I. BÖLÜM
1.4. Kişilik Kuramları
2.1.2. Kişiliğin Ruhsal ve Toplumsal Yapıya Göre Sınıflandırılması
2.1.2.10. Katharina C. Briggs ve Isabel B. Myers’in 16 Kişilik Tipi
Trata-se de dever cooperativo que se aplica a todos os sujeitos do processo. O dever de lealdade se relaciona diretamente com o princípio da boa-fé, segundo o qual todos os que participam do processo devem apresentar comportamento pautado em um padrão ético de conduta.
De fato, dispõe, com grande acerto, o art. 5° do CPC de 2015 que aquele que de
qualquer forma participa do processo deve comportar-se de acordo com a boa-fé. No que tange aos sujeitos desse dever, inegável é o caráter ampliativo que dispositivo impõe.
Transcreve-se, a título ilustrativo, decisão proveniente do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que exige dever de lealdade da parte:
RECURSO ESPECIAL - EXECUÇÃO - EMBARGOS À ADJUDICAÇÃO - INDICAÇÃO DE BEM À PENHORA PELO DEVEDOR - POSTERIOR ALEGAÇÃO DE NULIDADE ANTE A IMPENHORABILIDADE ABSOLUTA (ART. 649, V, DO CPC) - AFASTAMENTO DA TESE PELAS INSTÂNCIAS ORDINÁRIAS. INSURGÊNCIA DO EXECUTADO.
1. Hipótese em que o executado indica bem à penhora e, posteriormente, invoca a nulidade da adjudicação em razão da impenhorabilidade absoluta (art. 649, V, do CPC) do objeto da constrição, por constituir equipamento essencial ("colheitadeira") à continuidade do exercício da profissão. Inviabilidade. Bem móvel voluntariamente oferecido pelo devedor à garantia do juízo execucional. Patrimônio integrante do ativo disponível do executado. Renúncia espontânea à proteção preconizada no inciso V do art. 649 do CPC. Vedação ao comportamento contraditório (venire contra factum proprium). 2. Os bens protegidos pela cláusula de impenhorabilidade (art. 649, V, do CPC) podem constituir alvo de constrição judicial, haja vista ser lícito ao devedor renunciar à proteção legal positivada na norma supracitada, contanto que contemple patrimônio disponível e tenha sido indicado à penhora por livre decisão do executado, ressalvados os bens inalienáveis e os bens de família. Precedentes do STJ.
3. No caso, não há nulidade no procedimento expropriatório, porquanto, além de o bem penhorado ("colheitadeira") compor o acervo ativo disponível do recorrente/executado, este o ofertou deliberadamente nos autos da execução, de ordem a evidenciar contradição de comportamento da parte ("venire contra
factum proprium"), postura incompatível com a lealdade e boa-fé processual. 4. Recurso especial desprovido.
(REsp 1365418/SP, Rel. Ministro MARCO BUZZI, QUARTA TURMA, julgado em 04/04/2013, DJe 16/04/2013)208
Abaixo, colaciona-se decisão proveniente do Tribunal de Justiça do Estado do Ceará (TJCE), a partir da qual se depreende que os princípios da boa-fé objetiva e da cooperação estão intimamente relacionados e geram dever de lealdade para as partes tanto na seara da relação contratual (direito civil) quanto na seara da relação processual (direito processual civil):
AGRAVO DE INSTRUMENTO. PROCESSUAL CIVIL. BOA-FÉ OBJETIVA. STANDARD ÉTICO-JURÍDICO. OBSERVÂNCIA PELAS PARTES NO PROCESSO. TEORIA DO DEVER DE MITIGAR O PRÓPRIO PREJUÍZO, PELA QUAL INCUMBE AO CREDOR EVITAR POSTURA INERTE OU DE MÁ FÉ QUE IMPLIQUE EXCESSIVO ÔNUS À PARTE CONTRÁRIA. AGRAVAMENTO DO DANO CONTRA QUEM SEQUER ERA PARTE DA RELAÇÃO JURÍDICA MATERIAL. INÉRCIA DO CREDOR QUE RESULTOU EM VULTOSA QUANTIA A TÍTULO DE ASTREINTES. DECISÃO DO JUÍZO A QUO QUE JULGOU PELA INEXIGIBILIDADE DA MULTA COMINADA. DECISÃO MANTIDA. RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO.
