3.2. TÜRKİYE’DE AMERİKAN PROPAGANDASININ ARAÇLARI….112
3.3.1. Gazete, Dergi, Kitap
Quanto à interpretação que pode ser conferida ao artigo 146, da Constituição Federal, há quem entenda, ao argumento de realizar uma interpretação sistemática do Texto Constitucional, prestigiando alguns dos princípios já mencionados anteriormente, a exemplo do pacto federativo e da autonomia dos municípios, que a lei complementar tributária teria, na verdade uma única finalidade, qual seja, a de veicular
normas gerais de direito tributário; estas, por sua vez, se prestariam para (i) dispor sobre conflitos de competência e (ii) regular as limitações constitucionais ao poder de tributar.
Esta seria a chamada corrente “dicotômica”, a rigor, “monotônica”, já que a finalidade da lei complementar tributária seria apenas uma: veicular normas gerais de direito tributário.
Nesta linha de entendimento posicionam-se juristas de nomeada e em relação aos quais nutrimos enorme respeito e admiração, a exemplo de Geraldo Ataliba193, Paulo de Barros Carvalho194, Roque Antônio Carrazza195, dentre outros.
Para Clarice Araújo, essa exegese do art. 146 comprometeria até mesmo a rígida repartição das competências tributárias feita pela CF:
A concepção da corrente tricotômica traz consigo implicações embaraçosas, como, ao arrepio da rigidez que caracteriza a Constituição Federal, admitir-se que o sistema foi minuciosamente traçada em seus dispositivos, possa ser alterado mediante outro processo legislativo que não as Emendas Constitucionais. Ou seja, dizendo de outro modo, implica não só nos desrespeito ao regime federativo que rege o Estado Brasileiro, como confere flexibilidade à Constituição196
Por outro lado, há aqueles que entendem pela aplicação integral do art. 146 da Carta Constitucional; para estes, a lei complementar tributária seria o veículo competente para veicular três, e não “duas” (ou uma) matérias. Nestes casos, a lei complementar seria o instrumento introdutor competente para regular (i) conflitos de competência; (ii) limitações constitucionais ao poder de tributar; e (iii) normas gerais de tributário, em especial, sobre a regra-matriz possível das espécies tributárias (nos limites prescritos pela CF), as formas de constituição e extinção do crédito tributário.
193 Apud VELLOSO. Carlos Mário da Silva. Lei Complementar Tributária. Revista de Direito
Administrativo. Rio de Janeiro: Ed. Renovar, jan./mar. 2004, p. 121.
194 CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de Direito Tributário. 18. ed. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 211- 225.
195 CARRAZZA, Roque Antonio. Curso de direito constitucional tributário. 23. ed. São Paulo: Malheiros, 2007, p. 805.
196 ARAÚJO, Clarice Von Oertzen de. Normas Gerais de Direito Tributário - Uma Abordagem Pragmática. 1997. Dissertação (Mestrado em Direito)–Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo: PUC-SP, 1997, p. 145.
Os autores que perfilham este entendimento, tais como Luciano Amaro, Marco Aurélio Greco, Hamilton Dias de Souza197, portanto, entendem que as normas gerais são todas aquelas destinadas a estabelecer regras de padronização da tributação entre os diversos entes tributantes. Essas regras se referem às situações descritas nas alíneas do art. 146, III da Constituição, de maneira exemplificativa, a nosso ver.
