A. KENT
1. Gündelik Hayat
“O conteúdo jornalístico teve de se adaptar ao uso simultâneo de várias formas, meios e linguagens”, constatou o professor Carlos Chaparro. Segundo ele, o conteúdo, hoje, deixou de ser só texto, ou só texto com foto, ou só rádio, ou só televisão. “O conteúdo jornalístico da second life se desdobra e se complementa em dimensões gloriosamente interativas de multimídias e multilinguagens”, alertou.442
A advertência de Chaparro refere-se às mudanças na linguagem no jornalismo com o advento da Internet. Trata-se de uma preocupação freqüente de vários pesquisadores: a criação do hipertexto, ou unificação de texto, som e imagem numa só plataforma.
Segundo a professora Beth Saad, três interessantes qualificações podem definir o hipertexto. Primeiro, ela apresenta essa nova forma de texto como a escrita não seqüencial. Essa estrutura não linear da apresentação de conteúdos seria o grande diferencial: a ruptura com o modelo de lead com cinco Ws e um H (what, who, why, when, where e how) da imprensa tradicional. Em seguida, ela qualifica o hipertexto como uma forma narrativa que não se concretiza até o momento em que o leitor a produza. Dessa forma, o novo texto envolve uma série de escolhas feitas a partir dos desejos e interesses do leitor. De fato, novos recursos podem ajudar o usuário a construir a sua própria leitura da realidade, muito mais do que simplesmente obter essa
441Ibid, p. 45-6.
442 “Jornalismo de multimídias e multilinguagens”, texto de Carlos Chaparro, publicado no site
www.comunique-se.com.br, em 29 de junho de 2007. O autor se referiu à second life para tratar de um ambiente virtual criado na Internet.
representação por meio do trabalho do jornalista. Neste ponto, Saad chega à terceira qualificação: o hipertexto obriga os jornalistas a saberem quem é o seu público. Eles devem compreender as expectativas do usuário.443
A noção de hipertexto destaca uma diferença entre a redação feita pelos jornais impressos e a produzida na Internet. De fato, existe uma forte visão entre os pesquisadores de que a linguagem dos jornais impressos se caracteriza por ser unidirecional. Trata-se de uma linguagem que não permite a resposta imediata dos leitores. O problema é que a Internet teria modificado esse cenário de maneira dramática. Agora, essa linguagem passou a ser também bidirecional, pois a Rede possibilita a resposta imediata do leitor. Há pesquisadores que falam até numa linguagem multidirecional ao considerar que a Rede permite aos diversos receptores a interação com os produtores de notícia e vice-versa. Para explicar essa mudança, Saad faz uma distinção entre dois cenários. Primeiro, o cenário 1.0, onde estão caracterizados os meios impressos tradicionais. Aqui, exige-se menos posicionamento por parte do emissor e do receptor. Cada um tem o seu papel. Um escreve e o outro lê. Num segundo plano, está o cenário 2.0. Neste, o conteúdo gerado pelo usuário (o receptor, de acordo com a visão tradicional) é acrescentado.444
No primeiro cenário, a emissão se dá pelas empresas tradicionais de informação. Seria, portanto, o cenário da linguagem unidirecional. No segundo, há um alto grau de envolvimento e personalização por parte dos usuários. Seria, dessa forma, o cenário multidirecional, onde todos podem emitir a informação. O usuário, antes restrito à condição de receptor, passa também a ser emissor de informação. Há uma confusão nos papéis da forma como eram vistos no cenário tradicional. Todos podem emitir e receber informação.445
Vemos, portanto, que o processo de redação de notícias estaria mudando dramaticamente. No entanto, há aqueles que desmistificam a questão. Numa série de debates promovidos pela Folha de S.Paulo, entre maio e setembro de 2002, vários profissionais de comunicação defenderam a tese de que não existe “jornalismo web”, mas apenas jornalismo. Entre eles, destacaria o jornalista Celso Pinto que argumentou que o jornalismo continua sendo jornalismo, mas tem de lidar com novas formas de divulgação de informações. Ele reconheceu que a Internet trouxe uma capacidade de 443Beth Saad, op.cit., p. 77-8.
444A análise da professora Beth Saad foi apresentada durante o XII Seminário de Comunicação Banco do
Brasil, realizado em Brasília, em 13 de novembro de 2007.
disseminação instantânea de informações, mas advertiu que, em inúmeros casos, isso é feito de forma pouco responsável.