1. O dever de mitigar o próprio dano está intrinsecamente ligado ao princípio da boa-fé objetiva e da cooperação na relação contratual, tendo em vista que ambos necessitam solucionar o litígio e alcançar seus interesses, no que for cabível. O agravamento do prejuízo devido a inércia do credor caracteriza violação na lealdade e cooperação.
2. Interpretando o art. 422 do Código Civil, foi editado o Enunciado 169 da Jornada de Direito Civil, que assim dispõe: “O princípio da boa-fé objetiva deve levar o credor a evitar o agravamento do próprio prejuízo”.
3. In casu, a postura inerte da agravante em indicar ao Juízo o correto sucessor do réu, quando tal informação era de fácil acesso e não lhe exigia desmedido esforço, configura violação ao dever de cooperação processual, não fazendo jus ao importe quase milionário das astreintes executadas.
4. Destaque-se, ainda, a peculiriadade da hipótese vertente, haja vista que, como evidenciado alhures, o executado pelas astreintes sequer tem legitimidade para figurar como devedor no cumprimento de sentença, isto é, não era o sucessor por incorporação do réu, o que torna ainda mais descabida a execução da multa em seu desfavor.
5. Recurso conhecido e desprovido.
(Processo: 0622970-78.2015.8.06.0000 - Agravo de Instrumento; Agravante: Maria Eliene Fontes Palmeira; Agravado: Bradesco Leasing S.A - Arrendamento Mercantil Pertencente ao Grupo Banco do Bradesco S/A; 4ª Câmara de Direito Privado do TJCE; Relator: Des. Durval Aires Filho.)209
A seu turno, colaciona-se decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), de onde se extrai que a boa-fé processual deve alcançar não só as partes, mas também a atuação do magistrado:
PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE
INVESTIGAÇÃO DE PATERNIDADE. EXAME DE DNA POST
MORTEM. PERÍCIA NOS RESTOS MORTAIS DO FALECIDO
INCONCLUSIVA. CONVERSÃO DO JULGAMENTO EM DILIGÊNCIA. NECESSIDADE. COERÊNCIA COM A CONDUTA PROCESSUAL ADOTADA. PRECLUSÃO PRO JUDICATO.
1. Inexiste violação do art. 535 do Código de Processo Civil se todas as questões jurídicas relevantes para a solução da controvérsia são apreciadas, de forma fundamentada, sobrevindo, porém, conclusão em sentido contrário ao almejado pela parte.
2. A jurisprudência do STJ é sedimentada em reconhecer a possibilidade da conversão do julgamento em diligência para fins de produção de prova essencial, como o exame de DNA em questão, principalmente por se tratar de ação de estado. Precedentes.
3. O processo civil moderno vem reconhecendo - dentro da cláusula geral do devido processo legal - diversos outros princípios que o regem, como a boa- fé processual, efetividade, o contraditório, cooperação e a confiança, normativos que devem alcançar não só as partes, mas também a atuação do magistrado, que deverá fazer parte do diálogo processual.
4. Na hipótese, deveria o julgador ter se mantido coerente com a sua conduta processual até aquele momento, isto é, proporcionado às partes a possibilidade de demonstrar a viabilidade na feitura de outro exame de DNA (preenchimento dos requisitos exigíveis) e não sentenciar, de forma súbita, o feito.
4. Além disso, acabou por conferir aos demandantes um direito à produção daquela prova em específico, garantido constitucionalmente (CF, art. 5°, LV) e que não pode simplesmente ser desconsiderado pelo Juízo, podendo-se falar na ocorrência de uma preclusão para o julgador no presente caso.
5. Diante das circunstâncias do caso em questão e da vontade das partes, ainda sendo supostamente possível a realização do exame de DNA pela técnica da reconstrução, é de se admitir a baixa dos autos para a constatação da viabilidade e realização da perícia pleiteada.
