KISIM 7. PLASTİK ESASLI BORU DEVRE ELEMANLARI ve MONTAJI
7.1. GENEL BİLGİ
Carregamos hoje, afirma Bauman (2001), a marca distintiva da modernidade e sua maior invenção: a constituição da noção de uma individualidade. Com esta marca perdemos, porém, um patrimônio cultural, que era a vida socialmente compartilhada. Em outras palavras, poderíamos dizer que, assim como o sujeito faminto é privado de alimento e o sujeito sedento, de água, o sujeito moderno é privado de comunidade. E são exatamente as noções de uma existência individual e de um direito à privacidade que irão marcar a forma de pensar e de sentir que surgiu na cultura burguesa, que se transformou progressivamente até atingir nosso atual ideal de identidade.
Segundo Ariès (1981), o sujeito moderno de que falamos, dotado de individualidade e merecedor de privacidade, foi surgindo no século XVIII, e seu ápice foi alcançado somente no século XIX. Enfraquecidos os laços com a tradição e com a herança, o nome próprio passou a falar mais alto que o sobrenome e que o local de nascimento. Muito embora possamos, hoje, achar muito natural essa relação com a identidade, ela apenas foi inventada há menos de três séculos e deriva de novas relações com a tradição e família, bem como por uma nova relação com o tempo, com o trabalho e com o consumo.
Um homem do século XVI ou XVII ficaria espantado com as exigências de identidade civil a que nós nos submetemos com naturalidade. Assim que nossas crianças começam a falar, ensinamos- lhes seu nome, o nome de seus pais e sua idade. [...] Mas em nossas civilizações técnicas, como poderíamos esquecer a data exata de nosso nascimento, se a cada requerimento, a cada formulário, temos de escrevê-la na ficha de polícia do hotel, se a cada candidatura, a cada requerimento, a cada formulário a ser preenchido, e Deus sabe quantos há e quantos haverá no futuro, é sempre preciso recordá-la. [...] Um dia chegará em que todos os cidadãos terão seu número de registro: esta é a meta dos serviços de identidade. Nossa personalidade civil já se exprime com maior precisão através de nossas coordenadas de nascimento do que através de nosso sobrenome. Este, com o tempo, poderia muito bem não desaparecer, mas ficar reservado à vida particular, enquanto que um número de identidade, em que a data de nascimento seria um dos elementos, o substituiria para o uso civil. (ARIÈS, 1981, p.1)
A forma de pensar a si mesmo e aos outros que se formaria na Era Moderna se caracterizaria pela concepção de uma individualidade própria, única e singular. Esta noção de individualidade não estaria completa, porém, se a ela não se atrelasse a idéia de uma liberdade pessoal, de independência da comunidade, de vontade individual e de racionalidade. A sociedade pré-moderna não poderia trazer o problema da liberdade nos termos em que veio a ser formulado na modernidade, não porque os sujeitos fossem absolutamente incapazes de se pensar como indivíduos, mas porque eram incapazes de se pensar como indivíduos absolutos. Afinal, a vida em comunidade tornava o problema da individualidade irrelevante, de modo que, somente com o afastamento deste sujeito da comunidade, a liberdade individual se torna central e importante.
Ao sujeito individual, livre e racional se fez corresponder, no mundo moderno, uma aposta na racionalização da vida social e uma socialização voltada à vida produtiva. Este momento, a que Bauman (2001) chama de modernidade sólida, seria, para o autor, caracterizado pelo projeto moderno de dominação da natureza através da Razão. Este projeto consistia, em outras palavras, em controlar o mundo para fazê-lo o “melhor possível dos
mundos” através do ordenamento técnico. Bauman (1999) destaca dois os elementos através dos quais o projeto moderno trilhava rumo a sua realização: os Estados-Nações e a ciência.
Ambos, Estado e ciência, buscavam a eliminação da ambivalência, afirma o autor. Os Estados-Nações eliminavam tudo que permanecesse duplo, dúbio, confuso ou inseguro por meio do desenvolvimento de mecanismos para conhecer, categorizar e controlar os indivíduos. E forneciam, assim, critérios para avaliar a realidade presente, critérios com os quais se punham a dividir a população, ao modo da botânica, em indivíduos úteis, a serem cultivados, e indivíduos inúteis, a serem eliminados. De forma indistinta, o Estado buscava proteger-se do perigo externo e de suas contradições internas, o que significava a exclusão dos que não se adaptassem. A ciência não foi menos importante nesta transformação, pois operou essa mesma eliminação da ambivalência ao seu próprio modo, através da classificação do mundo, visando seu posterior uso técnico. Seu objetivo era eliminar toda a incerteza, imprevisibilidade e indeterminação.
