4. NÜZÛL SEBEPLERİ İLE İLGİLİ YANLIŞ TELAKKÎLER
1.2. Bilgi Eksikliği
1.2.2. Kur’an’ın İndiği Dönemdeki Arapça’yı Dikkate Almamak
Para desenvolver a questão de pesquisa, foi necessário antes de tudo, expandir o domínio de possibilidades. Parti de uma pergunta ampla: como é possível estudar a política cultural como categoria histórica e como agente agregador de públicos e mediador de ações? Como estudar categorias e linguagens cujas origems se deram em múltiplos lugares ao invés de um só? Como produzir uma narrativa que descreva alguns desses lugares ou percursos de forma que sejam significativos para o todo, sabendo que esse todo não existe?
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O primeiro momento foi o de recorrer a todo tipo de informação disponível: repositórios de notícias, buscas no google, arquivos de jornais, títulos de livros, de periódicos, listas de publicações; tudo que pudesse indicar como a categoria política cultural era usada nos mais diferentes contextos. Na vida cotidiana, passei a me atentar a toda vez que alguém usava o termo. Esse movimento expansivo e aparentemente sem direção me ajudou a localizar pontos possíveis de partida. O material levantado indicou que uma época de muita discussão foi em algum ponto vago entre a criação do Ministério de Assuntos Culturais na França (1959) e a criação do nosso Ministério da Cultura aqui no Brasil (1985), sem que houvesse, necessariamente, ligação direta entre uma coisa e outra.
Além disso, a UNESCO aparecia em diferentes contextos: estudos acadêmicos, títulos de livros e referências técnicas. Sua produção maior relativa a políticas culturais coincidia justamente com esse período tentativo inicial. Uma possibilidade de trabalho se abria: seria a UNESCO um bom ponto de partida? As discussões durante a qualificação do projeto de pesquisa, que contaram com a participação de Lia Calabre e Mario Aquino Alves, contribuíram para assumir esse risco: a questão de pesquisa permaneceria ampla, mas o foco principal, o ponto de partida para achar outros, seria a UNESCO. Mais precisamente, seria o trabalho da UNESCO na formação de um campo de experiência centrado na linguagem das políticas culturais no período de 1966 a 1982.
Num primeiro projeto, esse foco se subdividiria em dois: um olhar para o papel da UNESCO em relação às políticas públicas no mundo e outro especificamente no Brasil, procurando entender o impacto – ou não – deste trabalho aqui e as condições específicas de emergência e circulação das políticas culturais no Brasil. Desde o início de 2014 eu iniciei o mapeamento dos arquivos que conteriam, aqui no Brasil, repositórios documentais relativos à relação entre Brasil e UNESCO no tema. A documentação está dispersa e há pouca informação ao público sobre sua distribuição, mas essa investigação ajudou a começar a entender a complexidade da inserção da UNESCO nos países-membros, que se dá de diversas formas e resulta num legado material diversamente distribuído. Os documentos relativos à correspondência entre a delegação brasileira em Paris e o Ministério das Relações Exteriores (MRE) estão no arquivo do Itamaraty, em Brasília, onde coletei
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cerca de 200 imagens de documentos. Mas em sua maioria eram apenas telegramas com avisos breves sobre assuntos que tramitavam, de fato, junto à Comissão Nacional – cuja documentação não estava lá.
O Brasil teve uma das primeiras comissões nacionais instaladas, com o nome de Instituto Brasileiro de Ciência e Cultura (IBECC), criado por lei na estrutura do MRE em 1946. As atividades do IBECC eram realizadas no antigo Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, e foram descontinuadas em algum momento da última década sem que seu fechamento fosse oficializado – ninguém no Palácio sabia para onde tinham ido as pessoas e seus documentos. Em 2015, seus ramais ainda existiam e o zelador do prédio era o único a recordar a pequena equipe que teria permanecido até alguns anos antes. A única fonte facilmente acessível sobre o trabalho do IBECC são edições do Correio do IBECC, informativo trimestral publicado a partir de 1958 no qual era publicado o relatório de atividades e demais notícias sobre o órgão, cuja coleção completa está disponível para consulta na Universidade Federal Fluminense e Pontifícia Universidade Católica de São Paulo14.
