• Sonuç bulunamadı

George Kelly’nin Kişisel Yapıların Psikolojisi Yaklaşımı

I. BÖLÜM

1.4. Kişilik Kuramları

1.4.16. George Kelly’nin Kişisel Yapıların Psikolojisi Yaklaşımı

O conteúdo normativo é o conjunto de ferramentas essenciais para a operacionalização da norma. Dele se extrai os direitos e deveres estatuídos pela norma, bem como os portadores destes direitos (sujeito do direito) e deveres (sujeito do dever).160

No que concerne às condições reais para a incidência da norma, os princípios possuem maior grau de abstração da prescrição normativa; as regras, menor grau. Enquanto o conteúdo imediato da norma-princípio consiste no fim a ser alcançado, o conteúdo imediato da norma-regra, por sua vez, consiste na conduta, isto é, no comportamento humano.161

Nesse diapasão, Humberto Ávila defende que o critério do grau de determinação

do fim e da conduta é o melhor parâmetro para a distinção entre princípios e regras, definindo tais normas da seguinte forma:

[...] pode-se definir os princípios como normas imediatamente

finalísticas, para cuja concretização estabelecem com menor determinação qual o comportamento devido, e por isso dependem mais intensamente da sua relação com outras normas e de atos institucionalmente legitimados de interpretação para a determinação da conduta devida.

As regras podem ser definidas como normas mediatamente finalísticas,

para cuja concretização estabelecem com maior determinação qual o comportamento devido, e por isso dependem menos intensamente da sua

159 ÁVILA, Humberto Bergmann. A distinção entre princípios e regras e a redefinição do dever de

proporcionalidade. Revista de Direito Administrativo. Rio de Janeiro, 215: 151-179, jan./mar. 1999, p. 164-168. 160 KELSEN, Hans. Teoria pura do direito. Tradução de João Baptista Machado. 8. ed. São Paulo: Editora WMF

Martins Fontes, 2009, p. 130-131.

161 ÁVILA, Humberto Bergmann. A distinção entre princípios e regras e a redefinição do dever de

relação com outras normas e de atos institucionalmente legitimados de interpretação para a determinação da conduta devida.162

Em síntese, quanto ao seu conteúdo, os princípios são normas imediatamente finalísticas e mediatamente de conduta; já as regras são normas imediatamente de conduta e mediatamente finalísticas.

Com base nessas lições, avança-se para asseverar que o dever de cooperação processual, enquanto princípio é, consoante se vê no artigo 6° do CPC de 2015, norma imediatamente finalística, que se concretiza por meio de comportamentos devidos (condutas devidas).

A seu turno, o dever de cooperação, enquanto regra, é norma imediatamente de conduta. Através da realização de condutas cooperativas se alcançará a decisão de mérito, justa, efetiva e em tempo razoável.

Ressalte-se que, enquanto princípio, positivado expressamente no art. 6° do CPC de 2015, a cooperação processual tem por fim a criação de decisão judicial, mas não de qualquer decisão; tem de ser uma decisão composta por quatro qualidades: (i) de mérito; (ii) justa; (iii) efetiva; e (iv) produzida em tempo razoável.

Sustenta-se, nesta pesquisa, calcada em uma abordagem epistemológica e axiológica, que a finalidade do processo jurisdicional civil é a decisão judicial – de mérito, justa, efetiva e construída em tempo razoável – e o meio constitucionalmente adequado para alcança-la é a cooperação processual.

1. O fim do processo civil é a DECISÃO 1) de Mérito, 2) Justa, 3) Efetiva e

4) produzida em Tempo Razoável. 2. O meio para se atingir esse fim é a COOPERAÇÃO entre todos os sujeitos do processo.

Frise-se que, muito antes do novo CPC entrar em vigor, Fredie Didier Jr. já defendia que, “ao integrar o sistema jurídico, o princípio da cooperação garante o meio (imputação de

162 ÁVILA, Humberto Bergmann. A distinção entre princípios e regras e a redefinição do dever de

uma situação jurídica passiva) necessário à obtenção do fim almejado (o processo cooperativo).163

Esse entendimento tem sido acolhido pela doutrina pátria, a qual vem, especialmente nos últimos três anos, desenvolvendo a ideia de cooperação como meio adequado ao processo jurisdicional civil. Nesse sentido, Cassio Scarpinella Bueno:

O modelo de processo estabelecido pelo CPC de 2015, bem compreendido e em plena harmonia com o “modelo constitucional” é inequivocamente de um “processo cooperativo” em que todos os sujeitos processuais (as partes, eventuais terceiros intervenientes, os auxiliares da justiça e o próprio magistrado) cooperem ou colaborem entre si com vistas a uma finalidade comum: a prestação da tutela jurisdicional.

