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1. Kefil Olma Ehliyeti
Willis Santiago Guerra Filho afirma que uma tarefa de importância inexcedível que se apresenta no momento para quem lida profissionalmente com o Direito em nosso País é a de tomar consciência das pecularidades da hermenêutica constitucional. Isso para que se venha a ter aplicada nossa Constituição, reconhecida,
inclusive internacionalmente, como dotada de grandes qualidades36.
Ainda segundo o referido Professor, praticar a “intepretação constitucional” é diferente de interpretar a Constituição de acordo om os cânones tradicionais da hermenêutica jurídica, desenvolvidos, aliás, numa época em que as matrizes do
pensamento jurídico assentavam-se em bases privatísticas37.
Celso Ribeiro Bastos ensina que a interpretação constitucional não despreza a interpretação jurídica de um modo geral, mas apresenta uma série de particularidades que justificam seu tratamento diferenciado, num estudo de certa forma autônomo dos
demais métodos interpretativos presentes no sistema jurídico38, além de compreender o
campo de atuação da “interpretação constitucional” sob um espectro mais amplo, envolvendo não só a atividade interpretativa dos enunciados prescritivos constantes da Constituição, mas também a interpretação dos enunciados infraconstitucionais segundo a Constituição:
... a interpretação constitucional não pode ser simplesmente considerada como a interpretação da Constituição, exclusivamente. O que se pode dizer, é certo, é que só haverá interpretação constitucional quando a Constituição estiver envolvida.39
36
GUERRA FILHO, Willis Santiago. Da interpretação especificamente constitucional. In Revista de Informação Legislativa. Brasília, ano 32, no128, out/dez.1995, p. 255.
37 Idem.
38 BASTOS, Celso Ribeiro. Hermenêutica e Interpretação Constitucional. 2ª edição. São Paulo: Celso Bastos Editora, 1999, p. 49.
Dentre as razões que levam à essa diferenciação interpretativa dos enunciados prescritivos40 constitucionais, estão: a inicialidade fundante das normas constitucionais, sendo a Constituição o fundamento de todas as demais normas do ordenamento jurídico e o caráter aberto das normas constitucionais e sua atualização, vez que a norma constitucional, muito frequentemente, apresenta-se como uma petição de direitos ou mesmo como uma norma pragmática sem conteúdo preciso ou delimitado41.
Objetivando a plena eficácia constitucional, a doutrina constitucionalista construiu diversos princípios interpretativos das normas constitucionais, sendo que nesta tese adotamos, por entendê-lo como o mais completo e suficiente para o nosso objetivo, o rol apresentado por J.J.Gomes Canotilho, acrescentando-lhe somente o princípio da supremacia da Constituição, destacado por Celso Ribeiro Bastos.
Segundo Canotilho, têm-se os seguintes princípios de interpretação constitucional: princípio da unidade da Constituição, princípio da máxima efetividade, princípio da justeza ou da conformidade funcional, princípio da concordância prática ou da harmonização e princípio da força normativa da Constituição. Analisemos cada um deles:
Por princípio da unidade da Constituição entende-se a obrigação do intérprete de considerar a Constituição na sua globalidade e de procurar harmonizar os espaços de tensão existentes entre as normas constitucionais a concretizar. Trata-se de uma consequência de uma visão sistêmica das normas constitucionais, em que todas são elementos de um mesmo sistema, harmonizando-se e se inter-relacionando. Daí que o intérprete deve sempre considerar as normas constitucionais não como normas isoladas, mas sim como preceitos integrados num mesmo sistema interno, unitário de
40 Referimo-nos às diferenças entre as interpretações de enunciados normativos infraconstitucionais e constitucionais.
41 BASTOS, Celso Ribeiro. Hermenêutica e Interpretação Constitucional. 2ª edição. São Paulo: Celso Bastos Editora, 1999, p. 53-54.
normas e princípios42. Sobre esse princípio, transcrevemos os ensinamentos de Celso Ribeiro Bastos:
Como consequência deste princípio, as normas constitucionais devem sempre ser consideradas como coesas e mutuamente imbricadas. Não se poderá jamais tomar determinada norma isoladamente, como suficiente em si mesma. É que a Constituição pode perfeitamente prever determinada solução jurídica num determinado passo seu, para noutro tomar posição contrária, dando lugar a uma relação entre norma geral e outra específica. Esta predomina no espaço que abrange. Não há, pois, qualquer fratura constitucional. E isso porque se a Constituição é uma, e se é ela o documento supremo da nação, todas as normas que contempla encontram-se em igualdade de condições, nenhuma podendo se sobrepor à outra para lhe afastar o cumprimento. As duas normas vigem por inteiro, apenas que em situações diversas (nunca para a mesma situação). Assim, cada uma vige em seu campo próprio, do que resulta a aplicação de ambas.43
Como princípio do efeito integrador, temos que na resolução dos problemas jurídico-constitucionais deve-se dar primazia aos critérios ou pontos de vista que favoreçam a integração política e social e o reforço da unidade política. Trata-se de princípio muitas vezes associado ao princípio da unidade44.
