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Studies II: Carpets of The Mediterranean Countries (1400-1600), (ed R Pinner and W B Denny), London:

Eğirdir 1. Eğirdir Sempozyumu, Eğirdir/Isparta, 2001, s 467.

1.11 Gebiz Yörükler

escravo em sua cadeia produtiva, mediante terceirização. Entre elas, Lojas Americanas (vide BRANDT, 2013), Casas Pernambucanas (vide GAZZONI, 2012), C&A (vide ASSUNÇÃO, 2014), Loja Marisa – denunciada pelo MPT e pela fiscalização do trabalho, mas absolvida em 2013 da acusação, na primeira instância da Justiça do Trabalho – (vide WROBLESKI, 2013c) e Gregory (vide PYL, 2012).,

dispersão geográfica, diante da reduzida capacidade de mobilização do trabalho naquele país de economia capitalista atrasada e dependente. As grifes da moda transferiram o seu processo produtivo para Bangladesh e outros países asiáticos e africanos, utilizando-se sempre do sistema da subcontratação (terceirização) de empresas ali instaladas exclusivamente para substituir as empresas principais. No período fordista-keynesiano, os conglomerados econômicos ampliavam a sua planta produtiva para chegar à periferia do capitalismo, com toda a sua estrutura. Na era da acumulação flexível, no entanto, o deslocamento também objetiva reduzir os custos com a mão de obra, mas agora a grande fábrica terceiriza boa parte das etapas produtivas, evitando, com isso, pressões mais diretas do trabalho e respostas a “dissabores causados pelas empresas terceirizantes” na relação com os seus empregados.189

Em condições muito parecidas com aquelas desenvolvidas pela Zara no Brasil, Bangladesh encontra-se há pelo menos dez anos tomado pela fabricação de roupas de moda para as grandes marcas europeias e norte-americanas, com milhares de pequenas empresas locais funcionando na qualidade de subcontratadas (terceirizantes) dos verdadeiros donos do imenso vestuário ali produzido. Imerso na generalizada precariedade laboral apoiada na terceirização, Bangladesh e o mundo viram, no dia 24 de abril de 2013, parte da tragédia ocasionada pela terceirização no setor têxtil internacional. Morreram 1.200 pessoas, com mais de 2.000 outras pessoas feridas, em razão do desabamento de prédio ampliado em três andares para suportar a demanda das grifes mundiais pela fabricação barata de roupa. As condições de

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Para o jornalista Jamil Chade, correspondente internacional do Estadão, Bangladesh, “O país asiático transformou-se na última década no segundo maior fornecedor de produtos têxteis do mundo, com 3,5 mil empresas exportando, 4 milhões de trabalhadores e investimentos externos no valor de US$ 19 bilhões. Mas a chegada dos investimentos só ocorreu graças a um fator: 90% desses trabalhadores ganham apenas US$ 1,1 por dia, o que permite à indústria têxtil mundial a movimentar US$ 1 trilhão por ano e gerar lucros, mesmo em plena crise mundial. As multinacionais da moda não escolheram Bangladesh por acaso. O país tem o menor salário mínimo do planeta: US$ 38 por mês. Para o sindicato internacional IndustriALL, bastaria um aumento de US$ 0,02 no preço de cada camisa vendida no Ocidente para garantir que a renda dos trabalhadores em Bangladesh dobrasse. Com US$0,10 amais, todas as 3,5 mil fábricas poderiam ser renovadas e estar dentro dos padrões europeus. Quando o edifício Rana Plaza desabou o impacto foi global. Algumas empresas rapidamente reconheceram seu envolvimento. Outras negaram, mesmo depois que suas etiquetas foram encontradas ensanguentadas entre corpos – entre elas a italiana Benetton e a alemã Kik. O Rana Plaza era o espelho da expansão descontrolada do setor no país. O prédio ganhou três andares suplementares para garantir uma maior produção. Empresas como a inglesa Primark e a canadense Loblaw admitiram sua produção no prédio que desabou. Mas lançaram um desafio ao fato de que outras 28 empresas ocidentais estavam em silêncio sobre sua participação.Nos dias após o colapso, campanhas promovidas por ativistas reuniram mais de 1milhão de assinaturas cobrando uma resposta das empresas têxteis ocidentais”. (CHADE, Jamil. Por trás da moda, há um submundo de exploração. O Estado de S. Paulo, [online], 20 maio 2013. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/noticias/520285-por-tras-da-moda-ha-um-submundo-de- exploracao>. Acesso em: 30 jul. 2014).

trabalho no local eram totalmente precárias, em ambiente permeado pelo caos laboral, o que atingiu seu ápice no aumento do prédio sem estrutura para tanto.

