consulta (ou de diálogo ou de debate); (ii) o dever de esclarecimento; (iii) o dever de prevenção; (iv) o dever de auxílio (ou de assistência); (v) o dever de lealdade; (vi) o dever de proteção; e (vii) dever de respeito ao autorregramento da vontade no processo.
08. O dever de cooperação enquanto princípio está previsto no art. 6° do CPC de 2015 e enquanto regra está previsto ao longo de todo o arco procedimental do novo Código.
09. Defende-se que uma forma de potencializar a eficácia normativa de cooperação processual é pautar o ensino jurídico nas Faculdades de Direito, em seus mais diversos níveis – graduação, especialização, mestrado, doutorado e pós-doutorado – em práticas processuais
cooperativas.
10. Propõe-se que, na matriz curricular do curso de Direito, seja oportunizado ao aluno o aprofundamento de conteúdo atinente a práticas processuais cooperativas.
11. Por fim, defende-se que aquele que incorrer em conduta processual anticooperativa – seja o juiz, o procurador da parte, o membro do Ministério Público ou o auxiliar da justiça, dentre outros integrantes de carreira – deve responder, sem prejuízo das sanções criminais, civis e processuais cabíveis, processo administrativo disciplinar, que se inicia por representação de interessado prejudicado e é processado e julgado pelo respectivo órgão disciplinar.
A partir dessas constatações e propostas, faz-se as seguintes considerações derradeiras.
Pensar o processo civil a partir da cooperação é inegavelmente um enorme desafio. Trata-se de mudança paradigmática considerável. É possível listar inúmeros obstáculos, máxime de ordem cultural e técnica, impeditivos para o êxito dessa grandiosa empreitada.
Ocorre que um outro caminho também está aberto para ser trilhado pela comunidade jurídica brasileira. Um caminho no qual cada um é chamado a apresentar ferramentas capazes de, em maior ou menor medida, promover a eficácia e a efetividade do dever de cooperação processual.
Todos querem um processo jurisdicional que funcione da forma mais democrática possível. Isso é essencial para um país sério, para o cidadão, para a coletividade. É um desejo ínsito a aqueles que vivem o século XXI e desejam o fortalecimento do Estado Democrático de Direito.
Esta Dissertação se apresenta, portanto, como uma pequena contribuição ao ideal de processo jurisdicional cooperativo.
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