Com base no exposto acima, empreenderemos aqui a análise, levando em consideração a asserção de que o professor é insubstituível.
Quadro 04: Texto retirado do corpus. (Sem título)
É impensável supor a máquina substituindo o homem, especialmente quando se fala em educação. É claro que o aparato sofisticado das novas tecnologias pode e deve ser utilizado como instrumento para a ação pedagógica. Todavia, considerar que esse instrumento possa tomar o lugar da figura do professor é desconhecer o significado profundo da presença física e humana do professor no complexo processo de ensino-aprendizagem.
De fato, com os recursos das novas tecnologias, as crianças e jovens podem se apropriar de conhecimentos de forma mais dinâmica e, às vezes, até mais rápida. No entanto, se se considerar que, por esse fato, o papel do professor se torne secundário ou mesmo dispensável, estaremos reduzindo a educação ao simples exercício de propiciar o conhecimento, fazendo do estudante mero receptador de informações.
Isso, em verdade, significaria um retrocesso às concepções tradicionais de educação, para quem o aluno seria sempre um elemento passivo e vazio, pronto a receber um saber que outro lhe depositasse.
Em verdade, antes de qualquer transmissão de conhecimento, o fazer pedagógico representa um exercício de formação integral do sujeito, desde o nível intelectual até os níveis morais e afetivos. Nesse sentido, o papel do professor é fundamental para que se criem as condições necessárias a essa formação holística do indivíduo, capaz de torná-lo competente, criativo, crítico, ético e afetivamente preparado para a vida em sociedade. É claro que isso não é possível no universo frio e mecânico da era tecnológica. Onde há um professor, há afeto. E não se faz educação sem esse ingrediente tipicamente humano.
Fonte: Elaborado pela autora (2014)
Como podemos perceber, no discurso do professor, fica evidente uma concepção de educação humanista, segundo a qual o papel do professor é garantir a construção do conhecimento por meio da interação e do compartilhamento. Também podemos evidenciar que, para o autor desse artigo de opinião, a afetividade é essencial no trabalho docente. Nesse sentido, esse discurso se alinha ao discurso de Paulo Freire (1999), em que este reconhece que a afetividade não se acha excluída da cognoscibilidade.
Ainda podemos afirmar que a aproximação com o pensamento freireano de educação se dá na medida em que o produtor do texto focaliza a educação na perspectiva da formação de sujeitos aptos para ler o mundo.
É oportuno salientar que esse discurso também aponta para a ideia de que a natureza da pedagogia escolar não se funda apenas nas finalidades expressas nas justificativas e objetivos definidos pelo professor ou pelo sistema escolar, mas, sobretudo, comporta crenças
reflete os valores, as ideologias e os princípios estruturadores que dão significado às histórias, às culturas e às subjetividades definidoras das atividades dos educadores”.
Em outra perspectiva, ao enunciar: “É impensável supor a máquina substituindo o homem, especialmente quando se fala em educação”, podemos notar que o discurso do
professor sobre si mesmo caracteriza-se como uma réplica ao enunciado contido na prova,
particularmente, do primeiro ponto de vista, qual seja: “As novas tecnologias, no futuro, irão substituir o professor na sala de aula”. Para Bakhtin (1990, p. 201), “toda linguagem é um
ponto de vista, uma perspectiva sócio ideológica dos grupos sociais e dos seus representantes
personificados”. Essa réplica do autor do texto em tela em relação ao enunciado da proposta
de redação caracteriza-se como uma resposta antecipada, direcionando a orientação discursiva para o ouvinte/leitor. Essa é uma estratégia de que o autor se utiliza para sustentar o seu discurso retórico, fortalecendo-o e garantindo, desse modo, sua autoria.
Também é notável que, na construção do seu discurso, o autor do artigo de opinião
não só lança mão da pergunta retórica, “O que dizer das máquinas?”, mas também mantém
um diálogo explícito com o leitor, o que fica visível, por exemplo, quando escreve: “esta
aparente redundância é proposital, leitor”.
Os enunciados abaixo também são exemplos que contemplam a asserção “o professor é insubstituível”.
[...] entendemos que as novas tecnologias podem vir se aliar ao professor, mas jamais o substituirá na sua prática, pois acreditamos numa educação cujo objetivo é formar cidadãos não só conhecedores de conceitos, de conhecimentos científicos, contudo cidadãos críticos e conscientes do seu papel na sociedade. EC287AO68.