Em julho de 2015 obtive informações junto à nova Comissão Nacional, que está em processo de estruturação em Brasília, que os documentos relativos ao IBECC não estão arquivados e estão divididos entre Rio de Janeiro e Brasília, sob cuidados de funcionários e poderiam ser consultados mediante agendamento futuro.
Dadas as dificuldades enfrentadas no acesso aos repositórios arquivísticos nacionais, empreendi o mesmo esforço no arquivo central da UNESCO, em Paris. A UNESCO possui base digital com parcela significativa de seus documentos, chamada UNESDOC, cujo repositório dá conta de quase todas as suas publicações e relatórios oficiais, bem como documentos de produção regular referentes às principais decisões da organização. O acesso fácil a diferentes tipos de documentos permitiu compreender melhor as formas de trabalho da organização e filtrar as ocasiões, reuniões e documentos físicos que eu iria procurar posteriormente no arquivo central na sede da organização. No UNESDOC estão disponíveis os documentos relativos às conferências gerais, as monografias nacionais sobre as
14 Há outras bibliotecas com trechos incompletos da coleção, algumas nas quais a coleção consta no catálogo
não foram encontradas pelos bibliotecários, então essas são as únicas nas quais há confirmação de existência e acesso à coleção.
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políticas culturais dos países, bem como os relatórios e agendas de todas as reuniões relativas a políticas culturais do período 1966-1982.
Da base UNESDOC compilei e analisei 248 documentos, contabilizando 29.000 páginas, divididos em
Relatórios das conferências gerais 1946 – 1964, incluindo ato de constituição Documentos das conferências gerais 1964 – 1982
Orçamentos bienais Organogramas
Documentos publicados relativos aos eventos: Mesa Redonda de Mônaco (1967); Conferência sobre os aspectos administrativos, financeiros e institucionais das políticas culturais (1970); Conferências regionais de políticas culturais (1972 – 1978); Conferência mundial de políticas culturais (1982)
Monografias nacionais sobre políticas culturais
Demais publicações da UNESCO sobre desenvolvimento cultural, estatísticas culturais, direitos culturais, legislação cultural
Nas conversas com a equipe do arquivo central da UNESCO, eu buscava documentos preparatórios relativos aos eventos e às monografias e, também, sobre a missão enviada ao Brasil em 1968 para estudo das políticas culturais no Brasil. Diferentemente dos países que produziram seus próprios estudos nacionais, como explicado nos capítulos 3 e 4, o Brasil não teve sucesso nas negociações para sua publicação. Mas teve um relatório feito por especialistas estrangeiros, antes do ciclo de publicações. Para entender a disponibilidade e organização destes documentos contei com a valiosa ajuda de dois funcionários da UNESCO. Adele Torrance ajudou à distância explicando como achar informações nos documentos, quais códigos referiam a outros documentos, quais sintetizavam, quais eram regulares, e me mandou uma lista das caixas nas quais eu talvez encontrasse o que queria.
Já na UNESCO, em julho de 2014, o arquivo de cultura não fica no edifício principal, o imponente edifício próximo à torre Eiffel. Fica no porão do prédio do fundo do anexo da Rua Miollis, n. 1, onde Sang Phang ajudou a achar inclusive processos que pareciam ter desaparecido. Selecionei e fotografei documentos de
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aproximadamente 47 processos depois de consultar cerca de 35 caixas de material, o que resultou em 2.460 páginas de documentação organizada em pdfs nos quais mantive a mesma ordem dos processos originais. A maior parte do material encontrado nesses processos foram correspondências, internas e externas, e versões anteriores de documentos que seriam publicados em suas versões finais.
O exame desses documentos trouxe mais referências de nomes, assuntos e pessoas, que consequentemente levaram a sucessivas pesquisas posteriores no UNESDOC e outras bases para complementação e persecução dos filamentos que saíram do meu ponto de partida. A rede de referências dos documentos orientou a composição de um arquivo digital com fotografias e documentos em pdf, de modo que sua organização passasse a refletir tanto sua organização original em arquivo físico quanto o agrupamento das referências em documentos associados. Dessa maneira, o desenho e a estrutura do meu arquivo digital acabaram se tornando também fontes para entender a formação das associações internas aos documentos.
