Por fim, perguntamos aos trabalhadores da Justa Trama sobre seus novos sonhos e projetos, individuais e coletivos, para o futuro da rede. Como apontamos, nos parece sugestiva a relação teleológica que eles estabelecem entre os projetos e a sua realização, sempre em tensão com as dificuldades e desafios do presente e as circunstâncias e recursos que tem à sua frente. Parecem apontar para uma condição de liberdade autoral, de fato, ainda que limitada pelas adversidades do contexto em que se encontra a rede:
Eu acho que nem elas mesmas [Nelsa e Idalina] conseguiram dimensionar o que ela [Justa Trama] ia causar na realidade. Assim, elas tinham um sonho de criar uma cadeia, que fizesse roupa natural e tudo. Só que depois daquela etapa do sonho, do encantamento e tal, agora a gente vai ter que enfrentar outra demanda, que vem da sociedade pra nós [...] Porque agora a sociedade já conhece a idéia e ela quer. Então a gente tem que dar a resposta. [...] E hoje ela se tornou grande e está fazendo a história em cada canto. [...]. Até pelo fato de como a gente começou. As pessoas não esperam nada simples, elas querem algo pra impactar. Algo que mude. É isso que elas esperam da gente. – Dalvani (Açaí)
exatamente porque os recursos precisam ser focados nas ações que podem garantir maior visibilidade e efeito demonstrativo” (Cruz, 2010. pp.378-379).
Pela situação da Justa Trama, por toda essa oportunidade, por essa mudança de paradigma, por tudo isso que nós passamos, agora a gente sabe que o nosso dever é multiplicar. Então o nosso barracão vai se tornar uma oficina onde nós vamos multiplicar o nosso saber de organização e o nosso conhecimento pra outros grupos que precisam. – Dalvani (Açaí)
Dalvani aponta com grande clareza, acima, aquilo que Hannah Arendt (2000) enunciou tempos atrás, a imprevisibilidade que caracteriza toda ação política:
Contudo, embora as várias limitações e fronteiras que encontramos em todo corpo político possam oferecer certa proteção contra a tendência, inerente à ação, de violar todos os limites, são totalmente impotentes para neutralizar-lhes a segunda característica relevante: sua inerente imprevisibilidade. (Arendt, 2000. p. 204)
Se instituíram algo novo e imprevisível, se violaram limites das normas da reprodução, os trabalhadores da Justa Trama reconhecem-se, hoje, detentores de uma grande responsabilidade de fazer jus aos apoios recebidos e às expectativas por eles engendradas: “a
gente tem que dar resposta.” Isto significa, entre outras coisas, alcançar um desempenho econômico em consonância com o desempenho político por eles já conquistado:
O sonho é, não daqui a dez anos, mas daqui a dois anos: que a Justa Trama consiga estar com a questão econômica no mesmo patamar que ela tem hoje a política. [...] A Justa Trama tem todo esse sonho. Tem o sonho político, tem o sonho dos princípios, tem o sonho do econômico. [...] Se é outra economia, ele tem que ser gerador de renda, de qualidade de vida, de superação da desigualdade [...] Na economia solidária a gente tem que fazer análise subjetiva [...] mas eu quero saber quanto deu no final e quanto que eu levei pra casa pra comida. Porque ninguém vive de sonho. E outra economia não acontece sem isso, entende? [...] Isso não é só uma coisa da Justa Trama. É uma coisa que está mal, mal enquanto visão da outra economia, e não só no Brasil. – Idalina (Fio Nobre)
Foi curioso notar, em meio aos sonhos e projetos dos trabalhadores, as dificuldades do presente. Como vimos, elas são os primeiros insumos que orientam a construção de novas ações políticas, dirigidas para o seu enfrentamento. A lide com as dificuldades cotidianas é uma forma de se desenvolver, eles nos ensinam, mesmo quando não se alcança o fim em princípio almejado. Exemplos disso são apontados a seguir, por José Ribeiro e por Nelsa. Eles consideram que ainda há muito a avançar no desenvolvimento de tecnologias ligadas aos processos produtivos da rede:
Eu acho que nós vamos caminhar para uma consciência ambiental muito grande; isso o planeta vai nos exigir. E nós vamos ter que crescer junto com isso. Eu acho que a tecnologia também vai evoluir na questão ambiental. E aquilo que hoje a gente considera como modismo, como ideologia, vai se tornar uma ação concreta pra dentro da gente. [...] Uma necessidade. E eu acho que a gente vai, daqui a algum tempo, se tornar tão comum, a economia solidária, o agroecologia, o respeito ao meio ambiente, vão se tornar tão comuns, que nós vamos passar a fazer parte de uma história, sabe? Nós vamos ser lembrados como parte de uma história. Nós vamos até conseguir atingir o objetivo, que não é ser, como eu disse no início, uma exceção. Nós vamos nos tornar uma regra e não uma
exceção. [...] Mesmo contra todas as adversidades, a gente tem que buscar a tecnologia, nos aliar à tecnologia, nós não podemos fugir dela. Não é porque nós pregamos algo ecológico que significa que seja algo atrasado, algo imaturo, algo bruto, não é isso. A gente pode muito bem casar o agroecológico com o tecnológico. [...] eu gostaria que outras pessoas começassem a ver, a enxergar a economia solidária, essa rede de empreendimentos como uma coisa totalmente possível de acontecer. Uma coisa totalmente real e passível de se tornar cada vez mais real. Não é uma coisa futurista. – José Ribeiro (Coopertêxtil)
A Justa Trama, ela vem agora, dando um corte diferente, quando ela traz um algodão rubi, um algodão verde... Então acho que a gente vai começar a trabalhar tecidos diferentes do que a gente estava trabalhando até aqui. Acho que a gente vai conseguir avançar com as tintas, o que ainda está um pouco tímido, com o fixador. Tem muito isso também, de poder ter uma sede, onde a gente pudesse desenvolver essas tecnologias, sabe? Mas dizer assim: „Ó, está aqui, tem uma sala, tem um lugar onde a gente está fazendo esses tingimentos, esses ensaios todos.‟ Eu acho que ia ser muito interessante. Então desenvolveria a tinta lá em Rondônia, mas viria pra cá, pra gente poder aplicar em peças individuais e tal. E isso eu acho que ia nos abrir um mercado muito grande. A gente tem um sonho, realmente, de um dia fazer essa parceria com a Itália, no sentido de estar mandando nem que seja um estilo de peça. Eu acho que a gente tem essa perspectiva, a curto prazo, de fazer isso. Então, poder se apresentar também num outro país, com o nosso produto, e avançar bastante aqui no Brasil. Tudo o que a gente quer é que os brasileiros, sobretudo, usem as roupas da Justa Trama. – Nelsa (Univens)
Encerramos este capítulo na companhia de Nelsa e de Dalvani. Elas apontam, no céu dos desejos acalentados pelo grupo, a permanência do que consideram seu propósito maior – representar uma prova viva do poder de organização dos trabalhadores:
E que vá surgindo outras cadeias, que a gente possa inspirar, Cris. É tudo o que a gente quer. Não adianta só acreditar, mas tem que fazer acontecer também, no concreto. Eu acho que é bem o que a gente está buscando. Ver uma cadeia do PET acontecendo é algo profundamente realizador pra gente. [...] as pessoas poderem acreditar, sabe? Depois você dizer: „Olha,
catador, você, além de estar aqui o dia inteiro separando o lixo da humanidade, você tem capacidade de tocar essa máquina, de gestar isso.‟ Esta é outra coisa que nós estamos sendo muito questionados, que eles não têm capacidade de fazer isso. Que precisa ter equipe técnica. Então, sabe, é uma série de conceitos que você tem que ir, no dia-a-dia, provando que é possível, a gente tocar. – Nelsa (Univens)
Creio que daqui há dez anos ela será realmente uma referência. Pelo sentido da sustentabilidade, da intervenção política, da mudança de comportamento, do reconhecimento de alguns valores e, principalmente, daqueles valores que estavam perdidos em cada elo, nos locais, e que estão se agregando à Justa Trama. [...] Que ela se torne realmente algo que as pessoas não quisessem só usar a roupa; que ela possa ser um modelo de uma nova economia, de uma nova maneira de fazer economia . – Dalvani (Açaí)