Nas palavras de Marco Aurélio Greco:
esta dicção constitucional ‘estabelecer normas gerais em direito tributário’ […] abre espaço para a lei complementar atuar também como elemento estruturante do ordenamento tributário. Vale dizer, não apenas dispondo sobre prerrogativas do Fisco, direitos dos contribuintes, elementos fundamentais da obrigação, etc. (os chamados direito tributário material e formal) – possibilidade que já advém do art. 24, I, - mas também sobre as relações e fórmulas de conjugação e composição entre as várias normas que integram a legislação interna. Ou seja, abre espaço para a lei complementar dizer como devem e podem se relacionar as várias normas do sistema.198
No mesmo sentido, entendendo, portanto, pela possibilidade de a lei complementar estabelecer normas gerais, dispondo sobre aspectos da regra-matriz possível das espécies tributárias, sem que isso implique em violação ao pacto federativo, posiciona- se Eurico Marcos Diniz de Santi:
não arranha o pacto federativo, como querem aqueles que levam em consideração apenas os incisos I e II do art. 146. Pelo contrário, funciona como expediente demarcador desse pacto, posto que, com sua generalidade, além de uniformizar a legislação, evitando eventuais conflitos interpretativos entre as pessoas políticas, garante o postulado da isonomia ente União, Estados, Distrito Federal e Municípios.199
197
“É nossa opinião de que as normas gerais têm campo próprio de atenção que não se confunde com a regulação de conflitos e limitações ao poder de tributar, o que significa ser tríplice a função da lei complementar prevista no art. 18, §1º, da Emenda Constitucional n. 1 de 1969” (SOUZA, Hamilton Dias de. Lei complementar em matéria tributária. In: MARTINS, Ives Granda da Silva (coord.). Curso de
Direito Tributário. São Paulo: Saraiva/CEU, 1982, p. 31).
198 GRECO, Marco Aurélio. Contribuições (Uma figura “sui generis”). São Paulo, Dialética, 2000, p. 162. 199 SANTI, Eurico Martins Diniz de. Decadência e prescrição no direito tributário: aspectos teóricos, práticos
e análise das decisões do STJ. Revista Dialética de Direito Tributário, n. 62. São Paulo, p. 34-46, nov. 2000, p. 86. Paulo de Barros Carvalho reconhece o caráter não absoluto do princípio, apesar de concluir em sentido contrário ao final “fique estabelecido que esta oposição não significa reconhecer o primado da federação e o da autonomia dos Municípios, com ares de uma plenitude que, verdadeiramente, não tem”. (CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de Direito Tributário. 18. ed. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 210).
Percebe-se, pois, para aqueles que compactuam com a possibilidade de veiculação de ‘normas gerais’ por meio do veículo introdutor de normas “lei complementar”, que este se apresenta como um instrumento de busca de certeza jurídica no trato da matéria tributária entre os entes tributantes.
Tércio Sampaio Ferraz Jr., em artigo intitulado “Segurança Jurídica e Normas Gerais Tributárias”, analisando a disputa que existe na doutrina brasileira no que toca à função das normas gerais de direito tributário no sistema brasileiro, aponta precisamente o cerne da questão, ou seja, as diferentes interpretações do princípio da segurança jurídica, com as seguintes palavras:
Saber se as “normas gerais” ali mencionadas devem ter por conteúdo regular limitações e conflitos de competência (teoria dicotômica) ou se, ao contrário, este conteúdo é mais específico, no sentido da codificação de princípios gerais (teoria tricotômica), é um problema, que, a nosso ver, pode esclarecer a noção de segurança e a sua própria amplitude, tendo em vista a exigência de igualdade e certeza.200
A igualdade é um atributo da segurança que diz respeito, não ao conteúdo, mas ao destinatário das normas, garantido segurança a norma que obedece ao princípio da isonomia; já a certeza, também atributo da segurança, consiste na determinação permanente dos efeitos que o ordenamento jurídico atribui a um dado comportamento, de modo que o cidadão saiba ou possa saber, de logo, a consequência das suas próprias ações.
Assim, para a parte da doutrina que atribui maior carga valorativa à função-igualdade, como o Prof. Paulo de Barros Carvalho e Roque A. Carrazza, por exemplo, o papel da lei complementar tributária é restrito; ou seja, sendo as pessoas políticas de direito constitucional interno (União, Estados, Distrito Federal e Municípios) autônomas, cada qual deve editar de forma independente suas normas gerais de direito tributário. Ou seja, o papel da lei complementar se restringiria às situações previstas nos incisos I e II do art. 146, da CF, para resolver conflitos de competência, bem como para regular as limitações constitucionais ao poder de tributar (corrente “dicotômica”).
