Já havíamos referido em outras passagens um curioso fato, sintetizado nas palavras de Idalina (Fio Nobre): “fomos chamadas de loucas muitas vezes”. Isto ocorreu com as trabalhadoras da Justa Trama e também com as fundadoras da Univens (Andrada, 2009a). Os ânimos necessários para fundar na atualidade, sem muitos recursos, um empreendimento em autogestão, livre iniciativa de seus trabalhadores, podem assemelhar-se a desatino, dado o cenário de hegemonia capitalista. E se a iniciativa não surge de início escorada em grandes instituições parece disparate ainda maior, uma falta severa de adequação aos ditames da realidade. Ouçamos os protagonistas a esse respeito:
Fomos pro Fórum [FSM] e inscrevemos uma oficina. E já começamos a falar do pouco que tínhamos feito. E loucamente lançamos uma marca, que não tinha nem nome. [...] Pra ver como nós somos loucas. Sim, somos loucas! [...] Não tínhamos nem o algodão, criatura! „E tem que ser com algodão orgânico.‟ E não tínhamos nem o algodão... – Idalina (Fio Nobre) Elas tinham, acho, feito um retalho com as primeiras bolsas que elas fizeram. Os fios no chão, assim, colocados, pra que as pessoas que passassem, vissem aquilo ali. E elas conversando...
Os sonhos, as ideias loucas... [risos] Primeiro elas causam um impacto de admiração, de espanto. Depois quando vai „caindo a ficha‟, existe muito a coisa da rejeição, principalmente da pessoa que é mais técnica, mais prática. Então a primeira coisa que eu senti, quando eu vi elas conversando ali, quando elas contavam aquele sonho pras pessoas, e que as pessoas traziam elas pra realidade, foi pensar „como é bom você crer no teu sonho‟! Como é bom você ter um sonho e você acreditar nele. Eu acho que a Justa Trama só está acontecendo e acontece porque ela é um sonho que alimenta a elas e a gente. – Dalvani (Açaí)
Se você for olhar do ponto de vista econômico-financeiro, parece uma loucura competir com o mercado capitalista. [...] Isso é loucura. [...] [Mas] o capitalismo, ele deixa o ser humano estático, no mesmo lugar, independente de como andam os outros fatores - mercado, economia - o ser humano sempre fica paralisado. Então o proprietário, o dono, aquele que detém o poderio, ele sente o efeito pra maior ou menor dependendo das oscilações de mercados. Mas aquele que produz realmente, que faz acontecer, ele fica totalmente estático, na melhor das hipóteses. E na economia solidária não. [...] ela vem restituir à pessoa aquilo a que realmente ela tem direito, ou seja, aquilo que ela produziu. – José Ribeiro (Coopertêxtil) O descolamento dos limites e das normas de uma dada realidade faz parte das definições típicas de loucura. Romper com as previsibilidades da reprodução social – sair do rol das condutas prescritas nos papéis sociais, fortemente guardados pelas instituições - é infringir uma ordem. Nesses casos, há o risco de receber a insígnia de desajustado, louco ou delinqüente. Ainda que os sujeitos o façam de modo astuto, como resistência tramada junto às fissuras do sistema, aquelas ações não estavam previstas, fugiram às peias do controle social. E por serem imponderáveis podem ser perigosas aos poderes instituídos, ou menos, à integridade física ou moral dos envolvidos. Por isso, nos casos citados acima, é possível que as trabalhadoras tenham sido chamadas de loucas como um gesto de cuidado, no léxico psicológico, como quem dá um “dado de realidade”.
Como bem coloca Ecléa Bosi (2003), os psicólogos sociais têm se dedicado muito aos estudos sobre o conformismo e a insubmissão, desde Salomon Asch e Dante Moreira Leite. Segundo ela, o conflito entre forças antagônicas e desiguais é comum em nosso cotidiano: “E um exame da História nos prova que a obediência causou males maiores que a rebeldia (como aconteceu no nazismo).” (Bosi, 2003. p. 129)
O que importa frisar aqui é que, com efeito, o ceticismo frente à possibilidade de resistir e de construir algo fora do prescrito pelas forças dominantes tem servido historicamente à reprodução capitalista. Segundo Agnes Heller (1982),
creio evidentemente que a sociedade capitalista oprimiu completamente todas as formas de espontaneidade, e que – num novo mundo socialista – é preciso construir novos espaços para essas formas. Temos de aprender novamente a jogar, não para substituir o trabalho pelo jogo, mas para completá-lo. (p. 141).
Em companhia de Ferenc Fehér, a autora também tratou da chamada coragem cívica entre as virtudes essenciais a todo cidadão. Sua caracterização nos pareceu bastante adequada
ao modo tenaz e contestador de proceder das protagonistas da Justa Trama, não apenas em seus primórdios:
A coragem cívica é a virtude de erguer a voz por uma causa, pelas vítimas de injustiça, por uma opinião que acreditamos certa mesmo contra obstáculos arrasadores. A virtude da coragem cívica induz-nos a correr riscos: o risco de perder nossa posição segura, nossa filiação em organizações políticas e sociais, o risco de ficarmos isolados, de termos a opinião pública contra nós. [...] Convencer uma pessoa de coragem cívica não é um trabalho fácil, porque ele/ela inevitavelmente levantará dúvidas sobre se foi apenas a conveniência ou o cansaço que a levou a mudar de opinião. [...] A coragem cívica é de não menos importância nas ações coletivas. Contudo, cada um e todos os participantes de uma ação coletiva correm seu risco como indivíduo. A coragem cívica é o tipo de coragem necessária em movimentos que abrem mão do uso da força, onde não são exigidas virtudes marciais, os movimentos de resistência passiva ou de desobediência civil. (Heller & Fehér, 1998, pp. 124- 125) [grifos nossos]
Não afirmamos, com isto, que as ações deste pequeno grupo de trabalhadoras é, em si, uma ameaça revolucionária. Apenas, e em companhia agora de Paul Singer, alertamos para a força surpreendente, do ponto de vista histórico, que pode haver na reunião de um coletivo solidário de pessoas politicamente orientadas e conscientes:
Finalmente, cabe um registro da loucura dos sonhos. Os seres humanos sonham enquanto dormem e alimentam sonhos enquanto acordados. O sonhar acordado é uma conseqüência inevitável da racionalidade própria da humanidade, que lhe permite pensar o futuro como desejo e ao mesmo tempo arquitetar ações que permitam tornar o sonho acordado realidade. O que as costureiras da Univens e a cientista que as estudou concluíram é que para gente humilde, rica em ânimo, mas pobre de recursos, a partilha dos sonhos é essencial para resgatá-los do reino da loucura e trazê-los ao reino das reais possibilidades. Sonhos só parecem loucos aos olhos dos que ignoram os laços de solidariedade que unem as sonhadoras. (Singer, 2009. p. 13) [grifos nossos]