• Sonuç bulunamadı

ACI YONCA ( ëìu² v2¬ ) [neb] §Yonca, su yoncası

“Sair pra trabalhar, me arrumar de manhã pra ir pro meu serviço, e chegar lá e alguém dizer: ‘Ô Terezinha, o que tu acha disso ou daquilo?’ Eu senti que a minha opinião pesava. [...] E se a gente não chega a um acordo, pelo menos se discutiu aquilo ali. Plantou aquela sementinha, e amanhã ou depois, vai e busca de novo aquilo, pra ver se germinou alguma coisa.” (Terezinha)

Episódios marcados pela presença da exigência e da desenvoltura política de que falamos, ocorreram não somente comigo. Pude observar a maneira como elas reagiram a outros visitantes, vindos dos mais variados “lugares”: fornecedores, clientes, assessores, pesquisadores, jornalistas, candidatos a vereador. Não importa a origem ou a intenção: elas exigem de todos coerência e clareza, mas principalmente, uma relação de igualdade.

O trecho abaixo embasa essa afirmação, além de apontar outra característica do grupo: a ocorrência de debates freqüentes sobre temas diversos, ali mesmo, durante o processo de trabalho:

Já chegava o final do dia quando apareceram na Incubadora dois homens engravatados. Apenas eu pareço estranhar aquela cena, já que ambos eram conhecidos do grupo. Tratava-se de um candidato a vereador (e seu assessor) que havia estado com elas em algumas ações do Orçamento Participativo, anos atrás. Este momento me impressionou muito. Primeiro porque nenhuma delas pareceu constrangida ou encabulada. Pelo contrário, a maioria o tratava com leveza e informalidade: “E aí, Fulano? Tudo bem?” Ou ainda: “Tá sumido, hein?! Por onde é que tu andou?” Sem dúvida, a mais tímida na situação era eu. Além disso, também me impressionou a maneira conhecida como Nelsa o tratou: mãos na cintura, olhar firme e bem próximo, apesar dos mais de trinta centímetros de diferença de altura entre eles. Porém, o traço mais forte e revelador era sua voz e o que ela dizia. De timbre doce e tom baixo, ela trazia, como sempre, as palavras tão bem organizadas, que o desarranjou por completo. Impossível reproduzir, mas o saldo do que pude ouvir foi algo como: ‘Olha, nós lembramos de ti e te admiramos, pela tua história etc. Mas não faz sentido tu vir aqui agora pedir pra fazermos campanha pra ti. Nós não acompanhamos você nem o teu trabalho há muito tempo. Você

sumiu e só agora aparece? Por onde você andou? [...] Ah, tá. Então acho que tu tem que procurar apoio por lá’. Após a saída dos visitantes, as cooperadas do corte permaneceram comentando o ocorrido por algum tempo. A sensação geral era de indignação, mas também houve risos e muita reflexão, em especial, acerca dos procedimentos utilizados pelos políticos em campanha. Depois Isaurina me disse que outros candidatos já haviam feito o mesmo, inclusive em pleitos anteriores (Diário de Campo, 21/06/2003. p. 75).

Outro episódio interessante ajuda a apresentar esses traços do grupo de trabalhadoras da UNIVENS. Como na situação acima, nota-se a seguir o freqüente comparecimento da política e da crítica no cotidiano de trabalho da cooperativa:

Não estou certa se foi exatamente neste momento que decidi mostrar a elas o resultado da pesquisa que havia feito sobre o grupo delas na Internet, através de um site de busca. Bem, o efeito não foi dos melhores (acredito). De início, falo com Nelsa a respeito, mostrando-lhe a quantidade de ocorrências registradas em que aparece citado o nome da cooperativa: mais de setenta (!). A princípio surpresas, as cooperadas que ouviam atentamente a nossa conversa (Terezinha, Isaurina, Edília e Claudia), pedem para que eu leia algum artigo. Eu, que havia montado uma pequena pasta com as principais matérias justamente para dar a elas, passo a ler uma notícia publicada em um jornal de Quebec, no Canadá. Vale dizer que parte das matérias era de agências ou sites estrangeiros, para espanto delas. Bem, enquanto líamos a notícia, Nelsa já lamentava em alto tom os erros de interpretação do jornalista, os dados equivocados (por exemplo, a utilização da palavra ‘funcionários’ em vez de ‘cooperados’). A reação de Nelsa pareceu ter desencadeado um processo de debate e uma irritação coletiva. (Diário de Campo, 11/11/2003. p. 14.)

Casos como esses são freqüentes no cotidiano de trabalho da UNIVENS. Enquanto cortam, costuram ou serigrafam suas peças, as cooperadas conversam sobre temas diversos e com notável senso crítico. Claro que há diferenças individuais: nem todas falam e participam desses debates informais. Mas é certo afirmar que todas estão muito atentas ao que é dito ali, como disse certa vez Isaurina. Também é possível afirmar que a maioria dos temas é de cunho político35.

35

A convivência entre trabalho e política no cotidiano da UNIVENS nos obriga a tentar diálogo com os estudos de Hannah Arendt (2000). Para essa autora, a atividade humana da ação política só é alcançada através do discurso que, por sua vez, não é regido nem pela lógica da necessidade (própria

Elas trabalham e falam. Falam das plenárias do Orçamento Participativo e de seus bastidores, da disputa eleitoral em Porto Alegre, das reuniões ou da organização dos vários fóruns de Economia Solidária de que participam (municipal, regional, estadual e nacional), dos problemas enfrentados por algum grupo conhecido, do debate vivido no fim de semana com pessoas da Vila, das reuniões na igreja local, do posto de saúde, dos filhos daquela vizinha... Em meio a tudo isso, também problematizam seus próprios processos micropolíticos: o mal-entendido do dia anterior sobre a distribuição dos trabalhos, os conflitos com o pessoal dos outros setores (corte, costura ou serigrafia), a ausência de uma companheira na reunião do grupo, o possível atraso na entrega dos produtos a um cliente, a participação do grupo na organização dos preparativos para o Fórum Social Mundial 2005, entre tantos outros assuntos.

O debate em torno das notícias retiradas da Internet é um exemplo nítido desta dinâmica do grupo, posteriormente identificada. Ao receber as tais notícias, nenhuma delas expressou qualquer interjeição de satisfação ou euforia. Pareciam mais ocupadas em compreender o que estava sendo dito, e principalmente, em identificar o embasamento e a orientação política daquelas afirmações que versavam sobre a cooperativa. A esse episódio, muitos outros se somaram, e em geral, carregavam o mesmo olhar crítico, as citadas exigência e autonomia, e principalmente, o mesmo traquejo com essa maneira de fazer e viver o trabalho e a política.

do labor, como a manutenção da vida) e tampouco pela lógica da utilidade (própria do trabalho). Por enquanto, fiquemos com esta questão: é possível ocorrer ação política em um espaço primordialmente de trabalho?