A outra parte da doutrina, com a qual concordamos, defende a teoria tricotômica; é dizer, dá preponderância à função-certeza, o que autoriza uma interpretação
200 FERRAZ JR., Tércio Sampaio. Segurança Jurídica e Normas Gerais Tributárias. Revista de direito
mais ampla da lei complementar tributária, podendo os enunciados por ela inseridos versar, também, sobre normas gerais de direito tributário, nos termos do inciso III, do artigo 146 da CF.
Este posicionamento garante uniformidade para o exercício da competência tributária, evitando-se o “caos tributário” (que, nada mais é do que a verdadeira insegurança jurídica), especialmente porque, como assevera Tércio Sampaio Ferraz Jr., “a realidade brasileira, com sua multiplicidade de municípios e Estados- membros exige uma formulação global, garantidora de unidade e racionalidade.”201
Entendimento deste jaez, longe de violar os princípios federativo e da autonomia dos municípios e Distrito Federal, ao contrário, confirma-os, garantindo-lhes eficácia. Até porque, como já nos posicionamos, a autonomia dos entes federativos não é ilimitada; já nasceu com as conformações e delineamentos outorgados pela própria Constituição Federal. Pertinentes as considerações de Humberto Ávila nesse sentido:
O princípio federativo é um princípio fundamental enunciado já no art. 1º da Constituição Brasileira. Como princípio fundamental do sistema constitucional, exerce uma função de suporte para a interpretação de outras normas. [...] E sendo o ideal federativo um compromisso entre a uniformidade e diversidade, ou entre a autonomia do ente federado e a unidade da Federação, qualquer interpretação que conduza, quer à autonomia absoluta, quer à uniformidade absoluta, é contrária ao princípio federativo. Em outras palavras, os entes federados, embora autônomos, têm sua autonomia dependente da estrutura federativa.202
Diante de tais considerações, a função da lei complementar neste trabalho será interpretada em sua forma ampla (corrente tricotômica), dando-se proeminência à função-certeza, de modo que, para nós, as normas gerais de direito tributário a que se refere o inciso III, do art. 146 da Constituição Federal são todas aquelas destinadas a estabelecer regras de padronização e harmonização da tributação entre os diversos entes tributantes.
201 FERRAZ JR., Tércio Sampaio. Segurança Jurídica e Normas Gerais Tributárias. Revista de direito
Tributário, n. 17-18, Ano V, jul./dez. 1981, p. 54.
202 ÁVILA, Humberto. Imposto sobre a Prestação de Serviços de Qualquer Natureza. Exportação de Serviços. Lei Complementar n. 116/2003. Isenção: requisitos e alcance. Conceitos de “desenvolvimento” de serviço e “verificação” do seu resultado. Revista Dialética de Direito Tributário, n. 134. São Paulo: Dialética, p. 101-109, nov. 2006, p. 102.
A partir das premissas firmadas até o presente momento, passaremos a analisar a regra-matriz possível do ISS prescrita pelo legislador constitucional, analisando cuidadosamente todos os seus critérios, em especial, (i) o critério material que consubstancia o núcleo da incidência tributária, construindo o sentido e alcance da expressão prestação de serviços e (ii) o critério espacial, dando ênfase na análise dos critérios de conexão possíveis para determinação do âmbito de incidência das normas instituidoras do ISS, tendo sempre como ponto de partida, repita-se, o direito positivo que é objeto de estudo da dogmática jurídica.
Ainda tomando como ponto de partida as proposições até aqui elaboradas, analisaremos o enunciado contido no art. 156, §3º, II, da CF, em cotejo o art. 2º, inciso I e parágrafo único, da Lei Complementar n. 116/03, a fim de, concluindo tratar- se de isenção, examinarmos os seus requisitos, alcance e efeitos no ordenamento do direito posto.