A ciência moderna nasceu da esmagadora ambição de conquistar a Natureza e subordiná-la às necessidades humanas. A louvada curiosidade cientifica que teria levado os cientistas “aonde nenhum homem ousou ir ainda” nunca foi isenta da estimulante visão de controle e administração, de fazer as coisas melhores do que são (isto é, mais flexíveis, obedientes, desejosas de servir). (BAUMAN, 1999, p.48)
Assim como o mundo material, os indivíduos foram tomados como objeto a ser moldado pela racionalidade científica e técnica. A engenharia social almejava a transformação do ser humano num meio racionalmente controlável, através de sua reificação na técnica e na ciência. Durante a modernidade sólida, como a ela se dirige Bauman (2001), a humanidade foi tomada como objeto de controle, como instrumento ajustável aos fins do projeto moderno.
O capitalismo pesado, no estilo fordista, era o mundo dos que ditavam as leis, dos projetistas de rotinas e dos supervisores; o mundo de homens e mulheres dirigidos por outros, buscando fins determinados por outros, do modo determinados por outros. Por essa razão era também o mundo das autoridades: de líderes que sabiam mais e de professores que ensinavam a proceder melhor. (BAUMAN, 2001, p.76)
A constituição dos Estados modernos imprimiu, assim, conforme elaboraria Foucault (1987), uma nova modalidade de ação de poder enquanto dispositivos formados por práticas discursivas e não discursivas de dominação. Enquanto a estratégia do poder soberano era repressivo, atuando através da punição pública após a infração cometida, com a invenção pela
burguesia do poder disciplinar, a estratégia passa a ser a estimulação. Esta nova forma de poder, normalizador, produziu formas de conduta antes inexistentes que se foram disseminando anonimamente pelo corpo social.
Aparece, através das disciplinas, o poder da Norma. Nova lei da sociedade moderna? Digamos que desde o século XVIII ele veio unir- se a outros poderes obrigando-os a novas delimitações; o da Lei, o da Palavra e do Texto, o da Tradição. O Normal se estabelece como princípio de coerção no ensino, com a instauração de uma educação estandardizada e a criação das escolas normais; estabelece-se na regularização dos processos e dos produtos industriais. Tal como a vigilância e junto com ela, a regulamentação é um dos grandes instrumentos de poder no fim da era clássica. (FOUCAULT, 1987, p.164)
Tais ferramentas fundariam, a partir do século XVIII, a industrialização e o sistema de controle das fábricas, os quais reduziam a atividade humana a movimentos automáticos e repetitivos, sob o ritmo do relógio mecânico e tendo por protótipo o panóptico. Como explica Miranda (2002), todo o esforço era voltado à redução do tempo não-produtivo e tal controle chega a extrapolar os domínios da fábrica, atingindo uma cadeia de instituições e lugares como o exército, escola, hospital, prisões, enquanto o novo ritmo de tempo adaptava-se à lógica das mais diferentes atividades. Esta é a época em que Foucault (1987) localizou o desenvolvimento do poder disciplinar e o fortalecimento do sujeito individualizado.
A noção de indivíduo emerge num campo de saber objetivado pelo capitalismo. Com o surgimento e propagação de indústrias, fez-se necessária a arregimentação de forças coletivas de trabalho. Daí também a necessidade de criar toda uma tecnologia para que se pudesse avaliar quem poderia manipular máquinas tão dispendiosas, e quais as características importantes para tal manuseio. Além de outras práticas disciplinares que visavam docilizar o corpo do trabalhador, surge a prática do exame, a anamnese individual, ao mesmo tempo em que se constituem enunciados que, no interior da linguagem, permitem os elementos necessários para pensar os indivíduos que passam imediatamente a integrar um campo de saber. O poder passa a ser cada vez mais capilar, sem centralização, mas estando em toda parte, propiciando simultaneamente o aumento das forças dominadas e o aumento da força e da eficácia que as domina. Através das práticas disciplinares, o indivíduo é sempre confinado a uma instituição, seja ela fábrica, escola, quartel, prisão, que o irá distinguir enquanto sujeito individualizado. (MIRANDA, 2002, p.109)
A modernidade sólida, para Bauman (1999), portanto, foi um período de eliminação da ambivalência, em que toda diferença era vista, no mínimo, com desconfiança. Uma vez que a igualdade era um valor tão importante quanto a liberdade, havia também a exigência de homogeneidade das identidades, condutas e modos de vida dos indivíduos de um Estado-
Nação. A idéia de povo e de nação impedia uma radicalização da individualização, como ideal de distinção. No entanto, a individualidade da modernidade clássica ainda permitia certas formas vestigiais de vida comunitária, mesmo que reduzidas e isoladas.
