Apesar da dificuldade apontada inicialmente em acessar materiais sobre transporte na área das ciências sociais, foi possível desenvolver a pesquisa, ainda que com um caráter introdutório. Para isso, foi imprescindível o material produzido pelo Movimento Passe Livre sobre o direito à cidade, a mobilidade urbana e o transporte coletivo urbano.
A análise da teoria dos direitos sociais mostrou que esses direitos surgem a partir dos conflitos criados pelos movimentos sociais que exigem uma prestação positiva do Estado para assegurar a dignidade humana das pessoas. Sabe-se que o Estado, como o Direito, não é neutro. O Estado é o instrumento político do capitalismo, da burguesia, que estabelece sobre o povo uma dominação, que, além de sustentar o capitalismo, aliena os indivíduos da política. (CORRÊA, 2010). Para Bakunin (apud CORRÊA, 2010).
nenhum Estado, por mais democráticas que sejam as suas formas, mesmo a república política mais vermelha, popular apenas no sentido desta mentira conhecida sob o nome de representação do povo, está em condições de dar a este o que ele precisa, isto é, a livre organização de seus próprios interesses, de baixo para cima, sem nenhuma ingerência, tutela ou coerção de cima. (BAKUNIN,apud CORREA, 2010)
No entanto, enquanto houver Estado na constituição da sociedade, e ele gerir esta sociedade através do Direito, é imprescindível que os movimentos sociais exijam que este Estado garanta condições dignas de vida, pois as necessidades da população acontecem cotidianamente e não é possível esperar um processo revolucionário para que o povo tenha garantido direitos ínfimos à sobrevivência humana.
A teoria dos Direitos Sociais nos remete à criação de direitos a partir de revoltas e revoluções da classe explorada, como por exemplo, os direitos trabalhistas, os direitos à educação e à saúde. A criação do direito social ao transporte não se dará por outro meio, como nos mostra a história das revoltas pelo transporte coletivo urbano em nosso país. Essas revoltas, ao contrário do que se pode imaginar, não são realizadas visando tão somente à criação do direito ao transporte.
As lutas urbanas são, portanto, um momento na luta de classes mais ampla. Como tal, vão para além dos estreitos limites impostos pela
definição da política urbana nos termos atuais de poderes do governo municipal, limites que as condenam ao fracasso inevitável desde o primeiro momento. As lutas urbanas referem-se, de fato, ao conjunto da vida social, em relação com a reprodução da estrutura de classe da sociedade e com os problemas da circulação do capital. (SCHECTER, 1978, p. 53).
A urbanização das cidades separou o local de moradia da maioria da população, a periferia, do local de trabalho, o centro, fazendo com que o deslocamento na cidade seja feito majoritariamente pelo transporte coletivo. Em outras palavras, o transporte coletivo surge para tentar solucionar a “tendência do desenvolvimento urbano capitalista em promover a segregação espacial” (VASCONCELLOS, 2001, p. 27).
O transporte coletivo é essencial para garantir o direito de ir e ir das pessoas na cidade, portanto o próprio direito à cidade:
O sistema de circulação é um elemento essencial na mobilização da força de trabalho, considerando-se a separação física entre os locais de moradia, de trabalho e de realização das atividades necessárias à reprodução. (VASCONCELLOS, 2001, p. 35).
No entanto, não se pode enxergar a necessidade de efetivar o direito ao transporte apenas para garantir a reprodução do capitalismo. É preciso enxergar o direito ao transporte como possibilidade de assegurar o direito de todas as pessoas de ir e vir pela cidade, independente do deslocamento ser para o local de trabalho. O direito ao transporte deve ser efetivado para melhorar a vida das pessoas nas cidades.
