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KALİTENİN BOYUTLARI

As minhas interlocutoras, mulheres de pele mais clara e traços menos negros, independentemente da faixa etária, não foram criadas como negras. A que mais se destaca nesse grupo é uma jovem de 24 anos, oriunda da classe trabalhadora e em processo de ascensão social, por ser a que menos se vê como negra, apesar de se autopoliciar o tempo todo da entrevista e dizer não, eu sou negra, embora não se identifique como tal.

Não ter cor, não ter pertencimento étnico ainda faz parte da realidade de muitas mulheres, e as que constroem identidade negra são aquelas cujo discurso político é mais afinado com aquele da militância do movimento negro. Ficou patente que a construção de identidade política negra ocorre mais freqüentemente na fase adulta, quando em contato com militantes e/ou com a temática por meio do ambiente escolar ou na própria militância. Mesmo no caso de uma mulher ter dito que sempre se soube negra, ao contrário de suas irmãs que se vêem como mulatas, ela se tornou mais segura na sua identidade nos encontros com militantes.

Contudo, não há correspondência entre sentimento de pertencimento étnico e consciência de como racismo opera na sociedade, apesar de a maioria das mulheres entrevistadas ter demonstrado saber que ele é parte do cotidiano. No entanto, isso não quer dizer que foi identificado uma relação similar com essa identidade e consciência de racismo. Ter construído identidade negra não quer dizer necessariamente entendimento de como o racismo opera. Um ponto notado é que as mulheres que melhor articularam experiências de comportamento racistas são as com maior grau de escolaridade, o que poderia indicar que a consciência de racismo pode estar ligada, no caso dessas mulheres, ao maior entendimento de como as relações sociais são engendradas na sociedade brasileira. Entretanto, como nem todas as mulheres mais escolarizadas apontaram incidentes racistas, temos que ter cuidado para não generalizar esse dado.

O mito da miscigenação como indicador da não existência do racismo continua existindo e perpetuado tanto por pessoas negras como por pessoas brancas. As mulheres que foram criadas como brancas, independente da idade atual, ouviram da mãe ou do pai negro que as próprias famílias eram a prova de que não existia racismo no país e que todos são tratados da mesma forma. E algumas das minhas interlocutoras continuam com o mesmo discurso em relação às filhas e aos filhos e em relação à sociedade como um todo.

Também foi identificado que a crença na meritocracia opera como fator que dificulta a compreensão dos mecanismos racistas. Ao mesmo tempo em que se afirma que racismo existe, responsabilizam-se os indivíduos para o superarem, e acredita-se caber a cada pessoa

pessoas brancas. Acredito que essa crença na possibilidade de vencer mediante os próprios méritos, sem se levar em consideração as barreiras racistas, inviabiliza a correta compreensão de que racismo não é um problema individual e, como tal, somente poderá ser resolvido coletivamente.

Foi identificado ainda, apesar de não ser esse o objeto da pesquisa, que uma das imagens controladoras de mulher negra – a mulata “gostosa” – incomoda as mulheres que não se vêem como mulatas. Essa imagem esteve presente quando as mulheres negras identificam outras mulheres como mulatas, e a sensualidade dessas outras mulheres era constantemente lembrada. Pode ser que o fato de não quererem ser confundidas com as mulheres que supostamente têm uma sexualidade exacerbada tenha contribuído para a rejeição da identidade mulata.

Está posto que a maioria das entrevistadas transita nos dois lados da fronteira. É quase senso comum dizer que essas mulheres não têm um lugar definido, por não serem nem negras nem brancas. Dialogando com as minhas interlocutoras e analisando o que ouvi, acredito que outra interpretação possa ser possível, isto é, o lugar delas é a fronteira, e como toda pessoa em zona de fronteira, o ir e vir pode ser mais fácil ou mais difícil dependendo da necessidade de estar lá ou aqui. Acredito ainda que a desconfiança histórica que as cercam, a imagem de sensualidade que ainda carregam, seja determinante na dificuldade de serem vistas e aceitas como negras por outras negras, e isso contribui para que elas continuem se movimentando no ir e vir.

No início de minha pesquisa, eu identifiquei como confusão, como falta de clareza, o fato de muitas delas se identificarem como negras e, ao mesmo tempo, se referirem às mulheres negras como “elas” e contrapô-las a um “nós” que não incluía todo o grupo de negras. No decorrer da investigação, conversei com militantes negras e negros que não conseguiam disfarçar o desconforto com o tema escolhido por mim, havendo até tentativas de desqualificação deste, sob o argumento que o estudo das mulatas seria necessariamente um estudo racista já que demonstraria falta de entendimento da pesquisadora sobre a realidade das relações raciais no país. Todas as vezes eu era perguntada sobre a minha identidade, o que também deixava transparecer que, por trás do discurso “somos todas negras”, não há tanta certeza assim, o que seria outro elemento alimentando a confusão mencionada.

