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C- Literatür ve Yöntem

1.4. Osmanlı’da Para ve Para Sistemi

1.4.1. Osmanlı’da Madenî Para Dönemi

É uma presilha azul de menina que encarna os “sordidíssimos” no romance Les

escaliers de Chambord (1989). A causa do sofrimento e da errância da personagem principal é o esquecimento de um nome. Édouard Furfooz é um expert em brinquedos. Ele corre o mundo atrás de quaisquer brinquedos que possam atrair uma criança. Édouard viveu várias histórias de amor: Francesca, a italiana; Laurence Guéneau, musicista; Roza, amiga de Laurence; Adriana, filha de Roza. Contudo, os amores e o sucesso profissional não o satisfazem, e seu mal-estar é constante. Uma presilha de criança encontrada durante uma viagem à Itália é associada à lembrança traumática que o persegue: a morte, por afogamento, da menina que ele amava quando criança. Um dia, durante uma viagem, Édouard teve a seguinte revelação: as iniciais do nome das mulheres amadas, acrescidas da inicial do nome de sua tia Ottilia, substituta materna, formavam o nome da menina morta, que fora esquecido: Flora. Como Chenogne, E. Furfooz passa a ter vida solitária e contemplativa. Após recobrar a lembrança, ele vai morar em um apartamento próximo ao Jardin du Luxembourg, em Paris, onde, na infância, brincava com Flora Dedheim.

Ao deixar Francesca, Édouard percorre algumas cidades da Itália. É durante esse percurso, perto de Civitavecchia, numa espécie de “lixão”, que ele encontra a presilha que vai desencadear a lembrança da cena esquecida:

109 “Lorsque le souvenir se retire en nous, il ne se dérobe pas toujours sous une roche sombre en nous; il n’est

pas toujours aspiré par un tourbillon qu’aucun pli ne trahit à la surface de l’eau plus calme. Restent parfois incrustés dans un geste, sur notre visage, au fond de nos yeux, dans le son de notre voix des petits bouts de bois sans nom, des sortes de détritus indicibles. Ce sont des lambeaux d’algues déchirées, des petites pattes de crabe verts arrachées, des fragments de coquillage que la mer descendante n’a pas su attirer à elle alors qu’elle se retirait. C’est ainsi que je revois les êtres et les choses.”

Ele parou um instante depois de Civitavecchia. Havia uma velha vinha plantada praticamente na areia, um vazadouro abandonado na areia cinza e cheia de cascalhos da praia, cheia de detritos, mais descoloridos do que coloridos. Quase pisou numa pequena presilha de criança azul, de plástico, representando uma rã. Ficou estupefato. Voltou-se bruscamente com a impressão fugaz de que o haviam seguido. [...] Ajoelhou-se. Como aquela pequena presilha de criança o transtornava, aproximou-se dela sem pegá-la. Aquela rãzinha plastificada tinha certos traços de uma cigarra morta. [...] Todas as coisas, dizia de si para si, são objetos desse mundo. Os brinquedos não são objetos desse mundo. Houve outro mundo que precedeu essa luz na qual nos banhamos. Da mesma forma, haverá sempre outro mundo, a dois dedos de nós, que erra nesse mundo. Estava muito excitado. Repetia para si mesmo, com convicção: há duas espécies de objeto no mundo. Os objetos daqui debaixo e os objetos de além. Os objetos que pertencem ao uso e os objetos sem uso. De um lado, o mercado do que se troca, do que fala e do que perece, de outro o recinto mais silencioso do ídolo. [...] essa presilha em forma de rã que nem verde era, não era absolutamente nada, nem bonita ela era, não valia nada, não valia nem uma pétala ou um pistilo de flor. [...] A pequena presilha azul de criança não era um objeto de coleção. Era o primeiro objeto desse mundo incompreensível aos olhos de Édouard Furfooz. ‘Não é a presilha em si mesma’, dizia para si. Pensava: É talvez, para além da presilha, uma trança invisível (QUIGNARD, 1989b, p. 44-46).110

