1. BÖLÜM
2.1. Bir Müdahale Aracı Olarak Gümrük Tarifeleri
2.1.5. Gümrük Vergilerinin Etkileri
2.1.5.2. Gümrük Vergilerinin Genel Denge (Geniş Kapsamlı)
Os procedimentos utilizados nessa pesquisa incluíram diversas fontes de informação, como documentos, sites, observações, conversas, entrevistas, reuniões e participação em eventos.
Tomando por base a noção de “campo-tema” de Peter Spink (2003), entendemos pesquisa como um processo construído à medida que se faz o pesquisar. Esse processo não é rígido, estático, plano ou linear. Não possui um único ponto de partida e outro de chegada, nem parte da definição prévia e precisa de objetivos e controle dos métodos de investigação e análise – pressupostos que tradicionalmente embasam trabalhos que têm por base metodologias mais tradicionais. Ao contrário, a pesquisa tende a se dar a partir da identificação de um ponto de partida, por meio do qual “iria se caminhando sem saber direito como e onde” (SPINK, P., 2003, p. 20).
Nessa proposta os caminhos da pesquisa não são únicos, mas múltiplos, assim como os seus horizontes. Usando a analogia de Cordeiro (2004), vamos tateando com um
4 Tânia R. G. Botelho Pupo era a gerente de projetos a quem eu me reportava diretamente quando trabalhei no IDIS, entre os anos de 2005 e 2007.
5 Pré-Conferência Municipal de Saúde de Jundiaí, realizada em 02/06/11, e IX Conferência Municipal de Saúde de Jundiaí, em 02/07/11.
mapa em mãos que rascunham de onde partimos e aonde temos de chegar, embora, ao longo do trajeto, acrescentemos atalhos, encontremos trilhas desconhecidas a serem desbravadas, mudando continuamente o percurso.
Isso não quer dizer que em alguns momentos não seja necessário delimitar o caminho que temos de fazer para chegar a um determinado lugar. Planejamos, sim, o nosso roteiro de viagem, mas precisamos estar dispostos a mudá-lo e, não raro, encontramos lugares e paisagens que nunca imaginamos. Podemos dizer que pesquisa é um processo contínuo de abertura e fechamento. Para não ficarmos muito limitados e presos, precisamos abrir os horizontes (o tema, os objetivos, as hipóteses). Contudo, também é necessário fechá-los para não nos perdermos no caminho. É essa processualidade que dá movimento à pesquisa (CORDEIRO, 2004).
O termo “campo” não se refere a um lugar específico, cindido, distante e que possui uma realidade independente, no máximo ligada ao que está no seu entorno. O campo está no Ambulatório de Saúde da Mulher de Jundiaí, mas está também nos encontros cotidianos, nas conversas que temos na lanchonete enquanto tomamos um cafezinho, no papo com a atendente do restaurante onde almoçamos, com a pessoa que sentou ao nosso lado no ônibus na viagem até Jundiaí e contou sobre sua mãe idosa e doente. Está nos encontros dos pesquisadores do Núcleo, na notícia que acabamos de ouvir no rádio pela manhã. É na vida das pessoas que o tema emerge, ora de maneira central, ora de maneira periférica, mas nunca em vão. Nós também fazemos parte do campo. Assim como as materialidades que o constituem e que são parte das nossas conversas: o gravador, a caneta, o caderno do diário de campo, o Termo de Consentimento Informado e Esclarecido em pesquisa, o folder afixado na parede, a notícia que vimos no jornal local e foi pauta do diálogo com a funcionária que faz a limpeza do ambulatório.
Além da participação em eventos, como as conferências de saúde, foram feitas diversas visitas semanais ao AMS Jundiaí, configurando-se assim como uma pesquisa no cotidiano. A observação no cotidiano e não observar o cotidiano é o fio condutor dessa metodologia de observação, de caráter psicossocial, um movimento de reação à hegemonia da psicologia social norte-americana, que buscava separar e distanciar o pesquisador do objeto de pesquisa, nos anos 1970 e 1980.
O resgate da observação no cotidiano encontrou subsídios na antropologia, a partir de pesquisas de tipo etnográfico, e vai ao encontro da perspectiva construcionista sobre a construção do conhecimento. Nessa abordagem não há separação entre o sujeito e o objeto da pesquisa nem a ilusão de que é possível um pesquisador ser neutro. Quem observa no
cotidiano é partícipe das ações nos espaços mais ou menos públicos, faz parte da comunidade, se coloca e é colocado pelos demais no fluxo, o que permite a todos uma compreensão compartilhada da interação social (SPINK, 2007). Nas palavras da autora:
(...) consideramos que, ao pesquisar no cotidiano, nos posicionamos como membros da comunidade – e, como tal, capazes de interpretar as ações que se desenrolam nos espaços e lugares em que se dará a pesquisa – porque somos parte desta comunidade e compartilhamos normas e expectativas que nos permitem pressupor uma compreensão compartilhada (SPINK, 2007, p. 13).
