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1. BÖLÜM

2.1. Bir Müdahale Aracı Olarak Gümrük Tarifeleri

2.1.2. Gümrük Tarifelerinin Türleri

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País: entre portugal e brasil Cidade: entre lisboa e são paulo Oceano atlântico, travessia

Momentos nos quais a presença parece abandonar o corpo, a cidade em sua dimensão macro engole qualquer impulso de seguir. As repetições que ditam o funcionamento são as mais baixas e já não parece possível acompanhar. A força reativa é imensa e o que se segue são avalanches de representação. “[…] por um lado o niilismo é sintoma de decadência e aversão pela existência, por outro, e ao mesmo tempo, ele é expressão de um aumento de força […]”21. Se no c.e.m a multiplicidade de corpos engendra força para atravessar cada estado de esgotamento, aqui grita alto: dance! Dance! Dance! Na singularidade de seus fluxos esta é a linha que se repete nos anos. És o que pode fazer por ti, ó pequenina!

Então ela escreve e dança, não necessariamente nessa ordem. E quando se esquece, entra em pânico. Eis o que, num primeiro momento chega como cartola vazia.

A rapidez dos fluxos da nova cidade avança sobre ela, são paulo é gigantesca, estar na rua é de uma desproporcionalidade abissal. O corpo de outrora já se desfez há tempos, lá doía menos, talvez pela solidão acompanhada. Enfim, a mulher sem ar no meio do nada. E no alto dos arranha céus, pelas janelas sobrepostas, uma em cima, do lado e em baixo da outra, a perdição. E pasmem: no não acontecimento um acontecimento subterrâneo, não intencional, nada bem vindo, desconhecido. Quando tem nome, é enquadrado em sintomatologia grosseira, palpitação, sensação de morte, sufoco, tontura, e claro, medo. Medo de ficar em casa, medo de estar só, medo de sair de casa, medo do corpo. Ainda nem se deu conta de que já não dança mais, que comer não é tão prazeroso, que há uma paralisia junto à sensação de

21 PELBART, Peter Pál. Travessias do niilismo. In: FEITOSA, Charles; BARRANECHEA, Miguel Angel de; PINHEIRO, Paulo (org.). Nietzsche e os gregos: arte memória e educação. Rio de Janeiro: DP&A, Faperj, Unirio / Brasília, DF: Capes, 2006.

44 múltiplas invasões. Das nuances não se fala. Da relação entre corpo cidade, a cidade como um mundo de afecções, corações sentindo, temendo, querendo, batendo. Das questões que se estilhaçam nas festas, se estatelam no chão por não terem reverberação, se desmancham na primeira banca de revistas com seus tóxicos ambulantes colocando a culpa no sujeito, insistindo nas doenças psíquicas e físicas como produção individual. A finalidade que grita o tempo todo: vamos erradicar o que é desvio e não ouve como o que é de fato: forças gritando “um pouco de possível senão eu sufoco”22. Se assim sigo, o medo fala de quê? De uma

infância? De um descuido? Da falta de recursos para a vida que pulsa no corpo?

Uma pista: de um lugar onde a imagem de si não alcança. O medo também diz de um modo dominante de subjetividade dos sujeitos que investem numa única forma de vida: seres humanos autônomos, com um desenvolvimento psicológico, que tentam conservar essa unicidade. E que sorte talvez sejam os que atravessados pelas moléstias do corpo e dos afectos, vêem-se rompidos. E que falta de sorte, que justamente o cuidado dominante os considere estragados, fudidos, anormais. Se gritam: dessa saúde não compactuo, o que resta? E como grita alto e forte ele, andante descalço com uma sacola plástica na mão direita, pela rua doutor homem de mello, numa manhã em SP:

Matamos todos! Matamos todos! Matamos todos! Matamos todos!

E no instante em que passo por ele pela calçada de perdizes, grita ainda mais alto e repetidamente:

22 DELEUZE, Gilles.

45 Ela está morta!

Ela morreu! Ela está cega! Ela está morta! Ela está morta! Ela está morta!

E por fim:

46 Em seu livro Bios, Biopolítica e Filosofia, Roberto Esposito insere, a partir dos estudos da biopolítica em Foucault, o conceito de imunidade e de um novo paradigma que passa a operar no Ocidente depois da década de 30: o paradigma imunitário.

o termo latino immunitas consiste numa negação ou privação do termo munus, o qual pode ser traduzido tanto por ‘cargo’ ou ‘ofício’ como por ‘dom’, ‘graça’ ou ‘dádiva’. Esposito atribui à communitas o sentido de uma associação humana baseada na ideia de uma mútua pertença, através da partilha, pelos homens que a compõem, de uma dádiva recíproca a partir da qual se cimentasse a sua concórdia e relação. É como negação ou privação desta relação, ou do cum da communitas, que o conceito de immunitas emerge.23

Marca-se assim o desenvolvimento da política moderna.