É impensável supor a máquina substituindo o homem, especialmente quando se fala em educação. [...] considerar que esse instrumento possa tomar o lugar da figura do professor é desconhecer o significado profundo da presença física e humana do professor no complexo processo de ensino-aprendizagem. EC248AO56.
[...] É indiscutível que a presença do professor em sala de aula seja fundamental para a aprendizagem, pois não há aparato tecnológico, por mais moderno que seja, que consiga substituí-lo na sua função essencial, que é ser mediador do conhecimento. EC263AO37.
[...] estamos compreendendo a totalidade do processo educativo que se caracteriza pela presença
insubstituível do professor em vez de uma relação meramente técnica. EC273AO104.
Na condição também de agente transformador, o professor jamais será superado por qualquer nova invenção tecnológica que possa surgir no mundo. EC278AO3.
[...] acreditar que essa tecnologia substituirá o professor em sala de aula é desconsiderar que a essência do processo educativo está centrada na humanização e no compartilhamento sensível dos saberes. EC324AO113.
Conforme podemos notar, para esses sujeitos, o professor ocupa um lugar privilegiado no processo de ensino e aprendizagem e, portanto, para eles, são insubstituíveis. Desse modo, observamos que é possível estabelecer uma relação entre esse discurso e aqueles voltados para a natureza do trabalho educativo. Assim, de acordo com Duarte (1998, p. 85):
[...] o trabalho educativo é [...] uma atividade intencionalmente dirigida por fins. Daí, o trabalho educativo diferenciar-se de formas espontâneas de educação, ocorridas em outras atividades, também dirigidas por fins, mas que não são os de produzir a humanidade no indivíduo. Quando isso ocorre, nessas atividades, trata-se de um resultado indireto e inintencional. Portanto, a produção no ato educativo é direta em dois sentidos. O primeiro e mais óbvio é o de que se trata de uma relação direta entre educador e educando. O segundo, não tão óbvio, mas também presente é o de que a educação, a humanização do indivíduo é o resultado mais direto do trabalho educativo.
Nessa mesma perspectiva, Moacir Gadotti, em sua obra Boniteza de um sonho: ensinar-e-aprender com sentido, defende que “[...] não se pode imaginar um futuro para a humanidade sem educadores. Os educadores, numa visão emancipadora, não só transformam
a informação em conhecimento e em consciência crítica, mas também formam pessoas [...]”
(GADOTTI, 2003, 17). Prosseguindo em sua reflexão, o autor conclui que os professores
“[...] fazem fluir o saber – não o dado, a informação, o puro conhecimento – porque
constroem sentido para a vida das pessoas e para a humanidade e buscam, juntos, um mundo mais justo, mais produtivo e mais saudável para todos. Por isso, eles são imprescindíveis”.
Nos enunciados produzidos pelos professores, é perceptível a compreensão não só da extrema relevância desse profissional para a sociedade, mas também a de que não se trata de profissão meramente técnica. Esse posicionamento dos professores dialoga com outras vozes da esfera pedagógica. Assim, para Gadotti (2003, p. 26), “[...] numa concepção emancipadora da educação, a profissão docente tem um componente ético essencial. Sua especificidade está no compromisso ético com a emancipação das pessoas. Não é uma profissão meramente
técnica”. O mencionado autor também lembra que “[...] Não há civilização sem professores. [...] Não há nação sem professores” (GADOTTI, 2003, p. 21).
Corroborando essa mesma ideia, Mellouki e Gauthier (2004) advogam que é necessário acabar com o discurso de que os professores são técnicos do ensino. Sendo assim,
advertem: “[...] tal ideia é popular especialmente entre os críticos menos familiarizados com a
complexidade do trabalho docente e entre os críticos mal-intencionados” (MELLOUKI; GUATHIER, 2004, p. 543). Podemos afirmar que, ao assumir a ideia de que a relação
professor-aluno se caracteriza para além da técnica, o professor deixa explícita em seu discurso a compreensão da complexidade do trabalho docente. Vale notar que a dimensão técnica é apenas uma das vertentes do trabalho docente.
Ao atribuir à educação o objetivo de formar “cidadãos críticos e conscientes do seu papel na sociedade”, o discurso do professor dialoga diretamente com os documentos oficiais,
tais como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), posto que esta, no seu Art. 2, expressa que a educação “[...] tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Já os PCN, na sua Introdução, deixam explícito que a educação tem de ter o compromisso com a construção da cidadania (PCN, 1997). Esse posicionamento dos professores também evoca o discurso assumido por Giroux (1997) quando este enfatiza que os professores devem trabalhar para criar as condições que dão aos alunos a oportunidade de se tornarem cidadãos críticos comprometidos. É claro também que, implícito no seu dizer, os professores estão assumindo, conforme Paulo Freire, que a educação é um ato eminentemente político.
