1. BÖLÜM
2.1. Bir Müdahale Aracı Olarak Gümrük Tarifeleri
2.1.3. Gümrük Tarife Sistemleri
59
Faz-se um corpo enquanto escrevo
País: brasil
Cidade: são paulo
Bairro: entre a sé, a liberdade e o bexiga32
Há uma chegança. No espaço, com aquela pessoa. Preciso passar por muitas avenidas e ruas barulhentas da cidade de São Paulo, atravessar medos e todos os ruídos máximos e atordoantes. Ela é pequenina. Miúda e forte. Fala bastante, numa rapidez que atordoa. Sinalizo: você é bastante rápida pra mim. Ela surpreende: ao invés de pinçar a projeção como única possibilidade, atenta ao tempo que podemos criar juntas. Atenta para um corpo chegando em alta velocidade, e que no encontro, produz outras velocidades infinitas. Devagar! Algo grita. Um leve cheiro de cigarro no consultório-casa, janela em avenidas que não sei o nome. Em algum momento antes de ir, ela mostra o teatro oficina do alto. Estamos no Bexiga.
Saio deste primeiro encontro pela Brigadeiro Luis Antônio, adentro um comércio para comprar um fusível, é uma loja de materiais para construção. Meu pai têm uma loja de material para construção a vida toda. A antiga, de tons labirínticos, bagunçada, marrom, com pregos, parafusos, canos, empoeirada, da época em que não precisava ser bonita e podia ser só uma loja de tampas de privada, pisos e azulejos e que dá lugar a essa outra, mega empreendimento em tempos neoliberais. Naquela de antes, dos sobes, desces, escadinhas e sala do cofre, uma mesa de madeira com um tampo de vidro e embaixo um feltro azul anil. Ali, uma foto em preto e branco da amaranta criança sentada numa balança de parquinho e ao
32 Bairros da região central de São Paulo.
60 lado um dizer sobre o cigarro e a imagem de uma caveira, incentivando os fumantes a pararem de fumar. Detalhe: meu pai nunca foi fumante.
Lágrimas nos olhos, subo a Brigadeiro sem blusa de frio (esqueci no sofá dela) numa tristeza prazerosa. Por um instante, saudade da terapeuta anterior, a que me recebeu sem chão, que engravidou no caminho e me indicou esta: da casa-consultório no meio de três avenidas. Compor um ritmo juntas requer bastante disposição, pesquisa de como criar presença. Por hora, escapa à interpretações e diagnósticos. Ainda que eu nomeie pânico, ela inventa outras palavras para falar do mesmo. E a partir daí, o tal mesmo torna-se outro.
61 Figura 2 - Risco de desabamento, 2011. Foto: Amaranta Krepschi
63 Devolver à escrita sua potência de risco: no limiar, criar corpo e convocar uma escrita
Ao aprender a escrever, lá na infância, escrita torna-se instrumento. Linguagem que comunica, retrata, chão de um modo de pensar, ouvir, falar e sentir. As regras gramaticais, as conjugações, aprender a partir de um “certo” que nos faz repetir e repetir e repetir até poder ser considerado alfabetizado. De quantos tremores cada corpo necessita para destituir, o quanto se possa a cada momento, a escrita desse instituído? Que trabalho é vital no trato com a palavra para que algo se passe entre e com as palavras? Para que possa criar outras conexões, possibilidades e subjetividades? Para proporcionar outras durações?
Se no ocidente, pensamento é dado como separado do corpo, eis uma questão a ser trabalhada (exercício vital), de mãos dadas com pensadores-fazedores de corpo. Escrever, não a partir de uma ideia (abstração), mas de uma relação física com a palavra. O “roçar do corpo no mundo”, como disse o professor amálio pinheiro33. Engendrar outros corpos, que não o da experiência sensorial, do eu, da memória, do pessoal, para com eles escrever. Claro que também se escreve a partir de outras paisagens, mais neuróticas, ensimesmadas, no eu penso, eu sinto, eu quero, isso me falta. Mas de fato, aqui, o desejo se atrela à experimentação de uma escrita esburacada e seus balbucios.