A imunologia, ao inventar técnicas de prevenção e prolongamento da vida biológica o faz como norma; incide no cotidiano através de uma série de procedimentos para viver mais que são tomados como verdade. Exames preventivos, vacinas, vitaminas, alimentos que garantem o não adoecimento, exercícios, comportamentos que tem como finalidade o quanto se vive e não o “como se vive”. O fundamental, nessa produção de subjetividade, é imunizar- se, proteger-se, repelindo o que é diferente, seja este um vírus ou um muçulmano. Tal estratégia do biopoder investe em todos os campos, da saúde às relações amorosas, no campo social e político e é, ao mesmo tempo, motor e produto dos movimentos fascistas- dos regimes totalitários aos fascismos cotidianos.

Do ponto de vista do pensamento, este é um forte e perigoso atravessamento, viver imune a outras ideias, o oposto de comunizar, de increver (José Gil), de estar com (c.e.m). O corpo mirra. À série de homens frágeis fisicamente, psicologicamente e socialmente faltam recursos e uma atmosfera de insegurança se instala. Nesse modo de vida, o individualismo é investido e pânico, depressão, dependência química, doenças do século, são creditadas a um

23 SÁ, Alexandre Franco de. Prefácio. In: ESPOSITO, Roberto. Bios, Biopolítica e Filosofia. Portugal: Edições 70, 2004, p. IX.

47 “eu” interior e universal que ou está descolado do seu contexto ou culpabilizando o contexto (a culpa é do Estado, da Política, do outro). Florescem terapeuticas com soluções que investem na mesma lógica que produz o medo da fragilidade: a negação do corpo, ou seja, do desejo. Os poderes incidiem justamente sobre a capacidade de desejar, de afetar e ser afetado, produzindo seres humanos em gradações cada vez menos intensas e enfraquecidos na capacidade de desejar. O lema é medir, controlar e administrar. Gerir, como numa empresa, o que nada tem que ver com o “cuidado de si” dos gregos, do viver ético em Espinosa, esses nos quais o trabalho é a partir da carne, com a condição de vida que envolve cada situação, inclusive o medo da vida e a fragilidade.

Se é no corpo que residem todas as possibilidades e se força é a “virtude do corpo de ser afetado e poder afetar outros corpos de inúmeras maneiras simultâneas [...]”24. Na relação com as impermanências da vida é vital a proposição de um método no qual não é a consciência que dirige mas sim o trabalho com os afetos, num processo que se dá com eles e não contra eles. Se no biopoder o auge do prazer é a sensação de vencer as impermanências, contrariar tal forma de poder está também na possibilidade de comunizar-se. Se o mecanismo do biopoder tira a confiança na vida, o método de trabalho com o corpo (afectos) a restitui, ainda que aos poucos. Numa definição Espinosista:

“Por afeto entendo as afecções do corpo pelas quais a potência de agir do próprio corpo é aumentada ou diminuída, favorecida ou coibida, e simultaneamente as ideias dessas afecções.”25

24 Ibidem, p. 96.

49 Repetição 2457

Então é de repente... De repente o que estava ausente: aquela pergunta, essa pessoa, sintomas novos em um corpo que não entende. Talvez fosse ela na calma, sangue correria tranqüilo, dias passariam mais lentos, não desmaiarias, não colapsará. Mas é osso. Intensidades não cessam nunca de gerar perguntas ao encontrar. Diante das aberturas todas, ímpeto e medo, ímpeto e medo, ímpeto e medo. Quando dança os medos se vão? Quando grita? Quando trepa? Quando vive em frente ao mar. Algo de si precisa deixá-la. E insiste.coração acelera, corpo todo pulsa, tremedeira se instala. O mundo torna-se mais caótico e frio e assustador que de costume. Não há solo firme possível, não há terra, só mar, rios, água. Uma espécie de frio, vertigens e náuseas. Não se pode remediar. É o que é, o que vai sendo, abre e tenta fechar mas não fecha. Naqueles minutos que seguem é a certeza de uma morte que não vêm, que um dia virá, mas não se sabe. O suor escorre, o tempo lentifica- se, pois bem, passou, respiro, respiro? Era uma vez tudo isso que se repete. Era uma vez um momento esfuziante. Era uma vez por que ela não toma remédios e vive, vive, vive. Era uma vez seis meses depois. Coração acelera, corpo todo pulsa, tremedeira se instala. O mundo torna-se mais caótico e frio e assustador que de costume. Não há solo firme possível, não há terra, só mar, rios, água (e um deck). Uma espécie de frio, vertigens e náuseas. Não se pode remediar. Respiro? Era uma vez tudo isso que se repete. Era uma vez por que ela não toma remédios e vive, vive, vive.

51 A potência da conversa: quando falar é desejar

O medo é uma estratégia para nada inscrever. Constitui-se, antes de mais, como medo de inscrever, quer dizer, de existir, de afrontar as forças do mundo desencadeando as suas próprias forças de vida. Medo de agir, de tomar decisões diferentes da norma vigente, medo de amar, de criar, de viver. Medo de arriscar.26

Sala comprida, linóleo branco no chão, oito corpos, que multiplicados, são muitos mais. A prática é correr em alta velocidade e arremessar-se contra a parede. Alguns truques para que cabeça e joelhos não saiam tão machucados. De novo, de novo, de novo. Sem mãos a frente, sem diminuir velocidade antes da colisão; horas depois, além de alguns hematomas, um outro corpo. Menos psicológico, mais forte talvez. Já dizia Nietzsche “a consciência nos oculta tudo”. Nessas aulas de Peter Michael Dietz27, a atmosfera do “sem o risco nada acontece” se dá numa força absurda.

