A violência como fenômeno inerente ao convívio social, às relações grupais e interpessoais, também está projetada nas relações trabalhistas, e, certamente, por serem essas relações pautadas no binômio domínio-poder do detentor do capital e submissão do trabalhador que entrega o poder direção sobre suas atividades profissionais em troca de salário, sujeitando-se ao poder de comando e organização do empregador, torna-se campo fértil para a prática de violências, cujas violências vão desde a agressão física e/ou verbal, abuso do poder patronal, discriminações, assédios (moral e sexual), até a prática do trabalho forçado e escravo, exploração do trabalho infantil, etc.
Muito embora o processo de industrialização e o crescimento urbano desordenado sejam apontados como causas preponderantes para a violência nas organizações de trabalho, deve-se ponderar que também os fatores sociais, econômicos e
culturais interferem no comportamento das pessoas e, conseqüentemente, refletem no desencadeamento da violência.
No Brasil, a violência nas relações trabalhistas remonta à época da escravidão e da servidão, e, como bem lembra Helio Bicudo:
O povo sofrido do Brasil sempre foi vítima da violência: dos colonizadores sobre os índios; dos senhores sobre os escravos; dos fazendeiros sobre os camponeses do passado, os bóias-frias de hoje; dos latifundiários sobre os posseiros; dos patrões sobre os operários136.
Em todos esses casos, a violência é uma forma de supressão da liberdade, da vontade e do poder de decisão do submisso. E, muito embora as relações trabalhistas tenham evoluído para se enquadrarem numa relação contratual, com autonomia das partes contratantes, estabelecimento de condições mínimas de trabalho, tais como limite de jornada, salário mínimo, etc, a forma de organização e gestão do trabalho continua aviltando o fator humano, tal como ocorria com o trabalho escravo, sendo certo que a forma de organização do trabalho e do processo produtivo é uma das causas da violência nas relações de trabalho que, somada à violência estrutural, torna a questão da violência um problema complexo.
Pode-se afirmar que a violência é um fenômeno antigo e atual ao mesmo tempo, constitui-se em um elemento estrutural na organização produtiva e do trabalho, que teve início no período colonial com os primeiros empreendimentos para acumulação de
135Ob. cit., pág. 11.
riquezas, mantendo-se até os dias atuais com a busca desenfreada de lucratividade pregada pelo capitalismo global.
A escravidão foi a violência mais aviltante praticada contra a pessoa humana, ligada ao interesse mercantilista, e, embora tenha sido abolida a escravatura, a violência permanece uma constante no dia-a-dia da classe trabalhadora, pois há diversas práticas de violências que continuam a aviltar a pessoa humana do trabalhador, e, como pondera Fabio Konder Comparato, lembrando o imperativo categórico Kantiano, o reconhecimento da dignidade humana está em tratar a pessoa como fim em si mesmo:
A escravidão acabou sendo universalmente abolida, como instituto jurídico, somente no século XX. Mas a concepção Kantiana de dignidade da pessoa como um fim em si leva à condenação de muitas outras práticas de aviltamento da pessoa à condição de coisa, além da clássica escravidão, tais como o engano de outrem diante de falsas promessas, ou os atentados cometidos contra os bens alheios137.
A violência nas relações de trabalho fere direitos fundamentais dos trabalhadores, em especial, direito ao trabalho, à liberdade, à igualdade, à saúde, integridade, enfim, todos aqueles ligados à dignidade do ser humano; não pairam dúvidas no sentido de que a violência no ambiente de trabalho configura um atentado à dignidade humana.
