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Kurumlar Vergisi Kanunu Açısından Birleşme ve Devir

4. ŞİRKET BİRLEŞMELERİNİN DİĞER MEVZUAT

4.1. Kurumlar Vergisi Kanunu Açısından Birleşme ve Devir

No mesmo contexto em que os versos de Auta de Souza e os de Palmyra Wanderley estabeleceram visibilidade e aceitação, sinalizações determinadas pela crítica literária ou pelo gosto da comunidade discursiva (ou, simultaneamente, por essas duas forças de legitimação), os versos de Jorge Fernandes também, de forma bem mais modesta, se fizeram presentes. Mesmo sem, grosso modo, obterem o reconhecimento do público local leitor e produtor de poesia, ressoaram, de modo tonitroante, por entre os aplausos da ala mais refinada – e, consequentemente, diminuta – da intelligentsia natalense. Para celebrar, portanto, a notoriedade dos versos jorgianos de 1927, foram poucas as vozes representativas da crítica que se fizeram presentes na imprensa natalense dos anos 20: Otacílio Alecrim, Câmara Cascudo, Adherbal França...

Diferentemente, portanto, das duas poetas (que, em arquitetônicas próprias e singulares, ratificaram, ora em totalidade ora em parte, as escolhas estilísticas canonizadas pela tradição lírica e que, por isso mesmo, tiveram as

edições de Horto e de Roseira Brava esgotadas), Jorge Fernandes, no contexto espaçotemporal norte-rio-grandense dos anos 20 do século passado, foi pouco lido, mal lido ou, simplesmente, não lido.

Face à desenvoltura dessa recepção, é muito provável que os enunciados em prosa publicados por Jorge Fernandes na imprensa local, nos primeiros vinte anos do século XX, tenham despertado mais o interesse da comunidade discursiva do que os versos do Livro de Poemas. No entanto, a crítica literária local, em relação a esses enunciados prosaicos, assume, a posteriori, juízos avaliativos avassaladores. Em uma perspectiva globalizante, o posicionamento condenatório assoma: “A prosa avulta mais quantitativamente no legado literário de Jorge Fernandes. Prosa sobretudo de tons humorísticos” (SIQUEIRA, 1980, p. 25). E, em tom mais particularizado, despedaça as incursões do poeta em relação aos gêneros discursivos conto e crônica: “Minguam-lhe as virtudes do gênero ou, para usarmos de absoluta franqueza, essas troças metidas a contos nada apresentam que de fato as recomendem [...]” (SIQUEIRA, 1980, p. 30).

As incursões jorgianas na esfera dos textos teatrais, considerando-se as fronteiras do contexto espaçotemporal em que esta pesquisa se insere, também devem, provavelmente, ter alcançado mais repercussão que os versos do Livro de

Poemas. Nos anos 10 do século passado, Jorge Fernandes, ainda de acordo com

Cascudo (1970), escreveu tragédias comprimidas em um ato, como Pelas Grades,

Assim Morreu e A Mentira; peças sentimentais, como De Joelhos; e revistas de

costumes locais, como o Anti-Cristo. Em relação a tais produções artísticas, a crítica especializada manteve um mutismo suficientemente esclarecedor, transbordante a todas as décadas posteriores77.

Regida pela mesma verve cáustica, a crítica, tomando sempre como referência os versos publicados em 1927, ainda assegura que Jorge Fernandes “não sobreviverá pelas fraquezas de sua prosa”, mas pelos “primores e as graças de seus versos modernistas” (SIQUEIRA, 1980, p. 32). Nesse entendimento, mais uma vez se elucida, agora em relação aos poemas jorgianos, o descompasso entre os posicionamentos da crítica e o gosto dominante da comunidade discursiva. De um lado, o que provavelmente entrava na digestão da comunidade escorria pelas

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Segundo Veríssimo (1970), a peça de maior sucesso foi Pelas Grades, adaptada de um dos contos do poeta. Encenada várias vezes em Natal e em outras cidades, chegou a ser adaptada para o rádio.

mãos da crítica; de outro, o que era retido nos dedos encomiásticos da crítica não se prestava para ser conduzido à boca da comunidade.

A considerarmos o gradual processo de reconhecimento da obra poética de Jorge Fernandes (mais precisamente o Livro de Poemas) ao longo do século XX, venceu o reconhecimento da intelligentsia. Em 1928, o vaticínio ameaçador de Alecrim (apud ARAÚJO, 1997, p. 111) parece ter aberto olhos para a apreciação qualitativa futura: “Natal que olha as boas letras continuará tomando purga de vassourinha se não conhecer e sentir os poemas de Jorge Fernandes”.

Nesse julgamento, Alecrim aponta para duas constatações críticas, rigorosamente inter-relacionadas: o reconhecimento do perfil qualitativo dos versos jorgianos quando confrontados à produção lírica local e a imagem depreciada da comunidade discursiva dos primeiros trinta anos do século XX. Tanto para um quanto para outra, vale a metáfora amarga da “purga de vassourinha”78. Entendemos, considerando o contexto espaçotemporal em que a sentença foi proferida, que Natal, metonímia da comunidade discursiva leitora e produtora de poesia, estava privada do acesso a um produto qualitativamente superior, conformando-se, pois, com os sabores desagradáveis do que já se acostumara a degustar. De certa forma, a comunidade é vista como doente por não se permitir o acesso a um remédio sanador do mau gosto artístico. A metáfora “purga de vassourinha” termina por balizar um divisor na produção poética lírica local dos primeiros trinta anos do século XX: de um lado, o vozerio canônico das vozes socialmente bem aceitas; do outro, a voz isolada e incômoda de Jorge Fernandes.