Resistir ao “eu sinto, eu quero, eu gosto ou não gosto, dói”. Ultrapassar. Inúmeras vezes, em tais laboratórios Dietz insiste: o trabalho não é terapêutico! Entendo de um modo: o trabalho não é sobre o “eu” mas sobre a invenção de composições subjetivas.

Ainda relacionando aos mecanismos da biopolítica, José Gil afirma o falar e o escrever como importantes possibilidades de inscrição. Penso-os como um antídoto para o medo que reduz o contato. Se no medo reduzo minhas kinesferas28 corporais, retiro-me do mundo, mantenho os poros cerrados, conversar, da perspectiva de Gil, diz do exercício de

26 GIL, 2004, op. cit., p. 69.

27 Bailarino dinamarquês que reside em Portugal e ministra laboratórios e aulas no c.e.m

28 Kinesfera é a esfera que delimita o limite natural do espaço pessoal, no entorno do corpo do ser movente. Esta esfera cerca o corpo esteja ele em movimento ou em imobilidade, e se mantém constante em relação ao corpo, sendo 'carregada' pelo corpo quando este se move. É um conceito que pertence ao Método Laban de Análise do Movimento.

52 encontrar um tom comum que faz da fala e da escuta um acontecimento, e portanto, maior que os sujeitos, que inscreve uma memória, cria uma atmosfera.

“sem paciência para escutar, para esperar resposta, para não estar com uma beleza estonteante na sua frente”29 está o homem contemporâneo.

Ora, deixar-se inscrever na vida requer tempo. Tempo de outras produções, que não de dinheiro e de um milhão de finalidades. Dialogar para que algo, talvez, se passe. Ou não. E aqui um retorno ao “dançar para nada” do início deste texto. Ter a coragem de sustentar o processo e tudo que o compõe, inclusive os inomináveis e o trato com o medo.

“ a fala apaixonada o diz de mil maneiras [...] Ao dizer-se no espaço público, aberto, o desejo expande-se e conecta-se com outros desejos, para além mesmo da linguagem.”30 E novamente atentar ao uso de “público”, aqui pensado com José Gil e Espinoza : corpo como potência de afetar e ser afetado.

29 Anotação de fala de Denise B. Santanna na aula do Núcleo de Estudos da Subjetividade. 30 GIL, 2004, op. cit., p. 48.

53 Escutar com os ossos

Enfim, uma certa mágica pode se dar com a palavra. Quando uma ativa algo, instala uma atmosfera, tratando-se portanto, de um gesto: palavra-corpo. Se com faro aguçado nota- se que algo se deu, o dito descolou-se de sua proposição inicial, o não dito ganha algum espaço de se dizer de alguma maneira. O contrário também produz. Quando o espaço entre palavra e afecção é imenso, o dito não anda junto com o que se instala enquanto sensação: campo da representação.

Manoel de Barros, em sua obra “Memórias Inventadas” narra o encontro com dois homens que passavam os dias escovando ossos. Eram arqueólogos. Pois daí, ele inventa o escovar palavras porque “as palavras possuem no corpo muitas oralidades remontadas e muitas significâncias remontadas”31. Então ela escuta os movimentos pequeninos, os povoa de minúsculas atenções. Põe-se atenta aos movimentos subterrâneos, às palavras nas palavras, essas que quase saem mas silenciam, as que ao sair tem um peso diferente. Nota quando algo “falha”, lança aos lugares que usualmente não se vai. Desconhecido, não se trata de agarrar, mas sim de contemplar a passagem da dança de pequenos ruídos. Com a pele pode haver conexão, como uma porta de múltiplas entradas, algo me arrasta, estou atenta e desatenta ao mesmo tempo, acompanho e escrevo. Lugar não linear, no qual escolho me posicionar: intensifico a relação com os pequenos movimentos, os invisíveis a olho nu.

Nalgum momento, o “dançar para nada” passa a acompanhar-me mais e mais das palavras, folhas em branco e do silêncio. Camadas que não se escutam com ouvidos apenas, precisam dos ossos que tintilam. Com o estetoscópio, passeio pela ossatura do corpo de uma outra. Tamborilar no pé, coração, expiração, som dos cabelos ao serem mexidos. No aprendizado do menor, possibilidade de ter com na palavra a constituição de um território

54 menos sufocante e fixado; que rompe com significantes, um tipo de atuação que racha seu usual, força capaz de inaugurar um outro universo. Do trabalho de estar com as forças que pulsam e vivificam meu corpo, escrevo:

55

Destempera

O mergulho do mindinho na areia Gordura ilocalizada

Sêmem que escorre

Ovos quebrados por isso inteiros Nada precisa de nós,

PARTE III:

CORPO-escrita