Uma vez coletados os documentos, foram longos os meses de leitura e fichamento dos documentos, na busca por traços, associações, regularidades, ciclos ou outras pistas a seguir para construir uma trajetória. Arquivos de anotações, seleções, comparações, índices detalhados de trechos da documentação, listas de participantes, tipologias e informações correlatas se multiplicaram no meu disco rígido.
As possibilidades de lidar com o material eram muitas, o que levou a encruzilhadas nas quais foi necessário tomar decisões e abrir mão de alguns caminhos. Em muitos momentos questões importantes foram deixadas de lado, por desviarem do foco inicial. A primeira delas é a própria definição de cultura. Em muitas discussões sobre política cultural a impossibilidade de consenso sobre a noção de cultura parece ser um ponto comum. Por mais que esse debate tenha reflexos diretos no que se conceberá como política cultural, só foi abordado na medida em que mobilizado nas discussões e documentos escolhidos para análise, ou seja, sem entrar na complicada e densa história do conceito de cultura. Foram priorizadas as histórias ligadas à política cultural como binômio.
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Outra decisão foi o tratamento dado ao Brasil na pesquisa. A repercussão do trabalho da UNESCO no Brasil foi determinante na definição do ponto de partida para a pesquisa. Algumas pesquisas indicam (Calabre, 2009; Botelho, 2001) que as ações da UNESCO tiveram influência significativa na formação e circulação da linguagem da política cultural no Brasil. No entanto, a ordem das coisas, no percurso de investigação, acabou sendo diferente. A resposta dos arquivos brasileiros às minhas solicitações – talvez insuficientemente precisas – foi lenta e pouco profícua, ao passo que o diálogo estabelecido com a equipe do arquivo central da UNESCO foi rapidamente me colocando em contato com material diretamente ligado à minha questão de pesquisa.
Só bem recentemente, em fins de 2015, obtive pistas para melhor direcionar as buscas por documentos e pessoas envolvidas no tranalho da UNESCO relacionada ao tema de políticas culturais no Brasil. Devido à colaboração com o “The Global History of UNESCO Project”15, que tem o Brasil como um de seus
estudos de caso, tive o apoio da coordenação do projeto para descobrir onde estão algumas séries documentais e, a partir do material levantado para eles, ter uma lista provável de nomes cujos arquivos pessoais (ou testemunhos, se estiverem vivos) podem guardar chaves importantes para o entendimento do caso brasileiro16. Este
desenvolvimento é um desdobramento natural desta pesquisa para o futuro.
Um pouco da relação com o Brasil é objeto de reflexão no último capítulo, assim como usos da política cultural em outros países. Os pontos de vista e engajamentos de diferentes atores sobre e no trabalho da UNESCO em políticas culturais são explorados apenas na medida em que se posicionam em relação às provocações da UNESCO e de suas redes. Os fóruns exógenos e, por vezes, distantes, à UNESCO serão explorados brevemente na retomada da discussão teórica, com o objetivo de situar a discussão sobre a performatividade da linguagem da política cultural nos dias de hoje.
15 Universidade de Aalborg, coordenado por Poul Duedahl.
16 O arquivo pessoal de Carlos Chagas Filho, delegado da Unesco e membro do Conselho Federal de Cultura,
sob guarda da Fundação Oswaldo Cruz (RJ); coleção documental da Comissão Nacional do Folclore, criada no IBECC em 1947, sob a guarda da Biblioteca Amadeu Amaral, do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, vinculado ao IPHAN; documentos e depoimento oral do diplomata Temístocles Cavalcanti, foi presidente do IBECC e autor do estudo não publicado sobre política cultural no Brasil, sob guarda do CPDOC-FGV; além do arquivo de Aloísio Magalhães, também vinculado ao IPHAN e outros arquivos do MinC.
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O período estudado é marcado por tensões da Guerra Fria, especialmente relevantes nos fóruns internacionais. Mas, da mesma forma que a questão da cultura, o relato aborda a Guerra Fria somente quando é mobilizada nas narrativas de política cultural. O relato da pesquisa não é uma macro história geopolítica, tampouco uma história somente da UNESCO. Há uma série de outras histórias e contextos que cruzam a trajetória escolhida, mas o trabalho se atém aos contextos mobilizados. Ele próprio forma sua rede de “totalidades parciais”, com todas as suas incompletudes e temporalidades, para a indicar quais histórias paralelas devem ser trazidas para esta.