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C. Organizasyon Yükümlülüğü Kavramı

1. Genel Olarak Organizasyon Yükümlülüğü

Terminei o mestrado em Educação e, no meu percurso até o doutorado, começou-se a desenhar em mim uma nova compreensão, aquela que contempla não mais uma mulher que, para expiar o pecado de Eva em julgar-se capaz de discernir o bem e o mal, precisaria submeter-se ao homem, e nem mais um homem que para expiar seu pecado de incapacidade, no lugar de obedecer a Deus, aceitar o fruto do conhecimento provado por Eva, precisaria submeter-se como objeto de toda uma sociedade patriarcal, no papel daquele que domina. Do início do mestrado em Educação até sua conclusão e entrada ao doutorado, em 2005, passei por uma gradativa saída do seio evangélico.

Por fim, outro episódio marcante que trata do meu périplo na compreensão de gênero se deu quando organizei, junto com uma psicoterapeuta do movimento da Gestalt-terapia, Lilian Meyer Frazão, o livro “Gestalt e Gênero” (2005). Neste livro escrevi um artigo que revela minha predileção sobre o conceito de corpo-vivido20 em Merleau-Ponty; tratei da questão da homossexualidade, da relação homem/mulher não mais serem atravessadas por uma essência; e fiz uma ligação desses gêneros baseada numa leitura crítica da Bíblia, mostrando que, ao contrário, se há “pecado” este deve consistir em tomar as Escrituras Sagradas como forma de fundamentação, operação e recrudescimento das identidades de gênero:

Foi e é ainda usando a “Palavra de Deus” (O símbolo) que a igreja e toda uma série de sistemas institucionais de opressões tomam o evangelho (Boas Novas) contra si mesmos e contra a liberdade das multiplicidades de possibilidades de vivências de gênero. (FRAZÃO; ROCHA, 2005, p. 241).

Essa digressão serviu então para apresentar, por meio de mim mesmo, um jogo de divergentes concepções sobre as questões de gênero, até chegar a um novo processo de compreensão que passou a fazer parte da consciência histórica efeitual21 da minha vida como uma obra da tradição. Essa nova compreensão se deve, portanto, às configurações vivenciadas

20 O corpo vivido é uma idéia unificada de um corpo físico agindo e experienciando em um contexto sócio-

cultural específico; é um corpo-em-situação. A idéia do corpo vivido reconhece que a subjetividade da pessoa é condicionada por fatos sócio-culturais e pelo comportamento e expectativas alheias, de determinadas maneiras que ela não escolheu. Ao mesmo tempo, a teoria do corpo vivido diz que cada pessoa se interessa e age em relação a esses fatos não-escolhidos de maneira própria (YOUNG, 2003).

21 Segundo Gadamer (2008a, p. 447) “[...] a consciência da história efeitual é diferente da investigação da

história efeitual de uma obra, ou, por assim dizer, é diferente do rastro que uma obra deixou atrás de si. Ela é, antes, uma consciência da própria obra e, nesse sentido, ela mesma é efeito.”

nos jogos afetivos, existenciais, acadêmicos, teológicos, hermenêuticos etc.: um jogo cujas inúmeras peças passaram por um processo de construções, desconstruções e re-construções até chegar a um todo de compreensão que ainda assim é um pré-conceito, uma pré- compreensão que vive desse círculo contínuo de pergunta e respostas. No final desse percurso minha compreensão sobre gênero se configura como existencialista. Sartre me ajudou a pensar que a “existência precede à essência”.

O primeiro exemplo de fusão de horizontes de sentidos pode ser compreendido a partir da seguinte figura.

Figura 2 – Círculo Hermenêutico no jogo da compreensão de gênero do pesquisador

Minhas pré-compreensões sobre gênero são, inicialmente, calcadas numa visão essencialista, porém, no meu percurso acadêmico e existencial vou colocando o essencialismo em questão. As voltas do círculo hermenêutico mostram essa passagem de uma posição, visão e concepção essencialista para uma posição, visão e concepção existencialista.