Eis então uma figura recorrente que escreve comigo (embora não só). A porção fascista, a pequena burguesa, a juíza em mim; atravessamentos do que tantas vezes considero o mais baixo e que têm transito neste corpo, social, psicológico, institucional, organizado. É sobretudo no exercício de embate com tais capturadores do desejo que existe a possibilidade de esburacar a escrita. Se na subjetivação burguesa a forma é priorizada em relação aos afetos e há modos naturalizados de viver, amar, escrever, que escrita é produzida deste lugar? Escreve-se em tons explicativos, numa tentativa de controle das afetações que caotizam a representação e os lugares de verdade. Se a escrita não vêm pra explicar e dizer o que sei
64 (produção de verdade sobre si e sobre o mundo), o que resta?
Com ana godoy:
[…] há sempre o resto que não encontra lugar nos lugares que nos cabe preencher, porque o resto é, de resto, aquilo que resiste às categorias, que trabalha as formas, que excede o presente da necessidade e que põe o lugar sob suspeita. Um resto que desdenha a norma e que, indo de um lugar para outro, não reconhece fronteiras, se junta a isso e aquilo, teimosamente insistindo.34
Assim, há todo um exercício de escrita nesta pesquisa que é também de uma vida podendo ou não atravessar o texto, toda uma problemática da expressão de uma vitalidade. Entendo a experiência limite do medo como uma possibilidade para o desejo de expansão e conexão, que dali um pouco já pode constituir outros territórios a partir da desterritorialização ocorrida e que, quando o faz, diminui o medo enquanto efeito, e dá sentido aos restos e cacos depois do terremoto.
Suely rolnik, no capítulo quatro do livro “cartografia sentimental”, percorre três movimentos do desejo (linhas de vida). A primeira, linha dos afetos “faz um traçado contínuo e ilimitado, que emerge da atração e repulsa dos corpos, em seu poder de afetar e serem afetados.”35 E aqui, mais uma vez retomo, corpos não como corpos humanos. Linha incontrolável, a vida acontecendo. A segunda linha,
A da simulação, faz um vaivém, um duplo traçado inconsciente e ilimitado. Um primeiro que vai da invisível e inconsciente produção de afetos, para a visível e consciente produção de territórios. É o percurso do movimento de territorialização. E um outro traçado, inverso: ele vem do visível, consciente, dos territórios para o invisivel, inconsciente, dos afetos escapando. É o percurso do movimento de desterritorialização.36
E a terceira linha,
finita, visível e consciente da organização dos territórios. Ela cria roteiros de
34 GODOY, Ana. A menor das ecologia [apenas um esboço, nada senão o esboço de um esboço]. Cadernos de Subjetividade, Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade do Programa de Estudos Pós-Graduados em
Psicologia Clínica, PUC, São Paulo, ano 8, n. 134, 2011, p. 144.
35 ROLNIK, Suely. Cartografia Sentimental. Transformações contemporâneas do desejo. Porto Alegre: Sulina, Ed. da UFRG, 2006, p. 49.
65
circulação no mundo, diretrizes de operacionalização para a consciência pilotar os afetos. Ela é finita porque finita é a duração dos territórios e a funcionalidade de suas cartografias. Sempre escaparão afetos aos territórios e isso, mais cedo ou mais tarde, decreta o seu fim.37
A separação em três linhas é didática porque “por fim, pode-se até dizer que se trata de uma só linha, a linha fluxo de simulação, pois ela é a própria passagem, a própria oscilação entre as outras duas.” E: “os homens estão expostos a viver essas três linhas, em todas as suas dimensões. […] é em seu exercício que se compõe e decompõem seus territórios, com seus modos de subjetivação, seus objetos e saberes.”38
No percurso desta pesquisa, em meio a fluxos desterritorializantes e territorializantes, noto a alternância e concomitância entre a vontade de nada e um nada de vontade. Investigo, o que difere, neste corpo, o “para nada” do niilismo negativo em nietzsche e o nada que é força? Quando e onde o “dançar para nada” se estatela numa produção que fica entre o vazio e o medo e quando é um nada constituidor de chão para criação de uma paisagem arejada?
