A. KENT
3. Batman’da Nüfus ve Demografik Yapı
“A imagem do repórter com bloquinho e caneta na mão está ficando para trás”, constatou o jornal O Globo. Em reportagem sobre o seu novo projeto editorial, O Globo relatou que os seus jornalistas estão indo para a rua com câmeras, celulares e gravadores para registrar em áudio, vídeo e fotos o que está acontecendo. O resultado é publicado no jornal impresso, no site do jornal e enviado para telefones celulares.
Numa reportagem sobre a relação entre empresas de lixo e os políticos do Rio, o fotógrafo Michel Filho fez imagens do lixão e o repórter Chico Otávio fez o texto e a narração, produzindo um vídeo. “Adorei fazer isso”, disse Otávio, ressaltando o caráter inovador da tarefa. Antes o repórter de jornal impresso voltava com a apuração destinada a produzir um texto. “Hoje em dia, pensar em jornalismo é pensar em diferentes plataformas. O vídeo complementa o texto e o áudio e vice-versa”, definiu Otávio.419
Uma das soluções apontadas para evitar que os meios impressos brasileiros sintam as mesmas dificuldades dos americanos é a integração entre as redações impressas e online. A revista Exame, por exemplo, fez essa união e, em pouco mais de um ano, a audiência em seu site quadruplicou, chegando a quatro milhões de páginas vistas por mês. A integração também permitiu o aumento na quantidade de “furos” dados pela Redação, pois os repórteres não precisavam mais esperar duas semanas para publicá-los (a revista é quinzenal).420
Calmon Alves avaliou que, nos Estados Unidos, a integração com o modelo online foi vista como um verdadeiro tabu entre os jornalistas, mas hoje tem avançado 419Ver “Jornalistas multimídia”, artigo publicado na seção “Por dentro do Globo”, em 24 de setembro de
2008, p. 2.
420 “O agito dos veículos na web”, coluna de Eduardo Ribeiro veiculada no site www.comunique-
muito nos principais jornais americanos. Assim como O Globo, o Washington Post e o Miami Herald anunciaram a integração entre as redação impressas e online, em 2008. Os jornais estão procurando integrar as suas plataformas com as notícias em tempo real, vídeos, áudio e área impressa. “O jornal hoje é um híbrido, um mix inseparável de papel e Internet”, definiu o professor da Universidade do Texas.421
Outro movimento dos jornais é a criação de mecanismos para que os leitores possam participar de maneira mais ativa do processo de produção de notícias. Esse fenômeno pelo qual cidadãos colaboram com a produção de informações está sendo chamado de “jornalismo colaborativo”. Ele se dá tanto pelos indivíduos independentes que criam blogs e passam a noticiar os fatos da forma que lhes provê quanto pelo fato de algumas empresas tradicionais de informação convocarem os leitores para participarem do processo de formação da notícia. A reportagem seria uma espécie de produção coletiva, mas sob a gerência dessas empresas, que usam os leitores como colaboradores. Esse é o caso de projetos “Eu Repórter”, onde os jornais abrem espaço para os leitores divulgarem informações em seus sites e de veículos independentes criados especialmente com o objetivo de divulgar “reportagens” feitas por cidadãos comuns.
O site coreano OhMyNews é o precursor deste fenômeno. Foi criado em 2000, com o lema “cada cidadão é um repórter”. É visitado por 700 mil coreanos diariamente, mas não chega a bater a imprensa tradicional como o maior jornal local, The Chosun Ilbo, que possui 2,3 milhões de leitores. De qualquer modo, se tornou um dos principais sites do país. O diretor de Comunicação do site, Jean K. Min, avalia que o seu modelo de notícias permite que “a voz de todas as pessoas possa ser ouvida”. “Aqui publicamos as informações que as pessoas comuns nos passam”, diz.422 As reportagens escolhidas pelos editores do site são remuneradas a autores internacionais, desde 2004. Na época, o site pagava entre R$ 3,40 (2 mil wons) e R$ 34,00 (20 mil wons) para as pessoas cujas reportagens eram selecionadas. A diferença nos valores depende do destaque dado à reportagem no site. Em outubro de 2007, o valor baixou para R$ 17,00 (10 mil wons) e, em janeiro de 2009, a direção do OhMyNews anunciou que passaria a remunerar apenas
421 “Nos EUA, avança a integração com modelo online”, reportagem de Raquel Balarin, publicada no Valor Econômico, em 19 de agosto de 2008.
