1.3. Birmingham Çağdaş Kültür Çalışmaları Merkez
1.3.4. Foucault’da Söylem ve Biyo-İktidar
A Copa 2014, por exemplo, atua em lógica semelhante, uma vez que possui forte componente representacional e identitário, no sentido de produzir uma identidade coletiva e uma imagem positiva do Brasil que possibilitem a entrada do país na competição global de cidades e mercados de consumo simbólico. Isso porque as sociedades contemporâneas são caracterizadas pela centralidade de fenômenos como cultura e informação nas relações sociais e econômicas. Os fatores constitutivos dos processos produtivos tradicionais estão em
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“In a global level, media are the main carriers for ‘placing’ the Olympic host-city ‘on the map’, a function
declínio, sendo que a relevância está centrada na produção imaterial, na economia de signos e imagens.42
Na atualidade, a fim de se manterem competitivas – com a imprevisibilidade dos sistemas econômicos –, as cidades estão se voltando para estratégias concentradas em seus próprios recursos: suas histórias, seus espaços memorializados/patrimonializados e seus talentos “criativos” (RICHARDS e PALMER, 2010). Na visão dos autores, o crescimento da “economia simbólica”, pressões da globalização, problemas causados pela reestruturação econômica, assim como a necessidade de estabelecer novas identidades cívicas têm feito com que as cidades mudem as estratégias de desenvolvimento e regeneração do tecido urbano. Algumas começam a criar eventos que celebram suas próprias histórias e culturas. O foco tem sido cada vez mais explorar bens culturais, criar e promover eventos de diferentes naturezas. Utilizada de forma instrumental, a cultura tem se tornado um meio cada vez mais importante de consumir a cidade.
A organização e licitação para eventos se tornou uma grande indústria em todo o mundo, que é composta pela criação e promoção de festivais, shows, exposições, feiras e campeonatos. Da mesma maneira, os megaeventos esportivos são parte constitutiva de um processo pelo qual a riqueza é cada vez mais gerada através de atividades culturais como arte, música, dança, artesanato, museus, exibições, museus, esportes e design criativo em vários campos (RICHARDS e PALMER, 2010). Segundo os autores, os eventos são utilizados para ajudar a “fazer” lugares no sentido de “dar forma” às cidades, ou seja, as cidades criam os eventos e eles, por sua vez, criam a cidade. Os eventos culturais, portanto, deixam de ser apenas uma questão cultural, já que a política de eventos torna-se um dos motores principais das ações de revitalização urbana, de acordo com Richards e Palmer (2010).
O caso da capital carioca é exemplar nesse sentido e o Rio de Janeiro, sem sombra de dúvida, poderia ser classificado como “eventful city” (RICHARDS e PALMER, 2010). Apenas para citar os eventos mais recentes, em uma década (2007-2016) a cidade recebeu quase um megaevento (esportivo ou não) por ano: Jogos PanAmericanos de 2007, Fifa- FanFest de 2010, Rock in Rio em 2011, Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, mais conhecida como Rio+20, em 2012 (ano em que o Rio teve a sua paisagem cultural declarada patrimônio da humanidade pela Organização das !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
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Faz-se referência às mudanças no processo de acumulação de capital, o surgimento de um novo modo de produção, pós-fordismo, e a consequente acumulação flexível de capital, que acaba por deslocar as forças produtivas em direção a recursos imateriais e intangíveis, tais como informação e conhecimento. São indícios dessas transformações as abordagens e análises que fazem referência a processos como mercantilização da cultura, culturalização da mercadoria e capitalismo ou economia informacional (CASTELLS, 2005).
Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – Unesco), Jornada Mundial da Juventude e Copa das Confederações ambas em 2013 – que há tempos acontece no país que irá sediar a Copa do Mundo –, a própria Copa do Mundo de 2014 e, por fim, Olimpíadas de 2016. Isso sem mencionar o carnaval e o réveillon, que mobilizam milhões de pessoas e recursos financeiros todo ano. (SILVA, 2015).
