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2. Mekân

2.4. Ev içi Pratikler

2.4.1. Evde Mekânsal Organizasyon

Um marco da indústria cinematográfica sobre a Amazônia foi Floresta das esmeraldas (1985)36. O filme britânico do diretor John Boorman é quase um norte-americano em sua epistemologia, traz o discurso protecionista envolvido por uma aura de emotividade na trama. O filme é considerado pelos criadores uma aventura ecológica ficcional. No roteiro, as personagens principais são estadunidenses e o argumento se assemelha às projeções cristalizantes de Hollywood. O tema central da obra é a vida selvagem em choque com a urbana. Bill Markham, (Powers Boothe) é o engenheiro americano que se muda para a Amazônia com a finalidade de trabalhar na construção de uma represa hidrelétrica. Bill traz a esposa e seus dois filhos consigo. Quando leva o caçula Tommy (Charles Boorman, filho do diretor) para visitar a obra na floresta, o garoto é sequestrado pelo ―povo Invisível‖, uma tribo da floresta. O menino é criado como índio, enquanto o pai passa dez anos à sua procura. Quando finalmente encontra Tommy, descobre que o filho não pode mais ser integrado à civilização urbana, tornou-se um príncipe indígena. Para o pai, o filho é um desaculturado. Bill vê o filho em meio a uma batalha entre o "povo invisível" e o "povo feroz", tribo de índios cruéis e canibais. Estes últimos, antagonistas, adquirem armas com contrabandistas. O pai de Tommy é ferido, mas em um ritual xamânico é curado.

Bill, então, indaga o Cacique, em busca de respostas para o rapto de Tommy, chamado pelos indígenas de Tomé. O líder tribal diz que não queria deixar um menino tão lindo viver num mundo sem floresta. É evidente na justificativa o apelo emocional, romantizado. Há duas exaltações banhadas de lirismo: a do menino guerreiro, um loiro de olhos azuis e da floresta como salvadora.

36

Cf: YOUNG, Theodore Robert (2001) "Retratos do Brasil no Cinema Norte-Americano Contemporâneo". p 415- . in: TORRES, Sonia (org). Raízes e Rumos: Perspectivas Interdisciplinares em Estudos Americanos.1 ed. Sette Letras: Rio de Janeiro, RJ.

(Figura 16)

Tommy e o Bill Markham na tribo do “povo invisível”

A concepção do extraordinário também aparece em vários momentos da narrativa. Surgem também vários pequenos conflitos que se movem no interior do filme. O mais importante deles é quando a companheira de Tommy, a índia Kachiri (a brasileira Dira Paes), e outras índias são raptadas pelo ―povo feroz‖. As moças são vendidas aos brancos contrabandistas que as obrigarão a se prostituir. Pai e filho, então, unem-se para resgatar as índias em um bordel.

As esmeraldas representam no filme a reescrita do mito do Eldorado. Apesar de aparecerem no título do filme, são pouco aproveitadas no roteiro. O povo invisível utiliza um pó de esmeraldas para adquirir a invisibilidade. As pedras mágicas ficam muito longe, perto à hidrelétrica. Tommy, no início da trama, vai até lá procurá-las, mas as troca pela índia Kachiri, por quem se apaixona.

(Figura 17)

O tesouro é uma estrutura recriada do imaginário, comporta os modelos europeus de reconhecimento da Amazônia. A possibilidade de enriquecimento é uma utopia, revigorada a cada século, ressignificada em muitos lugares do mundo. Pizarro sintetiza as versões do Eldorado: ―O mito fala da existência de um cacique que se banha numa lagoa e após o banho de água, recebe um banho de ouro em pó [...] A estrutura do mito teria, então, três elementos em suas distintas variantes: o cacique Dourado (o príncipe), uma lagoa e o ouro em pó‖ (2012, p. 81).

No filme de John Boorman, alguns costumes indígenas descritos por viajantes são incorporados às práticas dos índios invisíveis como queimar os mortos e comer suas cinzas, o índio incorpora o espírito de um animal, o ritual de flagelo com formigas para a passagem do jovem à vida adulta. Com cenas de ação, lutas, rituais indígenas. Floresta das Esmeraldas (1985) propõe uma miscelânea com ingredientes do imaginário colonizador e outros do contemporâneo como o combate ao desmatamento e à proteção aos povos indígenas. O herói indígena é europeu, raptado e educado pelos índios. Bill Markham categoriza o estrangeiro arrependido. Depois de imergir nos costumes indígenas, de ser possuído pelo espírito de um tigre e lutar ao lado da tribo para salvar as índias da vida promíscua, arrepende-se das ações destrutivas nas quais trabalhou. O filme, então, tem caráter indigenista e ambientalista como pano de fundo, Bill é o estrangeiro que repensa seu agir depois da experiência de contato com os ―primitivos‖. Há uma construção romântica dos índios, que são atléticos, fortes e bonitos, embora apareçam sujos e seminus. Em contraposição, o desenvolvimento e a defesa ao território indígena, os aculturados e os urbanos, o primeiro mundo e o Terceiro Mundo aparecem em contraste. A Belém da década de 1980 é apresentada como uma cidade urbanizada, mas repleta de miséria. Os "índios invisíveis" sabem que a Hidrelétrica trará cada vez mais a presença do branco ameaçador, então, fazem um ritual para invocar os sapos. O coaxar dos anfíbios traz uma chuva poderosa e a barragem não suporta. ―Assim Boorman completa o círculo de atribuir todo o conflito cultural das Américas à presença euro- americana. Na conclusão do filme, depois da destruição da barragem, graças em parte à magia indígena, o diretor reestabelece o cenário idílico‖ (YOUNG, 2001, p. 420).

O exagero não surpreende em filmes de ficção produzidos pela indústria cultural para arrematar grandes plateias. Para estarrecimento do espectador, a legenda final, depois dessa construção embaralhada, assegura: ―Esta história é baseada em fatos reais‖. Obviamente, a ameaça de destruição da floresta é real na Amazônia, a história de Bill e Tommy, impossível. Quanto às referências objetivas, as imagens da represa lembram a Hidrelétrica de Tucuruí

construída no Pará. No princípio do século XXI, a produção de energia através de Hidrelétricas continua no projeto político-econômico dos governos liberal-democráticos brasileiros. As tribos indígenas, de fato, combatem tais propostas, invadem e param as obras, como é o caso de ações realizadas em Belo Monte/PA, cuja represa está em construção. Quando o cinema se apropria dessas mais recentes discussões e aglutina os imaginários do passado e do presente, constatamos a manutenção de estereótipos, a (re)construção e criação de novas formas fixas de pensar a região. Algumas tomadas urbanas são gravadas em Belém do Pará, de onde podem ser observados da sacada de Bill os prédios e, ao fundo, a Baía do Guajará. Numa das cenas iniciais, Bill vai ao encontro da esposa que trabalha como voluntária e está vacinando uma centena de amazônidas pobres. O cenário da gravação é o Bairro de Nazaré, identificado pela presença de prédios históricos e pela Avenida de mesmo nome apresentada em uma cena.

Floresta das Esmeraldas (1985) foi a primeira grande produção da década de 1980 sobre a Amazônia, depois dela vieram muitas outras construções da indústria cultural. A de maior repercussão na década seguinte foi Lambada, a dança proibida (1990), de Greydon Clark.