4.7. Türkiye’de Kadınların Modaya Uymasını Etkileyen Unsurlar
5.1.1. Eleştirel Söylem Analizi
5.1.1.3. İktidar
Diversas foram a situações em que ministrei cursos e oficinas sobre técnicas de treinamento de ator. No Brasil, com o Teatro Diadokai, e na Itália com o TTB, na maioria das vezes dando aulas de Orissi. As situações foram as mais variadas: aulas particulares ou em grupo no TTB; cursos de extensão em universidades; cursos em escolas de teatro; oficinas em festivais; encontros e congressos; cursos em escolas de dança; oficinas para crianças e adolescentes etc. Apresentei também inúmeros espetáculos-demonstração de Orissi, como parte das propostas pedagógicas do Teatro Diadokai. Houve algumas ocasiões excepcionais. Uma delas foi em 2002, durante o projeto Território Cultural , no complexo da Maré, 94 também conhecido como favela da Maré, no Rio de Janeiro. Casualmente, naquele mesmo ano Bertazzo estava desenvolvendo o projeto Corpo de dança da Maré , com jovens dessa 95 comunidade. Participava desse projeto, uma dançarina indiana de Kathak, que trabalhou com esses jovens por três meses. Assim, os alunos que vieram participar da minha oficina já tinham alguma experiência com um outro estilo de dança clássica indiana e estavam curiosos por conhecer Orissi.
A oficina de Orissi que ministrei teve cinco dias de duração Essa foi uma das turmas mais interessantes e interessadas com a qual trabalhei. Os rapazes (nunca tantos!) e moças eram muito disciplinados e dedicados. Aprendiam os aspectos técnicos com extrema velocidade e precisão. Eu tinha começado a experimentar uma nova forma de oficina. Iniciávamos com o aprendizado de alguns elementos da técnica de base (passos, gestos, poses, caminhadas, saudação a Shiva), e na segunda parte desenvolvíamos o trabalho de criação. Usando como base poesias curtas (hai-kai japoneses), o aluno deveria criar a sua partitura física segundo a lógica da composição coreográfica de Orissi: cada palavra da poesia é representada por um gesto. As formas e gestos de Orissi serviriam para a criação de formas e gestos originais. Depois, em grupos, eles deveriam aprender as partituras dos colegas e unir as partituras de todos, criando uma montagem.
Território Cultural foi um projeto da CASA – Cooperativa de Artistas Autônomos (Cf. nota 87, p. 95), cuja
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primeira edição ocorreu em 2000 em cinco comunidades de baixa renda do Rio de Janeiro. Uma das etapas do projeto foi no complexo da Maré, em parceria com o CEASM- Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré. Durante a semana havia oficinas de teatro, dança, música e brincadeiras populares, e no fim-de-semana apresentações dos espetáculos dos grupos da CASA e de artistas e grupos locais.
O projeto Corpo de dança da Maré, coordenado por Ivaldo Bertazzo, produziu três espetáculos: Mãe Gentil,
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Essa oficina, na Maré, que intitulei Drysiakavya – a visível poesia, teve resultados interessantes para mim como professora. Foi uma das primeiras vezes que propus aos alunos uma metodologia diferente da que eu conhecia por via do TTB e de Aloka Panikar. Minha avaliação do trabalho final apresentado pelos alunos foi bastante positiva. Considerando a curta duração da oficina, as estruturas criadas eram, em sua maioria, “vivas”, e ao mesmo tempo bastante precisas do ponto de vista técnico. Entendo que as estruturas eram “vivas”porque as partituras de impulsos eram precisas; cada movimento parecia ter sua justificativa, tornando-se ação. A precisão técnica fazia-se perceber no domínio seguro do corpo, na dosagem do tônus, adequado aos movimentos pretendidos, e ainda pelo deslocamento no espaço e na manutenção da sincronia entre os companheiros. Para atingir tais resultados, foi preciso muitos ensaios. Por que motivo esses alunos me pareceram mais expressivos que outros, em outras oficinas de Orissi em que enfatizei a técnica da dança?
Posso supor que possíveis respostas a essa pergunta não deveriam ignorar o fato de a oficina ter ocorrido na favela da Maré. Não pretendo reproduzir, aqui, o discurso do senso comum sobre as favelas cariocas, que costuma reduzi-las a redutos da marginalidade; prefiro considerar as favelas como realidades sociais complexas, como tantas outras o são. No entanto, posso afirmar - porque presenciei fatos que corroboram minha impressão - que a violência parecia ser uma realidade cotidiana na vida dos moradores. Naquele período, parecia haver “tiroteio com hora marcada”. Todas as tardes, as facções criminosas rivais trocavam tiros como se fora para firmar sua presença em seus respectivos territórios. Por conta da rivalidade entre essas facções, meus alunos da oficina não puderam assistir aos espetáculos do nosso projeto; estes foram apresentados numa região dominada por uma facção que rivalizava com a da região onde os alunos moravam. Atravessar a fronteira significava correr risco de morte. Vários alunos relataram experiências trágicas, como presenciar assassinatos de parentes ou amigos, ou vivenciar outras situações de extrema violência. Durante o nosso projeto, um dos espetáculos foi interrompido por tiroteio, com policiais cruzando a área de cena, revidando tiros, enquanto público e artistas corriam para refugiar-se nos banheiros da escola ao lado, até que a situação voltasse à normalidade.