Quando a Internet está veiculando notícias cuja origem é a Folha, o
Estado, o Le Monde, o The Wall Street Journal ou o Los Angeles
Times, jornais que você conhece, tudo bem. Você tem de quem cobrar, você sabe onde é produzido. Quando a Internet está sendo feita pelo site x, y ou z, esse grau de cobrança é muito menor.446
Verifica-se, assim, que o problema não estaria totalmente circunscrito a uma nova forma de produção de textos, à transferência da redação linear do jornalismo tradicional (de emissor para o receptor) para a redação multidirecional na Rede de Computadores (em que emissores e receptores se comunicam o tempo todo). A questão envolveria fundamentalmente a credibilidade da informação. Porém, ao ingressar na questão da credibilidade, notamos que veículos impressos ainda possuem uma organização mais propensa a melhor informar os leitores do que blogs e sites esporádicos da Rede – comumente veículos de uma pessoa só, ou de pequenos grupos de pessoas.
Pesquisa realizada com executivos do Rio de Janeiro e de São Paulo apontou que a Internet vem conquistando espaço como primeira fonte de informação, porém ainda está longe de ser o meio com maior credibilidade. Em 2005, a Rede era apontada por 22% dos executivos como a primeira fonte de informação. Em 2008, o percentual subiu para 36%. O jornal continua liderando o ranking, com 40%. A TV tinha 39% e passou para 14%. O rádio possui 11% e as revistas, 4%. Ou seja, os jornais ainda são a primeira mídia de informação, mas a Internet está crescendo bastante e a tendência é ultrapassá-los neste ponto. A situação é diferente quando se trata de credibilidade das informações. Entre os cinco meios de informação, a Internet ocupa a última posição no quesito confiabilidade. Na pesquisa, a Rede foi considerada muito confiável ou confiável por apenas 31% dos entrevistados. Em 2005, eram 46%. A TV também perdeu credibilidade, de 63% em 2005 para 37% em 2008. O jornal impresso continua sendo o meio com maior confiabilidade entre os executivos, com 63%, seguido pelas revistas, com 41% e pelo rádio, com 40%.447
Para Celso Pinto, o jornalista de meio impresso sabe que será cobrado se publicar uma inverdade, enquanto que, na Internet o que se tem é um show de 446 O conteúdo dos debates está em Um país aberto: reflexões sobre a Folha de S.Paulo e o jornalismo contemporâneo.A citação de Celso Pinto está na p. 102.
447A conclusão é da “Pesquisa Credibilidade da Mídia 2008”, realizada pela Companhia de Notícias. Os
resultados foram consultados em “Internet ganha leitores, mas perde credibilidade”, reportagem do site www.comunique-se.com.br, veiculada em 10 de outubro de 2008.
informações voando para todos os lados. Ele afirmou que a Internet possui informações primárias, repetitivas e pouco confiáveis. E que, em muitos casos, simplesmente não há de quem cobrar. Já o jornal impresso teria função mais analítica. Ele estaria mais apto para organizar esse mundo de informações online e tentar trazer uma ordem, uma hierarquia, fazer uma seleção, que é o que o leitor espera de um grande jornal, porém também deve se ater a trazer fatos e informações novas todos os dias.448
Outra diferença: as informações primárias – como resultado de jogos, cotações da Bolsa, votações no Congresso – tornaram-se mais constantes na Internet e, neste contexto, o espaço que ficaria para os meios impressos seria o de informações analíticas.
De fato, hoje, está se formando uma visão consensual de que o jornalismo impresso deve sair do hard news e voltar-se mais para a análise dos fatos. De acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos Marplan, o público brasileiro das classes A e B define o jornal como “notícia pensada”. Os entrevistados disseram que o jornal se diferencia pela análise das notícias, pelo comentário dos articulistas. Eles consideraram que o jornal é “mais profundo” que a Internet. Porém, apontaram que as “novas gerações são eletrônicas e os jornais têm de trabalhar nisso”.449
“O jornal impresso precisa procurar o tipo de conteúdo em que ele se sai melhor, em vez de insistir em competir com a Internet naquilo que ela pode oferecer com mais comodidade para o leitor”, constatou o ombudsman da Folha de S.Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva. Questionado sobre o modelo de alguns jornais ingleses por um jornal impresso mais focado e mais aprofundado, Lins da Silva respondeu que esse modelo pode levar a menos leitores do que o atual. “Esse novo jornal não deverá atender a todo o universo de possíveis leitores. Ele deve ser dirigido para uma parcela mais específica da população. Pode ter menos circulação, mas gastará menos com papel e poderá ter mais publicidade, focada para aquele público”, defendeu.450 Lins da Silva avaliou que o jornal terá que encontrar o seu lugar, assim como o rádio encontrou. O rádio já foi o centro das atenções da família no horário nobre da noite. Nos anos 1950, 80% das famílias escutavam a Rádio Nacional. Hoje, apenas 1% escutam o rádio neste horário.
448 Um país aberto: reflexões sobre a Folha de S.Paulo e o jornalismo contemporâneo, Coletânea de
autores, p. 102-3.
449 “Para leitor, jornal é ‘notícia pensada’, diz pesquisa da Ipsos Marplan”, reportagem de Carla Soares
Martin, retirada do site www.comunique-se.com.br, em 19 de agosto de 2008.
