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3. TÜRKİYE’DE GAZETECİLİK PRATİĞİ VE BASIN İŞ HUKUKU:

3.4. Ücretler

3.4.2. İkramiye ve Tazminatlar

A XI Conferência Sanitária Pan-americana (CSP), realizada em setembro de 1942, no Rio de Janeiro, ajustou a agenda sanitária regional aos ditames da defesa hemisférica do continente americano, nos termos da III Reunião dos Chanceleres dos Países Americanos, realizada na mesma cidade, em janeiro do mesmo ano. Assim, a XI CSP, reiterava, em novos termos, algumas diretivas já enunciadas em suas edições anteriores. Ao fazê-lo, entretanto, reforçou a necessidade de ações profiláticas nas áreas estratégicas para a defesa continental e ao esforço de guerra, sobretudo norte-americano, indo ao encontro da agenda do OCIAA (OPAS, 1942). Esse período renovou, em boa medida, a ideologia do pan-americanismo, e a literatura registra uma certa profusão de enunciados que associavam saúde e esforço de guerra.18 Tais manifestações, todavia, traduziam, também, um novo ânimo programático nas ações da organização. A RSP estabeleceu, na época, as bases dos seus primeiros escritórios de campo em El Paso, Texas, na cidade da Guatemala e em Lima, Peru.

Cessadas as hostilidades, o pós-Segunda Guerra iniciou-se sob os signos da ciência e da tecnologia. Os últimos acontecimentos no front do Pacífico impunham um certo sentimento comum de assombro diante do poder destrutivo das aplicações bélicas da nova física nuclear. Mais do que isso: pode-se dizer, sem maiores riscos de exagero, que a ciência e, sobretudo, a tecnologia terminaram por jogar um papel decisivo em cada disparo, em cada escaramuça, em cada cálculo balístico, em cada raid aéreo ou avaliação estratégica, em cada procedimento para prevenir doenças transmissíveis entre a soldadesca ou em cada tentativa de curar seus ferimentos. Cada novo artefato bélico era também um novo produto, eventualmente desenvolvido com base na nova pesquisa operacional.

Tal ubiquidade da ciência e da técnica no esforço de guerra teria consequências visíveis ao longo das décadas seguintes. As novas aquisições tecnológicas não eram fruto casual de um esforço mais ou menos desorganizado de aplicação dos recursos de conhecimento já disponíveis. Pelo contrário, no caso exemplar dos EUA, resultaram de

um esforço deliberado, de um novo arranjo de capacidades e competências nacionais, organizado a partir do Estado e por agências especialmente constituídas para esse fim. No mundo não euro-americano, a cooperação científica ensejou a criação de escritórios locais pelas potências aliadas. No centro e na periferia mundiais foram tentadas novas práticas de organização da pesquisa baseadas em arranjos interdisciplinares, dirigidos ao atendimento das necessidades da guerra. Esses experimentos de gestão de ciência e tecnologia apontavam, nos anos de paz, para o estabelecimento de novos termos para as relações entre a ciência, a esfera pública e o mercado. Seus êxitos introduziram uma nova percepção pública da ciência e tecnologia, e, de forma consistente, defesa, riqueza e ciência e tecnologia passaram a constituir uma tríade cujos elementos justificavam-se mutuamente (ESCOBAR, 1998).

Um exemplo conhecido dessa nova percepção pública da ciência, na perspectiva norte-americana, pode ser encontrado em Science the Endless Frontier, de 1945. Esse estudo foi empreendido mediante solicitação do presidente Roosevelt a Vannevar Bush, então diretor do Office of Scientific Research and Development, a agência governamental norte-americana responsável pelo esforço de guerra no terreno da ciência e tecnologia.19 Apoiado em uma rede de consultores, tornar-se-ia um documento exemplar acerca das formas pelas quais se enunciariam os novos arranjos e relações entre ciência, tecnologia e negócios públicos (BUSH, 1945; GÓMEZ, 2003).

