Conforme ressaltado amplamente alhures, o ordenamento jurídico- constitucional brasileiro erigiu a dignidade humana e os direitos fundamentais como pilares do Estado Democrático de Direito (CF, arts. 1o. e 5o.), valores supra-legais que representam o núcleo central de todo o Direito, visando também o ordenamento constitucional efetivar esses valores com o estabelecimento de garantias sociais, pois não há como garantir uma vida digna, sem a mínima proteção social, e, dentre os direitos sociais, encontra-se o pleno emprego (CF, art. 170 e inciso VIII).
O ordenamento constitucional consagra o valor inestimável do trabalho humano, que o torna elementar para a promoção social e desenvolvimento econômico através da produção de bens e serviços, proclamando, ainda, que a ordem econômica está assentada na valorização do trabalho e estabelecendo o primado do trabalho como base da ordem social (CF, art. 193).
Entretanto, no que tange à efetivação do direito social de acesso ao trabalho, constitui preocupação em escala mundial a questão do acesso ao trabalho com justa remuneração, enfim, em condições dignas, pois o desemprego é uma realidade que é fruto da implantação da terceira revolução industrial, advinda do processo de globalização
do sistema de produção e de organização do trabalho, cuja crise no mercado de trabalho impôs novos métodos de organização do trabalho, difundiu o subemprego e trabalho informal -sem proteção trabalhista e previdenciária- prevalecendo a flexibilização dos direitos trabalhistas sobre a supremacia dos princípios protetores, que já não possuem valor absoluto, prevalecendo, ainda, o interesse capitalista à custa da mantença de postos de trabalho.
O acesso ao trabalho é um direito fundamental e de natureza social, e, como tal, representa um direito e uma garantia de todo cidadão e um dever jurídico-legal por parte do Poder Público que deve programar uma política de acesso ao trabalho e de combate ao desemprego (arts. 6o., 7o. e 170, VIII, da CF/88.)
Na verdade, o acesso ao trabalho condiz com uma vida digna para o trabalhador, já que, como consignado anteriormente, o trabalho representa fonte de satisfação, realização e integração do homem no seio da sociedade, portanto, o acesso ao trabalho é garantia de vida digna, sendo certo que a Constituição Federal Brasileira ao elencar o acesso ao trabalho, com combate ao desemprego e à exclusão social, buscou convalidar o contido na Declaração Universal dos Direitos do Homem:
“Art. XXIII-1. Todo homem tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.”
Conforme tivemos a oportunidade de afirmar em trabalho anterior, o trabalho para o homem é fonte de dignidade e promoção pessoal e social, constituindo o desemprego uma mácula para a dignidade humana do trabalhador, tornando inoperante a
Violência na Relação de Trabalho, tópico 1.4.2.
proteção à vida e saúde, ao meio ambiente, enfim, todos os direitos fundamentais e sociais, conquistados ao longo da história do trabalho44.
Por outro lado, para tornar efetivo o exercício de todos os direitos sociais, enfim, garantir o mínimo de vida digna ao trabalhador, não é suficiente o acesso ao trabalho; elementar o trabalho com uma justa remuneração para atender as necessidades vitais e essenciais do trabalhador e de sua família, além, evidentemente, de um meio ambiente laboral sadio e equilibrado, livre de riscos laborais e violências atentatórias à dignidade e personalidade do obreiro.
Diante desse cenário, modernamente, os organismos internacionais manifestam a preocupação com a implantação de uma política de empregabilidade, e com a preservação da dignidade do trabalhador através do acesso ao trabalho, acompanhado de condições dignas e mínimas de trabalho e sobrevivência, o que tem sido denominado de trabalho decente. A OIT, em Comunicado de 10 de novembro de 2000 (BIT/00/42) definiu trabalho decente como sendo:
(...) um trabalho que responde às aspirações elementares dos indivíduos, não apenas em matéria de renda, mas também em matéria de segurança própria e de suas famílias, sem discriminação, nem constrangimento de qualquer espécie, garantindo-se a igualdade de tratamento entre homens e mulheres45.