Aliás, as roupas “de marca” das grifes mundiais, com preços relativamente baixos, que aparecem nos Estados Unidos e na Europa, possuem alto custo social. São resultantes da exploração do trabalho, em níveis degradantes, na Ásia e na África. Mesmo assim, há quem se orgulhe ao encher as malas de eletrônicos e roupas em Miami, dar uma volta em Nova Iorque para ver a Estátua da Liberdade e retornar ao seu país de origem cheio de felicidade, convicto de que finalmente conheceu o sentido de liberdade em toda a sua dimensão material e espiritual.

Aliás, a burguesia norte-americana, ao dispersar a sua produção de bens materiais diversos, principalmente para os países asiáticos, incluindo a China e a Índia, abalou de modo definitivo a economia dos EUA. Parte de sua crise tem raízes no processo produtivo por mobilidade geográfica (terceirização) e no poder do capitalismo financeiro (acumulação por espoliação). Em outras palavras, a terceirização mundial contribui para o aprofundamento da crise econômica dos EUA, a partir da sua crescente desindustrialização (perda de substância industrial, na expressão dos economistas), assim como permite a existência de produtos de baixo custo ali comercializados, mas fabricados na periferia do capitalismo à custa da superexploração da força de trabalho, o que inclui trabalho análogo à de escravo e outras modalidades predatórias de extração da mais-valia. O recrudescimento do trabalho escravo em várias partes do mundo é uma das crias mais autênticas da terceirização.

Fiel à sua trajetória histórica, os capitalistas não têm pátria. A sua pátria é o espaço planetário no qual podem auferir mais lucros e acumulação de riquezas. Por isso mesmo, a crise norte-americana não é passageira; na verdade, tende a ser aprofundada. A burguesia dos EUA faz riquezas na China e em outros países asiáticos, vitimando milhões de trabalhadores superexplorados, ao mesmo tempo em que arrasa a economia norte-americana, provocando recessão, desemprego em massa e precariedade salarial. Diagnóstico semelhante é aplicável ao conjunto das economias dos países da Comunidade Europeia. Não há quem possa competir com a voracidade dos capitalistas em seus movimentos frenéticos para superar a crise estrutural do regime. China, Índia, Bangladesh e tantos outros países são os destinos escolhidos para a produção barata, tendo a terceirização relevante papel no sentido de

assegurar extrema selvageria nas relações de trabalho, comparável somente àquela do período da II Revolução Industrial.

Para além da indústria têxtil, automóveis, computadores e as tecnologias avançadas nas mãos dos consumidores ávidos por novidades microeletrônicas são produzidos predominantemente fora da esfera geográfica das nações capitalistas mais desenvolvidas, pela sua burguesia, à exceção do Japão, que conseguiu estruturar, a partir do modelo toyotista, formas internas radicais de repressão, dominação e cooptação do conjunto de sua classe trabalhadora. Ainda assim, a nação japonesa também desloca parte de seu processo produtivo industrial para países vizinhos de continente. Em todos os modelos, a terceirização, pela via da subcontratação empresarial, é vigorosa na dilaceração do trabalho, e, em alguns casos, mata trabalhadores, como fez em Bangladesh, arrancando a dignidade laboral com o labor em condições análogas às de escravo

A tragédia do Rena Plaza de Bangladesh expõe a substância da terceirização: exploração máxima da força de trabalho mediante o escamoteamento dos verdadeiros empregadores, os donos do negócio. Depois da tragédia, insistentemente provocados, eles aparecem, como ocorreu no caso Zara no Brasil, com declarações e semblantes de choques que contrastam com a responsabilidade atribuída exclusivamente a suas subcontratadas, sem nenhum gesto para eliminar a terceirização, que será sempre causadora da degradação das condições de trabalho. É da sua gênese. Ela existe para isso e não para melhorar as relações de trabalho.