Informado por um pragmatismo liberal, Bush reafirmava o primado da pesquisa básica como fundamento da capacitação estratégica do Estado, da geração de riquezas e da promoção do bem-estar. Ao Estado, caberia manter o fluxo de recursos em grande parte responsável pelo êxito do esforço de guerra em matéria de C&T. Entretanto, a eleição dos temas de pesquisa, dos processos e métodos e a avaliação baseada em

19 As preocupações do líder norte-americano diziam respeito a quatro ordens de questões. A primeira indagava sobre as possibilidades e formas de serem disseminados “para o mundo” os conhecimentos e aplicações já desenvolvidas, respeitadas as restrições interpostas pela área de segurança nacional. Acreditava que essa difusão de conhecimentos e tecnologias resultaria na abertura de novos empreendimentos e postos de trabalho, com incremento do nível geral de vida. A segunda preocupação referia-se à necessidade de garantir que os novos avanços resultassem em melhoria nas condições de saúde da população. O terceiro ponto indagava explicitamente sobre qual seria o papel a ser desempenhado pelo Estado no fomento das atividades de C&T, no que concerne tanto ao setor público como ao privado, e quais seriam os melhores termos para as relações entre essas duas esferas. O quarto aspecto, por fim, dizia respeito às formas pelas quais poderia ser estimulado o interesse dos jovens pela

critérios de excelência deveriam ser mantidas como esfera privativa da ciência e dos cientistas, ficando a produção da ciência básica a cargo de suas agências tradicionais: a universidade e os institutos de pesquisa (GOMEZ, 2003; BUSH, 1945). Recomendava- se um forte componente de pesquisa aplicada tanto no governo como na indústria, ainda que de forma complementar à pesquisa básica. No setor estatal, Bush defendia o estabelecimento de novas formas de recrutamento e remuneração de pessoal e a criação de um bureau consultivo especializado para orientação das decisões legislativas e de governo. No plano da iniciativa privada, o caminho preconizado contemplava um novo cardápio de incentivos fiscais e maior precisão nos sistemas de patentes, enfim, na regulação do exercício de direitos em um mercado de inovações que se imaginava emergente. O diretor preconizava, também, a criação de uma agência estatal especializada para o planejamento, coordenação e avaliação das atividades de financiamento à pesquisa e de indução à formação de novos quadros mediante a concessão de bolsas de estudos (BUSH, 1945). Esse novo ente voltado para a gestão de ciência e tecnologia, que não deveria assumir nenhuma atividade direta de pesquisa, teria também como atribuição zelar e promover os meios adequados para uma eficaz comunicação científica e técnica entre especialistas e destes com os domínios de possíveis aplicações. Vale, portanto, destacar que a informação científica e tecnológica, como o domínio de saberes e práticas especializadas, nascem assim em sincronia com a própria gestão de ciência e tecnologia. Equivale dizer que, pelo menos para uma determinada linha de argumentos entre especialistas, a informação candidata-se a transformar a trindade em quadratura: defesa, riqueza, ciência e tecnologia, e informação em C&T.20

20 As medidas prescritas por Vannevar Bush se aproximam daquelas presentes em um dos polos do debate em torno dos princípios que deveriam orientar a constituição e os primeiros anos de funcionamento da United Nations Educational Scientific and Cultural Organization, a Unesco, a partir de novembro de 1945. Àquela altura, a Unesco caracterizava-se por um conflito que opunha duas concepções sobre o lugar da ciência e os meios adequados à sua promoção. De um lado, a orientação de caráter universalista e internacionalista da ciência, avessa a qualquer forma de dirigismo, que defendia uma Unesco não governamental, composta por representantes das comunidades científicas. Para essa posição, o conhecimento era um patrimônio do gênero humano, e as aquisições derivadas de sua aplicação prática um recurso a ser compartilhado. Os usos dessas aplicações, assim como os rumos do desenvolvimento científico, deveriam ficar a cargo de uma comunidade internacional de cientistas orientados por valores próprios do mundo da ciência, livre de injunções, por exemplo, dos Estados nacionais. Do lado oposto, a concepção que, informada pelos interesses particularistas das grandes potências, defendia uma organização de perfil intergovernamental, composta exclusivamente pelos Estados-membros e dirigida por seus representantes. Assim, era mais inclinada a subordinar a agenda da ciência e tecnologia a uma

