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Nas primeiras duas décadas que se seguiram à implantação da República, o ensino profissional técnico paulista esteve entregue, quase que exclusivamente, à iniciativa privada.

Entre as escolas que se destinavam ao ensino profissional técnico no Estado de São Paulo, deve-se destacar o Liceu de Artes e Ofícios – instituição de ensino particular que passou, por meio da Lei nº 23, de 4 de dezembro de 1891, a ser fiscalizada pelo Estado de São Paulo. A partir de 1896, essa instituição passa a contar com a subvenção permanente do governo paulista.

Em 24 de outubro de 1910, com a Lei nº 1214, foram criadas quatro escolas profissionais no Estado de São Paulo, duas escolas na capital paulista, a Escola Profissional Masculina e a Escola Profissional Feminina e duas no interior, além da Escola de Artes e Ofícios de Amparo e a Escola de Artes e Ofícios de Jacareí.

No ano seguinte, por iniciativa do Secretário do Interior, Carlos Augusto Pereira Guimarães, e do Presidente do Estado de São Paulo, Manoel Joaquim de Albuquerque Lins, foi publicado o Decreto nº 2118-B, de 28 de setembro de 1911, pelo qual ficava estabelecido o regulamento dessas escolas.

36 O termo “escola profissional técnica” está presente nos documentos oficiais, sendo utilizado para distinguir essas escolas das escolas normais, que também consideradas profissionais.

Na mesma data, pelo Decreto nº 2118-A, foram organizadas a Escola de Arte e Ofícios de Amparo, instalada em 16 de março de 1913, e a Escola de Artes e Ofícios de Jacareí, instalada em 17 de fevereiro de 1913.

No relatório referente ao ano de 1912, o Secretário dos Negócios do Interior, Altino Arantes Marques, afirma que

As escolas profissionais técnicas são chamadas a desempenharem uma nobilíssima função, numa sociedade democrática como a nossa a elas esta confiando o destino das classes operárias. E o governo não podia descuidar da educação e ensino dessa grande massa da nossa população, de cujo bem estar e de cuja instrução geral e técnica decorrem a compreensão exata dos seus deveres sociais. Dela dependem em parte o desenvolvimento e o progresso do país. (Relatório do Secretário dos Negócios do Interior do Estado de São Paulo, 1912, p. 66)

Com isso, evidencia-se que essas instituições tinham como objetivo atender aos filhos da classe operária, possibilitando-lhes uma instrução técnica correspondente a sua condição social e a sua vocação especial.

Essas escolas atenderiam crianças com no mínimo de 12 anos, com o curso primário concluído ou conhecimentos equivalentes e comprovados. Os cursos seriam gratuitos, com duração de três anos e ofereceriam vagas para o mínimo de 20 e o máximo de 40 alunos.

A escola profissional masculina da Capital seria composta por oito seções: a de desenho, a de matemática, a de mecânicos (ferreiros, fundidores e ajustadores), a de pintores, a de pedreiros, a de tecelões, a de latoeiros e a de choferes. Em 1919, estavam funcionando as seções de mecânico, pintura, funilaria e eletricidade, marcenaria e de desenho industrial, além de duas seções criadas em 1917, que pretendiam atender os alunos mais graduados: industrial e de aperfeiçoamento.

A escola profissional feminina da capital possuía sete seções: a de desenho, a de datilografia, a de corte e feitio de vestidos e roupas para senhoras e crianças, a de corte e feitio de roupas brancas, a de bordados de rendas, a de fabrico de flores e ornamentações de chapéus, a de arte culinária em todos os ramos e de economia

doméstica. Em 1919, estariam funcionando nessa escola quatro seções: a de corte e feitio de roupas brancas, a de bordados de rendas, a de fabrico de flores e ornamentações de chapéus, e as salas de desenho artístico e profissional.

A escola de Artes e Ofícios de Amparo teria sete seções: de matemática, de desenho, de eletricistas, de pintores, de carpinteiros, de correeiros, de mecânicos (ferreiros e ajustadores). A escola de Artes e Ofícios de Jacareí teria as seções de: matemática, desenho, carpinteiros e marceneiros, tecelões e sequeiros. A escola de Artes e Ofícios de Jacareí funcionou apenas seis meses, tendo sido fechada por falta de alunos. Por conta disso, essa escola não é tomada como foco de análise da formação profissional e técnica do período recortado para esta pesquisa.