O Direito do Trabalho tutela a prestação pessoal dos serviços, portanto, pode-se asseverar que todo o ordenamento jurídico está voltado para a proteção da dignidade humana do trabalhador, e, muito embora não exista no ordenamento jurídico trabalhista tutela específica de proteção contra a violência nas relações de trabalho, o ordenamento jurídico constitucional avoca toda proteção à personalidade e dignidade do trabalhador, pois além de prever normas gerais de proteção, traz princípios que
fundamentam todo o restante do ordenamento infraconstitucional, dentre esses princípios tem-se a dignidade da pessoa humana, tida como “valor supremo que fundamenta todo o ordenamento jurídico brasileiro.”138
Quando nos referimos à expressão violência nas relações de trabalho, não queremos nos referir apenas às agressões físicas, mas o fenômeno tem uma abrangência bem maior, devendo incluir ameaças, pressões, intimidações, discriminações, abuso, exploração de mão-de-obra, etc, assim, poderemos classificar as seguintes variedades de violências, ou sejam:
a) aquelas que dizem respeito à estrutura organizacional, deficitária no que tange às medidas de saúde, higiene e segurança no trabalho, tornando o ambiente propenso a acidentes do trabalho, o que podemos denominar violência estrutural nas relações de trabalho;
b) violência da delinqüência ou comportamental, ou seja, aquela que pode ocorrer tanto no ambiente de trabalho como externamente, como é o caso do assalto, furto, homicídio, lesão corporal, etc, que podem ou não interferir no ambiente de trabalho haja vista que, em regra, ocorrem como fato isolado. Por outro lado, o estabelecimento de relações trabalhistas e efetivo desempenho em locais de periferia ou tidos como perigosos constitui um fator capaz de ocasionar medo e insegurança aos trabalhadores, pois mais vulneráveis à violência, devendo ser a segurança, ainda que privada, uma preocupação necessária dos empreendedores; e
c) violência comportamental ou organizacional, isto é, aquela representada por um comportamento agressivo, abusivo, degradante, humilhante, dirigido intencionalmente 137 Ob. cit., págs. 22/23.
contra a vítima, degradando as condições e ambiente de trabalho, bem como ocasionando dano físico e/ou psicológico à vítima. Pode ser praticada por superior hierárquico, colega de trabalho ou até mesmo por terceiros, no caso, clientes.
Resumindo, pode-se afirmar que a violência nas relações de trabalho pode se caracterizar por três tipos de ações: uso de força física na intenção de causar lesão ou morte; agressão verbal; molestamento, intimidação, discriminações, perseguição que induza o medo, insulto, desestabilização e exclusão do ambiente de trabalho, que poderemos denominar de assédio que, por sua vez, se divide em sexual e moral.
Sob esse prisma, a violência nas relações trabalhistas podem ser tipificadas em violência física e violência psicológica, assim definidas:
a) violência física: se caracteriza pelo uso de força física contra a pessoa ou grupo, resultando um dano físico, psíquico, sexual e/ou moral. Como exemplo, podem ser citados os seguintes atos ou comportamentos agressivos: soco, tapa, chute, punhalada ou esfaqueamento, tiro, empurrão, mordida, etc; e
b) violência psicológica: emprego intencional de poder, ameaça, opressão, perseguição, indiferença, enfim, toda ação ou omissão capaz de resultar em malefício ao desenvolvimento físico, mental, espiritual, moral e sexual; abrangendo desde a agressão verbal, atitudes discriminatórias, assédio moral e o assédio sexual. Assim, poderemos classificar a violência psicológica em: agressão verbal, assédio moral, assédio sexual e discriminações, valendo ressaltar que o assédio moral devido às mais variadas formas de
138 ROMITA, Arion Sayão, ob. cit., pág. 251.
manifestação poderá abranger a agressão verbal, discriminações e outros atos e comportamentos capazes de ofender a integridade física e psíquica da vítima.
Convém nos reportarmos à chamada violência institucionalizada (ou violência branca) que também ocorre nas relações de trabalho, como é o caso da exploração da mão-de-obra humana através do trabalho escravo e forçado, trabalho infantil, e, ainda, as condições precárias ou subumanas destinadas à grande massa da população economicamente ativa através de baixos salários, que não garantem condições dignas de vida para grande maioria das famílias brasileiras.
Nesse sentido a violência nas relações de trabalho atinge em cheio a personalidade e dignidade da pessoa humana do trabalhador, pondo em risco a segurança, saúde, bem-estar e vida do trabalhador, além de representar uma mazela para o empreendimento, pois será responsável pelo afastamento do trabalhador, desmotivação, absenteísmo, baixa produtividade ou rotatividade, representando prejuízo financeiro para o empregador.