Para Vannevar Bush, por exemplo, o Estado norte-americano deveria, como parte de seus compromissos, garantir a geração no país de um scientific capital, considerado indispensável tanto à defesa como à geração de riquezas, ambas desde então baseadas “on new principles and new conceptions which in turn result from basic scientific research” (BUSH, 1945).

Essa centralidade do conhecimento científico e da técnica não deixaria de alcançar – muito pelo contrário – o terreno da assistência técnica internacional no âmbito do desenvolvimento. Para essa discussão, como já examinado no capítulo anterior, é importante assinalar que a segunda metade dos anos 40 e os primeiros anos da década de 50 demarcam um período de fundação do desenvolvimento, de instituição de uma rede de instituições especializadas e de recursos de conhecimento destinados a promover a modernização da vida social, pela introdução da técnica nos seus mais variados domínios, e, desse modo, realizar a tarefa do desenvolvimento (ESCOBAR, 1995).

O discurso de posse de Harry Truman como presidente dos EUA, em 1949, é a esse respeito emblemático e, embora tenha sido recorrentemente mencionado, vale a pena fazê-lo mais uma vez:

“More than half the people of the world are living in conditions

approaching misery (…). Their poverty is a handicap and a threat bolth to them and to more prosperous areas. For the first time in history humanity possesses the knowledge and the skill to relieve the suffering of these people (…). I believe that we should make available to peace- loving peoples the benefits of our store of technical knowledge (…) Greater production is the key to prosperity and peace. And the key to greater production is a wider and more vigourous application of modern scientific and technical knowledge”(TRUMAN, 1949, apud ESCOBAR, 1995, p. 3).

Terminado o conflito, a cooperação multilateral em saúde na região das América assumiria uma nova feição. O exame das resoluções das instâncias decisórias da

Repartição Sanitária Panamericana e dos seus documentos preparatórios permite que se aquilatem os principais componentes e o sentido dessas mudanças. Nas XII e XIII Conferências Sanitárias Pan-americanas, realizadas, respectivamente, em 1947 e 1950, são nítidas a importância e a preocupação conferidas ao processo de integração da organização ao sistema das Nações Unidas, então em processo de gênese e instalação.

A esse respeito, a XII CSP, realizada em Caracas, Venezuela, foi decisiva. Nela, diferentes posições foram defendidas a respeito das formas pelas quais se dariam as relações entre a organização pan-americana e uma nova organização mundial de saúde, cuja criação havia sido autorizada pela Conferência das Nações Unidas sobre Organização Internacional (leia-se, dos países ‘aliados’ no conflito contra aqueles do ‘eixo’), realizada em São Francisco, EUA, em 1945, e que, em 1946, fora objeto de uma conferência internacional específica com vistas à sua instituição. Cumming, a partir de uma concepção estrita de pan-americanismo, em certa medida radical, não só pronunciou-se pela manutenção de uma independência absoluta da RSP como se posicionou de forma contrária à criação da própria organização mundial. Thomas Parran, chefe da delegação estadunidense, defendeu a criação da organização mundial e ponderou sobre a possibilidade de que a manutenção da RSP resultasse na proliferação de organizações similares nas várias regiões do globo, com um consequente enfraquecimento de uma autoridade sanitária global. Ao final dos debates, prevaleceu uma solução de compromisso em que se recomendava a adesão de todos os países à organização mundial, e que uma “Organização Sanitária Pan-Americana”, segundo a designação cunhada naquela oportunidade, tendo a Conferência Sanitária Pan- americana como instância superior e a Repartição Sanitária Pan-americana como órgão executivo, seguiria funcionando como organização continental autônoma e como comitê e escritório regional da organização mundial (CUETO, 2007; OPAS, 1992).21