Outro aspecto relevante que emerge desse discurso dos professores diz respeito ao caráter interativo e humano do trabalho educativo. Desse modo, temos:
[...] a tecnologia tem sido apenas auxiliar no processo de ensino-aprendizagem e não poderia assumir o papel do professor [...] pessoas precisam de pessoa para terem uma formação humana. EC253AO46. [...] quando falamos em aprendizagem nada substitui a interação entre professor e aluno. [...] Apesar de tudo que foi inventado, ainda não há algo para substituir a interação do humano “aluno” e o humano “professor”. EC264AO38.
[...] a tecnologia jamais substituirá o professor que lida com seres humanos [...]EC280AO65.
[...] máquinas tratam todos por “atacado”, desumaniza, não interagem com as particularidades humanas [...]EC285AO66.
[...] o professor jamais poderá ser substituído, porque a afetividade e suas relações só acontecem com os
seres humanos EC289AO10.
[...] as inovações científicas não são capazes de substituir o material humano dotado de conhecimentos e princípios morais que é o professor [...]. EC309AO30.
[...] tecnologia alguma substituirá a figura do professor, uma vez que só um ser humano é capaz de interagir, despertar sentimentos, crer e apostar no outro [...]EC310AO89.
[...] o diferencial se faz com interação humana, troca. E para isso, a figura do professor é imprescindível. EC320AO35.
[...] nenhuma dessas tecnologias pode substituir o contato de um ser humano com outro na construção do saber [...] é de fundamental importância esse processo de interação dos sujeitos [...]EC322AO98.
Como podemos constatar, no discurso dos professores, é recorrente a ideia não só de que o professor é insubstituível nos processos de ensino e aprendizagem, mas a de que o trabalho educativo se assenta na interação entre seres humanos. É trabalho feito com humanos para humanos. Nesse sentido, é possível aproximar esse discurso da compreensão de Tardif e Lessard (apud ENS; GISI; EYNG, 2011, p. 318), posto que, para esses autores, o trabalho
educativo “acontece em um processo de interações humanas”. E, desse modo, “ensinar é
trabalhar com seres humanos, sobre seres humanos e para seres humanos” (grifos nossos). Ao
assumir que “a educação é uma atividade humana”, evidencia-se um posicionamento
afirmativo com relação ao ato de ensinar, já que este é parte integrante do trabalho educativo (DUARTE, 1998).
Ao reconhecer o caráter humano do trabalho docente, o discurso dos professores também mantém, mais uma vez, um diálogo com o discurso de Moacir Gadotti, dado que, para este, “[...] a escola, centro de reflexão da comunidade, é um lugar humano, enquanto é uma presença de homens que orientam a todo instante a tomada de consciência, visando uma aprendizagem de humanidade. Ela não é um continente abstrato e geométrico; é um lugar
humano concreto” (GADOTTI, 1975, p. 110).
Freire (1967), discutindo o papel da educação na humanização19, observa que não se
pode perceber a educação a não ser como um “querer-fazer humano” que se efetiva no tempo
e no espaço, na relação dos homens entre si. Desse modo, salienta que:
[...] a concepção humanista e libertadora da educação jamais dicotomiza o homem do mundo. Em lugar de negar, afirma e se baseia na realidade permanentemente mutável. Não só respeitam a vocação ontológica do homem de ser mais, como se encaminha para esse objetivo [...]. (FREIRE, 1967, p. 03).
A concepção de humanização de Paulo Freire é a de que o ser humano tem a
capacidade de entender o mundo e de agir em favor de sua transformação. “[...] É no agir, no
movimento de ser sujeito, que nos tornamos seres humanos. É esse sentido de humanização por meio da práxis que define a ontologia de Freire e que subjaz sua epistemologia e
pedagogia” (AU, 2011, p. 259).
Na obra freireana, essa categoria é ainda mais explicitada quando o autor discute o papel que assumem, na sua pedagogia, a amorosidade e a esperança, por exemplo.
19
Palestra realizada em maio de 1967, em Santiago, sob o patrocínio da OEA, do governo do Chile e da Universidade do Chile. O texto dessa conferência está disponível em: <http://drb- assessoria.com.br/7PAPELDAEDUCACAONAHUMANIZACAO.pdf>. Acesso em: 22 abr. 2014.