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C- Literatür ve Yöntem

1.3. Osmanlı Ekonomisi ve Zihniyeti

Les tablettes de buis d’Apronenia Avitia (1984) é um romance composto de duas partes claramente distintas. Na primeira, intitulada “Vida de Apronenia Avitia”, Quignard retraça uma pequena biografia de Apronenia Avitia; na segunda, ele recria as tablettes a partir “do que restou” das anotações feitas por ela. Vale mencionar que esse romance é construído à maneira de Jorge Luis Borges, ou seja, apresenta-se como uma edição crítica de uma tradução de textos latinos precedidos de uma nota bibliográfica. Trata-se de um texto exemplar quanto ao valor dado aos objetos sórdidos e, talvez mais do que em outros escritos do autor, evidencia-se aqui uma estética do detalhe fundamentada na polaridade sórdido/precioso.

A personagem principal do romance, Apronenia Avitia, é uma patrícia romana que teria vivido no final do século IV. Depois da morte de seu pai, ela teria iniciado uma espécie de agenda, ou de diário, no qual registrava os detalhes que julgava dignos de nota. Quignard:

Uma mulher de setenta anos anota as contas, as compras a serem feitas, as entradas de dinheiro, mas também compras de tecidos, estátuas antigas, encomendas de vinhos, perfumes, objetos raros, enfim, preferências e aversões quanto aos odores e aos prazeres, paradoxos, brincadeiras, maledicências, grosserias, pesadelos, lembranças (QUIGNARD, 1984, p. 20).102

102[...] une femme de soixante-dix ans note des comptes, des courses à faire, des rentrées d’argent, mais encore

des achats de tissu, de statues anciennes, des commandes de vin, de parfums, de pièces rares, enfin des préférences et des aversions quant aux odeurs et aux plaisirs, des paradoxes, des plaisanteries, des médisances, des grossièretés, des cauchemars, des souvenirs.”

Apronenia anotava detalhes do quotidiano em sua forma mais banal. Aliás, segundo essa “biografia reconstruída” por Quignard, a indiferença da personagem quanto aos acontecimentos relacionados à História oficial teria provocado o desprezo dos historiadores. Durante duas décadas, essa patrícia recusou-se a escrever em suas tablettes o que se passava na cidade: nenhuma observação sobre o final do Império, nenhuma menção sobre a invasão de Roma pelas tropas góticas. Apronenia parecia ignorar completamente a ascensão do poder cristão. Nesse sentido, assegura Quignard: “Apronenia assistia à penetração extremamente rápida desse partido religioso sem que sua obra tenha conservado o menor traço de seu nome.” (QUIGNARD, 1984, p. 16).103

Os restos acomodados pela escrita de Apronenia Avitia não refletem a positividade do fato histórico, mas, ao contrário, dizem respeito aos farrapos, aos fragmentos de uma vida vivida. Assim, no capítulo XXXVII, cujo título é “Controvérsia teológica”, encontramos o relato de um diálogo entre amigos no qual a figura divina é apresentada em sua total impotência. Se Deus é descrito como aquele que abandonou o homem “desde sempre”, ao ser humano resta apenas ser “desde sempre” abandonado. O homem “coincide”, se podemos dizer assim, com o próprio abandono; ele já seria o produto de uma operação cuja datação é imemorial. O “sordidíssimo” sob a figura do abandono se apresenta, portanto, assim:

Os deuses nos deixaram desde Juliano, diz C. Bassus. Deus nos abandonou desde Augusto, diz M. Pollio. Os deuses nos abandonaram depois de Numa, diz Ti. Sossibianus.

Deus nos abandonou desde sempre, diz P. Saufeius (QUIGNARD, 1984, p. 58).104

No capítulo LXXI, “Más vozes”, mediante uma descrição não sem lirismo, evoca-se a voz que deserta, que se esvai. Apronenia menciona os vestígios e a fragilidade da voz. No fragmento que destacamos, o elemento sordidíssimo se apresenta sob a forma da precariedade da voz que é, conquanto tal, o resto de uma operação. O procedimento utilizado por Quignard é o da justaposição, isto é, num primeiro momento, a figura do “sordidíssimo” é o mero relato de uma cena quotidiana, escolhida entre muitas e ao acaso, para figurar nas tablettes; essa

103Apronenia Avitia assista à la pénétration extrêmement rapide de ce parti religieux sans que son oeuvre ait

conservé la moindre trace de son nom.”

104Les dieux nous ont abandonnés depuis Julien, dit C. Bassus. Dieu nous a abandonnés depuis Auguste, dit M.