Dada essa desejada nova configuração institucional, a XII CSP exortou os governos nacionais a ampliarem os aportes de recursos para o financiamento da organização. Ao mesmo tempo, deu início a formulações que pretendiam uma maior articulação entre as ações de prevenção de doenças, assistência à saúde e proteção e seguro social, este último um tema para o qual foi dedicada uma atenção singular

21 A melhor narrativa desse processo está em Cueto (2007, p. 104-110). A obra de Marcos Cueto é também a melhor narrativa panorâmica sobre a história da Opas. Ver também OPAS (1992).

durante a conferência. Os delegados reiteraram a necessidade de maior centralização da autoridade nacional de saúde e a criação de planos de carreiras para as profissões da saúde; autorizaram a organização a criar uma comissão permanente de combate à malária com o propósito de instituir um programa regional amplo, que associava, entre outros aspectos, a introdução do DDT na luta antimalárica e a associação desta com iniciativas de fomento rural; e resolveram incluir na agenda novos temas e questões, entre as quais o estudo epidemiológico da doença de Chagas (OPAS, 1947).

Antes da realização da XII CSP, em 1946, portanto, tomou corpo uma iniciativa da OSP, de caráter organizacional, que teria importância para o desenvolvimento posterior da organização. Em fevereiro daquele ano, representantes de seis nações da América Central e o Panamá reuniram-se, na Cidade da Guatemala, para formular um programa comum em alimentação e nutrição.22 Nessa reunião, entre outros resultados, foi constituído, no plano ainda formal, o Instituto de Nutrição da América Central e Panamá (Incap). Contando com o apoio da Fundação Kellogg, o programa inicial do instituto contemplava a formação de um corpo de professores em bromatologia, bioquímica de nutrição e métodos de laboratório; a instalação de um laboratório e o inicio da oferta de cursos de especialização (OPAS, 1950; HARRIS, 1948; SOPER, 1948). Assim, foi criado o primeiro centro regional especializado da OSP, dando início a um ciclo que, sobretudo nas décadas de 50 e 60, daria ensejo à constituição de pelo menos outros 15 centros regionais, dentre estes a Bireme, em São Paulo, e o Clates, no Rio de Janeiro.23

22 Esses países eram: Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Panamá (OPAS, 1950) 23 Os centros pan-americanos estão listados originalmente em Pires-Alves (2005). São eles, suas cidades- sedes e anos de criação: Instituto de Nutrição da América Central e Panamá, (Incap), Cidade da Guatemala, 1946; Centro Pan-americano de Febre Aftosa (Panaftosa), Rio de Janeiro, 1951; Centro Pan- americano de Zoonoses (Cepanzo), Buenos Aires, 1956; Bireme, São Paulo, 1967; Centro Latino- americano de Administração Médica (Clam), Buenos Aires, 1967; Instituto de Alimentação e Nutrição do Caribe (IANC), Kingston, 1967; Centro Pan-americano de Planificação da Saúde, Santiago, 1968; Centro Pan-americano de Engenharia Sanitária e Ciências do Ambiente (Cepis), Lima, 1968; Centro de Perinatologia e Desenvolvimento Humano (Clap), Montevidéu, 1970; Centro Latino-Americano de Tecnologia Educacional em Saúde, (Clates), Rio de Janeiro, 1972; Centro de Epidemiologia do Caribe (Carec), Porto Espanha, Trinidad e Tobago, 1974; e o Centro Pan-americano de Ecologia Humana e Saúde (Eco), Cidade do México, 1974. Em 1976 o Clam foi extinto. Novas desativações no período do meu interesse incluíram os Clates de México, D.F. e do Rio de Janeiro e em 1982 e 1983 respectivamente