A relação trabalhista – subordinada - é uma relação de natureza contratual, bilateral, onerosa e sinalagmática, de execução imediata ou de trato sucessivo, e certo que em razão do princípio da continuidade do vínculo empregatício, e, como todo negócio jurídico, tem conteúdo eminentemente obrigacional. No caso da relação de emprego, esse conteúdo obrigacional envolve o aspecto econômico (frutos da prestação dos serviços que são transferidos para o tomador que abstrai a lucratividade desses frutos) e o aspecto pessoal (poder de direção sobre a pessoa do emprego e sobre seu trabalho), logo, o conteúdo obrigacional-pessoal envolve o dever de respeito e consideração aos
direitos da personalidade do trabalhador, extensão dos direitos fundamentais e da dignidade humana83.
Portanto, pode-se afirmar que a relação trabalhista é uma relação jurídica obrigacional de natureza pessoal, definida a relação obrigacional por Orlando Gomes como “um vínculo jurídico em virtude do qual uma pessoa fica adstrita a satisfazer uma prestação em proveito da outra.”84 Nesse contexto, corresponde a um dever de prestar e a um direito de crédito85, isto é, uma posição de débito num vértice (devedor) e uma posição
de crédito noutro vértice (credor), cujo objeto imediato de interesse do empregador é a prestação de serviços e o de interesse do empregado é o pagamento de salário.
Na relação trabalhista o conteúdo obrigacional é dúplice, pois tanto o empregado como o empregador, ao estabelecerem um vínculo trabalhista, tornam-se credores e devedores, concomitantemente, ou seja, ocupam a posição de credor e de devedor na mesma relação jurídica, sendo que o crédito do trabalhador coincide com o débito do empregador, cujos direitos e obrigações que norteiam a relação de trabalho decorrem da vontade das partes (autonomia de vontade) e de imperativo legal.
O trabalhador, no momento da celebração do contrato de trabalho, constitui-se em devedor, passa a ter a obrigação fundamental de prestar seus serviços de acordo com a estrutura organizacional de seu empregador, e certo que com diligência, obediência, boa-fé e respeito ao empregador e aos colegas de serviço, tornando-se, por outro lado, credor da remuneração. E, como a prestação de serviços absorve o aspecto da
83 A Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948, em seu art. 22 estabelece que a personalidade do indivíduo é atribuída a um contexto de direitos econômicos, sociais, culturais tidos e havidos como membro que é da sociedade
pessoalidade, não tem como separar da pessoa do prestador os direitos de personalidade, tornando-se, também, o trabalhador credor de respeito e consideração aos seus direitos da personalidade86, em contrapartida, o empregado deve tratar o empregador e seus subordinados com o mesmo respeito que o empregador deve destinar aos seus empregados.
No caso do empregador, tem a obrigação primordial de pagar salário, além de ter que fornecer os instrumentos de trabalho, cumprir os imperativos legais, agir com boa-fé, zelar pela segurança, higiene e qualidade de vida no ambiente de trabalho, e, como ocupa a posição de supremacia na relação de trabalho em razão da subordinação jurídica do trabalhador, tornando-o sujeito ao seu poder de direção que emana da sua superioridade econômica, deve comandar e dirigir sem perder de vista os direitos da personalidade, já que assumem conotações especiais na relação de trabalho, pois, enquanto pessoa, o trabalhador é titular de liberdades públicas e direitos fundamentais reconhecidos pela Constituição Federal, cujos direitos constituem limitações naturais e legais do poder de direção e ao exercício do jus variandi do empregador.
Se o pagamento de salário constitui obrigação primordial e fundamental do empregador, não menos fundamental e primordial é salvaguardar e proteger os direitos da personalidade do trabalhador, extensão de sua dignidade humana.
A relação de trabalho implica uma relação de dependência do trabalhador, que está obrigado não apenas a executar seus serviços, mas também está obrigado a
85 Loc. cit., pág. 11.
86 “El respeto a la dignidad personal del trabajador determina distintas exigências y prohibiciones sin que pueda establecerse un catálogo preciso de conductas impuestas o excluidas. El significado de la expresión es suficientemente claro y fecundo como para permitir valorar frente a eventuales hechos o actos del empleador si ha actuado con el debido respeto a la dignidad personal del
obedecer às ordens do empregador, submetendo-se ao seu poder de direção, que corresponde à prerrogativa do empregador em estabelecer o modus procedendi laboral, através de ordens de serviço, regimento interno, definição do modo, tempo e local de prestação de serviços, cujo poder diretivo resulta no exercício do jus variandi, o que permite ao empregador alterar condições contratuais de trabalho sem a anuência do trabalhador, constituindo o jus variandi, uma exceção ao princípio da imodificabilidade do contrato de trabalho.
Sem dúvida, a relação de trabalho, de natureza eminentemente pessoal, revela-se como campo fértil para agressões aos direitos da personalidade do emprego, inclusive, devido às novas exigências do mercado produtivo e de trabalho, com implantação da tecnologia de ponta e substituição do trabalho humano por máquinas, a empregabilidade tornou-se escassa, e, em busca da lucratividade e até mesmo por abuso do poder econômico, praticam-se formas degradantes de trabalho, como é o caso do assédio moral e sexual, trabalho escravo ou forçado, discriminações variadas, intromissão na vida pessoal do empregado, inclusive em função dos novos recursos tecnológicos de fiscalização.