Cascudo, em crônica publicada em 1929, panoramiza uma visão do estilo jorgiano:

O estilo era assim, rapidez, sacudido, sincopado, fixando emoções em imagens, notas, impressões, choques, descargas poéticas. Ninguém procure encontrar o Poema esvaziado no assunto. Transmitia-se o quadro, a visão, a síntese que o comovera. Nada mais. Versejava em flashes, instantâneos, anotando o relâmpago. (CASCUDO, 1970, p. 66).

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Trata-se de um purgante – beberagem caseira e medicamentosa, de uso muito comum no Nordeste brasileiro – feito à base da erva Croton argyrophylloides, popularmente conhecida como

vassourinha. Normalmente, os purgantes, de sabor desagradável (em geral, amargo), cumprem duas

funções: combater um mal específico e, simultaneamente, promover, dado o poder laxante que possuem, uma higienização do intestino.

Consideremos ainda que, na Natal dos anos 20 do século passado, o poeta não gozava – diferentemente de Auta de Souza e de Palmyra Wanderley – de uma imagem social favorecedora da aceitação pública. Não possuía a aura oitocentista, angélica e dramática, de Auta de Souza, o que contribuía, de modo decisivo, para o consumo incessante dos versos da “cotovia das rimas”. Nem detinha o esplendor aureolado, numa remissão parcial aos achados linguageiros cascudianos, do ativismo artístico, jornalístico e intelectual de Palmyra Wanderley, o que contribuía para a aceitação, ainda que sem o tom de unanimidade, dos versos da “cigarra dos trópicos”.

Diante desses polos referenciados, o ethos pré-discursivo do poeta Jorge Fernandes também não contribuiu, no período em análise, para a aceitação social dos versos. A imagem estava circunscrita à do sujeito de pouco trânsito social e, em consequência, de reconhecimento quase que restrito aos frequentadores da

Diocésia79, no café Magestic80. É provável até que circulasse, nas representações mentais da comunidade discursiva, uma imagem social obstaculizadora da consolidação pública de Jorge Fernandes como poeta: mesmo não sendo lido, era tido, pejorativamente, como muito moderno para os padrões da província. Seus versos agitavam euforicamente apenas o grupo mais vanguardeiro da intelligentsia local, a “panelinha mais forte” que frequentava, sob a batuta de Cascudo, o

Magestic (PINTO apud SARAIVA, 1987, p. 67). Tornavam-se, assim, objeto de

discussões acaloradas, mas restritas a determinadas mesas do café. Havia, em outros grupos, também assíduos aos mesmos encontros lítero-boêmios, quem “detestava” o poeta “e tinha calafrios ante a arte moderna que ele representava” (PINTO apud SARAIVA, 1987, p. 67).

Na condição de partícipe dos domínios geográfico-literários jorgianos, Cascudo (1970, p. 65) deslinda outros índices para a depreensão desse ethos pré- discursivo pouco favorecedor da anuência social: a produção poética de Jorge Fernandes “sempre fora rara e a divulgação custava esforço aos amigos”. O poeta “era profissionalmente anti-publicitário”. Muito provavelmente, essa imagem de recluso – de ensimesmado em seus versos sob a ânsia de não os tornar públicos –

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Ver primeira seção do capítulo 1.

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tenha dado um forte contributo para o imaginário social construído em torno do autor do Livro de Poemas.

5.1.2 Sobre os critérios de seleção dos poemas analisados

Para a delimitação inicial do corpus a ser analisado neste capítulo, procedemos da mesma maneira adotada na seleção dos poemas de Auta de Souza e de Palmyra Wanderley. Interessaram-nos enunciados poéticos recolhidos de um volume cujas publicação e circulação se deram no contexto espaçotemporal da pesquisa: os poemas de Jorge Fernandes publicados no Livro de Poemas, na edição de 1927. Como não tivemos acesso à edição princeps da obra81, optamos, entre as seis82 que foram a prelo até o início do século XXI, pela edição fac-símile da de 1927, publicada em 1997. Essa opção permitiu o acesso ao acabamento dado aos enunciados (inclusive ortográfico e tipográfico) no contexto em relevo.

Objetivando construir uma amostragem dos enunciados, estabelecemos, sob o mesmo crivo adotado no capítulo anterior, alguns critérios. Em primeiro lugar, selecionamos – como corpus restrito de análise – seis poemas dentre os trinta e nove presentes na edição de 1927. Desconsideramos, portanto, enunciados acrescentados em edições posteriores (e também enunciados publicados em jornais e revistas, no período em foco, mas ausentes da referida edição). Interessou-nos os acabamentos dados aos poemas no volume tido por nós como de referência.

Em segundo lugar, o crivo de seleção dos seis poemas constituintes do

corpus foi determinado pela escolha aleatória. Para justificar essa escolha,

assumimos dois posicionamentos: acreditamos que o conjunto completo dos trinta e nove enunciados compõe uma arquitetônica singular e que, de uma forma ou de outra, cada enunciado presente no Livro de Poemas desvela as escolhas estilísticas individuais de Jorge Fernandes. Sendo assim, cremos que a amostragem

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Lembramos que tivemos acesso à edição de Horto publicada em 1910 e à de Roseira Brava publicada em 1929. Tanto uma quanto outra estiveram em circulação na comunidade discursiva, no contexto espaçotemporal em foco.

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Existem seis edições do Livro de Poemas: a de 1927, a de 1970, a de 1997, a de 2007, a de 2008 e a de 2009.

constituída pelos seis enunciados permite a investigação da arquitetônica jorgiana no entrecruzamento da coerção com a ruptura estilísticas.

No que se refere à sequenciação dos enunciados na análise, mantivemos a mesma ordem em que aparecem na edição de 1927, enumerando-os de 7 a 12.