Situada na África Subsaariana (vide ANEXO A), Angola é o quinto país de maior dimensão da região com uma superfície de 1.246.700 km2, com uma costa de 1.650 km e uma fronteira terrestre de 4.837 km. Angola é limitada, ao Norte, pela República do Congo Brazaville e pela República Democrática do Congo; ao Leste, pela República Democrática do Congo e pela Zâmbia; ao Sul, pela Namíbia e, a Oeste, pelo Oceano Atlântico, abrangendo ainda o enclave de Cabinda, situado a Norte, entre o Congo Brazaville e a República Democrática do Congo. A sua divisão político-administrativa compreende 163 municípios e 18 províncias e, apesar de não ter sido realizado nenhum censo geral da população desde 1975, estima-se que a população de Angola seja de aproximadamente 14 milhões de habitantes.
No período pré-colonial existiam em Angola reinos organizados. Entre estes reinos, dois tiveram grande destaque: os Reinos do Congo e do Ndongo (Francisco, 1993). Quando os primeiros portugueses chegaram ao estuário do Zaire, em 1482, entraram em contato com o Reino do Congo. No interior do território, havia pequenos reinados, que fortaleciam a organização social. Dentre esses territórios autônomos, o maior e mais importante era o Ndongo, cujo soberano era o Ngola, que, segundo Giordani (1985), deu origem ao nome português de Angola. Uma outra versão diz que o nome Angola teve origem na palavra jimgola, que significa uma pequena peça
de metal que se tornou um símbolo de autoridade política entre as linhagens kimbundu (Henderson, 1990).
No tocante à sua composição etno-lingüística, o povo angolano é integrado, na sua maioria, pelos seguintes grupos: Ovimbundu (língua Umbundu); Ambundu ou Akwambundu (língua Kimbundu); Bakongo (língua Kikongo); Lunda-Cokwe (língua Cokwe); Ngangela (designação genérica de povos no quadrante sudeste, sendo mais pertinente identificar os vários subgrupos): Nyaneka-Humbe ou Nkhumbi, na realidade dois povos diferentes (línguas Lunyaneka e Lukhumbi); Ovambo (a língua principal em Angola é a dos Kwanyama, um subgrupo); Helelo ou Herero (língua Tjihelelo). Esses são os principais dialetos presentes em Angola, mas é o português a língua oficial e falada por todos.
Todos os grupos acima apresentados são grupos Bantu, que é um subgrupo dos negro-africanos, identificados basicamente pela afinidade lingüística (todos usam o radical ntu para designar as pessoas). Há uma pequena minoria de povos da região não-Bantu, com destaque para os Kung (Bosquímanos), caçadores-coletores descendentes dos mais antigos habitantes daquela região austral. Em conseqüência da colonização, existe também um pequeno número de angolanos de origem européia. Mas é a cultura Bantu que representa a principal matriz da sociedade angolana atual.
A cultura angolana tem na tradição oral1 o seu principal sustentáculo. A palavra é a sua plena manifestação porque exterioriza a sua realidade íntima. Na tradição oral, a palavra pronunciada é sagrada. Ela atualiza na comunidade a presença dos antepassados. A morte não é um fim em si. É apenas a transição de um mundo visível a um mundo invisível. Por isso, a organização e o funcionamento da sociedade africana tradicional repousam sobre o princípio de permanência da vida.
O africano, preso às suas raízes culturais, não pode viver isolado de sua comunidade que é a sua célula base. A comunidade dá existência, formação, sentido e valor ao indivíduo, que, desde o
1 Transmissão, por meio da linguagem oral, dos hábitos e conhecimentos da sociedade, de geração em geração
nascimento até a morte, se subordina ao grupo, que estabelece as diretrizes eficazes da vida social. Somente no seu interior são eficazes os usos e costumes (Silva, 1998). Em algumas localidades de Angola, por exemplo, diz-se que “o homem é reciprocidade”, ele tem consciência de que, fora da comunidade, a vida não pode manter-se porque é comunitária e dependente. O caráter comunitário exige que sejam também comunitários os processos dentro dos quais os indivíduos exercem sua mobilidade social.