Segundo Silva (2015), no caso do Rio de Janeiro, os megaeventos fazem parte de um processo muito mais amplo, uma espécie de pretexto para repensar, planejar e executar uma transformação profunda da cidade, a fim de fazer dela um cidade “global”, “cosmopolita”, “inteligente”, “criativa”, “festiva” e ainda mais “atrativa” para os investidores e o turismo de massa. A estratégia é retórica e discursiva, pois faz uso da linguagem superlativa e do excesso de adjetivos que compõem as ações de city branding para promover o lugar (FORTUNA, 2009; BEAUREGARD, 2003).
Na visão de Silva (2015), os megaeventos para os quais o Rio de Janeiro vem servindo de palco e sede são, efetivamente, a expressão de um projeto urbano de reestruturação da cidade. Projeto este que adota um padrão de “empreendedorismo urbano” (HARVEY, 2005), em que sua governança é, ao invés de administrativa, empreendedorista neoliberal. Para Silva (2015), essas mudanças são legitimadas discursivamente pela realização dos megaeventos e do suposto legado social que os mesmos seriam capazes de proporcionar à cidade.
À parte da reflexão principal, chama-se a atenção para a palavra legado e os seus sentidos discursivos. Legado consiste no termo pelo qual se convencionou chamar os impactos positivos e os benefícios diretos e indiretos, de imediato, médio e longo prazo para os países que realizam os megaeventos para além dos resultados exclusivamente esportivos (GOLD; GOLD, 2011). No entanto, de acordo com Oliveira (2012), a invenção do ‘legado’ aparece primeiramente na Carta Olímpica de 2003 e sua função consistia em separar os custos operacionais do Comitê Organizador dos Jogos com o evento, das despesas decorrentes de infraestrutura e instalações. Ou seja, a estratégia do Comitê foi equacionar os custos da competição esportiva entre custos considerados oficialmente reais, que consistem nos gastos feitos pela instituição, dos custos advindos de outras fontes.
As despesas advindas de outras fontes – governo e iniciativa privada – referem-se aos gastos que as cidades anfitriãs acabam tendo para reformar e/ou construir novas instalações esportivas para receber os jogos, assim como as ações de reestruturação urbana como obras em aeroportos, rede hoteleira, transporte, etc. Oliveira (2012) afirma que esses gastos deixaram de ser computados como sendo do evento e se transformaram em legado para o país e/ou cidade-sede. O legado foi ainda dividido em dois aspectos, “tangíveis” e “intangíveis”, e
tem sido, atualmente, o principal argumento utilizado pelos que almejam a sua candidatura de cidade-sede.
Os aspectos tangíveis referem-se aos aportes voltados para a reestruturação urbana, conforme mencionado, além dos efeitos sobre o emprego ou do boom provocado pelos investimentos na construção civil. Já os legados intangíveis são os efeitos, de acordo com Oliveira (2012), do city marketing, ou seja, a capacidade que o evento tem de criar uma imagem positiva do lugar-sede, de aumentar o orgulho cívico de seus habitantes ou fortalecer a sua identidade. Fazem parte, ainda, da lista dos intangíveis o aumento do turismo por conta da projeção que a cidade/país alcança na mídia; o atestado internacional de competência; o estímulo ao desenvolvimento do esporte e, consequentemente, dos seus efeitos educativos; e o aumento da capacidade para atrair eventos futuros de grande porte, dada a experiência primeira – uma espécie de atestado de competência. Desse modo, o artifício discursivo principal foi o de transformar em ganho o que antes era custo do evento. Tal subterfúgio fez reduzir a valores bem menores os custos do que é realmente investido na organização do megaevento.
Assim, as cidades vão sendo seduzidas pelo “canto da sereia” dos megaeventos e suas promessas de aumento da competitividade interurbana, em um processo de renovação de suas vantagens competitivas ou de conquista de notoriedade na cena internacional (FORTUNA, 2001a; 2001b). Segundo Carlos Fortuna, “a concorrência intercidades é um efeito derivado da descentralização política e da desconcentração de funções que se acentuam à medida que as sociedades se democratizam”. Para o autor, tal processo diz respeito “tanto à captação de investimentos como à fixação local de fluxos globais ou parcelas suas, como à produção de imagens próprias da cidade. O apelo é dirigido tanto aos residentes como ao exterior e pretende reforçar a posição relativa da cidade no mercado das competências urbanas” (FORTUNA, 2001b, p. 234).