Embora nenhuma Constituição do Brasil tenha efetivado o direito social ao transporte, o ordenamento jurídico brasileiro atual protege o direito à cidade (arts. 182 e 183) e garante a oferta de transporte coletivo como serviço público essencial. No plano infraconstitucional, encontramos a proteção ao direito ao transporte no Estatuto da Cidade, mas ainda não como direito social. Tramita no Congresso Nacional desde 2011 a Proposta de Emenda à Constituição nº 90 que dá nova redação ao art. 6º da Constituição Federal, para introduzir o transporte como direito social.
Aqueles que são contra transformar o direito ao transporte em direito social alegam que não há como o Estado financiar o transporte coletivo para todas as
pessoas. No entanto, há a proposta de financiamento chamada Tarifa Zero, que, como vimos, é viável em nosso ordenamento jurídico.
Portanto, é urgente uma mudança do status do direto ao transporte em nosso ordenamento jurídico, para assegurar uma vida melhor às pessoas que vivem na cidade. Sabemos que uma vida plena para todas as pessoas das cidades só é possível com a superação do sistema capitalista gerador de segregação sócio- espacial.
Se o modelo da vida urbana contemporânea é traçado pelas exigências de controle social do capitalismo, então a tentativa de transformar este modelo tem de se articular em última análise com uma estratégia a longo prazo de abolição e superação do próprio capitalismo. As reformas que poderiam melhorar significativamente a qualidade da vida urbana para a imensa maioria das pessoas levantam imediatamente o problema do poder de classe. (SCHECTER, 1978, p. 52).
As manifestações populares que aconteceram em 2013 apontam para a necessidade de o ordenamento jurídico rever o tratamento do direito ao transporte. Mas, mais que isso, as manifestações populares significam o avanço das lutas urbanas pelo transporte coletivo, afirmando o caráter descentralizado e alheio às estruturas dos partidos tradicionais das revoltas pelo transporte do século passado e do início deste século.
A organização descentralizada da luta é um ensaio para outra organização do transporte, da cidade e toda a sociedade. Vivenciou-se nos mais variados cantos do país, a prática concreta da gestão popular. Em São Paulo, as manifestações que explodiram de norte a sul, leste a oeste, superaram qualquer possibilidade de controle, ao mesmo tempo eu transformaram a cidade como um todo em um caldeirão de experiências sociais autônomas. A ação direta dos trabalhadores sobre o espaço urbano, o transporte, o cotidiano da cidade e de sua própria vida não pode ser apenas uma meta distante a ser atingida, mas uma construção diária nas atividades e mobilizações, no debates e discussões. O caminho se confunde com esse próprio caminhar, que não começou em Salvador e, não vai terminar em São Paulo. (MPL, 2013)
Uma análise mais ampla das lutas dos usuários do transporte coletivo desde o século passado permite a percepção da perspectiva estratégica do Movimento Passe Livre: retirar o transporte coletivo da iniciativa privada e coloca-lo sob a gestão da classe trabalhadora. Em outras palavras,
O projeto revolucionário, para que as lutas urbanas contemporâneas apontam, pouca semelhança tem com as práticas socialistas dos partidos. A muitos parecerá utópico, porque se trata de um projeto que implica uma sociedade em que não exista o Estado. (SCHECTER, 1978, p. 66).
A pesquisa realizada neste trabalho possui caráter introdutório. Portanto, muitas questões foram abordadas com um ponto de vista inicial e merecem ser aprofundadas em outra oportunidade.
No ensaio, não é preciso uma conclusão no sentido tradicional; cada parte é uma conclusão por si mesma. No desenvolvimento do ensaio, são geradas as próprias conclusões para as reflexões anunciadas inicialmente em forma de questionamentos. Assim, esta parte do ensaio não é uma conclusão no sentido tradicional; apenas direciona a reflexão para pensar a realidade (MENEGHETTI, 2011, p. 330).
A conclusão deste trabalho não procura encerrar a reflexão em torno do direito ao transporte, e nem poderia. A reflexão feita nestas páginas acontece todos os dias, na práxis cotidiana das pessoas – desde quando entram em um transporte coletivo lotado logo pela manhã-, e dos movimentos sociais – em cada ônibus queimado, desde o século passado.
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