Em dezembro de 2011 obtive a aprovação do projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Em fevereiro de 2012 iniciei as visitas ao Ambulatório de Saúde da Mulher de Jundiaí. Essas visitas eram semanais e duraram seis meses, sendo realizadas todas as sextas-feiras, das 9 às 15h30. Durante dois meses elas ocorreram também às segundas-feiras.
Foi um período muito rico e intenso, em que procurei compreender as diversas materialidades e socialidades presentes no serviço. Também foi um aprendizado contínuo sobre o meu lugar de pesquisadora, de como eu era posicionada e me posicionava, do estabelecimento de vínculos com as pessoas que fazem parte do cotidiano do ASM, de conquistas e também de frustrações – processo fundamental para a formação do pesquisador na construção da pesquisa.
O trajeto de ônibus entre São Paulo e Jundiaí durava entre 40 minutos e 1 hora, no máximo. O silêncio, a ausência de poluição, o verde da paisagem e o azul do céu, mais vivos, traziam paz e possibilidade de contemplação, fazendo fluir os pensamentos. Nesse percurso, aproveitava para ler um livro ou um artigo, rascunhar ideias. Eram momentos inspiradores que proporcionavam a reflexão sobre a pesquisa, a escrita; quando eu organizava as informações.
Sair de uma cidade cinzenta e chegar a um lugar arborizado, com outra tonalidade de azul no céu, com pessoas que pareciam viver e se relacionar de outra maneira com o tempo e o espaço, funcionava como um bálsamo. Eram marcantes a simpatia do motorista de táxi; a gentileza de um passageiro que ajudou um cadeirante a subir no ônibus (com apoio dos outros passageiros e do cobrador); as pessoas de sorriso fácil e conversadeiras. As pessoas gostam e procuram conversar em Jundiaí. Isso era ótimo e facilitava minha circulação nos diferentes espaços da cidade. Em São Paulo ficamos emudecidos a maior parte do tempo e, mesmo sendo paulistana e acostumada a isso, em pouco tempo me vi conversadeira também, assim como o povo da cidade. Jundiaí tornou-se um lugar familiar,
de onde eu voltava toda semana trazendo uma sensação parecida com aquela de voltar da terra da gente.
Meu primeiro contato no ASM foi com a diretora médica do serviço, para quem apresentei a minha pesquisa, defini o dia e o horário em que frequentaria o serviço e obtive informações sobre o histórico e funcionamento da organização: o fluxo de atendimento, a população atendida e os principais desafios enfrentados pelo serviço na rede de assistência à saúde do município, entre outros aspectos. Também tive acesso a documentos do ASM sobre o perfil populacional, a cobertura de exames, o funcionamento da referência e contrarreferência locais. Ao final da reunião, a diretora me apresentou à coordenadora do ASM e enfermeira-chefe do serviço de mastologia.
Em uma segunda etapa, conversei com a coordenadora para apresentar mais detalhadamente a pesquisa, bem como verificar o perfil da população atendida e compreender como ela estava inserida nas redes municipal e estadual de saúde.
No início, quando comecei as visitas, percebia alguns olhares curiosos e outros desconfiados. Na correria da organização, com tantas pessoas que entram e saem do serviço, estava ali a minha presença inusitada. Mesmo após ter sido apresentada pela coordenadora aos profissionais de saúde, senti por um bom tempo o estranhamento que minha presença causava. Isso gerava em mim certo desconforto; um receio de que não fosse conseguir “quebrar o gelo”.
Fui buscando criar minimamente uma rotina de trabalho, dividindo as conversas com as mulheres no período da manhã e com os profissionais à tarde, embora esperasse sempre o melhor momento para abordá-los (nos intervalos dos atendimentos e pausas para o café, por exemplo). O vai e vem frenético dos funcionários da área da saúde, onde há inúmeras intercorrências, inibe a abordagem. Há um descompasso entre o tempo dos entrevistados e o da pesquisadora, que ainda está se ambientando à rotina do lugar.
Essa relação do pesquisador com o lugar e as pessoas vai sendo construída no decorrer desse processo. Sato e Souza afirmam que:
Ela é criada a partir das possibilidades dentro da rotina, da divisão dos tempos e dos espaços do local, dando-se no seu interstício e, portando, induzida pelo relacionamento com as pessoas, pelo funcionamento, pelas regras e rotinas do local, pela nossa curiosidade e objetivos. Nela também ficamos sabendo quando é possível conversar, em quais locais nos postarmos, quando devemos nos distanciar para não atrapalhar o andamento das atividades e, também, não provocarmos situações de risco (SATO; SOUZA, 2001, p. 38).