Com respostas ensaiadas para acalmar os seus consumidores, a Zara declarou que o trabalho escravo encontrado em sua cadeia produtiva foi fruto de terceirização não autorizada, que "violou seriamente" o Código de Conduta para Fabricantes. Em Blangladesh, não foi muito diferente a manifestação de uma das donas do negócio explorado no prédio que desabou matando centenas de trabalhadores:

Em sua defesa, a Primark informou que estava 'chocada e entristecida' pelo desastre e que exigiria de seus outros fabricantes uma revisão dos padrões de segurança. Mas esta é apenas uma pequena amostra de um cenário conhecido há bastante tempo na região. Há menos de seis meses, no mesmo local, um incêndio reduziu a cinzas uma fábrica que fazia roupas para a

cadeia americana de supermercados Wal-Mart, matando 100 trabalhadores.190

190BORGES, Altamiro. Mortes em Bangladesh e roupa da moda. Blog do Miro, [online], 29 abr. 2013.

Disponível em: <http://altamiroborges.blogspot.com.br/2013/04/mortes-em-bangladesh-e-roupas-da- moda.html>. Acesso em: 30 jul. 2014.

No Brasil, a Zara foi condenada pela primeira instância da Justiça do trabalho. O juiz Álvaro Emanuel de Oliveira Simões, da 3ª Vara do Trabalho de São Paulo, (Processo n. 0001662-91.2012.502.0003), concluiu que a Zara foi a responsável, na qualidade de real empregadora, pela submissão de trabalhadores à condição análoga à de escravo, refutando, assim, os argumentos patronais. Asseverou o magistrado que,

Não tivesse a Zara nada a ver com a situação desses obreiros, estaria abandonando sua órbita capitalista para se converter em instituição beneficente, seja em prol dos trabalhadores, seja da própria fornecedora. Tal quantia, não desprezível sob nenhum modo de visão, certamente representa ainda mais para os reclamantes, pessoas anteriormente expostas a uma vida de total escassez de recursos. Ante a possibilidade de percepção de soma para eles tão vultosa, não é nada insólito que a tenham aceito, abrindo mão de discutir judicialmente, com a sujeição à álea natural às lides, a responsabilidade da ora requerente. De qualquer modo, naquelas demandas discutia-se o direito individual dos autores. Aqui, discute-se a legalidade da autuação e das obrigações dela surgidas, não havendo interferência daqueles processos no destino deste Voltando-se à vertente principal, vê-se que a Aha, ao contrário do que assevera a demandante, não tinha porte para servir de grande fornecedora, e disto ela estava perfeitamente ciente, pois, realizando auditorias sistemáticas, sabia do extenso downsizing realizado, com o número de costureiras da Aha caindo mais de 80%, ao tempo em que a produção destinada à Zara crescia. A fiscalização verificou, outrossim, que as oficinas onde foram encontrados trabalhadores em condição análoga à de escravidão labutavam exclusivamente na fabricação de produtos da Zara, atendendo a critérios e especificações apresentados pela empresa, recebendo seu escasso salário de repasse oriundo, também exclusivamente, ou quase exclusivamente, da Zara. A fraude da intermediação é escancarada, pois, na verdade, houve prestação e favor da vindicante com pessoalidade, não eventualidade, remuneração e subordinação econômica, requisitos alinhados no art. 3º do texto celetário, e, repita-se, a subordinação, embora camuflada sob a aparência de terceirização, era direta aos desígnios da comerciante das confecções […]. A Zara Brasil Ltda. é uma das maiores corporações do globo, em seu ramo de negócio, custando crer, reitere-se, que tivesse controles tão frouxos da conduta de seus fornecedores, mostrando-se muito mais palatável a versão defendida pela fiscalização, de que na realidade, controlava-os ao ponto de deter a posição de empregadora. Assim, ainda que entendida não ser atividade-fim da companhia a manufatura dos produtos, o que, de resto, é dúbio, em face do depoimento da primeira testemunha, a terceirização é ilegal quando há subordinação direta. E, como sustentou a autora à fl. 30, jamais existiu terceirização de serviços da Zara pela Aha, embora, ao contrário do que disse na sequência, não houve, tampouco, relacionamento comercial para compra e venda de produto acabado. Houve, sim, diga-se uma última vez, inserção do nome da Aha par ocultar o relacionamento direto entre a Zara, como detentora do capital, e dos obreiros, submetidos a condições inaceitáveis de trabalho enquanto laboravam produzindo, com exclusividade, produtos com a marca dessa. Indeferem-se, em face de tudo quanto exposto, os pedidos de declaração de