O contexto intercultural estava posto, ali, de forma explícita: tratava-se de uma oficina de dança indiana, ministrada por uma brasileira moradora da zona sul carioca, para jovens brasileiros moradores da favela. Para não fugir ao tema desta dissertação, não poderei aprofundar-me na análise social, política e cultural dessa situação, o que exigiria outros estudos. Farei apenas uma consideração. Jacques (2002, p. 61) traduz de forma exemplar algo
que me chamou especial atenção durante aqueles dias, frequentando a Maré: a relação corpo- espaço-ginga-dança. A análise da arquiteta sobre o espaço urbano da favela corrobora as minhas impressões:
A ginga do espaço está diretamente relacionada à ginga corporal. Percorrer as ruelas e becos das favelas é uma experiência de percepção espacial singular, única; a partir das primeiras quebradas se descobre um ritmo de andar diferente, uma ginga sensual, que o próprio percurso impõe [...] Percorrer no cotidiano os espaços mareados, gingados, implica o aprendizado indireto da ginga, e consequentemente, da dança. Um ritmo próprio surge dos percursos, uma nova temporalidade surge do próprio caminhar [...] A arte do tempo, a música, e a arte do espaço, a arquitetura, se casam na dança, arte do movimento.
Posso pensar, como hipótese, que essa particular relação corpo-espaço (JACQUES, 2002), por exemplo, afetava os jovens da oficina, concedendo-lhes, talvez, um diferencial com relação a outros alunos que eu tivera anteriormente. É possível pensar também que os efeitos do trabalho realizado com Bertazzo (2001; 2002) potencialisasse esse diferencial. O projeto do coreógrafo paulista tinha objetivo mais amplo do que formar bailarinos. Pretendia-se também proporcionar aos corpos desses jovens, “solidez, função e personalidade, condições que poderão ajudá-los a descobrir seus desejos e a lutar por eles”. Bertazzo (2002, p. 114) comenta os resultados do projeto Corpo de dança da Maré:
Praticamente todos esses adolescentes conseguiram redirecionar seus hábitos de hiperatividade que os distanciava da interiorização e das atitudes de concentração necessárias à absorção do aprendizado. Após três anos, observamos sua reação mais pronta e alerta às atividades propostas. Foi exigida deles uma enorme capacidade de raciocínio motor para dançar e subdividir, com muita complexidade, ritmos e pulsações. Estou certo de que essa experiência tem sido de enorme valor para sua diferenciação e personalização.
A subdivisão de ritmos a que se refere Bertazzo é uma clara alusão à dança indiana. No estilo Kathak, em particular, o foot-work (trabalho rítmico dos pés) é extremamente complexo e refinado. Eu nunca havia pensado que a dança indiana pudesse contribuir para o desenvolvimento da capacidade de raciocínio. No entanto, com os jovens da minha oficina tive fortes indícios desses efeitos. Mesmo sem dados suficientes que comprovem essa hipótese, pude observar que, além de criatividade, objetividade e capacidade de organização do trabalho prático, os alunos apresentaram um discurso articulado em nossa avaliação final sobre a oficina. Sobre a diferenciação e personalização de que fala Bertazzo, creio que a principal contribuição
vinha através de determinada abordagem proposta por ele. Além do treinamento com a dança indiana, Bertazzo (2002, p. 114 – 124) conduzia seu grupo a “uma vasta experimentação da coordenação motora” para o “conhecimento de como funciona o aparelho locomotor”, de “conhecimento de si e dos outros” para o “estabelecimento das bases de uma ‘ecologia pessoal’”. A “presença plena” e a “densidade dos corpos” daqueles jovens, ficaram impressas na minha memória e até hoje me inquietam. Além de criarem partituras físicas bem elaboradas do ponto de vista técnico e artesanal, o modo como deram forma às palavras da poesia está relacionado, a meu ver, à qualidade das associações e imagens que atribuíram a elas, extremamente pessoais; a riqueza dos detalhes em nada se aproximava da reprodução de clichês, fato comum em oficinas de curta duração para iniciantes.
Ao longo dos anos, continuei procurando outros modos de ensinar a dança Orissi, sempre buscando a pertinência de ensiná-la nos diferentes contextos em que me encontrava. Com a experiência na Maré, tornei-me também mais sensível à pessoalidade dos alunos, de forma a percebê-los como indivíduos, com sua bagagem própria de experiências, que se deixam (ou não) afetar por minhas proposições, cada um a seu modo. Hoje, penso nessa oficina como sinal da percepção que eu deveria desenvolver como professora, para conduzir um trabalho de conjunção entre as ideias de corpo como instrumento e corpo como
experiência. Com o passar do tempo, desenvolvi também maior senso de responsabilidade com relação aos corpos dos alunos, redobrando a atenção para evitar que se machucassem em consequência das aulas, seja praticando Orissi ou outra técnica qualquer. Mais ou menos naquele período, comecei a vislumbrar possibilidades de combinação de um trabalho preliminar de consciência corporal, baseado nos princípios GDS, com o treinamento do ator ou com a prática da dança Orissi. Outros experimentos ainda estavam por vir.