A compreensão de que todos os sujeitos processuais, cada qual nas especificidades decorrentes de seu mister institucional (advogados, dentro da ética e do ordenamento jurídico defenderão os interesses que lhe são confiados por seus clientes; membros do Ministério Público, observando os mesmos quadrantes, atuarão em prol de interesses que justificam sua intervenção no processo civil), são meio essencial para viabilizar a prestação da tutela jurisdicional para quem, na perspectiva do direito material, merecê-la (que é, em última análise, o fim do processo) é essencial para realizar concretamente o comando estampado no art. 6° do CPC de 2015, que, insisto, já é o que merecia ser extraído desde a concepção do contraditório como cooperação no contexto constitucional.164

Registre-se, entretanto, óbice, nesta pesquisa, à utilização da expressão “tutela jurisdicional”, que, ao lado da expressão “prestação jurisdicional”, remota à mentalidade juriscêntrica, preponderante no Estado de Direito Social, a qual se pretende atualmente superar. Frise-se que o Estado de Direito Social é o modelo de Estado com forte traço paternalista, no qual se desenvolveu a ideia de que o jurisdicionado necessita ser protegido, tutelado, pelo Estado-juiz, bem como a ideia de que a relação entre sociedade e Judiciário se dá na modalidade de prestação de serviço.165-166

No Estado Democrático de Direito, não há que se falar em protagonismo de nenhum dos sujeitos processuais. Todos estão no mesmo plano. Juiz e partes são paritários tanto na condução do processo quanto na construção da decisão judicial. Há um “policentrismo

163 DIDIER JR., Fredie. Os Três Modelos de Direito Processual: Inquisitivo, Dispositivo e Cooperativo. Revista

de Processo: RePro, v. 36, n. 198, p. 207-217, ago. 2011, p. 217.

164 BUENO, Cassio Scarpinella. Manual de direito processual civil: inteiramente estruturado à luz do novo CPC, de acordo com a Lei n° 13.256, de 4-2-2016. 2. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Saraiva, 2016, p. 47.

165 PEDRON, Flávio Quinaud. Reflexões sobre o “acesso à justiça” qualitativo no Estado Democrático de Direito. In: THEODORO JR., Humberto; CALMON, Petrônio; NUNES, Dierle. Processo e Constituição: Os dilemas do processo constitucional e dos princípios processuais constitucionais. Rio de Janeiro: GZ, 2010.

166 PEDRON, Flávio Quinaud; BAHIA, Alexandre Melo Franco; NUNES, Dierle; THEODORO JÚNIOR, Humberto. Novo CPC: Fundamentos e Sistematização. 3. ed. rev., atual e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2016.

processual”167. O juiz do processo cooperativo é assimétrico apenas quando impõe as suas

decisões168.

A decisão almejada pelo novo Código de Processo Civil nada mais é do que reflexo teórico-normativo da decisão constitucionalmente devida. Nesse diapasão, pode-se afirmar que a decisão de mérito guarda direta relação com o princípio da primazia do julgamento (da resolução) do mérito, de onde se extrai que o órgão jurisdicional deve viabilizar o saneamento de vícios para examinar o mérito, sempre que seja possível a sua correção169-170-171-172-173. A

decisão justa é aquela que decorre da apuração da verdade dos fatos174-175 e se pauta em cargas

probatórias dinâmicas176. A decisão efetiva ressalta a importância da execução civil, na qual o

direito reconhecido por título judicial ou extrajudicial deverá ser satisfeito pelo Estado-juiz. Por fim, a decisão construída em tempo razoável, e não com rapidez, como equivocadamente pretendeu a Escola Instrumentalista de Processo, é aquela tomada sem mitigar o necessário, intenso e paritário diálogo processual entre o juiz e as partes.

Tratando da evolução do constitucionalismo no século XX e da aplicação dinâmica do princípio do contraditório, Dierle Nunes sustenta que a busca meramente funcional de produtividade e redutora do papel processual, típica do neoliberalismo processual, é

167 NUNES, Dierle José Coelho. Processo Jurisdicional Democrático. 1ª ed. (ano 2008), 4ª reimpr. Curitiba: Juruá. 2012, p. 212.

