Desde o século XIX é sabido que os grupos de construtores dos sítios concheiros, definidos por sambaqui, eram anteriores aos ceramistas agricultores que habitavam a costa na época do “Descobrimento”. Orssich reafirma esse quadro sem, no entanto, estabelecer um quadro cronológico preciso sobre sua temporalidade no Espírito Santo.
Durante o levantamento do PRONAPA, as áreas onde se identificaram sítios pré-cerâmicos foram a baía de Vitória, os rios Piraquê-Açu e Piraquê-Mirim, Mariricu, São Mateus e Reis Magos. Pela primeira vez contava-se com a utilização de datações rádiocarbônicas em todos os Estados do país. Com as datações absolutas segue uma estruturação de cronologias culturais mais concretas para a pré-história brasileira, e por sua vez para o Espírito Santo, do que as sequências cronológicas culturais sobre a pré-história regional.
Os principais sítios pesquisados para o pré-cerâmico foram o Potiri 2 (ES-VI-6), Timbuí (ES- VI-15) e o Campus II (ES-VI-10). Para a área desses sítios foram realizados cortes estratigráficos. Esses sítios foram enquadrados na Tradição Itaipu (PEROTA, 1972b).
Foram identificados para o período dois tipos de sítio arqueológico, o sambaqui, com predomínio de material malacológico e o sítio lítico da Tradição Itaipu, Fase Potiri, cronologicamente mais recente que o sambaqui, com a presença pontual de material malacológico em camada escura.
O arqueólogo Igor Schmitz tece considerações sobre a análise lítica elaborada pelo PRONAPA e relata:
Os sítios e componentes pré-cerâmicos foram organizados, à maneira dos cerâmicos, em grandes tradições, divididos em fases, que ordenavam componentes com a ideia de mostrar sua distribuição no tempo e no espaço. Fatores climáticos e ambientais e, em menor escala, difusão cultural e contato entre grupos poderiam ajudar a entender as características e a distribuição (SCHMITZ, 2007, p. 24).
Atualmente a data mais antiga de ocupação do território espírito-santense é de 7000 AP, obtida por Perota, em sítio de caçador-coletor a céu aberto, no município da região montanhosa de Santa Leopoldina (PEROTA, 1995). Entretanto, durante os primeiros anos do Programa, as pesquisas do Espírito Santo foram relacionadas aos resultados obtidos na costa fluminense.
116 A data mais antiga até aqui obtida A.D.515 (SI-831), para a tradição pré- cerâmica poderá ser recuada quando forem obtidas datas para os sambaquis que são encontrados em quase toda costa do Estado principalmente na baía de Vitória, nos rios Piraque Açu, Piraque Mirim, Mariricu e Reis Magos. Esta afirmação se faz tendo por base as datações dos sambaquis da região de Macaé (RJ) que foram avaliadas em 2025 A.C. (SI-711) (PEROTA, 1971a, p. 15).
O próprio Salles Cunha, através de suas pesquisas em sambaquis capixabas e fluminenses, indica similaridades entre os sambaquis das referidas regiões, apresentando uma releitura das pesquisas arqueológicas e de antropologia física realizadas em sambaquis de diversos pontos do país (CUNHA, 1957, p. 399) (Figura 19).
Figura 19: Primeiro mapa do PRONAPA do ES, com os sítios arqueológicos do
litoral norte do Espírito Santo.
Fonte: Perota (1971a).
No entanto, na época do PRONAPA, a profundidade temporal atingida foi de 4000 anos antes do presente, por datação relativa às datas obtidas no Estado do Rio de Janeiro por C14. Já que havia uma semelhança, segundo os critérios metodológicos ali aplicados, entre os sítios fluminenses e
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capixabas, a associação pôde ser estabelecida. No Espírito Santo, para o período pré-cerâmico, foi obtida uma datação por C14 de 1435±80 (SI-831), com amostras do sítio ES-VI-10 ou do Campus II (PEROTA, 1975).
Como citado, muitas vezes a construção das cronologias desse período se deu por datações relativas, tendo como parâmetros a região fluminense, na ausência de datações por C14. Os procedimentos metodológicos em campo seguiram pequenos cortes estratigráficos de 1 x 3m no centro identificado do sítio (sedimento mais escurecido). Na estratigrafia, a predominância de material malacológico foi descrita em quatro espécimes: ostrea arbórea SP, lucina jamaicensis SP,
Anomalocardia brasiliana, mytella SP e natica SP, havendo grande predominância do tipo ostrea
SP.