Nesse sentido, é comum o sofrimento do trabalhador, tornando-se presa fácil para que contra si sejam cometidas lesões aos atributos pessoais como integridade física e moral, liberdade de pensamento, expressão e trabalho, intimidade e vida privada, enfim, o empregador no exercício do poder de direção e diante da submissão do trabalhador, típica da relação de subordinação, acaba excedendo os legítimos limites do
trabajador.” RODRIGUEZ, Américo Plá. Curso de Derecho Laboral. Vol. I, Tomo II-Contratos de Trabalho. Montevideo: Acali Editorial, 1978, pág.169.
poder de direção, transcendendo as condições de trabalho para lesar o trabalhador nos atributos de sua personalidade.
Assim, o exercício do poder de direção do empregador e conseqüente jus
variandi encontram limites na devida consideração à personalidade e dignidade do
trabalhador, cujo reconhecimento dos direitos da personalidade é garantia de ordem pública, sobrepondo-se ao interesse individual ou econômico, revelando-se esse limite medida de ordem política, econômica e de justiça social.
Na Espanha, há proteção específica aos direitos da personalidade do trabalhador, estando assentada essa proteção na tese de que a celebração do contrato de trabalho não implica a perda ou privação dos direitos da personalidade, sendo que a todo trabalhador é reconhecido o status cidadão, dentro e fora da empresa, cujos direitos da personalidade são direitos básicos, reconhecidos como direitos fundamentais pela Constituição87.
Na Itália, o art. 2.087 do Código Civil italiano, assegura proteção à “personalità morale” do trabalhador, impondo ao empregador, no exercício do poder diretivo, a obrigação de respeitar e proteger a dignidade do trabalhador, cuja obrigação é denominada de obligo di comportamento-obligi contrattuali (obrigação de comportamento e obrigação contratual).
O Código do Trabalho de Portugal, promulgado em 2003, no Título II que trata do Contrato de Trabalho, inseriu a Subsecção II sob o título “Direitos de
Personalidade”, garante tutela específica a esses direitos, separadamente das condições de trabalho de caráter patrimonial, destacando como direitos tutelados: a liberdade de expressão e de opinião (art. 15), reserva da intimidade e vida privada (art. 16), proteção de dados pessoais (art. 17), integridade física e moral (art. 18), vedação de testes e exames médicos (art. 19), controle dos meios de vigilância a distância (art. 20). Na Subsecção III, o Código do Trabalho de Portugal tutelou de forma específica a integridade moral do trabalhou, prevendo a igualdade e não discriminação (art. 22), tutela anti-assédio (art. 24) e medidas de ação positiva (art. 25).
É imperioso afirmar que a subordinação jurídica do empregado não o sujeita ao poder diretivo ilimitado do empregador, até porque esse poder encontra limites nos direitos da personalidade que compõem as liberdades públicas salvaguardadas pela CF/88, que veda ao empregador: discriminar o trabalhador (incisos I e VIII); obrigá-lo a fazer ou não fazer algo expressamente previsto em lei (inciso II); submetê-lo a tortura e a tratamento desumano ou degradante (inciso III); impedir a manifestação do seu pensamento (inciso IV); violar sua liberdade de consciência e crença (inciso VI); além de sua intimidade, imagem, honra e vida privada (inciso X), dentre outras liberdades públicas; além das limitações trabalhistas impostas pela CF ao empregador (arts. 7o., 8o. e 9o. da CF), caracterizando tanto obrigações positivas ou negativas, tais como pagar salário mínimo, adicionais salariais, observar limites de jornada, não discriminar pessoas portadores de deficiência, etc.
A CLT também prevê vários limites e restrições do poder diretivo do empregador, ao estabelecer, por exemplo, a imodificabilidade das condições de trabalho 87VALVERDE, Antonio Martín; GUTIÉRREZ, Fermín Rodríguez-Sanudo; MURCIA, Joaquín
(art. 444 e 468), com alteração unilateral das condições de trabalho e do local da prestação de serviços, veda dupla punição para atos faltosos ou até mesmo punição grave para falta leve, enfim, de forma indireta acaba por tutelar direitos elementares do trabalhador, relacionados com seus atributos pessoais e com a própria segurança jurídica que deve imperar na relação trabalhista.
Por outro lado, ainda que no Brasil a legislação trabalhista (CLT) não trate, especificadamente, dos direitos da personalidade, a CF/88, ao prever como princípio fundamental do Estado Democrático de Direito a dignidade humana da pessoa e as garantias fundamentais que norteiam todo o ordenamento jurídico, buscou tutelar os direitos de personalidade de todo cidadão, que desenvolva ou não atividade produtiva (art. 5o., X, da CF), cujos direitos foram regulamentados, ainda que não de forma ampla e taxativa, pelo Código Civil, aplicado subsidiariamente ao contrato de trabalho (art. 8o. da CLT), competindo aos intérpretes e aplicadores do Direito a manipulação do ordenamento existente para garantir a tutela aos direitos da personalidade do trabalhador.