Se no mestrado não cheguei a encontrar nenhuma essência de gênero, nesta tese de doutorado a pergunta é essa: Se não há essência de mulher nem de homem, o que é o homem e o que é a mulher?

3 HORIZONTES DE SENTIDOS DA MINHA FAMÍLIA

“Muito antes de nos compreendemos na reflexão sobre o passado, já nos compreendemos naturalmente na família, na sociedade e no Estado em que vivemos. A lente da subjetividade é um espelho deformante. A auto-reflexão do indivíduo não passa de uma luz tênue na corrente cerrada da vida histórica, por isso, os preconceitos de um indivíduo, muito

mais que seus juízos constituem a realidade histórica de seu ser.”

(GADAMER, 2008a, p. 368 – grifos do autor).

Os textos dos sujeitos que serão objetos da hermenêutica neste capítulo tem sua razão de ser, pois se configuram como aqueles com quem primeiro experimentei, desde cedo e por conta de um maior convívio, a questão “O que é homem e o que é mulher?” Isto é, foi no contato com meus familiares que adveio minhas primeiras experiências sobre a compreensão modo como os corpos humanos habitam o mundo “como homem ou como mulher”. Nesse sentido, novamente a tarefa hermenêutica me autorizou positivamente para este fim ao afirmar que “[...] o modo como experimentamos uns aos outros, como experimentamos as tradições históricas, as ocorrências naturais de nossa existência e de nosso mundo, é isso que forma um universo verdadeiramente hermenêutico” (GADAMER, 2008a, p. 32). São os sentidos vivenciados sobre gênero a partir do contato com meus familiares através desta pergunta que poderão contemplar à compreensão da temática em questão.

Em termos mais específicos, os dados dos meus familiares nesta pesquisa tiveram dois propósitos. O primeiro de apresentar a tradição de onde venho a fim de identificar elementos presentes nos horizontes de sentidos no meu campo familiar quanto à compreensão de gênero, e o segundo de coletar dados sobre as minhas compreensões de gênero a partir das vivências lúdicas que aconteceram na minha infância. Eis o quadro dos meus familiares que fizeram parte desta pesquisa de acordo com a posição de cada membro-sujeito.

Quadro 1 – Sujeitos pesquisados conforme codinomes usados na pesquisa

Legenda Posição Codinome

F-1 Pai Adão

F-2 Mãe Eva

F-3 Irmão mais velho (1º Filho) Gideão F-4 Primeira irmã (3ª Filha) Rute F-5 Segunda irmã (4ª Filha) Raquel

As entrevistas realizadas para este fim totalizaram quatro, a primeira, considerada única, pois meu pai e minha mãe responderam juntos; uma entrevista com meu irmão mais velho e mais duas entrevistas realizadas com minhas irmãs seguintes a mim.

O procedimento de interpretação dos textos se dará, como já foi dito, com a descrição dos horizontes de sentidos de minha tradição familiar quanto à compreensão de gênero como o segundo movimento da espiral hermenêutica que, em seguida, se funde dialogicamente com o primeiro horizonte de sentidos, isto é, com meu Mundo-Vida. De acordo com o círculo hermenêutico que vai numa espiral dinâmica da pré-compreensão a compreensão espero, ao final deste capítulo, esclarecer elementos do jogo da compreensão de gênero presentes na minha família e esclarecer mais ainda os meus.

Não é comum um pesquisador analisar sua própria família. Embora tenha percebido que, paulatinamente, o estranhamento inicial de tomar a mim mesmo como sujeito de minha própria pesquisa tenha sido de certa forma superado, analisar os discursos de meus familiares, nem tanto. Isto porque as pessoas da minha família não são simples sujeitos, mas pessoas de uma relação íntima e, nesse sentido, percebi que deveria, mais do que nos demais sujeitos, proceder com um tratamento diferencial, por conta do caráter de nossa relação ser mais profunda que nos demais sujeitos.