168 MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. Novo Código de Processo

Civil comentado. 3. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Editora Revista do Tribunais, 2017, p. 164.

169 Art. 4° do CPC de 2015. As partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída a atividade satisfativa.

170 Enunciado n° 278 do Fórum Permanente de Processualistas Civis (FPPC): OCPC adota como princípio a sanabilidade dos atos processuais defeituosos.

171 Enunciado n° 372 do FPPC: O art. 4° tem aplicação em todas as fases e em todos os tipos de procedimento, inclusive em incidentes processuais e na instância recursal, impondo ao órgão jurisdicional viabilizar o saneamento de vícios para examinar o mérito, sempre que seja possível a sua correção.

172 Enunciado n° 373 do FPPC: As partes devem cooperar entre si; devem atuar com ética e lealdade, agindo de modo a evitar a ocorrência de vícios que extingam o processo sem resolução do mérito e cumprindo com deveres mútuos de esclarecimento e transparência.

173 Enunciado n° 574 do FPPC: A identificação de vício processual após a entrada em vigor do CPC de 2015 gera para o juiz o dever de oportunizar a regularização do vício, ainda que ele seja anterior.

174 Art. 378 do CPC de 2015. Ninguém se exime do dever de colaborar com o Poder Judiciário para o

descobrimento da verdade. (g.n.)

175 Art. 504 do CPC de 2015. Não fazem coisa julgada:

I - os motivos, ainda que importantes para determinar o alcance da parte dispositiva da sentença; II - a verdade dos fatos, estabelecida como fundamento da sentença. (g.n.)

176 Art. 373 do CPC de 2015. O ônus da prova incumbe: I - ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito;

II - ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor.

§ 1° Nos casos previstos em lei ou diante de peculiaridades da causa relacionadas à impossibilidade ou à excessiva dificuldade de cumprir o encargo nos termos do caput ou à maior facilidade de obtenção da prova do fato contrário, poderá o juiz atribuir o ônus da prova de modo diverso, desde que o faça por decisão fundamentada, caso em que deverá dar à parte a oportunidade de se desincumbir do ônus que lhe foi atribuído. (g.n.)

completamente incompatível com a perspectiva democrática.177 Segundo o referido

processualista, “o estabelecimento de focos e de centralidade, seja nas partes, nos advogados ou nos juízes, não se adapta ao perfil democrático dos Estados de direito da alta modernidade”178. Deve, portanto, haver, no plano da técnica processual, o denominado

“policentrismo processual”; isto é, uma “comunidade de trabalho” entre juiz e partes.179

O novo CPC reflete o pensamento da atual fase metodológica do Direito Processual Civil, a qual repugna a ideia de processo jurisdicional com marcas de centralidade e autoritarismo. Não se quer mais um juiz que se porte como dono do processo e que, visando unicamente a celeridade, profira decisão desconexa ao que se discutiu nos autos, isto é, desconexa das teses discutidas, ano após ano, pelas partes. Entre decisão rápida e decisão qualificada pelo contraditório substancial, certamente, a partir dos aportes da doutrina especializada e da interpretação sistemática e teleológica do novo CPC, prefere-se esta última. Dierle Nunes adverte que, em um panorama mundial, “celeridade sempre foi e sempre será uma preocupação dos processualistas. Mas em outros países tal celeridade não pode jamais representar a supressão das garantias processuais, da qual o próprio processo, em devido processo legal, constitui máxima garantia”180.

É certo, entretanto, que no plano ideal, teórico e prático, o processo jurisdicional deve compatibilizar todos os princípios processuais constitucionais, a exemplo da razoável duração do processo, do contraditório e da eficiência, sem hierarquizar, sobrevalorizar, nenhum deles.181

Nesse azo, sobre a razoável duração do processo, Carlos Marden, trabalhando com o elemento qualitativo do tempo kairológico, assevera que “o processo não pode ser tão demorado que venha a comprometer a sua efetividade e/ou gerar prejuízo para as partes, nem poderá ser tão apressado que não seja permitido às partes o exercício de seus direitos fundamentais processuais”182.

177 NUNES, Dierle José Coelho. Processo Jurisdicional Democrático. 1ª ed. (ano 2008), 4ª reimpr. Curitiba: Juruá. 2012, p. 212.