De forma paulatina e nas horas oportunas, no cafezinho, na pausa após o almoço, no corredor, eu puxava conversa e aproveitava as brechas para falar sobre mim e conhecer as pessoas com quem eu conversava. Assim, comecei cada vez mais a fazer parte da rotina da instituição. Na parte da manhã, passava horas conversando com as mulheres que aguardavam a consulta, na sala de espera e também na área externa, onde estavam dispostos alguns bancos. No primeiro mês, almoçava sozinha nos restaurantes e lanchonetes próximos ao ASM. Depois, a convite de algumas profissionais, passei a frequentar o restaurante do hospital onde a unidade está localizada. Nesse momento, conversávamos tanto amenidades quanto sobre questões do ambulatório.
Para isso, foi necessário a coordenadora providenciar para mim o vale-almoço, vendido exclusivamente para os funcionários e estudantes que possuem vínculo com o hospital. Adentrar em um espaço reservado à comunidade do ASM gerou certa desconfiança em algumas pessoas com quem compartilhava a mesa no refeitório, que dirigiam a mim poucas palavras. Mas também experimentei muita receptividade por parte de outras, principalmente das assistentes sociais, que aproveitavam esses encontros para falar dos filhos, dos passeios turísticos disponíveis na cidade e também das atividades que exerciam, dos principais gargalos na rede de atendimento, da sensação de impotência em algumas situações de trabalho. Falavam com entusiasmo das mudanças que queriam propor e das possibilidades do serviço social.
Depois de circular nos espaços comuns, passei cerca de quatro meses usando parte do tempo para fazer observação na sala da pós-consulta, local onde duas atendentes marcam exames de acordo com a guia emitida pelo médico durante a consulta, realizada minutos antes. Ali, sob a perspectiva de quem recebe o usuário, pude observar desde o tempo decorrido entre um exame e outro até situações mais difíceis, como a de uma mulher que chegou devastada porque o seu feto morrera semanas antes da data prevista para o parto.
Nesse espaço também pude verificar os efeitos das materialidades que pontuam a relação entre os profissionais e os usuários e entre esses e o serviço. Um senhor chegou para agendar uma mamografia e um ultrassom. Fiquei surpresa porque nunca imaginei encontrar ali um homem, uma vez que na literatura consultada soube que casos de câncer de mama em homens são extremamente raros. A simples suspeita me causou surpresa. Ao inserir os dados do paciente a atendente constatou que o sistema do ASM não permite cadastrar pessoas do sexo masculino. Constrangida, brincou dizendo que o “sistema é burro”, já que homens também possuem mama. Com um misto de irritação e vergonha, o
usuário disse que o computador não aceitou porque “preferia mulheres”. Naquele momento, o computador e o sistema ganharam a conotação de “burros” e “mulherengos”.
Tomando como exemplo os princípios da TAR, que propõe a dissolução da barreira entre natureza e sociedade, sujeito e objeto, natural e tecnológico, macro e micro, humanos e não humanos, esse episódio ilustra a noção de que os agentes humanos e não humanos ocupam uma posição fluida e variável na rede:
A semiótica propõe a simetria entre os agentes humanos e não humanos. Consideram-se agentes qualquer entidade que gere um efeito na rede ou tenha algum valor de significação. Esses agentes continuamente aparecem, desaparecem, movem-se, mudam de lugar uns com outros, estabelecendo entre si um jogo novo de relações (TIRADO; DOMÈNECH, 2005, p. 11; tradução nossa).
Esse caso permite também entrever que os serviços não estão preparados para acolher demandas que fogem ao usual. Ainda que a incidência de câncer de mama masculino seja baixa, ela existe. Isso reflete ainda como nas ações de saúde, fortemente voltadas para as mulheres, há uma lacuna muito grande a ser superada nas questões de saúde do homem. O fato de um homem ter sido encaminhado para o Ambulatório de Saúde da Mulher nos desperta para outra questão importante: a inexistência de um centro de referência para o público masculino, a despeito de ser essa uma das metas do Pacto pela Saúde 6.
Muitas vezes minha presença também despertou desconfiança e curiosidade. Como o espaço da pós-consulta era reduzido, procurava ficar em um canto para não atrapalhar o movimento das atendentes que precisavam pegar medicamentos, pastas, atender ao telefone etc. Sem saber quem eu era e o que fazia na naquela área restrita aos funcionários, um médico do serviço perguntou de maneira descontraída: “Quem é o dois de paus?” (expressão para se referir a alguém que está parado, aparentemente sem função). Achei graça, e todos rimos.