Esse diferencial ficou ainda mais evidente ao me debruçar sobre seus depoimentos tanto quando se referiam a mim como quando tratavam deles mesmos. Percebi que novas compreensões foram surgindo, pois, inevitavelmente, trouxeram a rememoração de minha infância. Os dados colhidos, enquanto compreensões de vividos foram, de forma especial, revividos existencialmente por mim no momento do resgate dos sentidos quando se deu a etapa do tratamento fenomenológico-hermenêutico. Conforme Holanda (2002, p. 180):

O resgate é re-tomada, é tomar de novo, ou seja, é re-vivência, é viver novamente no momento presente, imediato, através dos conteúdos vividos anteriormente; mas é, antes de tudo, re-significação, é significar de novo, agora. Portanto, o resgate é uma estrutura dialético-funcional, é viver, re- viver e reviver-agora, ou seja, três momentos existenciais num só. É por isto que não consideramos que o mundo pré-reflexivo precise ser resgatado pela interpretação necessariamente, mesmo admitindo que possa ser feito também através dela.

A vivência, de fato, emerge em um plano destacado em toda e qualquer experiência de compreensão e é condição de possibilidade para o exercício hermenêutico. Como mostra Gadamer (2008a, p. 111) “Toda compreensão de sentido é uma retradução das objetivações da

vida para a vitalidade espiritual donde surgiram”. No meu caso, os dados tiveram, além destes três momentos vivenciais assinalados por Holanda (2002), um quarto momento que diz respeito à realidade de que tais dados se referem a acontecimentos que fizeram, de fato, parte de minha história de vida. Diz Gadamer (2008a, p. 30) que “O sentido de um texto refere-se àquilo que ele quer dizer. O sentido de um acontecimento, pelo contrário, é aquilo que se pode extrair da leitura, a partir de textos e outros testemunhos, e quiçá até na reavaliação de sua própria intenção enunciativa”. Muitas dessas vivências no momento em que foram convertidas em textos para serem interpretadas se converteram também em novas vivências e, quando da interpretação, se constituíram, novamente, em re-avaliações sobre minhas próprias intenções. Nisso reside a tarefa hermenêutica que eleva para o círculo de compreensão um movimento sem fim, pois sempre fica algo de não dito depois de dizer. Neste sentido, os textos (depoimentos, observações e vivências de consciência) e os acontecimentos vão estar aqui re-unidos através das compreensões sempre passíveis de novas compreensões a partir de questões inauditas que, ao serem ditas, deixam, por sua vez, outras intenções inauditas em um processo de abertura de horizontes de sentidos sem fim.

“O que vivo agora escrevendo esta tese?” “Como acadêmicos, amigos e familiares vão interpretar meu texto?” “O que exponho ou não sobre meus familiares e sobre mim?” “O que vão achar de minhas vivências?” “Como elas repercutirão neles?”, “O que estou deixando de dizer quando digo?” As vivências já re-vividas e o próprio ato de reencontrá-las enquanto escrevo estes textos afetam diretamente os modos da escrita da tese em dois sentidos. De ordem metodológica e ético-afetiva.

Em relação à questão ética e afetiva me dei conta de que se para mim a exposição de elementos mais íntimos de minha vida se constituiu como um desafio acadêmico e existencial, a exposição e tratamento dos dados de meus próprios familiares tiveram de proceder a um critério redobrado com o cuidado de não expô-los em demasia e também com respeito às nossas diferentes compreensões de gênero que pudessem gerar algum tipo de desconforto em nosso relacionamento. Apesar de estas diferenças serem, de certa forma, conhecidas no nosso convívio, numa incursão de pesquisa e de exposição como é o caso aqui, guarda uma conotação especial, pois marca exposições de um mundo privado para um domínio público.