Em 1913, portanto praticamente um ano após a instalação dessas escolas, o Diretor Geral da Instrução Pública, João Chrysostomo, no relatório encaminhado à Secretaria dos Negócios do Interior, afirma que as escolas profissionais paulistas eram muito recentes e ainda não tinham atingido o grau de desenvolvimento desejável, o que, segundo esse, só ocorreria com o tempo.

No mesmo relatório, esse diretor afirma que os Estados Unidos detinham do modelo ideal de escola profissional técnica, como se pode observar pelo trecho que segue:

Se bem que tais escolas apresentam ali dois aspectos bem distintos, isto é, umas, como a “New-York Trade School”, de New York, que se limitam a um ensino meramente pratico; outras, como o “Girard College” de Philadelphia, que dão aos alunos uma educação cientifica e profissional, - em todas elas predomina o cunho prático; todas elas organizam seu ensino sob um mesmo escopo, de modo a prepararem os alunos para serem recebidos nas oficinas como operários completos, capazes de desempenhar o mister a que se destinam. (Anuário do Ensino do Estado de São Paulo, 1913, p.25)

Ao analisar a situação do ensino profissional e técnico nos Estados Unidos da América, ele avaliava que os norte-americanos estariam dando um valor inestimável ao princípio fundamental do trabalho, porque reconheciam a importância deste no desenvolvimento da moderna indústria.

Quatro anos depois, em 1917, o então Secretário dos Negócios do Interior, Oscar Rodrigues Alves, também apontava para os Estados Unidos como um feliz exemplo do papel que as escolas profissionais poderiam desempenhar no desenvolvimento da indústria moderna. E avaliava o desenvolvimento dos Estados Unidos em face dos investimentos em educação profissional:

Contam-se por centenas os navios lançados ao mar todos os meses, a construção de canhões, fuzis e aeroplanos atinge a cifras incalculáveis; as fábricas de munições trabalham sem cessar, nota-se nas oficinas uma atividade febril, tudo nos mostrando a capacidade de um povo que possui operários competentes e capazes. Tão brilhante resultado só foi possível, porque os Estados Unidos há muito tempo, vêm cuidando do ensino profissional, com maior solicitude e atenção.

Procuraremos imitá-los, para no momento preciso, sermos capazes do mesmo esforço e atividade. (Relatório do Secretário dos Negócios do Interior do Estado de São Paulo, 1917, p. 10)

Com essas declarações, observa-se, portanto, que, na década de 1910, os Estados Unidos eram apresentados como modelo de escola profissional técnica, escola que procurava formar o operário completo para atender aos interesses da moderna indústria.

Mas, no Brasil, se, nos primeiros anos após a implantação das escolas profissionais técnicas, elas ainda não apresentavam os resultados almejados, pode-se dizer que, no final da década de 1910, os resultados começaram a aparecer.

Verifica-se, nesse período, uma preocupação em instalar novas escolas profissionais técnicas, sobretudo em locais considerados de vocação industrial. Essa constatação é possível ao perceber que, em 1919, pela Lei 1709, de 27 de dezembro, o Congresso de São Paulo autorizou a instalação de mais duas escolas desse tipo na capital, sendo uma feminina e uma masculina, e mais cinco no interior paulista. A escolha das cidades do interior, para instalar essas escolas, deveria obedecer o critério de cidades mais populosas e com vocação industrial, que demonstrassem além disso, interesse instalar estabelecimentos de ensino dessa natureza, ou seja, as câmaras municipais precisavam se comprometer com a causa, doando um bom edifício para a instalação dessas escolas.

Dessa forma, no final da década de 1910, o ensino profissional oficial paulista contaria com três escolas e a perspectiva de instalação de mais sete escolas, duas na capital e cinco no interior. E, além das escolas profissionais técnicas, havia ainda um tipo específico de escola profissional: as escolas normais, tema do item que segue.