Vem o tempo em que teremos de pagar por termos sido cristãos durante dois milênios: perderemos o centro de gravidade que nos permitia viver, durante algum tempo não saberemos mais como sair disso nem para onde voltar. Nós nos precipitaremos com a cabeça abaixada em direção aos valores opostos com a mesma energia com a qual fomos cristãos.39
O texto está no artigo “travessias do niilismo”, de peter pál pelbart, que desdobra o niilismo em nietzsche e como na modernidade, com a perda de valores centrados na religião, a ciência, a consciência e outras instâncias passam a ocupar o lugar da verdade e da crença. “dado um valor, que modo de existência, que estilo de vida ele implica, pergunta nietzsche? Pesado, leve, baixo, alto, escravo, nobre? Um valor tem sempre uma genealogia da qual dependem a nobreza e abaixeza daquilo que ele nos convida a acreditar, a sentir e a pensar,
37 Ibidem 38 Ibidem, p. 53.
39 NIETZSCHE, Friedrich, Fragmento póstumo novembro de 1887/março de 1888, 11[148], v. 13 apud PELBART, 2006, op. cit., p. 209.
66 esclarece deleuze.” 40
Para que outros valores possam acontecer, quanto precisa morrer? Com quantos nadas se faz uma vitalidade? E aqui, a aparente contradição do niilismo: ao mesmo tempo que é perda de valores, descrença, esgotamento, é em tal nada, que sustentado, torna possível uma criação. Volto então à pergunta insistente delineada acima e uma possível pista: quando o corpo paralisa, não é sobretudo um cansaço diante do que está instituído em mim? Do que não encontra passagem, a não ser através do coração acelerado, da falta de ar, da sensação de excesso e falta de chão? A presença de uma porcentagem do que nietzsche chama niilismo passivo, no qual, o sentido se esvai ao perceber que o mundo não é como se imaginava, que os transcendentes não servem mais, que definitivamente não se sabe mais o que fazer e para onde ir.
Uma rota que se esgota, um percurso que não produz mais sentido, uma paisagem fosca e de pouca reverberação vital junto da falta de força para empreender um outro território. “[...] Uma vida superabundante, ao contrário, suporta e até necessita desse esvaziamento para dar vazão à sua força de interpretação, aquela que não busca o sentido nas coisas, pois o impõe a elas.”41 Fazer-se então, um criador radical, produtor de sentido e de vida. Praticar o desejo no âmbito que é: inventor de possíveis. Diante da paralisia e do medo, recomeçar de novo, tecendo um corpo que pode. Efetuar a passagem (ainda que com alguns retornos) do “tu deves” para o “eu quero”.
“tal passagem, porém, não está dada, ela é uma travessia e tem seu preço e vertigem própria.”42
40 PELBART, 2006, op. cit., p. 211
41 PELBART, Peter P. Niilismo e terrorismo: ensaio sobre a vida besta. In: PASSETTI, Edson (org). Terrorismos. São Paulo: Educ, 2006.
67 Nesse limiar, travessia. Quando a escrita se faz menos como produção de verdade e mais como território de embate ao plano da representação, constituindo algo outro com os restos do que se desmancha e remancha ...
69 às vezes o algo novo...
é logo ali.
no mais distante de um modo dominante de ser das coisas. se na poesia torno-me pedra,
e à pedra cabe ser vento
com quais criadores, outras formatações?
71 Uma segunda questão insistente e cartografada nesta pesquisa, que se dá junto ao tal movimento concomitante e alternado entre o nada esvaziado e o nada que produz outros, é a da problemática em torno do eu. Um equívoco que atropela a escrita: o “eu” escrevo, nós escrevemos e ainda o “escreve-se”. Um problema de pessoalidade, não somente de conjugação de um tempo verbal, mas de onde a escrita parte, para onde se lança e o para onde nos lança.
por vezes é num rasgo, uma morte que acontece e não mata. Performa(t)ivo? Performa(v)ivo! Um bocado de coragem para esbarrar os limites e por vezes, quando se pode, ultrapassar. No artigo de kuniich uno, “ corpo gênese ou tempo-catástrofe: em torno de tanaka min, de hijikata e de artaud”, testemunha a escreve de uma conversa entre hijikata e tanaka min em torno da improvisação.
Hijikata pergunta a min em tom provocativo:
- o fato de ter nascido já é uma improvisação, por que você improvisa na dança?
Hijikata responde rindo:
- Eu nasci já destruído, fui quebrado desde meu nascimento, nasci com um fissura (…)
poderia, diante da fissura, atadura. Mas ao escolher performatizar, rasgar, não nomear, conviver com um choque de 220volts no seio do texto, então pronto! Cá está, corpo-escrita, escrita-corpo, se fazendo, se fazendo, se fazendo.