No entanto, seria mesmo confusão, pura e simplesmente? Ou há algo maior e mais complexo permeando essa subjetividade? Não podemos esquecer que a identidade é um processo, ela é difusa e nunca acabada e, portanto, as mulatas giram como uma porta- bandeira, ocupando tanto lugares negados historicamente às mulheres negras como aqueles

tradicionalmente reservados e elas, confundindo quem as vê, mas não necessariamente se deixando confundir por esse olhar.

Essas mulheres sugerem que a construção de identidade negra continua não sendo um processo fácil ou acessível para todas. Entretanto, o número de mulheres da minha pesquisa que se sabem negras é maior do que aquele das que não se identificam como tal, e ao se reconhecerem como negras, definitivamente escurecem a mestiçagem. Elas não são confusas, mas sim confundem quem insiste em atribuir identidade levando em consideração apenas fenótipo, ignorando e tentando passar por cima das histórias dessas mulheres e das antepassadas delas. Elas não são sem lugar. Elas têm um lugar sim, um grupo dentro da categoria mulheres negras e, por isso, têm o direito de falar: sou negra, mas reconheço que há outras negras diferentes de mim. Se começarmos a olhar esse transitar com um olhar negro e não com um olhar branco, veremos que tanto lá quanto aqui elas são negras. Negras diferentes das outras negras, mas nem por isso menos negra.

Apesar de ter havido mudanças significativas no olhar das pessoas negras sobre si mesmas, podemos dizer que as mulatas continuam sendo criadas não como negras, ou seja, como mulatas. Entretanto, como identidade é um processo, isso não as impede de, na juventude ou quando se tornam adultas, construir a identidade negra. No primeiro momento, como esperado, foi constatado que quanto mais próximo do fenótipo negro, mais fácil para a mulher se identificar como negra. No entanto, essa constatação não vale para todas as entrevistadas, uma vez que mesmo aquelas que aparentemente se identificam e são mais comumente vistas como negras não se sentem parte do grupo de mulheres negras todo o tempo.

Claro que há aquelas que não são negras mesmo. E não poderia ser diferente dado a maneira com que o racismo permeia o nosso olhar para esse grupo de mulheres. No entanto, como na minha pesquisa elas constituem a minoria, creio ter havido avanço e incorporação no entendimento do discurso do movimento social negro de que somos parte da diáspora negra.

Uma discussão mais ampla se faz necessária, levando em consideração que o ideal de branqueamento impede que mulatas se vejam como negras. Ignorar que há a possibilidade de elas usarem, ou tentar usar, o que Degler (1971) chamou de válvula de escape em favor próprio, é acreditar que a população negra é homogênea, o que seria um erro crasso. Não há segmento da população que não apresente contradições e o reconhecimento dessas contradições. Portanto, acredito que em lugar de tentar homogeneizar politicamente toda as populações negras brasileiras, o caminho para fortalecer a luta para uma sociedade mais igualitária seja o reconhecimento das diferenças internas, desde que se mantenha a identidade política.

Acredito ainda que o meu estudo reforça a minha argumentação de que não podemos falar da mulher e sim das mulheres. Igualmente, não considero que possamos falar da mulher negra e sim das mulheres negras, uma vez que essa categoria não pode ser considerada um grupo único e homogêneo. Mantenho, no entanto, e insisto nessa tese, que não se sentir parte do grupo negro o tempo todo não pode ser visto como não sendo parte dele, mas sim que há um

movimento de ir e vir. Essas mulheres vão e vem por habitarem a Zona de Fronteira. O habitar a fronteira não significa não ter identidade ou não ter lugar e sim que, mesmo não tendo um lugar fixo e este sendo ambíguo, ele existe. Mas mesmo do lado de lá das negras que são as outras, eu não deixo de ser negra, mas de maneira diferente, difusa e talvez até ambígua.

No entanto, ser ambígua não quer dizer não ser. Ou não pertencer. Quer dizer só isso, é ambígua. E estar lá é sempre condicionado pelo olhar e pela permissão do outro, e esse transitar tem conseqüências e culpa, mas também gosto de vitória: se você quer fazer o jogo de que não sou negra, eu conscientemente faço, mas você é que está comprando gato por

lebre, como disse uma entrevistada. Eu sei quem eu sou. Você é quem acha que eu não sei. Acredito que a minha pesquisa indica que existem especificidades na categoria mulata e aponta para necessidades de mais estudos que respeitem a realidade de que a identidade mulher negra não é única nem homogênea.