422 “Visita ao berço do jornalismo colaborativo”, reportagem de Jocelyn Auricchio e Rodrigo Martins,
cinco matérias por mês, com valores que variam entre R$ 171,00 e R$ 512,00 (100 mil e 300 mil wons).423
No Brasil, o Estadão possui um projeto semelhante, o FotoRepórter, pelo qual qualquer internauta pode enviar fotos com interesse jornalístico para a Redação e receber em quantia equivalente aos fotógrafos contratados pelo jornal, caso a imagem seja escolhida para publicação. O Globo também aceita contribuições de fotos, textos e até de perguntas dos internautas feitas para pessoas que serão entrevistas pelo jornal. Os portais Terra e iG também admitem este tipo de participação dos leitores, assim como jornais estrangeiros, caso do The Guardian e do El País, e redes de TV, como a CNN e a BBC.424
Para a pesquisadora Isabelle Anchieta de Melo, os jornalistas tradicionais saem ganhando com essa relação de colaboração dos leitores. “Hoje, frente ao ‘tsunami’ de informações, temos cada vez mais necessidade de ‘selecionadores’ ou ‘buscadores’ de informação (o que explica em parte o sucesso do Google).” Segundo Isabelle, os jornalistas funcionariam como “googles”, selecionando e hierarquizando do conjunto de informações existentes aquelas que merecem destaque. Os leitores constituiriam uma massa de “informantes” e “colaboradores”. Os jornalistas continuariam como os “profissionais da informação”. “São profissionais munidos de técnicas e capazes de identificar o valor das notícias (ou os valores-notícia). Mais do que o fim do jornalismo vamos assistir a sua consolidação e valorização na organização e seleção de acontecimentos publicamente relevantes”, prevê.425
Para Calmon Alves, o advento da produção de notícias, com imagem e texto, por pessoas comuns não representa ameaça aos jornalistas profissionais. Segundo ele, “o jornalismo profissional, ético e independente” ainda tem o papel de dar sentido às informações. “O fato de ter muita gente amadora fazendo jornalismo torna mais relevante esse papel analítico”.426
O professor de Comunicação e Cibercultura da Universidade Federal da Bahia André Lemos avaliou que, hoje, há mais “escolha informacional”. “Portais, blogs e qualquer pessoa pode produzir informação e eles não competem necessariamente entre si”, disse Lemos, durante o 1º Seminário Internacional sobre Jornalismo (Media On),
423 “Site colaborativo OhmyNews muda sistema de pagamento”, reportagem veiculada no site
www.comunique-se.com.br, em 12 de janeiro de 2009.
424Ibid.
425“O jornalismo colaborativo não ameaça a profissão do jornalista”, artigo de Isabelle Anchieta de Melo,
veiculado no site www.comunique-se.com.br em 4 de outubro de 2007.
em São Paulo. “Coexistem oferecendo ao público maior possibilidade de escolha informacional, o que traz uma nova dimensão política, social e cultural gigantesca”, completou Lemos.427
Jornalistas da imprensa tradicional enfatizam que, em meio a muitos produtores de informações, os repórteres mantêm a sua a importância na produção da notícia. “Não há substituto para um verdadeiro repórter”, afirmou Carl Bernstein, o jornalista que ficou famoso após a cobertura do escândalo de Watergate, no início dos anos 1970. Para ele, a boa reportagem é a obtenção da melhor versão possível da verdade. “Isso requer bom senso, persistência, argumentação, fontes documentais, fontes humanas.” Bernstein defendeu que a tecnologia deve ser utilizada a serviço da obtenção da melhor versão da verdade. Mas ela não contém a promessa intrínseca de que levará as pessoas a ser informarem melhor. “A tecnologia não substitui o julgamento que as pessoas têm de fazer sobre os assuntos.” Ou seja, as inovações no campo tecnológico, através da Internet, não retiram o poder de analisar as informações que é intrínseco aos jornalistas como “profissionais da notícia”.428
A velocidade da apuração é outro fator bastante estudado com o advento da Internet sobre a produção de notícias. Moretzsohn está entre os pesquisadores que advertem que, com o ritmo veloz, aumenta a probabilidade de erro, pois: divulga-se sem ter certeza, não se reflete com cuidado sobre o que está sendo publicado e há ainda a redução de ângulos diferenciados sobre o mesmo fato.429 É claro que esses males já
existiam antes, pois, como o jornalismo trabalha sempre no tempo das notícias (entre o acontecimento dos fatos e a sua publicação), são muito comuns os erros ou imprecisões causadas pela pressa também em outros meios, como o rádio, a televisão e o impresso. O alerta de estudiosos, como Moretzsohn, é que, agora, esse risco deve ser reforçado pela competição com a Internet e pela própria rapidez na produção de notícias neste meio específico (sites noticiosos e blogs).