6. Recurso especial provido.
(REsp 1229905/MS, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em 05/08/2014, DJe 02/09/2014)210
Nesse mesmo sentido, transcreve-se decisão tomada em setembro de 2017, pela 8ª Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT):
ADMINISTRATIVO. DANOS MATERIAIS. PRINCÍPIO DA BOA-FÉ. PRINCÍPIO DA COOPERAÇÃO. PRINCÍPIO DA PRIMAZIA DA DECISÃO DE MÉRITO. ÔNUS DA PROVA. ART. 373. EXECUÇÃO PROJETO CULTURAL. PRESTAÇÃO DE CONTAS. INDEFERIMENTO. DECISÃO DO TRIBUNAL DE CONTAS DO DISTRITO FEDERAL. PREJUÍZO AO ERÁRIO. COMPROVAÇÃO.
1. Ao decidir a causa, o juízo deve observar o conjunto da postulação, isto é, a inicial e os documentos que a acompanham.
2. Os sujeitos processuais, inclusive o juiz, devem comportar-se de acordo com a boa-fé (objetiva). Portanto, é contraditória a postura do juízo que recebe a inicial, por considerá-la em termos, mas na sentença entende que ela dificulta o deslinde do feito.
3. O princípio da cooperação também é direcionado ao juiz, que tem o dever de determinar a emenda da inicial formalmente irregular, permitindo ao autor a adequação do seu pleito.
4. O princípio da primazia da decisão de mérito estabelece que as partes têm o direito de obter, em prazo razoável, a solução integral do mérito, incluída a atividade satisfativa. Portanto, meras irregularidades não obstam o julgamento do mérito, quando possível interpretar o pedido à luz do conjunto da postulação.
5. Ante a execução integral do contrato, a restituição total dos valores pagos ocasionaria o enriquecimento indevido da Administração, colocando o contratado em desvantagem exagerada, em flagrante ofensa à finalidade do contrato.
6. A execução integral do contrato inviabiliza a devolução dos valores pagos, porque a prestação inadequada de contas não causa, por si só, prejuízos ao erário.
7. A presunção de veracidade do ato administrativo não impede o Poder Judiciário de anular os atos ilegais.
8. Recurso conhecido e desprovido.
(Acórdão n. 1051061, 20160110142427APC, Relator: DIAULAS COSTA RIBEIRO 8ª TURMA CÍVEL, Data de Julgamento: 28/09/2017, Publicado no DJE: 06/10/2017. Pág.: 385/393 – Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios - TJDFT.)211
210 Disponível em: <http://www.stj.jus.br>. Acesso em 23 ago. 2018. 211 Disponível em: <http://www.tjdft.jus.br>. Acesso em 23 ago. 2018.
São exemplos de concretização, no CPC de 2015, do dever de lealdade, além do já citado art. 5°, os artigos 79, 80 e 81, que tratam da responsabilidade das partes por dano processual.
Com efeito, todo aquele – leia-se: o juiz, as partes, os procuradores, os intervenientes, os auxiliares da justiça, os peritos etc. – que agir de má-fé no processo, isto é, que agir da forma contrária à lei, intencionalmente, deve ser exemplarmente punido.
Aproveita-se o ensejo para fazer a seguinte reflexão crítica. O dever de lealdade, calcado indiscutivelmente na boa-fé, não é propriamente uma novidade do CPC de 2015. O referido dever já estava expressamente consagrado no CPC de 1973, em seu art. 14, inciso II212.
Ocorre que não se vê uma evolução na lei, na doutrina nem na jurisprudência pátria voltada a punir juízes que malferem o citado dever. Mesmo, por exemplo, quando o Tribunal, através do seu colegiado, reconhece expressamente no respectivo acórdão que o juiz de piso violou os deveres de lealdade e de boa-fé, para-se por aí. Não se percebe intenção de punir ou de encaminhar para a devida e exemplar punição disciplinar os maus juízes. Infelizmente, dessa forma, o caráter coercitivo e educativo da norma está vazio para a magistratura nacional.
Um processo jurisdicional cooperativo, desejo da Constituição Federal/1988 e do Código de Processo Civil/2015, não se faz apenas com partes cooperativas; faz-se também com juízes cooperativos. É preciso pensar em como dar eficácia e efetividade a esse modelo de processo.