A individualização era importante, mas secundária, pois um indivíduo podia se diferenciar, mas deveria se conformar à identidade do Estado a que pertencia, caso desejasse uma aceitação plena. Por outro lado, os indivíduos eram entendidos como livres e iguais, podendo exercer direitos e deveres, sendo responsabilizados por suas ações, e sendo livres para empreender a tarefa de construção de uma identidade. O indivíduo já não era determinado pelo lugar no qual nascia e pelos laços de sangue e, portanto, deveria ambicionar se tornar alguém, e responsabilizar-se com as conseqüências de tal ambição. Afinal, tal empreitada poderia fracassar em pleno caminho de sua realização como indivíduo.
O Projeto moderno, entretanto, não logrou êxito, descobrindo tarde demais que seus mais belos meios métodos racionais levaram a resultados desastrosos. Segundo Bauman (1999), a modernidade sólida foi, portanto, um período em que a razão se voltou contra si própria. As Grandes Guerras, os campos de concentração e o uso da bomba nuclear, por exemplo, repercutiram profundamente no mito de que o controle racional do mundo traria “o melhor dos mundos possíveis” através da eliminação das ambivalências. Além de todos estes desastres, outro igualmente grandioso foi promovido pelo capitalismo no domínio da subjetividade contemporânea. Do ponto de vista de produção de subjetividade, todos esses processos sociais e subjetivos em nada se diferenciam, funcionando segundo uma mesma cartografia do desejo.
Para Calligaris (1993), esta unilateralidade da subjetividade moderna se dá precisamente na medida em que a cultura situa o indivíduo como valor supremo, em oposição à sociedade. Com o indivíduo como valor social maior, essa cultura se transmite ao mesmo tempo em que nega sua herança simbólica. E este ódio a nossa herança simbólica, levaria também ao ódio aos outros seres humanos, com os quais não acreditamos partilhar uma identidade. Se somos indivíduos, explica Calligaris, e se nos afirmamos como diferentes de nossa herança, as diferenças entre nós acabam por desaparecer.
Porém, ao modo do recalcado freudiano, elas sempre retornariam; não mais como diferenças simbólicas, mas sim como identidades imaginárias. Havendo ou não tal retorno imaginário, o fato é que a modernidade significou um determinado desprezo das tradições, do passado e de toda alteridade.
Se vocês esquecem, recalcam suas heranças, suas origens familiares, históricas, etc., para poderem ser indivíduos e eu fizer a mesma coisa, seremos indivíduos iguais, definidos apenas por nossa individualidade. Isto garantiria um mundo de iguais. Era o sonho do seculo XVIII e o projeto da Paz Perpétua kantiano [...]. Só que essas diferenças que cada um recalca vão voltar de maneira particular. Não vão voltar como lembranças de nosso passado. Vão voltar nos levando a nos constituirmos em grupos nos quais vamos sustentar uma identidade imaginária – uma espécie de caricatura de nossas referências culturais. (CALLIGARIS, 1993, p. 190)
Ao recusar-se aquilo que constituiria para nós uma herança, nos resta somente, para sermos sujeitos, a constituição de uma individualidade privada e única, independente de qualquer relacionamento social. Se não temos tal herança que nos nutra, nos sustente como sujeitos, apenas construindo identidades imaginárias poderemos encontrar a confirmação de que somos aquilo que gostaríamos de ser no olhar de um igual.
Para Calligaris (1993), portanto, a ideologia individualista moderna estaria sendo substituída, assim, por um novo tipo de individualismo, pautado no hedonismo, na massificação do consumo e numa lógica de sedução. Assim, seria então o repúdio à herança cultural e reconhecimento de individualidades singulares que assumiriam o lugar de marcas da subjetividade modernidade.