Pollio. Les dieux nous ont abandonnés depuis Numa, dit Ti. Sossibianus. Dieu nous a abandonnés depuis toujours, dit P. Saufeius.”

cena anódina, em nada extraordinária é, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre a voz considerada em toda a sua vulnerabilidade. É o que testemunha este pequeno fragmento:

Naevia teve de repente a voz frágil e incerta, sem aprumo, sem harmonia, [voz] daqueles que acabam de tossir longamente. Escuta-se atentamente essa espécie de vertigem da voz viva, [essa espécie] de falésia. Ouço nessas vozes alguma coisa do som da morte. A voz de Spurius depois de duas estações é semelhante a essa de Naevia. Vozes assim nos desvelam, de repente, que nossas cabeças se mantêm presas às orelhas por fiozinhos de lã, que nossas mãos se mantêm com a ajuda de fiozinhos de lã, que nossa voz é suspensa por um fiozinho de lã (QUIGNARD, 1984, p. 80).105

O “sordidíssimo” poderia, assim, tomar a forma de um detalhe quase insignificante, não fosse essa insignificância o signo de um objeto agalmático: o pequeno detalhe representado por um objeto pode significar que há um resto, algo impossível de ser dito, e é esse impossível mesmo que confere todo seu valor ao que é dito (ou descrito). Vejamos em Quignard:

LX Lembranças de Baïes

Eu comia eperlano e peras de Nápoles e vi Baïes. O vento do sul e o perfume das frutas cozidas no açúcar. A lua vermelha.

De manhã, minha bisavó cercada de criadas dava volta no primeiro jardim. Não se tinha o direito de falar. Uma espécie de vapor branco tremia sobre os viveiros de plantas.

Um dia ela parou e rompeu o silêncio. ‘Olhem!’, disse designando alguma coisa sobre a grama cuja lembrança me escapa completamente. Não sei o que minha bisavó apontava, mas, lembrando-me dessas coisas, parece-me que na grama alta, totalmente à minha esquerda, uma aranha noturna construía uma teia. Gotas de orvalho tremiam.

O ar tinha uma aparência rosada.

As rãzinhas estão voltando para a casa, disse com a voz grave minha bisavó rindo às gargalhadas, o dia está nascendo (QUIGNARD, 1984, p. 71-72).106

Questionado por Chantal Lapeyre-Desmaison se haveria uma razão particular que justificasse a constância do tema das rãzinhas em sua obra, Quignard respondeu que talvez

105 “Naevia eut tout à coup la voix fragile et incertaine, sans aplomb, sans unisson de ceux qui viennent de

tousser longuement. On tend l’oreille vers une sorte de vertige de la voix vivante, de falaise. J’entends dans ces voix quelque chose du son de la mort. La voix de Spurius depuis deux saisons est semblable à celle de Naevia. Pareilles voix tout à coup mettent à découvert que nos têtes tiennent par des petits fils de laine accrochés aux oreilles, que nos mains tiennent à l’aide de petits fils de laine, que notre voix est suspendue à un fil de laine.”

106 “Je mangeais des éperlans et des poires de Naples et je vis Baïes. Le vent du sud et le parfum des fruits cuits

au sucre. La lune rouge. Le matin ma bisaïeule entourée des servantes faisait le tour du premier jardin. On n’avait pas le droit de parler. Une sorte de vapeur blanche tremblait sur les semis. Un jour elle s’arrêta et rompit le silence. ‘Regardez!’ dit-elle et elle désigna quelque chose dans l’herbe dont j’ai tout à fait perdu le souvenir. Je ne sais plus ce que ma bisaïeule montrait du doigt mais en me souvenant de ces choses il me semble que dans l’herbe haute, tout à fait sur ma gauche, une araignée nocturne construisait une toile. Des gouttes de rosée tremblaient. L’air avait une teinte rose. ‘Les petites grenouilles rentrent, dit à voix forte mon arrière-grand-mère en s’esclaffant, le jour vient’.”

fosse porque são informuláveis (inavouables), ou seja, da ordem do que não é formulável ou mesmo confessável, admissível. Ele declara:

Por que gosto da rãzinha? A rãzinha é como nós mesmos. A vida dela está à mercê de um engodo (leurre). Ela tem seu corpo transformado e depois tem sua voz transformada. Ela vem da água. Conhece o estado de girino como nós conhecemos o estado fetal. Ela sobe pelas margens – como nós caímos sobre as bordas de luz. É minha irmã. Sua voz é rouca, e é pela voz que o desejo chama. Vox rauca, diz Ovídio. Voz perdida que chama sem parar na doçura da noite de verão (QUIGNARD; LAPEYRE-DESMAISON, 2001, p. 179).107