Uma vez apresentada a estrutura legal vigente, as responsabilidades das partes integrantes e a estrutura de regulação do mercado privado de seguros, cabe descrever um programa governamental de apoio ao seguro rural, pelo qual o Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA subvenciona parte do prêmio de seguro: trata-se do Programa de Subvenção Econômica ao Prêmio do Seguro Rural - PSR.
A fim de estimular a contratação de seguros pelos produtores rurais, o governo federal criou uma política na qual um percentual entre de 30% e 70% do valor do prêmio de seguro é pago pelo MAPA, dependendo da cultura ou espécie a ser segurada e da modalidade de seguro, sendo que a legislação prevê diferenciação em função da região, categoria de produtores e condições contratuais. Esse programa foi instituído pela lei nº 10.823, de 19 de dezembro de 2003, sendo regulamentado pelo Decreto nº 5.121, de 29 de junho de 2004.
Para a gestão da política de subvenção foi criado o Comitê Gestor Interministerial do Seguro Rural, instância incumbida de aprovar e divulgar: a) os percentuais sobre o prêmio do seguro rural e os valores máximos da subvenção econômica; b) as condições operacionais específicas; c) as culturas e espécies animais contempladas no programa; d) as regiões a serem amparadas pelo benefício previsto; e) as condições técnicas a serem cumpridas pelos beneficiários e f) a proposta de Plano Trienal ou seus ajustes anuais, dispondo sobre as diretrizes e condições para concessão da subvenção econômica.
Além disso, cabe ao Comitê Gestor implementar o benefício previsto na lei; incentivar a criação de projetos-piloto pelas seguradoras, contemplando novas culturas, espécies animais e tipos de cobertura; estabelecer diretrizes e coordenar a elaboração de metodologias e a divulgação de estudos e dados estatísticos que auxiliem o desenvolvimento do seguro rural como instrumento de política agrícola e fixar limites financeiros para a subvenção, por beneficiário e unidade de área (BRASIL, 2004b).
O Comitê Gestor Interministerial do Seguro Rural – CGSR é composto pelos seguintes membros representantes: um do Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento que o presidirá; um do Ministério da Fazenda; um do Ministério do
Planejamento, Orçamento e Gestão; um do Ministério do Desenvolvimento Agrário; um da SUSEP; um da Secretaria de Política Agrícola do MAPA e um da Secretaria do Tesouro Nacional do Ministério da Fazenda.
O PSR está ao abrigo da legislação do CNSP e a participação das seguradoras está condicionada à análise e aprovação pela SUSEP dos seus produtos de seguro e à prévia aceitação das normas do programa, mediante cadastro junto à Secretaria-Executiva do CGSR.
O Decreto nº 5.121 estabeleceu a necessidade de publicação de Plano Trienal do Seguro Rural - PTSR, aprovado pelo CGSR e sujeito a posterior aprovação pelo Poder Executivo.
No Plano Trienal do Seguro Rural constam: I) diretrizes gerais da política de subvenção, discriminando as regiões, culturas e espécies animais objetos da subvenção; II) as linhas de seguro subvencionáveis, bem como a definição dos riscos cobertos, parâmetros e disposições contratuais necessárias; III) os percentuais e valores de subvenção ao prêmio do seguro rural; IV) os limites financeiros por beneficiário ou unidade de área; V) estimativa do aporte global de recursos e da evolução do fluxo financeiro durante os anos de vigência e VI) as datas de sua vigência, especialmente a data limite para liquidação das obrigações financeiras junto às seguradoras, antes do encerramento do exercício do MAPA.
Na prática, a operacionalização do PSR consiste no pagamento de percentual do prêmio pelo MAPA às sociedades seguradoras que realizaram operações de seguro rural subvencionado, sendo que estas estão obrigadas a abater do prêmio cobrado dos beneficiários, por seus produtos de seguro, quantia idêntica ao valor da subvenção. A coordenação e fiscalização da aplicação dos recursos do programa são exercidas pelo CGSR.
Uma obrigação pertinente criada no âmbito do programa, que contribui para reduzir a sinistralidade, é a de que a contratação de seguros de culturas temporárias seja realizada em conformidade com o zoneamento agrícola do MAPA e, na sua ausência, com outros zoneamentos agroclimáticos de instituições oficiais de pesquisa, a critério do CGSR. A sinistralidade tende a se reduzir porque os zoneamentos citados devem, obrigatoriamente, considerar critérios probabilísticos na delimitação das datas de plantio e riscos das culturas (BRASIL, 2004b).
Para serem reembolsadas, as seguradoras habilitadas no PSR que tenham realizado operações passíveis de subvenção, encaminham à Secretaria Executiva do CGSR as informações e documentos exigidos para a comprovação do valor da subvenção, no prazo e forma constantes no regulamento do programa. As obrigações financeiras assumidas pela
União, ao amparo do programa, deverão ser liquidadas junto às seguradoras no mesmo exercício de contratação do seguro rural.