nulidade do relatório de fiscalização do MTE, anulação dos Autos de infração listados na peça vestibular, redução do valor do Auto nº 021505799, determinação de que a empresa não seja incluída na 'lista suja', ou seja, no Cadastro de Empregadores que mantiveram trabalhadores em condições análogas à de escravo, determinação de que a autora não seja inscrita na dívida ativa nem no cadastro de inadimplentes e demais pedidos destes acessórios.

Em um segundo momento, nos debates instalados no âmbito do Parlamento brasileiro, a Zara reconheceu expressamente que fez uso de trabalho escravo contemporâneo em sua cadeia produtiva. A confissão se deu por meio do depoimento de seu principal executivo no Brasil, o diretor-geral da empresa, João Braga, ao responder afirmativamente pergunta formulada por deputado estadual em sessão da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instalada pela Assembleia Legislativa de São Paulo, sobre o uso de trabalho escravo na cadeia produtiva da Zara. O executivo da marca espanhola acrescentou, ainda, que não monitorava as ações da prestadora de serviços Aha, fornecedora responsável por outras subcontratações. 191

Na incessante busca pelas mais altas taxas de lucro, a indústria da confecção da moda comandada por grifes mundiais entrelaçou, em uma comunhão indissociável, trabalho escravo contemporâneo e terceirização, ambos muito penosos para os trabalhadores, meros instrumentos a serviço do regime da acumulação de capitais. Por isso mesmo, Zara, Primark, Loblaw, Benetton, Nike, Wall-Mart e tantas outras marcas de roupas midiaticamente famosas simbolizam a moda degradante das grifes, como estertores que tentam esconder os seus rostos em tantos “Rana Plaza” existentes na imensidão da periferia capitalista globalizada.

5.2.1.3 Trabalho escravo contemporâneo no campo: o “gato“ em fuga

Os primeiros casos envolvendo o trabalho escravo contemporâneo apareceram no campo, entre os anos 1960 e 1970, sem que houvesse alarde em torno do assunto por força do regime de exceção instaurado no país, com o golpe de 1964. Uma das funções da ditadura civil-militar era proteger os latifundiários das ameaças de reforma agrária constante da plataforma política da esquerda e da centro-esquerda, incluindo o governo Jango. Logo, falar

191OJEDA, Igor. Zara admite que houve escravidão na produção de suas roupas em 2011. Repórter Brasil,

[online], 22 abr. 2014. Disponível em: <http://reporterbrasil.org.br/2014/05/zara-admite-que-houve- escravidao-na-producao-de-suas-roupas-em-2011/>. Acesso em: 5 set. 2014.

em trabalho escravo na área rural, naquela época, implicava desafiar a ordem vigente dos generais.

As denúncias pelos maus tratos no campo ganharam força a partir da ação mais contundente da Comissão Pastoral Terra (CPT), nos anos 1980, que clamava e ainda clama, destaque-se, por reforma agrária, tendo como resposta a represália dos ruralistas consistente no assassinato de líderes campesinos, padres, freiras, ambientalistas e outros simpatizantes da causa dos trabalhadores. Entre tantas vítimas nas últimas décadas, João Canuto, padre Josimo, Chico Mendes e irmã Dorothy Stang representam o engajamento de militantes dos direitos humanos contra a autocracia presente nas relações de trabalho rurais.

