Para a realização desta pesquisa, realizamos duas entrevistas com Seu Joaquim. Uma delas ainda no momento do projeto e a segunda em julho de 2012. Ambas foram gravadas com o consentimento de Seu Joaquim, mas a autorização de uso não nos foi concedida. Entendemos que no momento em que um processo judicial envolve a construção de sua imagem, assinar qualquer autorização pode parecer confuso, ainda que seja envolvido o nome da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e que tenhamos explicado que se trata de uma pesquisa acadêmica, sem nenhum objetivo de ofensas e difamações. Em momentos posteriores, buscamos novamente um contato formal com Seu Joaquim e familiares, mas a única forma de conseguirmos estabelecer um diálogo era quando chegávamos sem hora marcada na sucata e conversarmos na calçada informalmente.
Ainda que a proposta da conversa tenha sido informal, nos apresentamos e expusemos os objetivos da pesquisa. Na segunda entrevista, fomos até a sucata de Seu Joaquim acompanhados por seu Geraldo Barbosa, dentista e seu amigo pessoal. Conversamos por cerca de 30 minutos, quando as respostas começaram a ficar lacônicas, ao envolvermos o assunto dos folhetos. Tentamos mudar de temas, perguntar sobre sua biografia, mas neste momento sentimos que o vínculo entre entrevistador e entrevistado já havia se quebrado.
Por isso, neste tópico, descreveremos Seu Joaquim a partir de nossas impressões colhidas na entrevista, mas principalmente através da entrevista em profundidade realizada pela turma de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará em 1998, coordenada pelo professor Ronaldo Salgado, e publicada na revista Entrevista. O material consta de 10 páginas em que Seu Joaquim responde a questões sobre sua biografia e que consideramos suficientes para compreendermos sua visão sobre como o personagem foi construído, além de conhecermos momentos importantes de sua vida. Apesar dos 15 anos que nos separam do
momento em que foi realizada a entrevista, naquele momento, Seu Lunga já havia sido midiatizado e transformado em personagem, e para este momento, este processo é considerado suficiente.
Seu Lunga recebeu este apelido de uma vizinha da casa onde nasceu, na cidade de Caririaçu - CE, localizada a 503 km de Fortaleza, com menos de dois anos de idade. É usualmente chamado pelo apelido e afirma que poucas são as pessoas que o reconhecem por seu nome de batismo, Joaquim. Não considera correto que as pessoas sejam chamadas por apelidos, mas aceita com tranquilidade o que recebeu, já que vem desde a infância. Teve 13 filhos, dois deles já falecidos. Casou-se em 1951 com Dona Carmelita, que é sua prima e tem 84 anos de idade.
Ele mora em Juazeiro do Norte, desde os 16 anos de idade. Frequentou apenas dois meses a escola, mas aprendeu a ler e a escrever. Refere-se ao pai como um homem sério e responsável que atuou diretamente em sua educação. Seu Joaquim afirma que procurou oferecer aos filhos a mesma educação rígida que recebeu. Não desobedecia, não fumava, nem falava palavrões na frente do pai, com quem começou a trabalhar aos oito anos de idade. Trabalhavam na roça, na criação de bovinos, caprinos e suínos. Tinha sete irmãos e não tinha muitos amigos devido à distância do lugar onde moravam.
Seu Joaquim diz que não foi um rapaz “namorador”, mas que as moças costumavam correr atrás dele. Mostra um discurso conservador ao considerar que isso não é certo, pois “a mulher deve ter moral” (Entrevista, 1998, p. 6). Considera que a esposa deve estar sempre em acordo com o marido, desde que ele seja um homem de caráter e que só assim pode-se dar uma boa educação aos filhos. Outra afirmação de Seu Joaquim que nos oferece elementos para o interpretarmos como conservador é a de que homem não deve chorar, que deve ser forte para reagir a qualquer situação. Esta característica é retomada muitas vezes nos folhetos sobre Seu Lunga como personagem para caracterizar-lhe a rispidez.
Um homem religioso, com fé no Padre Cícero, mas que não gosta de frequentar igrejas nem ir às romarias. Não acredita que seja necessário se cumprir os rituais para ser considerado religioso, basta fazer bem aos demais. “A religião é isso: é você ter um espírito de personalidade, uma compreensão; é você não querer fazer mal a ninguém, não querer nada de ninguém” (Entrevista, 1998, p. 10).
Seu Joaquim foi candidato a vereador pela cidade de Juazeiro do Norte em 1988. Não tinha promessas de campanha, acreditando que só vereadores eleitos é que têm projetos, o que mais adiante aparece como causo nos folhetos. Acredita, também, que teve os votos “roubados” das urnas onde seus eleitores declarados disseram ter votado. Não tem pretensão
de candidatar-se novamente e acredita que o Brasil não está preparado para viver em uma democracia, que uma ditadura resolveria os problemas de corrupção.