A vida e o corpo são no fundo a mesma coisa, mas para que eles sejam efetivamente a mesma coisa, é preciso descobrir o corpo em sua própria força de gênese. […] campo de batalha em que se entrecruzam as forças visíveis, invisíveis, a vida e a morte, em que se encadeiam as redes, os
72
poderes, as porcarias.43
a rota e o dançar para nada do c.e.m marcam um procedimento, ao qual retorno muitas vezes no trato com as porcarias que obstruem a vitalidade do texto e da vida. Um fazer que é clínico, justamente pela opção e atenção no estar com: as porcarias, o medo, com o que despotencializa. Poder extrair potência ao acompanhar tais avessos, fazer uma volta que vivifica o que se vê amordaçado. No limiar, poder cuidar e produzir escritas “menores”. Entender que corpo, do modo aqui pensado, não fala de um eu. E que todo o problema da morte do autor não está garantido sob nenhuma forma (excluir o eu, usar o plural ou uma terceira pessoa indefinida). Escrita como exercício de composição, sendo o eu uma das linhas que a compõe.
e tudo isso é um jogo entre aparecer e desaparecer, quando desapareço verte, um tipo de texto (...)
43 UNO, Kuniichi. Corpo–gênese ou tempo–catástrofe: em torno de Tanaka Min, de Hijikata e de Artaud. Cadernos de Subjetividade, Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade do Programa de Estudos Pós-
PARTE IV:
Aproximações
75
País: brasil
Cidade: são paulo
Bairro: vila anglo brasileira Rotas vila anglo
E como a cidade poderia ser sem homem ou antes dele, o espelho, sem a velha que nele se reflete, mesmo se ela não se mira nele? É o enigma (frequentemente comentado) de Cézanne: “o homem ausente, mas inteiro na paisagem”.44
O trabalho de corpo-escrita pelas ruas da Vila Anglo Brasileira aconteceu durante seis meses, em parceria ao Condomínio Cultural Mundo Novo com seis participantes fixos e alguns flutuantes. O Condomínio Cultural existe num prédio que foi a primeira casa do bairro, que tornou-se a principal escola e posteriormente um hospital. Os moradores do bairro têm uma forte relação com o local. Estudaram ali, acompanharam nascimentos (na maternidade) e mortes neste hospital. Correm algumas lendas fantasmagóricas, sobretudo durante os 15 anos nos quais o prédio ficou abandonado e fechado. Em 2009 O espaço passa a abrigar o embrião nomeado Condomínio Cultural Mundo Novo, que não é um centro cultural, mas um coletivo de artistas e não artistas que realizam processos de criação neste espaço basicamente em dois regimes de utilização. Alguns alugam o espaço para ensaio, ateliê, aulas. Outros fazem da relação com o prédio o entremeio de suas criações site specific, imbrincadas no espaço do prédio (como o coletivo das meninas sem nome). O trabalho da rota, inicialmente proposto por mim, vinha no cruzamento do meu desejo de estar na rua com outros artistas pesquisando e delineando práticas que vinham desde o c.e.m (mas agora num
76 contexto outro) e da vontade dos coordenadores do Condomínio (Géssica e Kako) de abrir mais a relação do condomínio com o bairro. A mim, as rotas vila anglo possibilitaram entrar em buracos nesse tête-à-tête com a geografia de são Paulo, talvez, fazendo a passagem de Lisboa para a megalópole paulista na qual fui tão estrangeira. O fiz com bueiros, escadas e zigue zagues do bairro.
Não tínhamos uma finalidade para essas saídas, no aspecto de ter um “resultado” em comum ou um produto final. Não éramos um grupo, nem um coletivo, mas pessoas que se encontravam uma ou duas vezes na semana para estar de três a quatro horas na rua. Haviam algumas propostas delineadas antes das saídas, uma direção de pesquisa: corpo na rua destituindo-se o quanto possível da ideia de fazer coisas e ampliando a porosidade para ser afetado pelos relevos, sons, temperaturas, durações de cada encontro. Como cada um utilizou (ou não) em seus trabalhos artísticos e nas próprias vidas tais excursões, não sei. Digo de mim, de que fuligens grudadas no corpo, na descoberta dos incalculáveis lençóis freáticos sobre os quais a Vila Anglo se ergue. O que ouvidos atentos escutam em bueiros do bairro é água correndo em alta velocidade, os rios encobertos da cidade de São Paulo.