O cuidado quanto aos dados de minha família permaneceu, durante toda a dissertação da tese, mas fortalecido pela compreensão de que o empreendimento hermenêutico vai além do subjetivismo e que se trata aqui, de modo cientificamente hermenêutico, da necessidade do desvelamento de minha ligação com a coisa que quero compreender. Ou seja, desvelar o “que

é homem e o que é mulher?” no contexto de minha própria família a partir de uma consciência hermenêutica. Isto significou poder experimentar tais dados afirmando minha familiaridade para com eles e ao mesmo tempo abrindo-se para novas compreensões:

A hermenêutica deve partir do fato de que quem quer compreender está ligado à coisa que vem à fala na tradição mantendo ou adquirindo um vinculo com a tradição a partir de onde fala o texto transmitido. Por outro lado, a consciência hermenêutica sabe que não pode estar ligada a esta coisa, nos moldes de uma unanimidade inquestionável e óbvia, como no caso da continuidade ininterrupta de uma tradição. Dá-se realmente uma polaridade entre familiaridade e estranheza, sobre o qual baseia-se a tarefa hermenêutica. (GADAMER, 2008b, p. 79).

Os dados de meus familiares serão, portanto, analisados nessa dinâmica entre familiaridade/estranheza. Os dados transcendentes que se configuram através dos sentidos que emergem quando leio os textos de meus familiares se constituirão em um diálogo hermenêutico através desse tipo de consciência hermenêutica. Os dados imanentes são os textos dos meus familiares e os dados transcendentes são meus textos. A relação dos seus textos com os meus são considerados como falas de um diálogo. A consciência hermenêutica na interpretação de tais dados tem um duplo movimento de envolvimento/distanciamento, porém se encontram reunidas em minha vivência singular de compreensão. Vale lembrar, conforme Gadamer (2008b, p. 41), que “[...] aqui não se trata de um elemento para outro e deste para o próximo, para isso abstrair-lhe o comum. Antes, a vivência singular já é sempre uma totalidade significativa, um nexo reunitivo.”

A questão segunda é que considerando que as vivências de consciência que aparecem no decorrer da escrita desta tese não cessam, precisariam de uma forma de identificar e esclarecer para o leitor os meus condicionantes. Segundo Gadamer (2008b, p. 24) “O problema hermenêutico mostra-se justamente na interpretação gramatical pela interpretação psicológica individualizante, na qual entram em jogo os condicionantes complexos do intérprete”. Na interpretação de um texto, “[...] o entendimento do leitor está sendo constantemente guiado por expectativas de sentido transcendentes, que brotam da relação com a verdade do que se tem em mente” (GADAMER, 2008b, p. 78). Para esclarecer os sentidos transcendentes que brotaram e brotam em mim em toda esta pesquisa, elegi as Versões de Sentidos (VS) e as Transcrições do Vivido (TV) para identificar os condicionantes de minha tarefa compreensiva, isto é, procurei deixar o mais claro possível os meus preconceitos, minhas pré-compreensões e pô-las em diálogo hermenêutico com os outros textos.

Tal articulação é descrita de forma mais clara por Bleicher (1980, p. 13;15) ao mostrar que o “círculo hermenêutico” se inicia no momento em que o pesquisador começa com “[...] a antecipação projectante do sentido e prossegue com a articulação dialógico- dialéctica de sujeito e objeto”. Como foi dito, os dados transcendentes, isto é, as minhas Versões de Sentido e Transcrições do Vivido serviram para efetuar tal articulação dialógico- dialética. Para Bleicher (1980), neste momento, o autor passa a ter consciência das novas responsabilidades em relação a sua própria obra ou ato. Nessa perspectiva, o discurso do outro se movimenta no interior de uma obra mediada pelo intérprete ou pesquisador. Tornou-se então fundamental que eu colocasse, da forma mais transparente possível, o peso das coisas que quero compreender, isto é, a verdade (aletheia) que pretendi desvelar sobre as questões de gênero em relação à minha compreensão de gênero com aquelas dos outros sujeitos. Neste sentido o processo hermenêutico se realiza, inevitavelmente, como um jogo de palavras entre os textos dos sujeitos e os meus próprios, tanto por meio dos dados transcendentes (VS e TV) quanto na forma de comentar cada texto, isto é, no próprio trabalho de redação desta tese.

A partir destas considerações passo a identificar as figuras de gêneros que emergiram no texto dos meus familiares, buscando compreender as novas configurações que se formam, e investigar, em certos momentos, alguns ajustamentos criativos de gênero.