Após esse episódio, refleti sobre o meu papel e sobre o lugar da pesquisa no cotidiano da organização. Nessa relação em que constantemente situamos e somos situados como pesquisadores, as pessoas também têm suas próprias ideias sobre o que é pesquisa e o que faz um pesquisador (SATO; SOUZA, 2001). O que faz uma pessoa que porta um
6 O Pacto pela Saúde é um conjunto de reformas institucionais pactuado entre as três esferas de gestão (União, estados e municípios) do SUS e tem como objetivo promover inovações nos processos de gestão. Sua implementação se dá por meio da adesão de municípios, estados e União ao Termo de Compromisso de Gestão, renovado anualmente.
caderno e uma caneta, que faz perguntas que ninguém faz no dia a dia, que escuta e olha o entra e sai, enquanto todos estão ocupados em suas tarefas de rotina? Esses posicionamentos se alternavam. Em outra situação, uma farmacêutica disse que o meu trabalho seria de extrema relevância para a região. Já a assistente social, certa vez, me puxou para um canto para pedir conselhos sobre como lidar com algumas questões que a deixavam insatisfeita – segundo ela, “eu via o ambulatório de um lugar que ninguém conseguia ver.” Ou seja, eu ocupava uma posição de especialista.
Todas as minhas inquietações, angústias, dúvidas, conversas, observações, escutas, impressões – tanto no ambulatório quanto fora dele – foram registradas em um caderno que chamei de “diário de campo”. Assim que me via sozinha, após o almoço e no ônibus de volta para São Paulo, fazia minhas anotações. Isso por que percebi que fazer essas anotações enquanto conversava, principalmente com os profissionais, acabava gerando desconfianças e receios. Somente nos momentos muito impactantes, para não correr o risco de a memória falhar, saía discretamente e escrevia em um lugar reservado. Nas conversas informais com as mulheres, que muitas vezes falavam de datas e lugares onde realizavam exames, pedia licença para fazer anotações no diário.
Para sistematizar as diversas informações que registrei nesse caderno, digitava regularmente em um arquivo do Word, que resultou em 29 páginas. Posteriormente, sistematizei essas anotações em um quadro com o resumo das questões relacionadas à organização dos serviços e principais queixas e pontos favoráveis na perspectiva das mulheres e dos profissionais.
Tendo em vista as materialidades que compõem a rede, solicitei à coordenadora do serviço o prontuário de algumas mulheres. Para que a minha demanda fosse atendida seria necessário que uma pessoa que cuida dos arquivos dispusesse de tempo para separá-los. Assim, somente um mês após essa solicitação tive acesso aos prontuários. Quando os recebi, ofereceram uma sala vazia para que eu pudesse olhar calmamente os papéis.
Fui tomada por um misto de sensações. Estava animada por poder finalmente ler os prontuários, mas, mesmo tendo recebido autorização para tanto, também fiquei angustiada por acessar dados clínicos das mulheres, informações sigilosas e pessoais. Os manuseei como um arqueólogo que toca em artefatos frágeis e importantes. Fiquei sensibilizada, por exemplo, ao ver, pela data de nascimento (1990), que uma delas era bem jovem.
Após ver os prontuários e fazer anotações do que considerava relevante, pude verificar a arbitrariedade dos registros e dados de referência e contrarreferência que informam o histórico clínico e a trajetória das mulheres entre os serviços (de onde foi
encaminhada, para qual organização, quando, quais as recomendações). Vários estão incompletos, com espaços deixados em branco, muitas vezes indecifráveis em razão da caligrafia sofrível. Isso sem dúvida tem impactos nos serviços e na sistematização dos dados epidemiológicos do município. Apesar de ser uma fonte de dados importante, não pudemos utilizar os prontuários exatamente pela impossibilidade de sistematizar as informações fragmentadas, ilegíveis ou ausentes.
Para fazer a caracterização do Ambulatório de Saúde da Mulher e compreender as políticas de assistência ao câncer de mama nas esferas locais, regionais e federais, bem como as políticas, os programas, as estratégias e os indicadores oficiais sobre a doença disponíveis para o público em geral, acessei, entre os meses de abril e junho de 2012, diversos documentos e sites:
- Documento de Consenso para Controle do Câncer de Mama do INCA; - Programa Nacional de Controle do Câncer de Mama do INCA;
- Datasus (banco de dados informatizado do SUS); - Sismama;
- Sispacto (onde estão os registros das prioridades, objetivos, metas e indicadores dos pactos pela saúde firmados entre as três esferas de governo);
- Indicadores de saúde do Estado de São Paulo registrados na Fundação Seade;
- Manual do usuário do SUS, disponível no site da Secretaria de Saúde de Jundiaí.
As reuniões e conversas com os profissionais também foram fundamentais para a caracterização do ASM e compreensão da rede de serviços. No entanto, elas não foram foco da análise realizada nesta pesquisa.