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IIA Tarafından Belirlenen İç Denetim Standartları ve Etik Kurallar

2.2. KAMU MALİ KARAR ALMA SÜREÇLERİNDE ETKİNLİĞİN

2.2.2. İç Denetimin Gelişimi ve İhtiyaç Duyulma Sebepleri

2.2.2.3. IIA Tarafından Belirlenen İç Denetim Standartları ve Etik Kurallar

O dia 19 de novembro de 1993, em São Paulo, não foi uma data qualquer para a história contemporânea de combate ao racismo. Na véspera do dia nacional da consciência negra daquele ano, dez pessoas resolveram promover um protesto para denunciar a exclusão social da população negra e foram almoçar no Maksoud Plaza,

“Chegando a um dos mais nobres restaurantes da cidade pediram

pratos requintados, conversaram, comeram, beberam fartamente. Ao final, pediram e receberam a conta. Esta como já esperavam era de um valor estratosférico, daí ocorreu algo inédito na história do país: as dez pessoas disseram em alto e bom som ao gerente do estabelecimento que a conta deveria ser creditada na dívida secular que a sociedade brasileira tem com todos os negros brasileiros, logo, não seria paga. O transtorno estava então instalado a polícia e a grande imprensa foram acionados, porém, ao término de tanta polêmica, a conta não foi paga” (Entrevistado A).

Mas afinal a pergunta que se fazia era a seguinte: quem eram aqueles pessoas e o que buscavam com aquele gesto? Todos eram ativistas ou aliados do movimento negro vinculados ao Núcleo de Consciência Negra da USP (NCN-USP),

“Fundado em 1987, o NCN organizado em torno da temática da

questão racial visa, sobretudo a ampliação do espaço acadêmico, como também uma maior influência e ocupação da estrutura de poder da Universidade. Desde sua formação, no que pese os vários obstáculos enfrentados, o NCN-USP tem realizado inúmeras atividades acadêmicas e culturais, consolidando-se como um centro de referência para as questões

que envolvem a negritude e assumindo um papel efetivo de grupo de pressão contra as ações discriminatórias e racistas oriundas da própria USP e da sociedade em geral” (Entrevistado A).

Na ocasião, os componentes do grupo que realizaram o protesto se dividiam entre homens e mulheres,

“No momento, não me recordo com precisão de todas as pessoas

que estavam envolvidas no protesto, mas, eram seis mulheres negras entre as quais Kelly Oliveira e Fernanda Lopes, um homem branco e cinco negros entre os quais Luis Carlos dos Santos, Fernando Conceição e Arnaldo Lopes, todos amigos e militantes da nossa causa negra”

(Entrevistado A).

A partir do relato de nosso entrevistado, é possível observar que o gesto daquela noite de “dar o calote” no restaurante Maksoud Plaza não foi obra do acaso. Previamente planejada, foi uma ação com dupla intenção,

“Produzir um fato político e, principalmente, lançar a campanha

nacional “Reparações Já! Eu Também Quero o Meu”. Ambos os intentos foram alcançados. No dia seguinte, 20 de novembro de 1993, grandes jornais como a Folha de São Paulo, repercutiram o protesto. Da mesma forma a campanha passou a ser conhecida e debatida. Seu slogan Reparações Já! , fazia alusão aos quase 400 anos de cativeiro no Brasil, quando os africanos e seus descendentes escravizados não foram pagos pelo trabalho de construção de toda riqueza material do país”

(Entrevistado A).

Os ativistas que promoveram aquele protesto colocaram em xeque a política racial predominante do movimento negro. Talvez por isso foram taxados de irresponsáveis, personalistas e inconseqüentes,

“Embora sem o apoio da maior parte do movimento negro, eles não

desistiram e levaram a diante o movimento pelas reparações, que reivindicava do Estado brasileiro o pagamento de 102 mil dólares para cada um dos afrodescendentes. Argumentava-se que devido aos crimes e

aos danos caudados pela escravidão, o Estado brasileiro teria uma dívida não só moral, mas também material com todo descendente de escravo. O trabalho não remunerado por quase quatro séculos teria significado uma expropriação do africano e seus descendentes escravizados, os quais precisavam ser compensados para se começar a fazer justiça no país”

(Entrevistado A).