Nas sociedades tradicionais2 africanas, os processos de produção são baseados essencialmente na suficiência destinada ao atendimento comunitário de necessidades vitais específicas, razão pela qual o uso alternativo dos bens de produção não constitui fator decisivo das relações econômicas. A produção faz-se quase exclusivamente para a satisfação das necessidades do momento. Ao contrário, as culturas avançadas, segundo Habermas (1983), se estabelecem sobre o fundamento de uma técnica e de uma divisão de trabalho no processo social de produção que possibilitam uma superabundância de bens que excede a satisfação das necessidades imediatas e elementares. A terra, principal recurso natural das sociedades agrárias, é considerada como uma divindade, e sua fertilidade é tomada como doação divina. Por isso, a terra não pode ser apropriada pelo homem, mas este está potencialmente habilitado a ocupá-la segundo as normas ancestrais. Mais que uma propriedade comum, pode-se afirmar que a terra é uma não-propriedade. A fala de um líder tradicional demonstra bem este aspecto: “a terra pertence a uma grande família; muitos dos seus membros já estão mortos, alguns estão vivos e a maioria ainda não nasceu” (Silva, 1998). Assim, aquele que explora a terra não se sente estimulado a realizar melhoramentos que se traduzem em aumento de produtividade.
Os instrumentos de trabalho são organizados a partir das relações estabelecidas entre o homem e a natureza. A origem “divina” da terra exige que os instrumentos destinados à sua manipulação sejam fornecidos por ela mesma. Assim como a produção, os instrumentos encontram-se limitados à sua utilidade específica: destinam-se exclusivamente ao atendimento de necessidades
2 “A expressão sociedade tradicional refere-se a circunstâncias de que o quadro institucional repousa sobre um
fundamento de legitimação inquestionado que consiste nas interpretações míticas, religiosas ou metafísicas da realidade no seu todo” (Habermas, 1983:323). Ainda, segundo o autor, as sociedades tradicionais só existem
sociais vitais da comunidade. Com isso, elimina-se a possibilidade da criação de necessidades artificiais.
O trabalho se traduz como ação comunitária por excelência, já que as pessoas dedicam ao trabalho coletivo cerca de dois terços do tempo destinado às atividades agrárias. O tempo restante é usado para o trabalho exercido em subáreas cedidas às famílias conjugais que compõem a família extensa, possibilidade esta que é, entretanto, vedada aos homens solteiros. Estes dedicam- se integralmente ao trabalho comunitário (Silva, 1998). Aos idosos, sem condições de trabalhar, a comunidade assegura o direito de não mais trabalharem, garantindo-lhes o essencial até a morte. Na cultura africana tradicional, o passado exerce sobre os indivíduos uma atração irresistível. Segundo Kamdem (1996), o passado pode definir-se como o conjunto dos acontecimentos passados ou dos personagens desaparecidos cuja lembrança contribui para a elaboração da memória coletiva. Esta última, segundo o autor, permite a consolidação e a preservação das tradições e dos costumes que constituem o fundamento de toda cultura.
A comunidade administra em comum tanto os bens de produção como os de consumo, trabalha solidariamente nos setores da agricultura e associa-se para utilizar os instrumentos de produção. Não há produtores independentes controlando absolutamente a sua produção. A economia é da comunidade, e, nos seus problemas todos são solidários.
A centralização do poder recai sobre um elemento centralizador, que abrange o conjunto da sociedade e que se manifesta essencialmente na figura do soberano. Contudo, existem mecanismos moderadores do poder, como os conselhos de família e de comunidade, as chefias de família e ainda as gerações de iniciados que exercem funções políticas.
A família tradicional típica, conhecida como família extensa, é constituída por um grande número de pessoas ligadas pelo grau de parentesco ou não. Isso faz com que a visão de mundo seja
enquanto o desenvolvimento dos sistemas do agir “racional-com-respeito-a-fins” é contido dentro dos limites da eficácia legitimadora das tradições culturais.
baseada na idéia de uma grande comunidade familiar reagrupando todos os descendentes do pai fundador.