Somente a partir do “caso José Pereira”, o tema do trabalho análogo ao de escravo recebeu outra dimensão por parte do Estado. José Pereira, com 17 anos de idade, no ano de 1989, foi reduzido à condição análoga à de escravo na fazenda Espírito Santo, localizada no Estado do Pará. Privado da liberdade de ir e vir, vigiado dia e noite por homens fortemente armados, laborando em péssimas condições de trabalho – ao contrário do que prometera o “gato” no ato do aliciamento –, José Pereira decide fugir no meio da noite na companhia do colega Paraná. Depois de longa caminhada nas terras extensas da fazenda, José Pereira e Paraná são alcançados e atingidos com tiros de fuzil pelos jagunços do latifundiário. Os corpos são jogados em outra fazenda próxima à Espírito Santo. Mas José Pereira, ao contrário do que imaginavam os autores dos crimes, escapou com um olho perdido e várias lesões no corpo, conseguindo chegar à sede da outra fazenda onde fora jogado como se morto estivesse, em busca de socorro. Ao sair do hospital, denunciou o trabalho escravo existente na fazenda Espírito Santo à Polícia Federal bem como o assassinato do colega Paraná e à tentativa de assassinato que fora praticada contra ele.

Passaram-se cinco anos sem que a investigação policial avançasse, esvaziando-se algumas provas importantes para a condenação dos autores dos crimes cometidos contra José Pereira, Paraná e os demais trabalhadores escravizados pelos donos da fazenda Espírito Santo. De igual modo, os processos judiciais depois ajuizados, em número de dois, tramitavam lentamente.

Demonstrada a ineficácia dos recursos internos, as organizações não governamentais Américas Watch e Centro pela Justiça Internacional, em 16 de dezembro de 1994, denunciaram o Brasil perante à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, órgão da

Organização dos Estados Americanos (OEA), pela existência de trabalho escravo no campo e pela violação de direito à vida e à justiça. Em 18 de setembro de 2003, as partes apresentaram petição de acordo, reconhecendo o Brasil a sua responsabilidade, ao mesmo tempo em que assumiu inúmeros compromissos para erradicar o trabalho escravo.192 Desde então, o Brasil,

além de reconhecer a existência de trabalho escravo, estabeleceu política nacional de combate a essa prática, celebrando parcerias e convênios diversos com a OIT com o mesmo propósito.

Inúmeros foram os flagrantes de trabalho análogo à de escravo no campo nos últimos anos, na maioria das vezes contando com a ativa participação do intermediário aliciador, também conhecido como “gato”, que se faz passar pela qualidade de empregador dos humildes trabalhadores rurais recrutados sob promessas jamais cumpridas.193

A terceirização praticada nas fazendas serve fundamentalmente aos propósitos dos capitais investidos na área rural, no sentido de reduzir os custos com o valor trabalho, tal como ocorre nos demais segmentos econômicos. Há, entretanto, expressiva diferença em relação ao papel do “gato” rural. O escopo de proteção aos empregados no campo é bastante reduzido, diante da fragilidade sindical e dos rasgados traços escravocratas ainda presentes na relação de poder patronal despoticamente exercido contra o trabalho. Sem ressalvas, o ingresso do “gato” (da terceirização) leva consigo o trabalho degradante análogo à de escravo. É para isso que ele foi contratado, ou seja, para aliciar e escravizar trabalhadores. Quando são realizadas as inspeções trabalhistas nas fazendas, o “gato” desaparece sem que ninguém saiba o seu primeiro nome. Evade-se para evitar a prisão em flagrante pelo crime de redução do trabalhador à condição análoga à de escravo e salvar a pele do real empregador, que também desparece da fazenda até a fiscalização do trabalho se retirar do local.

192

ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS. Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Relatório n. 95/03. Caso 11.289. Solução amistosa. Brasil, 24 de outubro de 2003. Disponível em: <http://cidh.oas.org/annualrep/2003port/Brasil.11289.htm>. Acesso em: 30 jul. 2014.

193

Entre outras empresas rurais, as indicadas a seguir foram flagradas, denunciadas, apontadas ou condenadas nos últimos anos em razão do trabalho degradante praticado em sua cadeia produtiva por intermédio do agente terceirizante, mais conhecido no campo como “gato”:

1) Fazenda Bertin, em Arauaçú-TO, no ano de 2009 (vide HASHIZUME, 2009). 2) Fazendas São Roque e Butiá, em Calmon-SC, no ano de 2009 (vide PYL, 2009c).