Com relação aos cordéis sobre o personagem Seu Lunga, ele se sente ofendido. Considera um desrespeito, pois os folhetos contam causos que Seu Joaquim diz não serem verdade. Mas sabe que a história de sua grosseria começou a se espalhar antes de circularem em cordel, por conta de sua postura rígida diante do que considera errado na fala de seus interlocutores. “Por isso que eu digo que a gente fala muito errado. Agora, quem é certo hoje é quem é errado. Eu não acredito que eu lhe receba mal se você chegar dentro do ritmo” (Entrevista, 1998, p. 6). O comportamento é assumido, mas as histórias ditas mentirosas e em tom de deboche é o que o incomoda.
Seu Joaquim processou o poeta Abraão Batista e, na entrevista de 1998, disse que processaria qualquer um que usasse seu nome para escrever os folhetos que considera desrespeitoso. Mas apenas o primeiro cordelista a escrever sobre ele é que foi realmente processado. Seu Joaquim ganhou a causa na instância regional e Abraão foi proibido de vender folhetos utilizando o nome do personagem. Alguns outros poetas que também escreviam sobre Seu Lunga trocaram o nome do protagonista, mantendo toda a estrutura e conteúdo dos versos inalterados. Mas ainda há publicações em folhetos que levam a alcunha Seu Lunga como estratégia de marketing, pois vendem com facilidade ao utilizar um nome que já é cheio de significados criados e que despertam o interesse pela comicidade contida nos versos.
Sobre a exploração de sua imagem pela mídia de massa, Seu Joaquim considera uma perda de tempo receber jornalistas, quando poderia estar trabalhando. Disse isso inclusive se referindo à nossa entrevista, considerando-a um incômodo, mas sem se recusar a nos receber e a gravar a conversa. Na entrevista publicada, ele diz não acreditar que seja possível mudar a imagem que já foi construída, diz que por isso não aproveita a oportunidade para mostrar-se diferente do que dizem os folhetos. Segundo Seu Joaquim, alguns até tentam representá-lo de forma real, mas sempre aparece quem vá entrevistá-lo para apresentar em tons de gracejo, que o incomoda bastante. Fica a contradição do discurso, coexistindo com contradição entre a realidade e a ficção dos relatos a ele atribuídos.
Seu Joaquim também é poeta. Não escreve, cria e mantém os versos na memória. Recita quando é solicitado. Esta façanha, muitas vezes ofuscada pelo estereótipo da grosseria, foi pauta da revista Siará, de 11 de agosto de 2013, e inspirou os poetas Arievaldo Viana e Pedro Paulo Paulino a repercutirem a matéria em versos criados em sua página pessoal na rede social “Facebook”.
No ano dois mil e treze Já dizia o Mapurunga
Um poeta de renome Que nessa hoste comunga
Por falta do que fazer Querem agora promover Para POETA... Seu Lunga!
Muito além de questões sobre a veracidade dos versos, tem-se a sociabilidade do homem. Existe um homem que é o referente das piadas contadas nos folhetos, que atende pelo mesmo nome e que tem o cotidiano interferido por curiosos, jornalistas e pesquisadores que procuram entender o fenômeno que envolve o indivíduo e sua representação. Este trabalho não tem o objetivo de investigar se o que consta nos versos condiz ou não com a realidade cotidiana, mesmo porque consideramos aqui que esta realidade é simbolicamente construída e sobre esta construção é que dedicamos nossos olhares. Não analisamos a personalidade de Seu Joaquim, tampouco buscamos contrapor os discursos dele e dos poetas, mas analisamos e interpretamos o personagem que realiza as ações nos versos dos folhetos.
Personagem no qual Seu Lunga se transformou. O homem real adquire significados caricaturados, vira um símbolo de grosseria, a ponto de ações realizadas por outros indivíduos serem atribuídas a ele como um recurso estético, porque ele é o personagem grosseiro, quase que uma construção arquetípica que possibilita novas narrativas que seguem a mesma estrutura: uma situação ridícula e uma resposta grosseira que adquire ares de comicidade. Nas entrevistas com Seu Joaquim percebemos situações semelhantes, em que ele responde de forma ríspida, que ele cobra construções denotativas de linguagem, ignorando os usos cotidianos e informais, cujos significados estariam subtendidos. Ele compreende, mas exige o que chama de “fala correta”.
Um personagem cômico que surge no imaginário e para ele retorna, constituindo uma referência cultural. Imaginário e real transitam e nos oferecem a dualidade que se apresenta com relação à interface que confunde Seu Joaquim com Seu Lunga, cada um se destacando em situações alternadas. Um homem que virou um espetáculo midiatizado, que é o referente de um gracejo e que se incomoda por não ser levado a sério e pelas pessoas que passam por ele insistindo em fazer perguntas, esperando as respostas agressivas.
Seu Lunga não pode mais fugir do imaginário criado em torno dele. E quanto mais ele se irrita com a situação e reage, mais ele reforça esse imaginário, que assume, mas não quer que vire piada. Neste capítulo nos atemos à construção do discurso das anedotas, baseado no homem comum, sobre o qual não conseguimos identificar a fronteira que delimita
o instante em que o personagem é incorporado. Mas é o personagem construído nos folhetos que direciona a nossa análise.