Além disso, tanto os sites noticiosos quanto os blogs de comentaristas trouxeram fontes complementares, alternativas e críticas diante da mídia tradicional. Segundo José Luis Orihuela, isso criou certa tensão entre as versões eletrônicas das mídias
427“Mídia e público não concorrem”, reportagem de Filipe Serrano, publicada em O Estado de S.Paulo,
no Caderno Link, em 18 de junho de 2007, p. L8.
428 “Não há substituto para um verdadeiro repórter, diz Carl Bernstein”, entrevista publicada pelo site
www.comunique-se.com.br em 27 de setembro de 2007.
tradicionais e os blogs.430 Todos disputam a primazia na divulgação e na análise das
informações. Neste processo, o risco de surgir erros é maior dado o objetivo de sair na frente com a informação, seja revelando-a ou trazendo a melhor análise antes dos outros. Por outro lado, a checagem também aumenta em intensidade, já que muitas pessoas tanto nos meios tradicionais quanto nos eletrônicos passam a trabalhar frente aos mesmos fatos. Os meios passam a corrigir os meios. A atenção deve ser redobrada para todos. “Esse é considerado o pior pesadelo dos jornalistas. A antiga atividade de vigilante, comum ao jornalismo, volta-se contra o próprio jornalismo”, escreveu Juan Varela.431
Vimos que a Internet teria retirado de certa forma o monopólio do jornalista em produzir a notícia. Nos Estados Unidos, é bastante forte o movimento de “jornalismo hiperlocal” (ou “hyperlocal citizen´s media”), pelo qual cidadãos comuns passam a realizar a apuração com relação a fatos que são encontrados nas páginas dos jornais. Esse tipo de apuração se dá com relação a assuntos que não são comumente tratados pelos veículos de mídia tradicional, como a escola do bairro, o time de várzea, o mercado local, a padaria da esquina. “Os meios cidadãos hiperlocais pretendem converter os próprios vizinhos em produtores da informação mais próxima da vida e dos interesses cotidianos da comunidade”, definiu Varela.432 O objetivo do movimento hiperlocal não seria o de competir com os meios tradicionais, mas apenas o de preencher o vazio na cobertura de bairros e regiões onde a oferta de informação não corresponderia à demanda. A ideia deste movimento é a de levar os acontecimentos dos bairros para endereços específicos da Rede onde a comunidade envolvida pode informar-se.433 No entanto, é claro que essa forma de jornalismo acaba por retirar de alguma forma a atenção dos meios tradicionais. O cidadão continuará buscando as notícias sobre o seu país no rádio, na TV e nos meios impressos, mas terá também o seu jornal eletrônico de bairro, onde não é apenas um leitor passivo, já que pode participar da produção das informações. Certamente, esses endereços hiperlocais vão atrair a atenção de leitores e anunciantes, antes restritos aos meios tradicionais de comunicação.
De fato, a Rede permite que qualquer pessoa, isoladamente, produza uma notícia. Nos meios impressos, a informação é tratada por profissionais. Nos sites, 430 A análise de Orihuela está no artigo “Blogs e blogosfera: o meio e a comunidade”, in Blogs: revolucionando os meios de comunicação, Coletânea de autores.
431“Jornalismo participativo: o jornalismo 3.0”, artigo de Juan Varela in Blogs: revolucionando os meios de comunicação, Coletânea de autores, p. 86.
432Ibid. A citação está na página 46.
qualquer pessoa pode escrever uma notícia, ou algo que se pareça com informação jornalística.