Segundo Diaz (2007), os processos de venda das cidades se assentam em dois preceitos básicos: a reordenação e a reimaginação das cidades. Os megaeventos prometem justamente acelerar esses dois processos, trazendo o uso do marketing urbano como ferramenta de reconstrução de imagem para as cidades e o estabelecimento de um “consenso social” em torno dessa, baseado em formas participativas de discussão de ações e intervenções no espaço urbano. (SILVA e ZIVIANI, 2014c). Ferreira (2006) aponta que as estratégias de publicização e marketing das cidades surgiram no início do século XX, no entanto foi nas últimas décadas que elas ganharam maior expressão. O autor faz referência ao estudo de Christine Boyer e a “economia política da imagibilidade” para explicar o modo
como as estratégias e campanhas de promoção das cidades produzem e disseminam imagem de lugares, visando atrair investidores, residentes, consumidores e turistas (FERREIRA, 2006, p. 74).
Dessa forma, a cidade acaba por se equiparar a produtos em concorrência no mercado. Ou seja, na visão de Ferreira (2006), há uma empresarialização da administração urbana e, consequentemente, um alinhamento dos modos de planejamento das cidades com as lógicas do mercado e do consumo. A reconstrução da imagem de uma cidade visa torná-la, na maioria das vezes, mais atraente para as elites locais, nacionais e internacionais. Segundo Ferreira (2006), estudos sociológicos que visam avaliar os efeitos de tais processos nas cidades têm evidenciado que nem sempre a ação alcança o crescimento econômico esperado, e sim graves problemas de segmentação social.
O resultado é a projeção de uma cidade encenada, na maioria das vezes desvinculada das condições e do pulsar da cidade real. Há um desalinhamento entre a cidade projetada, transformada e reimaginada pelo megaevento e a cidade real. A estratégia política centrada na imagem acaba por desenhar uma cidade orientada mais para o exterior, à comunidade internacional, do que para o seu interior – residentes e cidadãos. Portanto, a cidade encenada, imaginada, desenhada é seletiva e excludente, onde os grupos sociais mais vulneráveis não estão presentes no seu discurso (FERREIRA, 2006).
Um exemplo significativo é o caso do Rio de Janeiro, com as ações do plano de promoção da imagem da cidade para se tonar a capital mundial dos megaeventos. A principal delas envolveu, desde 2009, um amplo processo de invisibilização da pobreza e mascaramento das favelas, além de tentar alterar o estigma de terra da violência e do tráfico de drogas. Alguns dos exemplos mais emblemáticos são: a tomada do Morro do Alemão, em novembro de 2010, pelas tropas do exército brasileiro, noticiada por toda a imprensa nacional; a implantação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) nas favelas do Rio de Janeiro; a instalação de “barreiras acústicas” nas duas vias principais de ligação do aeroporto internacional à zona sul da cidade e à Barra da Tijuca, que na verdade são muros colocados para esconder o complexo de vilas e favelas existentes nessas regiões; a retirada das favelas das imagens aéreas e fotografias da cidade no vídeo apresentado ao COI, da campanha publicitária da Petrobrás em 2011, e do Google Maps, a pedido da Prefeitura do Rio de Janeiro (SILVA, 2015).
Conforme apontado no início deste capítulo, os megaeventos sempre fizeram parte da nossa história, o que muda nos tempos atuais são as formas de organização e os objetivos. O surgimento das exposições universais se deu num contexto em que se fazia necessário
conformar o país política e economicamente. Nesse sentido, elas se constituíram como espaços de negócio num cenário de internacionalização e disputa entre os países para se tornarem potências econômicas mundiais.
O cenário atual é outro, assim como as formas de organização e objetivos. Atualmente, o próprio megaevento se transformou num negócio, “(...) numa relação recíproca de benefícios, que incluem o prestígio nacional e a projeção mundial da cidade sede em contrapartida ao fortalecimento da ‘marca’ do evento, através de uma correta e bem estruturada organização”43 (LIRA, 2012, p. 11, tradução nossa). Trata-se de algo que representa muito mais do que uma simples competição entre os países, ou seja, em sua versão mais recente, os megaeventos ultrapassaram o objetivo inicial de confraternização entre as nações, visando, atualmente, a uma ampliação das condições de competitividade no mercado global. Em um contexto transnacional de relações, o megaevento deixa de ser um concerto ou um pacto entre nações para se transformar numa disputa não só entre cidades de diferentes países, como também entre os municípios do próprio país. Vale ressaltar a competição entre as cidades do Brasil, impulsionada pela Copa 2014, na corrida para se promoverem a cidade- sede dos jogos do torneio.