Nesse arcabouço jurídico foi publicado o Decreto nº 7.059, de 29 de dezembro de 2009, e em seguida a Resolução nº 22, de 30 de dezembro de 2009, esta última aprovando o Planto Trienal do Seguro Rural. Esses instrumentos fixaram os percentuais e valores máximos da subvenção ao prêmio do seguro rural para o triênio 2010 a 2012, além de estimativa de aporte de recursos orçamentários para a sua execução (BRASIL, 2009a; 2009b). Na Resolução nº 22, em que o CGSR aprovou o Plano Trienal do Seguro Rural – PTSR para o período 2010-2012, foram fixadas as principais diretrizes do referido Plano, sendo elas: a) promover a universalização do acesso ao seguro rural; b) assegurar o papel do seguro rural como mitigador dos riscos climáticos na agropecuária e c) induzir o uso de tecnologias adequadas e modernizar a gestão do empreendimento agropecuário. Apresenta-se a seguir quadro resumindo os percentuais e limites de subvenção ao prêmio de seguro rural.
Modalidade
de seguro Grupos de culturas subvenção (%) Percentuais de Limites (R$)
Agrícola
Feijão, milho segunda safra e trigo. 70 96.000,00
Ameixa, aveia, canola, caqui, cevada, centeio, figo, kiwi, linho, maça, nectarina, pêra, pêssego, sorgo, triticale e uva.
60
Algodão, arroz, milho e soja. 50
Abacate, abacaxi, abóbora, abobrinha, alface, alho, amendoim, atemoia, banana, batata, berinjela, beterraba, cacau, café, caju, cana-de-açúcar, cebola, cenoura, cherimoia, chuchu, couve-flor, ervilha, escarola (chicória), fava, girassol, goiaba, graviola, jiló, laranja, lichia, lima, limão e demais cítricos, mamão, mamona, mandioca, manga, maracujá, melancia, melão, morango, pepino, pimentão, pinha, quiabo, repolho, sisal, tangerina, tomate, vagem, e demais hortaliças e legumes.
40
Pecuária 30 32.000,00
De florestas 30 32.000,00
Aquícola 30 32.000,00
Valor máximo subvencionável 192.000,00
Quadro 1 - Modalidades, limites e percentuais de subvenção, para o triênio 2010-2012, do Programa de Subvenção Econômica ao Prêmio do Seguro Rural
As modalidades amparadas pela subvenção econômica ao prêmio são a agrícola, a pecuária, a aquícola e a de florestas. Os riscos cobertos são aqueles aprovados pela SUSEP, desde que dentro das referidas modalidades beneficiárias da subvenção.
Assim, os seguros subvencionáveis são aqueles enquadrados nas modalidades do programa e desde que devidamente aprovados pela SUSEP. Caso haja alteração que não modifique a estrutura técnica de um plano de seguro15, o simples protocolo dessa alteração na SUSEP é suficiente para que o produto reformulado seja beneficiário da subvenção.
Tal como apresentado no Quadro 1, o produtor rural pode receber a subvenção até o limite de R$ 96.000,00, para mais de uma cultura, desde que a soma não ultrapasse o citado limite. Os produtores podem receber a subvenção para as demais modalidades independentemente, com limite extra de R$ 32.000,00 para cada uma das modalidades pecuária, aquícola e de florestas. Cumulativamente, o limite máximo subvencionável por produtor, pessoa física ou jurídica, adimplente com a União, é de R$ 192.000,00.
É importante frisar também que o PTSR 2010-2012 determinou que as condições do programa de subvenção abrangessem todo o território nacional e que os produtores podem contratar seguro rural com subvenção para a mesma atividade para a qual tenham operação amparada pelo Proagro - Programa de Garantia da Atividade Agropecuária, considerando que as lavouras sejam implantadas em áreas diferentes.
Outro aspecto a salientar é que o PTSR permite a interação do programa de subvenção federal com os programas estaduais16 de subvenção ao prêmio do seguro. Nessa situação, a parcela do prêmio não subvencionada pelos programas estaduais pode receber o benefício no percentual estipulado no programa de subvenção federal.
A fim de facilitar a análise e condensar as informações referentes às leis, decretos-lei, decretos, resoluções e circulares que regulamentam as atividades e a operação das empresas envolvidas no mercado de seguros, apresenta-se a Figura 4 com o ordenamento jurídico do seguro rural privado no Brasil.
15 Conforme a Resolução nº 22, de 30 de dezembro de 2009, a estrutura técnica do plano de seguro deve ser
entendida como as componentes: coberturas securitárias, riscos cobertos, riscos excluídos, culturas e espécies animais atendidas.
16 Cabe mencionar que os estados de São Paulo, Minas Gerais e Paraná mantêm programas de subvenção ao
prêmio de seguro rural. A base legal desses programas é a seguinte: São Paulo (Lei nº 11.244/2003 e Decreto 48.226/2003), Minas Gerais (Lei nº 16.745/2007 e Decreto 44.654/2007) e Paraná (Lei nº 16.166/2009 e Decreto nº 5.072/2009).
Figura 4 - Estrutura da legislação federal referente ao seguro rural privado Fonte: Elaborado pelo autor