Em outubro de 2007, um incêndio devastou mais de mil quilômetros quadrados na Califórnia. Mais de cinqüenta mil casas foram destruídas e houve a remoção de mais de um milhão de pessoas de seus bairros. Para o jornalismo, o incêndio na Califórnia trouxe uma inovação. Ele teve ampla cobertura por microblogs. Notícias sobre o incêndio foram postadas continuamente por pessoas que vivem perto das regiões atingidas pelo telefone celular. Nos microblogs, os textos são mais curtos do que os blogs. São, portanto, mais imediatos, com fotos instantâneas, o que lhes dá um forte caráter de alerta. O uso dessa tecnologia foi tão forte que até o Los Angeles Times passou a dar destaque para as páginas do Twitter (sistema que reúne mensagens provenientes de celulares) com as notícias sobre as queimadas.434
A primeira vez que o formato blog foi utilizado para fazer a cobertura de uma grande notícia foi através de um meio impresso: o jornal The Charlotte Observer´s desenvolveu um formato específico na Rede para que os seus leitores pudessem trocar informações após os estragos causados na cidade pelo furacão Bonnie, em 1998.435 A cobertura do incêndio na Califórnia trouxe novamente a discussão sobre a possibilidade de, na Internet, todos, ou qualquer um, produzir a notícia. Em junho de 2007, representantes da CNN, da BBC e do New York Times advertiram, durante o Media On, para a necessidade de criação de ferramentas que permitissem os leitores serem agentes de informação. São: o envio de vídeos amadores, de comentários, a criação de espaços para debates e até de acessos para os leitores complementarem informações dos jornais. “Temos de estar onde quer que o usuário vá buscar as notícias, no formato que ele quiser e criar canais para ele reagir como bem entender”, disse Kurt Muller, editor da CNN. No Brasil, portais como Terra, Uol e iG também criaram comunidades virtuais para os usuários enviarem vídeos, denúncias, sugestões de reportagens e mesmo os seus próprios relatos. Ficou claro no seminário que a criação dessas ferramentas foi uma maneira de responder a sites como You Tube, Orkut, além de blogs, fotologs,
434 “Incêndio na Califórnia transforma microblog em fonte de notícia”, reportagem veiculada no site
www.g1.com.br em 24 de outubro de 2007, acesso às 10h03.
435 Retirado do artigo “Jornalismo participativo: o jornalismo 3.0”, de Juan Varela in Blogs: revolucionando os meios de comunicação, Vários Autores, p. 60.
microblogs, podcasts e videocasts. As empresas tradicionais de informação querem atrair o tráfego para os seus sites.436
De fato, poderíamos, numa visão simplificada, dividir a atuação do blogs e a dos jornais impressos. Os primeiros ficariam com comunidades específicas e os segundos com o público em geral. No entanto, essa não pode ser vista como uma divisão estanque. Os jornais também falam para comunidades específicas. Apesar de não terem páginas e equipes suficientes para dar notícias sobre todos os bairros da cidade todos os dias, eles também mostram o assalto na padaria da esquina, a elevação dos preços numa escola infantil, o resultado do jogo do time de várzea. Da mesma forma, os blogs não podem ser vistos apenas como meios hiperlocais. Pelo contrário. Muitos blogs comentam as grandes notícias nacionais e possuem grande audiência neste serviço.
Assim, essa divisão estanque de que jornais fazem a transmissão de informações de um para muitos e que os blogs fazem essa mesma comunicação de um para um, ou de um para poucos, não é de todo verdadeira. Ela não é capaz de revelar com exatidão os desafios enfrentados pelos meios de comunicação hoje. Esse tipo de divisão serve apenas para explicar aspectos básicos que estão longe de propiciar uma compreensão do quadro complexo envolvendo os meios de comunicação hoje.
Ainda quanto à apuração, vários autores enfatizam que esse processo é realizado quase que imediatamente à veiculação da notícia no jornalismo praticado na Internet, enquanto que, nos jornais impressos, é um processo sucedâneo, pois primeiro ocorre a apuração e apenas no dia seguinte se dá a veiculação. Esse poder de dar a notícia quase que simultaneamente ao fato chegou a permitir a primazia da Internet em várias coberturas importantes. Há relatos famosos desse fenômeno nos Estados Unidos. Em 2003, a cúpula editorial do New York Times caiu após a divulgação de reportagens fraudadas pelo então repórter Jayson Blair. A primeira denúncia contra Blair foi publicada no San Antonio Express, em 29 de abril daquele ano. Mas os blogs tiveram papel ativo na apuração do escândalo.