Da mesma forma que as anotações de Apronenia Avitia remetem às lembranças da personagem, o fragmento extraído de Les escaliers de Chambord que acabamos de citar também articula o “sordidíssimo” com a memória e com o perdido; a partir dessa confluência, é possível vislumbrar o segundo elemento da poética de Pascal Quignard ao qual nos dedicaremos, o “outrora” (Jadis). No contexto desse romance de 1989, o detalhe “sordidíssimo” (a presilha sob a forma de uma rãzinha) permite que um resto, um detalhe insignificante, encontrado em meio aos entulhos, remeta ao perdido. Depois da morte de sua amiga de infância, a personagem principal entra numa errância e passa a colecionar objetos. A contingência, porém, fará com que Furfooz, ao se deparar por acaso com um pequeno “objeto sórdido” encontrado no lixo que se acumulava à beira do mar, lembre-se daquilo que realmente havia refugado: a morte de sua amiga havia caído, havia muitos anos, sob a barra do esquecimento.

110 “Il s’arrêta un instant après Civitavecchia. Il y avait une vieille vigne plantée presque dans le sable, un

dépotoir abandonné sur la grève grise, pleine de détruits plus décolorés que colorés. Il manqua marcher sur une petite barrette d’enfant bleue, en plastique, représentant une grenouille. Il resta interdit. Il se retourna brusquement ayant la fugace impression qu’on l’avait suivi [...] Il s’agenouilla. Comme cette petite barrette d’enfant le bouleversait, il approcha sa main, sans qu’il l’a saisît. Cette petite grenouille stylisée et plastifiée avait certains des traits d’une cigale morte [...] Toutes ces choses, se disait-il, ce sont les objets de ce monde. Il y a eu un autre monde qui a précédé cette lumière où nous nous baignons. Aussi il y aura toujours un autre monde, à deux doigts de nous-mêmes, qui erre dans ce monde. Il était très excité. Il se répétait avec conviction: il y a deux sortes d’objets dans le monde. Les objets d’ici-bas et les objets d’au-delà. Les objets qu’appartiennent à l’usage et les objets qu’appartiennent au sans-usage. D’un côté le marché de ce qui s’échange, de ce qui parle et de ce qui périt, de l’autre l’enceinte plus silencieuse de l’idole [...] Cette barrette en forme de grenouille même pas verte n’était rien du tout, n’était même pas belle, ne valait rien, ne valait même pas un pétale ou un pistil de fleur [...] La petite barrette bleue d’enfant, ce n’était pas un objet de collection. C’était le premier objet de ce monde qui était incompréhensible aux yeux d’Édouard Furfooz. ‘Ce n’est pas la barrette elle-même’, se disait-il. Il pensait: ‘C’est peut-être, au-delà de la barrette, une natte invisible’.”

Também nesse romance, um paralelo com a psicanálise pode ser feito. Se a técnica romanesca de Pascal Quignard pode, entre outras coisas, ser pensada à luz das teses elaboradas por Freud em Escritores criativos e devaneio (1908), podemos também associá-la ao desenvolvimento do psicanalista em Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen (1907). Nesses dois artigos, Freud mostra que a obra literária é construída como um devaneio, ou seja, ela se fundamenta na atividade imaginativa concebida como um prolongamento do brincar infantil. A narrativa de Le salon du Wurtemberg é muito próxima da composição do romance de Wilhelm Jensen examinado por Freud: Gradiva, uma fantasia pompeiana (1903). Tanto no romance de Quignard como naquele de Jensen, o detalhe mínimo funciona como elemento desencadeador de uma série de lembranças que dizem respeito a um acontecimento que caíra no esquecimento e que, por essa razão mesma, determina as errâncias e as escolhas feitas à revelia do sujeito.