450 “Jornal precisa encontrar seu novo papel, diz ombudsman”, entrevista com Carlos Eduardo Lins da
“O jornal é cada vez mais um espaço de contextualização da notícia, de opinião”, opinou Rodolfo Fernandes, diretor de Redação de O Globo. Ele também fez diferenciações entre o jornal impresso e os sites noticiosos da Internet. Primeiro, apontou que os jornais da Internet não têm uma manchete, mas sim, 20 manchetes ao longo do dia que vão se sucedendo uma a uma. Em seguida, enfatizou que o jornal cumpre o papel de explicar a notícia, o que os sites noticiosos não estariam realizando. “Os jornais online foram pelo caminho da notícia curta, rápida, ligeira e sem profundidade.”451
Notamos, portanto, que vários autores apontam o caminho da contextualização para os textos dos jornais tradicionais. Mais análise e menos hard news. Porém, o fator tempo tornou-se uma espécie de inimigo permanente a essa tarefa.
Com a Internet, o tempo tornou-se um fator chave na compreensão das dificuldades dos jornais impressos quanto à redação. Segundo Weaver, o fator tempo define o jornalismo como “relatos atuais sobre acontecimentos atuais”. “O fator tempo condiciona todo o processo de produção das notícias porque o jornalismo é marcado por horas de fechamento”, escreveu Nelson Traquina.452O risco é a notícia mudar enquanto o jornalista está escrevendo a matéria. Como fica a capacidade de contextualização dos jornais em situações como essa? E o pior é que eles se tornam cada vez mais freqüentes dada a difusão de informações cada vez maior na sociedade atual.
Com a constante atualização das notícias pela Rede, os jornais impressos passaram a conviver com o risco constante de serem “traídos” em suas manchetes. Na manhã de 12 de agosto, a Folha de S.Paulo trouxe como manchete o aumento dos ataques do exército russo à Geórgia: “Rússia recusa trégua e amplia ataque à Geórgia”. Porém, exatamente às 6h18 do mesmo dia a Folha Online trazia uma informação que tornava completamente obsoleta a manchete do jornal impresso: “Presidente russo anuncia fim de ação militar, mas Rússia bombardeia Geórgia”. De fato, o presidente Dmitri Medvedev determinou o fim das operações militares na Geórgia. A ordem se deu entre a produção da manchete na versão impressa e a entrega do jornal na casa dos leitores. Assim, enquanto o jornal impresso anunciava a intensificação da guerra, a sua versão online dizia que apesar dos bombardeios naquele dia, a Rússia determinava o fim da ação militar. O curioso é que os dois jornais – o
451Lourival Sant´Anna, O destino do jornal, p. 231-2.
452 Nelson Traquina, Teorias do jornalismo – A tribo jornalística: uma comunidade interpretativa transnacional, p. 37.
impresso e o eletrônico – são da mesma empresa. Eles deram notícias completamente diferentes e nenhum errou na apuração. O que aconteceu é que a versão impressa foi traída pelo fator tempo e a versão online pôde atualizar a notícia.
A Rede afetou o jornalismo em pelo menos duas formas pelo fator tempo. Primeiro, a Internet reforça o imediatismo na produção de notícias. A competição passou a se dar por segundos, logo, os repórteres, editores e “fechadores” têm que correr literalmente contra o tempo para dar a notícia. Segundo, a Internet supera o imediatismo, pois a atualização se dá 24 horas ao dia e, portanto, pode ser feita a qualquer tempo. Assim, o imediato é constantemente buscado, reforçado e, logo, superado. As notícias são um “bem altamente perecível”, valorizando assim a velocidade.453 Isso reforça a trágica noção de notícia como commodity (um bem que pode ser produzido em larga escala e de fácil substituição). E traz para o jornalismo um desafio de difícil solução.
Se a informação sempre foi o principal produto das empresas jornalísticas, hoje, esse produto tem que ser reembalado constantemente. Essa aceleração no processo de substituição do produto exige uma nova logística das empresas jornalísticas. Aqui, há dois caminhos. Primeiro o de produzir informação em quantidades cada vez maiores de modo a substituir a notícia perecível que, pouco tempo atrás, já perdeu o seu valor. Esse seria o caminho de inundar o leitor com novas notícias constantemente: o ganho pela quantidade. Já o outro caminho seria o do ganho pela qualidade: focar a empresa jornalística para a produção de notícias realmente relevantes, que influenciem a vida das pessoas de modo a tornar o jornal menos perecível. Neste segundo caminho, a notícia não é apenas mais um produto em contínuo processo de substituição. Ela se torna um nexo entre os leitores e o veículo, entre os leitores e a sociedade. O jornal retoma o seu papel de canal de contato entre as pessoas e o mundo. A notícia ganha novo valor.