Como alguém que incialmente propunha as saídas, propus pesquisar a direção animista na rota, inventar no corpo espaços menos atrelados ao sujeito que sente, pensa, percebe e observa. Já nas primeiras saídas o movimento que parece insistir enquanto força é o da comparação, da contemplação, da crítica. Há algo que julga a rua. Uma vez percebido, a segunda saída a rua vêm com o trabalho de pesquisar outras possibilidade de olhar, deslocar o modo como se tecem as conexões com o espaço. Não somos nós quem propomos, as coisas existem, acontecem, e nossa presença compõe. Como estar com o espaço?
Trazer para a dissertação o COMO isso se dá, em alguns momentos, parece-me um pouco inviável, a não ser pelos enxertos de textos produzidos durante a rota. Com tais textos talvez seja possível acontecer. Ter as micro partículas do corpo sofrerem alguma alteração: de
77 temperatura, no ritmo da respiração, na conexão com outros possíveis, com um espaço por vir. Se nada passa no corpo do texto, essa também é uma possibilidade. Escolho enxertar alguns fragmentos de textos produzidos nas saídas. Gosto de quando fala Deleuze do efeito de um livro no corpo, no que nos interessa ou não, na leitura de um livro como uma ligação elétrica. Se conectou siga em frente, senão feche o livro e vá fazer outra coisa.
79 Figura 3 - Casa 4, 2012. Foto: Amaranta Krepschi
81 Saída 01 , pela rua mundo novo
Percorrida toda a rua bica de pedra, é em caracol que acontece. De baixo ao alto ela vai em curvas, ziquezagueando pelo morro. Hoje fomos eu, gessica e vicente e o sol de duas da tarde de verão e asfalto. Silêncio de gente na rua. Pássaros e moscas. Então, uma certa aridez e a pergunta: qual a necessidade desse estar? E se necessidade é mais uma palavra pra se desconfiar que seguir, que tipo de encontro é possível diante de uma certa organização “funcional” deste bairro e da cidade? Como ir notando os espaços nos espaços? Qual a diferença entre estar no espaço e com o espaço? Neste exercício, o que se altera? E mais: é preciso que se altere? O espaço, que pode querer de nós? A rua, as escadelas? O senhor que passa com sua carriola de embalagens e papelões?
Na prática se evidencia: a insistência de uma presença altera conjunturas. Instaura outras atmosferas.
82 Saída 02
Das camadas que se fazem, as vezes mais finas, outras mais largas, entre a pele e uma outra, o timbre da voz e os olhos da menina, o trepidar de alguma coisa que reverbera (...) Assim meio sem nexo, já subindo a rua bica de pedra, um portão aberto. Quase encostado na rua, um brechó. Crianças, uma adolescente e a mulher. Do andar de cima da casa uma garota grita: pega essa bola pra mim? Do outro, na beirinha da rua, bola colorida. Agacho, pego, atravesso a rua e ao atravessar, recebem-me. Arremesso, obrigada, de nada, já estou. Quase na rua, quase na calçada, quase no brechó. Entre o primeiro e o segundo andar da casa-garagem- brechó da vera. Papeamos das curvas do bairro, dos 30 anos que vivem ali. Dos filhos, de dança, das 3 igrejas da vila anglo, do condomínio cultural. Sapatinhos coloridos, uma mulher entra, experimenta, aguarda. As meninas ensoneadas acabam de acordar. Abre-se algo em meu peito e há uma certa alegria no ar.
83 Saída 03
Dessa vez as ruas não se deram em curvas. Mais retas, talvez por reverberação à esquina noventa graus da pri pela qual iniciamos a terceira rota. Os redondos apareceram mais em bolsões de ruas sem saída. Em bando saímos, em bando retornamos. Instaura-se um certo brincar, casa na árvore no meio da praça (!), crianças de bicicleta na rua bica de pedra, “gelinho” de tuti-fruti do seu zé ao fim do percurso. A memória da rota recoloca seus pontos: