3. TTK’YA GÖRE ŞİRKETLERİN BİRLEŞMESİ
3.4. Şirket Birleşmelerinde Kanunen İzlenmesi Gereken Usul
3.4.9. Ticaret siciline tescil ve ilan
3.4.9.3. Devralan şirketin tescil talebi
CAMINHO DO SERTÃO emana os mesmos acordes da lira que musicou AGONIA DO CORAÇÃO, ainda que não contemple, com a mesma intensidade, o
impacto dramático presente neste último. Talvez o estro que dá visibilidade a um misto de sofrimento e de aprimorado manuseio formal das convenções poéticas tenha permitido que o mais antológico dos poemas de Auta de Souza ainda faça eco nos florilégios contemporâneos. Talvez até mesmo, na maioria dos casos, o poema tenha se tornado, no microcosmo escolar norte-rio-grandense do século XXI, a única referência conhecida da produção da poeta. Dada a concentração de traços recorrentes entre CAMINHO DO SERTÃO e AGONIA DO CORAÇÃO, acreditamos que esses dois poemas possam balizar, de modo bastante esclarecedor, o perfil das escolhas estilísticas autianas.
CAMINHO DO SERTÃO
A meu irmão João Cancio
1 Tão longe a casa! Nem siquer alcanço
2 Vel-a atravez da matta. Nos caminhos
3 A sombra desce; e sem achar descanço
4 Vamos nós dois, meu pobre irmão, sosinhos!
5 É noite já. Como em feliz remanso
6 Dormem as aves nos pequenos ninhos...
7 Vamos mais devagar...de manso e manso,
8 Para não assustar os passarinhos.
9 Brilham estrellas. Todo o céo parece
10 Rezar de joelhos a chorosa prece
11 Que a Noite ensina ao desespero e á dôr...
12 Ao longe, a Lua vem dourando a treva...
13 Thuribulo immenso para Deus eleva
Em CAMINHO DO SERTÃO (doravante Enunciado 2 ou E2), o autor-criador instaura uma arquitetônica que permite a manifestação de um tom vocal monocórdico, provavelmente bastante acessível à comunidade discursiva, tingido também de dramaticidade, ainda que esta não se plasme dentro dos padrões exacerbados da focalização consolidada em E1. Devido, portanto, a essa proximidade na constituição das duas arquitetônicas, limitamo-nos, pois, a abordar apenas aspectos complementares para a nossa análise.
Consideremos, inicialmente, a escolha do autor-criador no que se refere à perspectivação do herói: o desamparo enfocado sob a ótica de um sujeito que se encontra distante da fonte de proteção e de segurança (a metáfora casa) e que se manifesta em primeira pessoa, seja do singular seja do plural, em função de se irmanar a um outro agente na cenografia criada. Atentemos para os excertos abaixo.
1 Tão longe a casa! Nem siquer alcanço
[...]
4 Vamos nós dois, meu pobre irmão, sosinhos! [...]
7 Vamos mais devagar...de manso e manso,
8 Para não assustar os passarinhos.
Semelhantemente à angulação articulada em E1, esse sujeito, manifesto explicitamente, assume o ponto de vista sobre o herói, não só apontando para o objeto de desejo (a metáfora casa) como também para a situação existencial em que o próprio sujeito se encontra (a metáfora mata), definidora do desamparo. Confirmemos com o excerto abaixo.
1 Tão longe a casa! Nem siquer alcanço
2 Vel-la atravez da mata. [...]
O desdobramento da metáfora mata ocupa, conforme podemos atestar nos excertos, todos os demais versos que compõem o enunciado.
2 [...] Nos caminhos 3 A sombra desce [...] 5 É noite já. [...] 9 Brilham estrellas. [...]
12 Ao longe, a Lua vem dourando a treva...
É uma remissão a uma paisagem natural metaforizada e desveladora de medos e de angústias:
3 [...] sem achar descanço,
4 Vamos nós dois, meu pobre irmão, sosinhos!
9 [...] Todo o céo parece
10 Rezar de joelhos a chorosa prece
11 Que a Noite ensina ao desespero e á dôr...
Nessa cenografia, o título metaforizado CAMINHO DO SERTÃO funciona como uma síntese do desdobramento da metáfora mata e indicia a imagem marcantemente dolorosa da situação existencial em que se encontra o sujeito manifesto no enunciado. O signo sertão, no contexto potiguar de produção e de leitura dos primeiros trinta anos do século XX, apresenta traços semânticos associados a distanciamento, a sofrimento e a isolamento.
Consideremos também algumas escolhas estilísticas no âmbito da organização composicional, como a disposição em versos metrificados e rimados sob um parâmetro predefinido e a composição compactada em quatro estrofes. A primeira escolha estabelece uma cadência melódica e repetitiva, atenuadora da intensidade do drama vivido pelo sujeito manifesto; a segunda possibilita uma progressão do tratamento dado ao herói, também atenuadora da dramaticidade, mas mantenedora da densidade desse mesmo tratamento.
Para a disposição dos versos, o autor-criador elege um padrão métrico, rímico e rítmico clássico: verso decassílabo, rimas perfeitas e apoio rítmico tendente
às quartas e às décimas sílabas poéticas. Do mesmo modo que em E1, também são apropriados determinados aspectos do que se convencionou, em certos momentos da cultura ocidental, como traços pertinentes aos registros poéticos da linguagem. Confirmemos todas essas recorrências na escansão da terceira estrofe, uma vez que as demais tendem a seguir o padrão.
9 Bri – lham – es – tre – llas. – To – do o – céo – pa – re – ce 10 Re – zar – de – jo e – lhos – a – cho – ro – sa – pre – ce 11 Que a – Noi – te en – si – na ao – de – ses – pe – ro e á dôr...
Para a composição em quatro estrofes, o autor-criador elege o gênero discursivo soneto petrarquiano69. Na circunscrição, o tratamento dado ao herói é desenvolvido sem apoio na gradação nem no paralelismo sintático-semântico, tão presentes em E1. Na primeira estrofe, o autor-criador tanto apresenta o herói e a situação dolorosa por que passa o sujeito que se manifesta explicitamente no enunciado quanto inicia a descrição da situação já referida; nas estrofes seguintes, apresenta paulatinamente novos dados da descrição. E1 não apresenta chave-de- ouro70.
Consideremos, por fim, algumas outras escolhas estilísticas, como a seleção dos sígnos e a seleção da disposição da cadeia sintagmática da língua em uso. Esse conjunto de escolhas, do mesmo modo que em E1, contribui para a consolidação da tonalidade monocórdica presente no enunciado em análise, seja pela urdidura da unidade semântica e seus decorrentes efeitos conotativos seja pelo favorecimento da clareza do dizer.
Em relação às primeiras, a valoração se dá nas duas esferas já tratadas da tradição lírica: a do intimismo (como casa, sombra, irmão, remanso, desespero,
dor, alcançar, dormir e assustar) e a da religiosidade católica (como céu, treva,
69
Gênero discursivo da tradição lírica, o soneto petrarquiano, também denominado de italiano, é composto por quatorze versos, distribuídos em quatro estrofes: dois quartetos e dois tercetos. Geralmente, o padrão rímico é abba-abba nos quartetos e ccd-eed nos tercetos. Outras fôrmas tradicionais para o soneto também são recorrentes, mantendo-se sempre o mesmo número de
versos: a shakespeareana, ou inglesa, composta por três quartetos e um dístico; e a monostrófica.
70
Tradicionalmente, o gênero discursivo soneto apresenta uma organização composicional padronizada (introdução, desenvolvimento e conclusão). Constituída pelo último terceto (ou por parte dele), a conclusão recebe o nome de chave-de-ouro, porque pode se constituir como decifradora do significado global do poema.
turíbulo, Deus, incenso e rezar). Acrescentemos, em rigorosa intercessão semântica
com as anteriores, a da natureza (como mata, noite, ave, ninho, passarinho, estrela,
lua, jurema e flor). Adicionemos também a incidência de expressões cristalizadas
pelo uso (como feliz remanso, pequenos ninhos e chorosa prece).
Em relação às escolhas relacionadas à disposição da cadeia sintagmática, temos também o mesmo arranjo encontrado em E1: tendência à ordenação direta convencional, evitando-se quebras (salvo as de acomodação métrica ou rímica à fôrma do soneto petraquiano) ou incompletudes na cadeia. Acrescentemos ainda a escolha do registro escrito tido como culto. Para essa escolha, também são válidas as ponderações feitas na análise de E1.