• Sonuç bulunamadı

Em janeiro de 2003 iniciamos o procedimento de prospecção de campo, com o objetivo de eleger a cooperativa-foco deste estudo. Esta fase da pesquisa foi bastante extensa e contou com várias etapas até sua conclusão, com a escolha da cooperativa em outubro do mesmo ano. Importante ressaltar a suspeita de que foi justamente o rigor na determinação dos critérios do processo de prospecção que propiciou o encontro com a experiência relatada a seguir, o que, por sua vez, nos exigiu um novo posicionamento dos objetivos da pesquisa, processo mais tarde apresentado.

A primeira etapa do trabalho de campo consistiu, portanto, na definição de algumas características que a experiência autogestionária deveria apresentar, de modo a garantir que a pesquisa pudesse ser realizada a contento, tendo em vista os fenômenos que pretendíamos enfocar. Terezinha, cooperada da UNIVENS, sintetiza muito bem os principais critérios que nortearam o processo de escolha da cooperativa:

Pelo que eu entendi, tu conseguiu achar a cooperativa que caiu como uma luva pra ti, em tudo que tu tava procurando: que já está há um certo tempo no mercado, que já está estabilizada sócio e financeiramente, e que tem um pessoal que trabalha dentro da comunidade, que se envolve com ela diretamente. Assim dá pra ver como é que a gente se desenvolve dentro do bairro, da família, de tudo. (Terezinha)

- A cooperativa deve existir há pelo menos dois anos. Este critério buscou garantir a existência de uma vivência ininterrupta e cotidiana da autogestão por um período que ultrapassasse o processo de formação inicial da cooperativa.

- A cooperativa deve ser autogestionária e contar com a participação cotidiana dos membros em seus assuntos. Além de tentar garantir a legitimidade da autogestão da experiência a ser estudada, consideramos necessárias a participação e intervenção dos cooperados no cotidiano da cooperativa. Com isso, desejávamos que “o uso da voz e do voto” não ficassem restritos aos espaços formais de reunião (assembléias) que, em muitos casos, têm baixa freqüência e nem sempre conseguem ultrapassar como objetivo a mera ratificação das ações do Conselho de Administração (Ortellado, 2003).

A esse respeito, observamos também o poder e a importância dos processos produtivos na determinação da organização e das relações de trabalho (Biazzi, 1994). Em algumas das cooperativas visitadas por ocasião da prospecção de campo, notamos que certos processos de produção limitam consideravelmente a interação e a participação cotidiana dos trabalhadores. Mesmo considerando a dimensão técnica dos processos organizativos como um campo socialmente construído e, portanto, passível de contestação e mudança (Spink, 1996; Sato, 1997), optamos por excluir do procedimento de escolha aquelas cooperativas cujas peculiaridades organizativas dificultassem a interação freqüente entre seus sócios-trabalhadores, uma vez que desejamos focalizar as repercussões psicossociais da vivência cotidiana da autogestão.

- A cooperativa deve gerar renda efetiva para a maioria de seus membros. A definição dessa condição como critério necessário para a escolha da cooperativa apoiou-se na concepção de relações autogestionárias de trabalho que adotamos aqui. Ou seja, trata-se de relações autogestionárias travadas no cerne de um processo organizativo com fins econômicos que, portanto, tem como principal objetivo a

geração de renda para seus trabalhadores, através da realização e da comercialização de uma determinada atividade produtiva. Sendo assim, entendemos que a vivência da autogestão no trabalho, com todas as suas características e riquezas, só se concretiza completamente quando seus agentes conseguem garantir a renda estável e necessária para o sustento próprio e o de suas famílias, a partir dos resultados desta experiência.

- A cooperativa deve manter fortes relações com o seu entorno social. Tendo em vista que parte dos objetivos da pesquisa focaliza possíveis mudanças ocasionadas pela vivência da autogestão nas relações dos sujeitos com o bairro e com seus vizinhos, consideramos sumamente importante a existência de ligações estreitas e cotidianas entre esses campos. Por exemplo, caso os trabalhadores da cooperativa escolhida residissem em bairros diferentes entre si e/ou a cooperativa não estabelecesse relações diretas com as pessoas que residem ou trabalham em seus arredores, a prática da pesquisa neste aspecto acabaria se tornando mais trabalhosa e complexa, ainda que possível.

Depois da definição dos critérios acima, fizemos um breve levantamento das principais instituições da Economia Solidária atuantes no país – especialmente no estado de São Paulo – uma vez que elas servem como marcos de encontro de vários empreendimentos econômicos solidários (Gaiger, 2004). Após rápidas consultas bibliográficas sobre esse campo, nos reunimos com formadores ou técnicos que trabalham em algumas destas instituições (ITCP-USP, UNISOL e ADS-CUT) e, a partir disso, elegemos cooperativas para visitar e apresentar a proposta da pesquisa. Entre os meses de março e junho de 2003 realizamos esses encontros, buscando levantar o máximo de informações possível, tanto institucional quanto informal, sobre as cooperativas e seus respectivos grupos de cooperados. Dessa forma, tomamos conhecimento indireto de dezenas de empreendimentos e visitamos diretamente quatro cooperativas.

Terminada essa etapa, parecia imperativo rever os critérios delineados para a escolha da cooperativa, uma vez que nenhuma das experiências visitadas ou conhecidas à distância (a partir das leituras ou dos relatos dos técnicos) conseguia contemplá-los a contento. Esse fato parece apontar para o caráter incipiente, ainda que em franco desenvolvimento, do campo da Economia Solidária no Brasil (Souza,

2002). Muitas dessas cooperativas apresentavam parte dos critérios como, por exemplo, uma boa participação democrática dos cooperados no cotidiano, além de uma relação bastante fluente com o entorno do bairro em que se encontram. Entretanto, nesses casos, ainda não conseguiam gerar renda para a maioria do seu quadro social. Além dessa, outras tantas combinações entre a presença dos critérios ocorriam, sem que houvesse, no entanto, um único caso que contemplasse todos.