178 Ibidem, p. 212. 179 Ibidem, p. 212-213.

180 NUNES, Dierle José Coelho. Processo Jurisdicional Democrático. 1ª ed. (ano 2008), 4ª reimpr. Curitiba: Juruá. 2012, p. 150-151.

181 NUNES, Dierle José Coelho. Processo Jurisdicional Democrático. 1ª ed. (ano 2008), 4ª reimpr. Curitiba: Juruá. 2012, p. 151, nota 127.

182 MARDEN, Carlos. A razoável duração do processo: o fenômeno temporal e o modelo constitucional processual. Curitiba: Juruá, 2015, p. 203.

Com efeito, à luz da correta interpretação do artigo 5°, inciso LXXVIII, da Constituição Federal de 1988183, o processo jurisdicional devido é o processo com duração

razoável, não necessariamente o processo rápido.

No que tange à estrutura normativa, registre-se, ainda, que a celeridade é um valor, e não um princípio processual. A celeridade, portanto, não tem força de norma. Na mesma linha, Fredie Didier Jr.:

Não existe um princípio da celeridade. O processo não tem de ser rápido/célere: o processo deve demorar o tempo necessário e adequado à

solução do caso submetido ao órgão jurisdicional.

Bem pensadas as coisas, conquistou-se, ao longo da história, um direito à demora na solução dos conflitos. A partir do momento em que se reconhece a existência de um direito fundamental ao devido processo, está-se reconhecendo, implicitamente, o direito de que a solução do caso deve cumprir, necessariamente, uma série de atos obrigatórios, que compõem o conteúdo mínimo desse direito. A exigência do contraditório, os direitos à produção de provas e aos recursos certamente atravancam a celeridade, mas são garantias que não podem ser desconsideradas ou minimizadas. É preciso fazer o alerta, para evitar discursos autoritários, que pregam a celeridade como valor. Os processos da Inquisição poderiam ser rápidos. Não parece, porém, que se sinta saudade deles.184

Em arremate, transcreve-se, em razão de sua inegável importância para a correta interpretação e aplicação da respectiva lei, passagem da própria Exposição de Motivos do novo Código de Processo Civil, feita em 8 de junho 2010, na qual a Comissão de Juristas, para fundamentar a sua metodologia de trabalho e a sua compreensão do fenômeno temporal processual, cita lição de José Carlos Barbosa Moreira:

Afinal, a celeridade não é um valor que deva ser perseguido a qualquer custo.

“Para muita gente, na matéria, a rapidez constitui o valor por excelência, quiçá o único. Seria fácil invocar aqui um rol de citações de autores famosos, apostados em estigmatizar a morosidade processual. Não deixam de ter razão, sem que isso implique – nem mesmo, quero crer, no pensamento desses próprios autores – hierarquização rígida que não reconheça como imprescindível, aqui e ali, ceder o passo a outros valores. Se uma justiça lenta demais é decerto uma justiça má, daí não se segue que uma justiça muito rápida seja necessariamente uma justiça boa. O que todos devemos querer é que a prestação jurisdicional venha ser melhor do que é. Se para torná-la melhor é preciso acelerá-la, muito bem: não, contudo, a qualquer preço”

183 Art. 5° da CF de 1988. [...]

LXXVIII – a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação. (g.n.)

184 DIDIER JR. Fredie. Curso de Direito Processual Civil: Parte Geral e Processo de Conhecimento. 18. ed. Salvador: JusPODIVM, 2016, p. 98.

(BARBOSA MOREIRA, José Carlos. O futuro da justiça: alguns mitos.

Revista de Processo, v. 102, p. 228-237, abr.-jun. 2001, p. 232).185

Esclarecido o conteúdo normativo da cooperação processual no CPC de 2015, passa-se à investigação dos deveres de cooperação processual.

Os processualistas, apoiados especialmente nos recentes estudos doutrinários feitos no âmbito do Direito Privado, sustentam que o dever de cooperação processual, quando da sua aplicação prática, gera, aos sujeitos do processo, uma série de deveres correlatos, os quais podem ser divididos, dentre outras propostas teóricas, em: (i) dever de consulta (ou de diálogo ou de debate); (ii) dever de esclarecimento; (iii) dever de prevenção; (iv) dever de auxílio (ou de assistência); (v) dever de lealdade; (vi) dever de proteção; e (vii) dever de respeito ao autorregramento da vontade no processo.

Essas sete espécies do dever de cooperação processual serão objeto de análise, com mais vagar, no item abaixo.