O NCN-USP contribuiu para que o movimento das reparações se expandisse e ganhasse notoriedade pública,

“Adquirindo uma dimensão interestadual, e promovendo uma série

de atividades, como panfletagens, atos públicos, plenárias e seminários. Constituiu-se um comitê executivo, publicou-se um jornal e articulou-se uma aliança com as forças políticas progressistas. O auge do movimento ocorreu em 1995, quando se comemorou o tricentenário da morte do líder Zumbi dos Palmares. Na marcha que reuniu milhares de ativistas negros em Brasília, era possível ver a bandeira do movimento Reparações Já. Na ocasião o então deputado federal Paulo Paim (PT) apresentou o projeto de lei nº 1239, que em um dos seus artigos reivindicava da União a indenização de 102 mil reais para cada descendente de escravo no Brasil: “A União pagará, a título de reparação, a cada um dos descendentes de africano escravizados no Brasil o valor equivalente a R$102.000,00 (cento e dois mil reais)” (Entrevistado A).

Ainda no ano de 1995, uma data importante para o movimento negro, a USP, através de sua Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária organizou uma agenda cobrindo todo aquele ano para rememorar os 300 anos da morte de Zumbi,

“Esse evento busco priorizar não as manifestações de caráter

festivo, mas sim a conscientização e os debates de reflexão e análise em busca de soluções. Uma comissão especial com essa finalidade foi nomeada pelo reitor da universidade e dentro dela um grupo de trabalho incumbido da elaboração das propostas ou pistas de políticas públicas em benefício da população negra, vítima da discriminação racial. Questões

espinhosas como o ingresso de negros na universidade, a introdução das disciplinas de História da África e do Negro Brasileiro no currículo do curso de História foram colocadas com muita força e emoção. Uma cartilha dirigida aos alunos de 1º e 2º graus foi editada. Foram promovidos cursos de difusão em algumas faculdades sobre o racismo e a cultura negra, sem esquecer seminários nacionais e internacionais. (...) A publicação, em julho de 1995, pela Folha de S. Paulo, de uma pesquisa de opinião sobre a existência do preconceito racial anti-negro no Brasil e toda polêmica no mesmo jornal sobre a sexualidade de Zumbi, etc, toda efervescência deve ter mudado algo na cabeça de alguns cidadãos sensíveis” (Munanga,

1996: 89).

Em relação ao movimento pelas reparações, muitos setores do movimento negro, entretanto, continuaram a se opor aquela campanha e, em algumas ocasiões a tratavam com chacota. Diziam que o negro brasileiro não precisava de “migalhas”. Outros falavam que jamais se sujeitariam a receber algum tipo de indenização do Estado brasileiro,

“É interessante notar, que até aquele momento, o setor hegemônico

do movimento negro brasileiro insistia em não se inspirar no movimento pelas reparações, que em escala internacional obtinham conquistas. A exemplo dos judeus, que depois da Segunda Guerra Mundial foram indenizados por conta do nazismo” (Entrevistado A).

Com o isolamento cada vez mais crescente, o movimento pelas reparações foi se esvaziando, perdendo respaldo político e sendo pouco a pouco esquecido no final da década de 1990, contudo,

“Eu entendo que podemos concluir dizendo que depois de mais de

uma década, é preciso considerar a importância do movimento pelas reparações dentro do movimento negro, pois se a proposta que triunfou como eixo da luta desse movimento foi a das cotas, ironicamente, tal proposta foi gestada no bojo do princípio que rege o das reparações”

Em outros termos, o almoço de protesto no Maksoud Plaza foi um marco nas lutas anti-racistas. Independente das divergências que causou o método de contestação, o episódio pressagiou um novo momento do movimento negro, na medida em que desencadeou em São Paulo, e mais tarde, no resto do país, o polêmico debate em torno das políticas de reparação ou como ficaram conhecidas, as ações afirmativas.