Segundo Lira (2012, p. 12, tradução nossa), “os jogos modernos são eventos ‘glocais’, constituídos como espetáculos globais, campanhas nacionais e negócios municipais. As distintas escalas de projeção atendem aos interesses específicos de cada peça integrante dos grupos de interesses, desde o global até o local”44. Ou seja, os megaeventos podem também ser caracterizados como um campo de disputa que articula diversas estratégias e, consequentemente, coloca múltiplos atores coletivos em confronto, em diferentes contextos. Segundo Dansero et al (2012), eles são, sem dúvida, uma boa oportunidade de visualizar as relações complexas entre os processos de globalização e as particularidades nacional e local, uma vez que revelam a dinâmica e as tensões do processo de globalização em diferentes níveis. A figura 1 exemplifica tal dinâmica ao revelar o número de atores envolvidos na preparação dos eventos que são, necessariamente, liderados por lógicas diferentes e se situam em escalas geopolíticas também diferentes45.
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“(...) una relación reciproca de beneficios, que incluyen el prestigio nacional y la proyección mundial de la
ciudad sede en contrapartida al fortalecimiento de la ‘marca’ del evento, a través de una correcta y bien estructurada organización”.
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“(...) los Juegos modernos son eventos “glocales”, constituidos como espectáculos globales, campañas nacionales y negocios municipales. Las distintas escalas de proyección atienden a los intereses específicos de cada pieza integrante de los grupos de interés, desde lo global hasta lo local”.
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A figura 1 revela, de maneira mais abrangente, o modo como os megaeventos esportivos acionam atores em diferentes escalas. Tomaremos, no capítulo dois, quatro e cinco, o diagrama como referência para procurar estabelecer as relações e conexões possíveis entre elementos heterogêneos e em diferentes níveis.
Figura 1 – Dinâmica global/local dos megaeventos
Fonte: elaborado pela autora da pesquisa com base em Dansero et al (2012, p. 201).
Nesse sentido, o entendimento sociocultural dos megaeventos mundiais – em particular a Copa do Mundo – implica, necessariamente, em apreender as relações complexas entre cosmopolita e local, entre aquilo que é entendido como sendo do mundo e o que é individual. Isso porque são eventos ao mesmo tempo locais, nacionais e globais, que colocam em perspectiva as culturas de comunidades imaginadas em diferentes níveis (cidade, estado e nação).
Os anos 2000 marcaram de vez a entrada do Brasil para o mundo dos megaeventos. De forma mais intensa, desde 2007 o país vem sendo palco de megaeventos culturais, esportivos, religiosos, políticos, conforme especificado anteriormente. Essa sucessão de êxitos, com uma agenda de compromissos internacionais praticamente anual, faz parte de uma estratégia de projeção massiva da cidade do Rio de Janeiro (local onde ocorreram a maioria dos eventos mencionados), em especial, e do Brasil, de forma mais geral. A conquista para sediar um evento globalmente popular como a Copa do Mundo coloca o país-sede no centro da vitrine mundial, praticamente um pretexto para, através do esporte, da cultura e dos eventos políticos, se inserir na competitividade e concorrência entre as cidades globais.
Dentre as justificativas para sediar os megaeventos, principalmente a Copa do Mundo e as Olimpíadas, estão as promessas de multiplicação de riquezas para o país, aprimoramento da infraestrutura do lugar, com a realização de intervenções urbanas num curto espaço de tempo – que jamais seria possível executá-las se não houvesse essa oportunidade única –, benefícios em diversos setores da economia e da sociedade como um todo. Tais justificativas se sobressaem à efemeridade do evento e fundamentam a certeza de que quando a Copa passar o Brasil será um lugar melhor para se viver, já que essa deixará um “legado” sem igual para o país.