No livro Hard Times, Seth Mnookin mostra como o escândalo Jayson Blair contou com a apuração constante de blogueiros e sites especializados para, depois, chegar à grande imprensa. Enquanto diretores do Times discutiam a melhor forma para superar o escândalo, blogueiros passaram a trazer novidades sobre as reportagens
436 O relato das conclusões do seminário Media On está em “Jornalismo participativo em pauta”,
reportagem de Filipe Serrano, publicada em O Estado de S.Paulo, no Caderno Link, em 18 de junho de 2007, p. L9.
inventadas por Blair e as falhas na direção do jornal para conter esse tipo de prática. Um blog – o TimesWatch.org (algo como “de olho no Times”) – dedicou-se exclusivamente a mapear os excessos do jornal, indo além do caso Blair. O Poynter Online também alimentou críticas contra o jornal, assim como o portal online da Newsweek, revista do grupo que edita o Washington Post, concorrente do Times. Ao veicular informações constantes sobre o assunto, os blogs acabaram acelerando as mudanças na cúpula editorial do Times, que culminaram com a saída de seu principal diretor, Howard Raines. Ao fim, o próprio Times foi forçado a publicar uma longa reportagem com todos os erros cometidos por seu funcionário e pediu desculpas públicas aos seus leitores.437
Philip Meyer advertiu que os jornais correm o risco de perder a sua influência perante os leitores se não tiverem cuidado com os empreendedores das novas mídias, mais ousados e com mais visão. Ele citou o caso do site PoynterOnline, um site que teve início em 2000, com notícias e fofocas sobre jornalistas e imprensa em geral e, durante a cobertura do escândalo de Jayson Blair, registrou 250 mil pageviews (páginas vistas) por dia e bateu em audiência a American Journalism Review e a Columbia Journalism Review, duas das mais prestigiosas revistas de debates sobre jornalismo no mundo.438
Em 2004, foram os blogs que revelaram que o então candidato democrata à Presidência, John Kerry, não tinha participado de campanhas heróicas na Guerra do Vietnã. A informação partiu de veteranos da guerra que usaram endereços eletrônicos, como o Swift Boat Veterans for Truth (www.SwiftVets.com, ou “grupo de veteranos pela verdade”), para contestar e versão de que Kerry tinha trocado tiros com vietnamitas e participado intensamente de combates. Num primeiro momento, os jornais impressos não aderiram às queixas dos veteranos, chegando inclusive a criticá-los. Mas, como as acusações contra Kerry não cessaram, os blogs acabaram funcionando como uma legião de ombudsmen contra a mídia tradicional e, ao fim, não somente ganharam espaço em jornais, revistas e redes de televisão. Os ataques dos veteranos levaram à queda de Kerry nas pesquisas e contribuíram de forma decisiva à perda de sua credibilidade e à conseqüente derrota nas eleições daquele ano. “Hoje, nós temos uma experiência em jornalismo que antes era privilégio daqueles que detinham algum conhecimento 437 O episódio da queda da cúpula editorial do New York Times pode ser lido em Hard Times, de Seth
Mnookin, e em Blog: entenda a revolução que vai mudar o seu mundo, de Hugh Hewitt, p. 46-57.
438
especializado dos detalhes da matéria”, escreveu o blogueiro Presto Pundit, ao analisar o episódio. “A tecnologia do blog torna qualquer um com conhecimento especializado um verdadeiro investigador”, completou.439
Outro caso curioso em que os blogs acabaram mobilizando a mídia tradicional foi a cobertura que levou à perda do cargo de líder republicano no Senado por Trent Lott. Em dezembro de 2002, Lott foi à festa de cem anos de um político tradicional de seu partido, James Thurmond. Convocado a discursar, o líder republicano disse que se Thurmond tivesse sido eleito presidente em 1948 os Estados Unidos não estariam vivendo os problemas atuais (na época, a iminência de um ataque ao Iraque). Houve certo constrangimento com o comentário porque a campanha de Thurmond, em 1948,