Segundo Jean-Michael Servais, a expressão trabalho decente compreende o reconhecimento dos valores morais, o respeito à dignidade humana e aos direitos fundamentais do trabalhador e o diálogo social, e, nesse sentido assevera que “el concepto de trabajo decente plasma la determinación de reunir todos los elementos de um desarrollo
44 ALKIMIN, Maria Aparecida. Assédio Moral na Relação de Emprego. Curitiba: Juruá, 2004, pág. 19.
econômico y social armonioso,em el que las reglas que protegen el trabajo constituyan un elemento esencial...”46. E, continua afirmando que “...las relaciones humanas no se reducen unicamente a una ideologia utilitarista, sino que tienen que contar con una dimensión ética.”47
Mas, diante dos novos desafios no mundo moderno do trabalho, onde se busca produtividade à custa de redução de custos e mão-de-obra e, conseqüentemente, de salários, exigindo do trabalhador a polivalência e multifuncionalidade com a intensificação e degradação das condições de trabalho, ao lado de uma organização do trabalho que coloca a pessoa como meio para atingir o fim, que é a produtividade para competitividade no mundo globalizado, com precariarização do trabalho formal, a política de implantação do trabalho decente pode permanecer no plano ideológico.
Por outro lado, o trabalho decente não pode envolver apenas uma colocação no mercado de trabalho; deve-se permitir uma contínua qualificação profissional com a garantia de justa remuneração, atentando-se para uma organização do trabalho com vistas à garantia de um meio ambiente do trabalho sadio e equilibrado, priorizando a pessoa humana do trabalhador, com políticas de eliminação e prevenção de toda forma de violência no ambiente de trabalho, a saber: trabalho forçado ou escravo, discriminações, assédio sexual e moral, drogas, etc.
Portanto, buscando resguardar o futuro do trabalho e a preservação da dignidade do trabalhador, e, conseqüentemente cumprir os objetivos da Constituição 45 Apud Ari Possidonio Beltran. Direito do Trabalho e Direitos Fundamentais. São Paulo: LTr, 2002, pág. 232.
46 Trabalho Decente. Doutrina. Revista Internacional del Trabajo. Vol. 123, ano 2004, pág. 215, Montevideo.
Federal, no que tange à proteção à pessoa do trabalhador e à garantia dos seus direitos fundamentais, o Poder Público e a iniciativa privada, no âmbito sociolaboral, têm como missão estabelecer políticas de trabalho decente, que atenuem as mazelas causadas pelos mecanismos econômicos competitivos que interferem diretamente na empregabilidade e na condição de vida do trabalhador e, nesse sentido, não se pode dar liberdade total à iniciativa privada para fixação de condições de trabalho, sob pena de aumentar o desemprego, precariarizar as condições de trabalho, aumentando as desigualdades e incidência das variadas formas de violência; enfim, há necessidade de intervenção estatal para manutenção de uma base razoável de direitos fundamentais, com a preservação da legislação de proteção social de fundo.
Na Europa, hoje, busca-se implantar política de empregabilidade através da promoção, qualificação e igualdade de oportunidades, com proibição de atos discriminatórios, sendo praticável o diálogo social através de políticas de concertação social, a qual visa a “flexiguridade”, ou seja, a flexibilidade das relações de trabalho para atender às necessidades produtivas e ao mesmo tempo uma proteção social com a promoção do trabalho decente e a garantia de seguridade social, tendo como meta, ainda, a inclusão do trabalhador informal, através da proteção à saúde e seguridade social com uma pensão básica48.
Portanto, hodiernamente, não basta a proteção social e legal ao trabalhador, através de garantia de salário mínimo, limite de jornada de trabalho, medidas de segurança no trabalho, etc; deve-se primar, na relação de trabalho, pela dignidade da pessoa humana do trabalhador, observando-se seus direitos fundamentais (igualdade de 47 SERVAIS, Jean-Michael. Ob. cit., pág. 237.
oportunidades e não-discriminação, liberdade sindical e de negociação coletiva, liberdade de trabalho e abolição do trabalho forçado e escravo, respeito aos direitos de personalidade do trabalhador, tais como privacidade, intimidade, etc), e, evidentemente, a expressão “trabalhador” abrange tanto o trabalhador subordinado, da tradicional relação de emprego, como o trabalhador informal/independente. Assim, a salvaguarda da dignidade e direitos fundamentais abrange toda classe trabalhadora, imperando-se a inclusão e não a exclusão.
CAPÍTULO IV – DIREITOS DA PERSONALIDADE E A RELAÇÃO DE