O princípio da justeza, também denominado princípio da conformidade funcional, visa impedir que, em sede de concretização da Constituição, a alteração da repartição de funções constitucionalmente estabelecidas. Hoje, este princípio tende a
ser considerado mais como um princípio autônomo de competência45.
Quanto ao princípio da máxima efetividade, à uma norma deve ser atribuído o sentido que maior eficácia lhe dê, sendo que a eficácia de que trata esse princípio é a
42
CANOTILHO, J.J. Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 3ª edição. Coimbra: Almedina, 1999, p. 1096-1097.
43
BASTOS, Celso Ribeiro. Hermenêutica e Interpretação Constitucional. 2ª edição. São Paulo: Celso Bastos Editora, 1999, p. 103.
44
CANOTILHO, J.J. Gomes. Op. Cit., p. 1097-1098. 45 Idem.
eficácia social46, isto é, deve-se preferir interpretações que maximizem a sua atuação efetiva no mundo social concreto47, principalmente quando se trata de Direitos Fundamentais.
O princípio da concordância prática, também denominado “princípio da
harmonização” é, na realidade, uma forma de superação de tensões entre normas jurídicas que introduzem Direitos Fundamentais. Esse princípio impõe a coordenação e combinação dos bens jurídicos em conflito de forma a evitar o sacrifício (total) de uns em relação aos outros. Subjacente a este princípio está a ideia de igual valor dos bens constitucionais (e não uma diferença de hierarquia) que impede, como solução, o sacrifício de uns em relação aos outros, e impõe o estabelecimento de limites e condicionamentos recíprocos de forma a conseguir uma harmonização ou concordância prática entre estes bens48.
Segundo o princípio da força normativa da Constituição, na solução dos problemas jurídico-constitucionais deve-se dar prevalência aos pontos de vista que, tendo em conta os pressupostos da Constituição (normativa), contribuem para uma eficácia ótima da lei fundamental. Consequentemente, deve dar-se primazia às soluções hermenêuticas que, compreendendo a historiciedade das estruturas constitucionais, possibilitam a atualização normativa, garantindo, do mesmo pé, a sua eficácia e permanência49.
Finalmente, temos o princípio da supremacia da Constituição, segundo o qual, pelo fato da Constituição ser a norma superior do ordenamento jurídico, não se dá conteúdo à Constituição a partir das leis. A forma a adotar-se para a explicação de
46
CANOTILHO, J.J. Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 3ª edição. Coimbra: Almedina, p. 1097-1098.
47
MAGALHÃES FILHO, Glauco Barreira. Hermenêutica e unidade axiológica da Constituição. 3ª edição. Belo Horizonte: Mandamentos, 2004, p. 72.
48
CANOTILHO, J.J. Gomes. Op. Cit., p. 1098. 49 Idem, p. 1099.
conceitos opera sempre “de cima para baixo”, o que serve para dar segurança em suas definições. Esse princípio repele todo o tipo de interpretação que venha de baixo, é dizer, repele toda a tentativa de interpretar a Constituição a partir da lei50, bem como dá origem ao princípio da interpretação conforme a Constituição, destinado principalmente à interpretação de textos infraconstitucionais, que é detalhadamente descrito por Glauco Barreira Magalhães Filho no trecho abaixo, extraído de sua obra
Hermenêutica e unidade axiológica da Constituição:
Princípio da interpretação conforme à Constituição – De acordo com esse princípio, a Constituição deve ser interpretada segundo os seus valores básicos, e a norma infraconstitucional deve ser compreendida a partir da Constituição. Assim, se uma norma infraconstitucional admite várias interpretações, dar-se-á preferência àquela que reconheça a constitucionalidade da norma e realize melhor os fins constitucionais.
As normas definidoras de direitos fundamentais trazem a enunciação de valores e não reportam aos fatos sobre os quais incidem, sendo estes previstos nas normas infraconstitucionais ou identificados no caso concreto. Embora tragam a previsão de um fato, as normas infraconstitucionais (regras) não enunciam um valor, embora o pressuponham. No caso, deve-se preferir a interpretação que vai ao encontro de um valor constitucionalmente almejado.
Atingindo a norma infraconstitucional os fins constitucionais em situações típicas (aquelas que, pela sua ocorrência habitual, podem ser previstas pelo legislador), apenas em uma situação atípica (situação limite ou situação não habitual), a norma será afastada para que se possa fazer valer diretamente o preceito constitucional.
A interpretação conforme à Constituição está limitada pela literalidade do texto normativo, ou seja, não pode, sob o pretexto de economia normativa, dar a uma norma um sentido que contrarie suas potencialidades linguísticas, a fim de que ela possa ser conciliada com a Constituição e ter a sua validade preservada. Também não será válida a regra infraconstitucional que, apesar de não agredir diretamente um preceito da Constituição, tire a sua funcionalidade, pois aí terá ocorrido violação ao princípio da proporcionalidade e ao da razoabilidade.51
50 BASTOS, Celso Ribeiro. Hermenêutica e Interpretação Constitucional. 2ª edição. São Paulo: Celso Bastos Editora, 1999, p. 101-102.
51 MAGALHÃES FILHO, Glauco Barreira. Hermenêutica e unidade axiológica da Constituição. 3ª edição. Belo Horizonte: Mandamentos, 2004, p. 72-73.