Em 2007, o Comitê Executivo da FIFA designou o Brasil como anfitrião responsável por receber a Copa do Mundo em 2014. Com essa decisão, o Brasil entrou para a lista dos cinco países que sediaram mais de uma vez a Copa do Mundo, ao lado do México, da Itália, da França e da Alemanha. Entretanto, a experiência atual em muito se difere da de 1950. Não só porque o país vivia outro momento da sua história, como também e, principalmente, porque a Copa do Mundo naquela época era apenas uma competição mundial de jogo de futebol entre países.
Segundo Rolnik (2014), houve uma mudança na estrutura dos megaeventos esportivos, que até os anos 1930 deixavam poucas marcas na paisagem urbana. A partir da Segunda Guerra Mundial, os eventos passaram a ganhar importância política, o que fez aumentar o interesse dos governos em explorá-los como fonte de integração social. A percepção de sua oportunidade estratégica fez aumentar os investimentos em infraestrutura pública capaz de propiciar a promoção das atividades esportivas. Neste período, o protagonismo estatal era o maior investidor e interessado.
Contudo, transformações significativas ocorreram na estrutura dos megaeventos no início dos anos 1980 que, de acordo com a autora, passou a ser marcada pela “participação crescente das corporações privadas na promoção dos jogos”, além das mudanças ocorridas nas políticas urbanas, “sob o marco da ascensão do neoliberalismo como doutrina e prática econômico-política”. Dessa forma, os eventos esportivos se transformaram num verdadeiro “stand de vendas global” (ROLNIK, 2014, p. 66), mediados pelo agir capitalista agenciado pelo poder do dinheiro, do lucro e do rendimento: um potente negócio.
Mediadas pelos organismos paraestatais de promoção dos jogos – como FIFA e COI – e por meio do ativismo dos próprios governos, Copa do Mundo e Olimpíadas passaram então, crescentemente, a constituir uma espécie de branding, uma grande marca, capaz de conferir a legitimidade de sua aura feita de paixões nacionalistas e performáticas a todos os produtos associados ao evento. (Ibidem)
Na mesma linha dos argumentos defendidos por Raquel Rolnik, Horne (2012) afirma que o interesse dos países e cidades em sediar os megaeventos vem aumentando significativamente. Primeiro porque o desenvolvimento das novas tecnologias de comunicação de massa, especialmente a televisão satélite, criou uma base para o que o autor chama de uma audiência global em torno dos megaeventos esportivos. Isso acarretou, desde a década de 1960, um aumento na disputa entre as emissoras para a compra dos direitos de transmissão dos jogos e competições, um negócio milionário. A segunda razão refere-se ao fato de que os megaeventos desenvolveram um verdadeiro negócio transnacional entre um número reduzido de patrocinadores, que elaboram produtos linkados à marca do evento (camisas, bonés, bebidas, comidas, etc.) e os comercializam nos estádios e entorno com exclusividade total.
Nesse aspecto, o porte do evento atualmente é completamente outro46, já que a FIFA soube transformar os espetáculos esportivos em grandes negócios, fazendo da Copa do Mundo um verdadeiro “teatro milionário” (WHITAKER FERREIRA, 2014). Esses eventos passaram a se associar às grandes obras de requalificação urbana. “Assim, ao redor de um grande estádio, de um pavilhão de exposições, começaram a ser erguidos centros de negócios, bairros de alto padrão, etc. Operações casadas em que governantes e investidores saíam ganhando, com a vantagem do apoio popular” (Ibidem, p. 9).
O apoio popular acontece por causa da capacidade da Copa do Mundo de buscar consenso em torno da preparação do país para sediar um dos eventos mais importante do mundo. Isso porque uma das características dos megaeventos é o seu cunho cultural (agir cultural), já que eles conseguem encenar/dramatizar uma unidade ao mobilizar questões como orgulho patriótico, autoestima da população e otimismo por parte dos cidadãos. Para que isso ocorra, há um investimento massivo na construção de uma imagem positiva do país, já que “bilhões de pessoas assistem simultaneamente aos jogos, outros bilhões são bombardeados meses – e até anos – antes de sua realização, configurando uma operação comunicacional de grandes proporções” (ROLNIK, 2014, p. 66).