Sobre a volumetria do sítio, a literatura pretérita indicava os sambaquis do Espírito Santo com mais dez metros de altura (FERREIRA, 1936). Contudo, os sambaquis estudados por Perota ficaram em torno de 3 metros de altura, com 30 a 40 metros de extensão.
O estudo dos sambaquis foi marcado pelo confronto com a construção civil, onde seus materiais foram coletados de forma assistemática pelas comunidades ribeirinhas e indígenas de Aracruz, ES, até meados da década de 1960 e enviados para os grandes centros, como Rio de Janeiro (COSTA, 2008, p. 2).
Posteriormente, Perota incorpora novos dados extraídos de pesquisas desenvolvidas pela USP, para reconstituição dos níveis de flutuação marinhos da costa atual do rio Doce. Muitos sambaquis foram datados e seus dados incorporados à pesquisa arqueológica do Espírito Santo, com datas entre 4000 e 4500 AP (SUGUIU; MARTIN; DOMINGUEZ, 1982).
O material cultural mais abundante é o lítico, produzidos com lascamento por percussão direta, além do polimento e picoteamento. A utilização do termo lascamento bipolar (bigorna) será incrementado após considerações de André Prous aos integrantes do PRONAPA. Dentro das nomenclaturas tipológicas do Guia da indústria lítica da América do Sul (Figura 20).
Sobre as lascas, predominantemente produzidas em quartzo, não apresentavam retoque tanto na Tradição Itaipu quanto nos Sambaquis. O granito e o diabásio foram identificados como matéria- prima na manufatura de artefatos polidos e percutores, além de base de percussão.
Os tipos de artefatos identificados foram agrupados e descritos a partir da técnica de confecção usada e função. A indústria lítica foi dividida em: a) artefatos lascados de função ativa; b) artefatos polidos com função ativa; c) artefatos picoteados de função ativa; d) artefatos polidos de função passiva; e) artefatos não modificados de função ativa e f) artefatos não modificados de função passiva.
A indústria sobre osso foi confeccionada com técnicas de polimento. Os líticos polidos foram classificadas em dois grupos: a) pontas de projétil e b) objetos de adorno. (PEROTA, 1972b).
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O volume de material malacológico, com menor incidência na estratigrafia da Tradição Itaipu, apresenta-se de maneira pontual na camada húmica, havendo concentrações maiores nas feições de fogueira. Outra diferença notável é que as estruturas funerárias dos Sambaquis estão em meio aos montes de conchas, em enterramentos primários, postos diretamente na camada húmica, sem conchas com o corpo. Sobre um sítio situado na margem do rio Reis Magos, o sítio Potiri 2 (ES-VI- 6) Perota relata:
Registramos na camada húmica 6 sepultamentos, os quais estavam dispostos uns sobre os outros, sem qualquer intencionalidade de orientação. Muitas vezes não conseguimos filiar alguns ossos que estavam separados do seu todo. (PEROTA, 1971a, p. 151).
Para a caracterização do período tanto nos sambaquis quanto na tradição Itaipu, não foram atribuídas diferenças ao conjunto artefatual. Somente no modelo de assentamento em construir os concheiros e as estruturas funerárias. Nesse primeiro momento não havia informações sobre quando terá sido o momento de ruptura depois do qual os sambaquieiros teriam abandonado a coleta intencionada de conchas e construção dos montes. Essa informação Perota obterá localmente, na fase em que, como professor da UFES, consegue estabelecer datações mais precisas sobre o momento de mudança cultural (PEROTA; ASSIS, 1992).
Entretanto, o Sítio Campos II oferece a datação indicando o fim do período e a chegada dos grupos ceramistas agricultores, que comporá o cenário cultural da chegada portuguesa, no Espírito Santo do século XVI, composto dos falantes dos troncos linguísticos Macro jê e Tupi-guarani.
Os dados das pesquisas arqueológicas produzidas até o presente não possibilitam afirmar se o desaparecimento das culturas pré-cerâmicas foram motivadas pelo movimento mais belicoso dos grupos ceramistas, seguido da posse gradual do território e subsequente extermínio de população, ou se no processo de expansão ocorreu a assimilação “pacífica” e intensiva dessas populações ou se ocorreram ambas as situações, levando ao etnocídio (GASPAR, 2000).
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Figura 20: Estampa-34 do primeiro relatório geral do Espírito Santo, foto em preto
e branco, onde se vê artefatos líticos e ósseos.
Fonte: Perota (1971a).
Editoração: Laboratório de Arqueologia Guarani, Eduardo Pereira Matheus.