O universo do símbolo cartográfico pode ser dividido em seis diferentes variáveis visuais, conforme Bertin (1986): forma, orientação, cor, granulação, valor e tamanho, e cada variável apresenta a sua propriedade perceptiva. Quando corretamente empregadas no mapa, traduzem a noção de ordem, quantidade (proporcionalidade) e diversidade/similaridade, que correspondem, em última análise, aos níveis de mensuração.
Com a aplicação dessas variáveis, isoladamente ou não, pode-se responder à seguinte pergunta: onde está o quê?, obtendo-se respostas visuais rápidas e espontâneas.
A tabela 1 é um resumo das relações entre as variáveis visuais e as suas propriedades perceptivas. As figuras 9, 10 e 11 mostram exemplos de representações para as propriedades perceptivas.
Tabela 1 – Propriedades perceptivas das variáveis visuais.
Propriedade Variável visual
Perceptiva forma orientação cor granulação valor tamanho Quantidade (proporcionalidade) x Ordem x x x Diversidade/simila- ridade x x x
Figura 9 – Variáveis forma, orientação e cor aplicada a propriedade perceptiva diversidade.
Fonte: Adaptado de Martinelli (1991).
Figura 10 – Variável valor aplicada a propriedade perceptiva ordem. Fonte: Martinelli (1991).
Figura 11 – Variável tamanho aplicada a propriedade perceptiva proporcionalidade.
Fonte: Martinelli (1991).
Além das variáveis visuais, outros fatores podem ser considerados nesse momento. Segundo Keates (1989), o uso do mapa é um processo de comunicação visual. O cartógrafo deve compreender os aspectos envolvidos no processo da comunicação cartográfica, que é também um processo perceptível,
haja vista que depende de uma ação combinada dos aspectos físicos (estímulos, no caso a cor, saturação e brilho), fisiológicos (dos órgãos receptores - os olhos e seus componentes) e psicológicos ( reação do cerébro ao estímulo provocado pela simbologia empregada).
Conforme citam Bos (1984) e Keates (1989), alguns aspectos são relevantes no processo de percepção visual do objeto e seu significado. Destacam os seguintes fatores:
- acuidade visual: é também denominada visibilidade e indica a condição associada aos olhos para detectar e discriminar os objetos. Deve-se ter um tamanho mínimo capaz de permitir que a imagem seja formada na retina e uma “quantia” adequada de luz para que essa imagem seja nítida. Para o objeto ser percebido este depende da distância, do tamanho e do ângulo visual (ângulo subentendido na retina). Admite-se que, em condições normais de iluminação, a uma distância de 30cm e um ângulo de um minuto de arco, para pessoas normais, o objeto deve ter 0,09mm para permitir sua leitura. A tabela 2 indica as dimensões mínimas adotadas.
Tabela 2 – Tamanhos mínimos adotados.
Símbolo Dimensão mínima Descrição
0.2mm diâmetro para símbolos pontuais 0.1mm espessura para símbolos lineares 0.25mm distância entre duas linhas paralelas Fonte: Bos (1984).
Quando se aplica a cor no tamanho do símbolo, este produz diferenças perceptuais na cor. Se for uma área pequena, poderá parecer menos saturada do que se fosse uma grande área pintada. Por isso, quando dois símbolos de áreas são discriminados tendo-se por base o matiz, a distinção entre eles precisa ser suficiente para manter a discriminação das áreas menores. Mas não se pode esquecer qual será a cor de “fundo”, de modo a permitir a identificação e discriminação dos objetos representados. Por exemplo, se o fundo for amarelo e se desejar representar uma linha azul-escura, esta aparecerá, pois haverá nitidamente o contraste entre elas.
- legibilidade: inclui a visibilidade, mas compreende também a facilidade de leitura e interpretação do mapa. Significa dizer que todos os símbolos devem ser identificados sem qualquer esforço mental ou ambigüidade, em qualquer lugar em que eles ocorram.
- associações subjetivas e convencionais: as primeiras correspondem às reações espontâneas por parte do usuário. Se o tema for tempertatura, quando se empregar a cor vermelha, esta poderá trazer-lhe a sensação de quente; se for o azul, poderá causar-lhe a sensação de frio. Além disso, deve-se conhecer as características culturais desse usuário, pois o uso inadequado das cores pode também comprometer o produto cartográfico. No segundo caso, são convenções adotadas pelos órgãos responsáveis pela produção cartográfica nacional. A partir de padronizações associadas aos temas, empregam-se determinadas cores. Por exemplo, o azul é empregado para representar a hidrografia, o verde para a vegetação, para as curvas de nível a cor sépia. Essas padronizações foram
definidas em 1878 pelo corpo de engenheiros do exército americano, conforme menciona Raisz (1969).
- fatores psicofísicos: o estímulo de interesse (o símbolo) e o aspecto resultante provocado por esse estímulo. Isso significa detectar o que existe e o que se percebe. Sabe-se que as propriedades de um objeto são constantes, independentemente de ser dia ou noite no momento da visão. A isso denomina-se constância perceptiva. Contudo, nossos olhos são menos susceptíveis a julgamentos concretos (absolutos) do que aos relativos. Por isso, uma cor pode parecer diferente em relação à sua vizinhança. Esse fenômeno é denominado constraste perceptivo.
Para o projeto de símbolo, devem-se considerar ainda os seguintes fatores:
- o contraste e constância no valor (brilho) significam a quantidade de luz refletida por um objeto. Sabe-se que as propriedades do objeto são invariáveis, mas, pelo julgamento relativo “realizado” pelos olhos, o valor resultante de um objeto dependerá dos valores da circunvizinhança, e o
- contraste e constância da cor (matiz ou tonalidade): do mesmo modo que no valor, o julgamento da cor será influenciado pelo constraste da cor do fundo. Por exemplo, o vermelho pode ter um aspecto mais claro quando o fundo é verde.
Sabendo-se quais são as condições e o onde será usado o mapa, o projeto de símbolo deve considerar esses fatores. Por outro lado, deve-se pensar também nos meios através dos quais o produto cartográfico será disponibilizado, tais como: o papel, o computador, a televisão ou a rede mundial de computadores – a internet.
Seja qual for o meio disponível, o projeto de símbolo deve ser cuidadoso.
Deve-se retroceder em qualquer fase para verificar a validade do projeto; mas sobretudo, quando for implatar, será indispensável que o cartógrafo saiba quais serão as condições do material para produção e reprodução e detenha conhecimento dos possíveis aplicativos, como o CAD ou SIG, que serão implementados.
O projeto de símbolo poderá ficar comprometido se o cartógrafo considerar apenas o projeto individual dos símbolos para cada feição do mapa e o tamanho mínimo requerido para serem detectados.
Um requisito relevante a ser considerado para o sucesso do projeto de símbolo é sua implantação no contexto do mapa. Os símbolos cartográficos não